Economia da Imagem

Economia de Imagem não envolve apenas os fabricantes e os distribuidores, inclusive TV (aberta e paga), das diversas formas de vídeos: película, DVD, Blu-Ray, arquivos digitais, etc. A criação cinematográfica sintetiza diversas manifestações artísticas, entre outras artes, a literária (roteiros), a pictórica, a musical (trilhas), a teatral (atores) e a digital. Incorpora também ciência e tecnologia, via pesquisas em arquitetura, engenharia, física, etc., isso sem falar em pesquisa histórica e de vestuários. A festa do Oscar é a comemoração do estado das artes na indústria norte-americana do Cinema, com poucas concessões a estrangeiros.

Neste ano, segundo Francisco Quinteiro Pires (Valor, 23/02/12), “a nostalgia é a nova moda, a julgar pelos concorrentes ao prêmio de melhor filme do Oscar 2012”. Dos nove indicados, seis “exaltam o passado”. A Invenção de Hugo Cabret e O Artista, os favoritos na categoria, por exemplo, prestam clara homenagem aos primórdios e à magia do cinema. Mas o jornalista cria polêmica com a seguinte questão: seria essa tendência escapista do cinema atual reflexo de alienação política? Está na pergunta pressuposta uma afirmação de que discordo: “tendência escapista“.

Segundo opinião de especialista norte-americana em Cinema, “o Oscar 2012 não reflete a situação corrente dos Estados Unidos, ainda convalescentes de crise econômica iniciada em 2008”. A sugestão de “rever o passado”, a meu ver, não necessariamente é “saudosismo”. É interessante recuperar a atuação artística no cinema mudo de “O Artista”. “Meia-Noite em Paris” trata do ambiente intelectual da Paris dos anos 1920, mas constitui justamente crítica ao saudosismo de intelectuais e ao presente de babacas. “Cavalo de Guerra” é, propositalmente, antiquado, mas recupera “a moral da história”, que é relevante nas estórias do cinema norte-americano de outrora. Mesmo “Árvore da Vida”, segundo essa crítica, conteria ar nostálgico por conta do enredo que vai da pré-história ao “juízo final”. Eu não gostei. “Histórias Cruzadas” apresenta os conflitos raciais nos Estados Unidos de 50 anos atrás.

Acho bobagem sugerir que a mostra realista do passado é reacionária. Ela levará os expectadores a perceberem que o mundo evoluiu muito ao longo do tempo através da luta coletiva. Houve, comparativamente à época nascente do Cinema (final do século XIX), e em sua transição entre o Cinema Mudo e o Cinema Falado (crise de 1929), tanto progresso social, quanto político. Hoje, o avanço tecnológico digital permite rever as transformações do passado com outra revolução estética. E isto é muito bom!

Veja, como exemplo, as imagens maravilhosas do filme em 3D, A Invenção de Hugo Cabret, dirigido por Martin Scorsese, e as fantásticas cenas de cinema mudo de O Artista. Cito do primeiro a analogia do susto da plateia com o movimento do trem, na época de Georges Mélies, e com a “invasão” do trem em 3D Digital. Quanto ao segundo, entre outras, achei inesquecível a cena da atriz se abraçando através do smoking do ator.

Nos Estados Unidos, historicamente, o cinema floresceu em épocas de crise. Mas discordo da seguinte opinião da crítica de cinema do jornal “Los Angeles Times“:  “os últimos anos têm sido difíceis no país e, tal como a Academia, os espectadores veem o cinema como uma possibilidade de escape, e não de reflexão sobre a atualidade”. Pelo contrário, a história do Passado é pesquisada, justamente, para explicar a inovação do Presente!

O argumento da crítica é que isso explica o fato de filmes com temas políticos, sociais e econômicos, como “Margin Call – O Dia Antes do Fim“, que acompanha o comportamento de funcionários de banco de investimentos às vésperas de uma crise financeira, e “Tudo pelo Poder“, sobre políticos desonestos, estarem fora da categoria principal. “Existe uma rejeição aos temas pessimistas, neste ano, a Academia parece disposta a contemplar os filmes de temática mais esperançosa.”

