A Separação e O Maniqueísmo Persa

“Os princípios fundamentais da Revolução Islâmica iraniana, que completa 33 anos hoje, estão mais atuais do que nunca e impulsionam inclusive o estrondoso sucesso do filme “A Separação“, de Asghar Farhadi. Mas o sucesso internacional da obra que levou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e concorre ao Oscar na categoria é motivado por razões políticas destinadas a destacar críticas ao Irã para enfraquecer o país.”

Assim pensa o principal responsável do governo iraniano para divulgação cultural internacional, Mohammad Bagher Khoramshad, diretor-geral do todo poderoso Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica. Em entrevista à Folha de S. Paulo (13/02/12) e ao site InfoRel, Khoramshad diz que a atual rigidez contra vestuário feminino no Irã visa corrigir “exageros” passados. Em outros termos, o regime é reacionário, isto é, reage contra a evolução da história.

 

Como o senhor avalia o sucesso do filme “A Separação”?

“O filme foi rodado no Irã. Teve autorização oficial? Sim. Ganhou prêmios no Irã? Muitos, inclusive entregues pelo governo. Mostra a nossa sociedade e o seu dinamismo e, por veicular princípios da Revolução Islâmica, acabou virando um dos destaques do cinema pós-revolucionário.

Sabemos que a obra é contrária ao sistema político iraniano. Há um ditado persa que diz: “Gatos não caçam ratos por amor a Deus“. Não é por acaso que o Ocidente está tão interessado.

[O Irã desconfia de tudo que vem do Ocidente. Interessante é que o “maniqueísmo” é dualismo religioso sincretista que se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano (séculos III d.C. a IV d.C.). Sua doutrina consiste, basicamente, em afirmar a existência de conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), em localizar a matéria e a carne no reino das sombras, e em afirmar que ao homem se impunha o dever de ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas, especialmente, evitando a procriação e os alimentos de origem animal. Nele há o reconhecimento de que a matéria é intrinsecamente má. A derivação por extensão de sentido refere-se a qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis. Portanto, admitir que os bons sejam sempre bons e os maus sempre maus é uma demonstração de maniqueísmo.

Observação: Pérsia (do latim Persia, através do grego antigo Περσίς ou Persís — ver Etimologia, abaixo) é oficialmente admitido como sinônimo para Irã, embora esta última tenha se tornado mais usual no Ocidente, depois de 1935, quando o Xá Reza Pahlavi solicitou formalmente que a comunidade internacional passasse a empregar o nome nativo do país, Iran. O país sempre foi chamado “Irã” (Terra dos Arianos), pelo seu povo, embora durante séculos tenha sido referido pelos europeus como Pérsia (de Pars ou Fars, uma província no sul do Irã) principalmente devido aos escritos dos historiadores gregos. Os persas tinham exército tão poderoso que era conhecido pelos gregos como “O Exército Imortal”, nomeado assim por conter 10.000 homens, e a cada um morto, outro ocupava seu lugar. Os persas eram conhecidos também por usarem elefantes em batalha. Essa civilização era bastante brutal. Degolavam, castravam e decapitavam homens para a expansão do Segundo Maior Império da Antiguidade em 500 a.C.]

O mundo está atravessando um período de mudanças profundas desde o fim da Guerra Fria [1945-1991]. Veja o que está acontecendo no Oriente Médio e na economia da Europa e dos EUA. Os velhos polos de poder fazem de tudo para tentar manter o sistema mundial a seu favor, mas potências regionais como Brasil, Índia e Irã querem um mundo multipolar.

[Incoerentemente, os líderes da “revolução islâmica” defendem a multipolaridade extra-fronteiras, ou seja, na geopolítica internacional, mas não adotam o multiculturalismo intra-fronteiras.]

As velhas potências têm uma agenda para nos manter à margem, e o destaque ao filme e sua apropriação pelo Ocidente seguem essa lógica.

 

O Irã está preocupado com a má imagem no exterior?

Estamos numa guerra constante contra uma visão de mundo contrária à nossa.

[Guerra defensiva contra o isolamento internacional ou guerra ofensiva contra o multiculturalismo?]

Quando algo acontece no Irã, a mídia ocidental mostra as coisas de um jeito que visa influenciar os acontecimentos em nosso detrimento. Começamos a responder, lançando canais em outros idiomas, como Press TV, em inglês, e a Hispan TV, em espanhol. Mas nem isso o Ocidente permite. Os britânicos cortaram nossa licença para a Press TV. Temos planos para lançar canais em português, alemão e francês.”

PS: a Constituição brasileira não permite canais instalados no País com total controle estrangeiro, justamente, para evitar o proselitismo contrário à cultura nacional de tolerância com credos diversos, desde que nenhum se proponha destruir essa liberdade.

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