Eu acho que os dois citados como favoritos (Hugo Cabret e O Artista) têm, de fato, maior originalidade e criatividade artística que esses dois bons “filmes-cabeça”. Obviamente, estes agradam a público mais restrito, entre o qual me incluo. O mesmo ocorre com produções que têm recebido prêmios mundo afora e elogios da crítica, como “Melancolia“, que aborda a depressão e o fim do mundo, “Shame“, sobre viciado em sexo, e “Precisamos Falar sobre o Kevin“, que mostra o massacre em escola. Eles foram completamente ignorados no Oscar deste ano, mas a premiação norte-americana nunca foi a única forma de reconhecimento de mérito artístico!

Antes, os filmes norte-americanos tinham “atraso de três a cinco anos para tratar da realidade do país”. Por obra da tecnologia digital, esse intervalo foi superado. Programas de edição permitem que um filme seja finalizado em até quatro meses e sem tantos custos. Agora, os cineastas trabalham em casa e com rapidez. Há divisão internacional do trabalho de computer design. Partes do filme são realizadas em diversos países.

O Oscar mostra, porém, que o uso da tecnologia digital pode ter outro tipo de influência. Ela também serve para arrecadar. Hoje, o espectador pode escolher entre ver imagens inéditas em 3D em sala IMAX ou assistir a filme em casa, o que é mais barato. Existe mudança no modo como se veem e distribuem as obras cinematográficas. Os estúdios estão mais atentos à sedução tecnológica que pode tirar as pessoas do conforto do lar.

Filmes via internet são apontados como o futuro da Economia da Imagem. O serviço, oferecido por Netflix e Amazon, por exemplo, é fenômeno que perturba os grandes estúdios de Hollywood. Ele representa obstáculo ao lucro outrora obtido pelos estúdios com a venda de DVDs.

Por US$ 3,99, o espectador compra na Amazon e vê pelo computador filmes como “Meia-Noite em Paris”, “Histórias Cruzadas” e “O Homem que Mudou o Jogo”, todos indicados ao Oscar de melhor filme. O preço médio de ingresso de cinema em Nova York (US$ 12,50) quase paga a mensalidade de um dos pacotes do Netflix. Por US$ 15,98, o assinante tem direito à entrega de DVDs pelo correio e a quantidade imensa de longas-metragens disponíveis para exibição via internet. O preço cai pela metade (US$ 7,99) se o pacote oferecer apenas filmes on-line.

O Netflix, tendo mais de 24 milhões de assinantes, chega a ser o responsável por cerca de 30% do fluxo de dados gerado na rede virtual dos Estados Unidos e Canadá. Cada vez mais o controle se transfere dos estúdios para a audiência. É verdade mesmo? Lembro-me da frase vanguardista de Henry Ford: “se eu escutasse apenas a opinião pública, visaria atende-la com melhores carruagens puxadas a cavalo”.

A possibilidade de exibir a sua obra pela internet fez com que os cineastas não ficassem submetidos aos altos custos de distribuição. De 5 a 7 milhões de pessoas podem hoje assistir a filme que talvez nunca chegasse às salas de cinema. Por exemplo, no Brasil, diminuiu o número de salas de cinema, mas a arrecadação aumentou, devido ao ingresso mais caro de cinema com 3D.

A disputa por mercado na Economia da Imagem, atualmente, se trava entre a tela grande e a tela do computador. Não é pura nostalgia examinar os momentos de transição na história cinematográfica. Discordo que “pertencemos a uma cultura da demanda e os filmes acabam seguindo essa tendência. Se existe limite para o poder da imaginação, ele é estabelecido pelo bolso dos espectadores”. Acho que o talento artístico de criadores com Martin Scorsese sempre será a vanguarda intelectual. A massa a acompanhará com certo atraso.

 

Opinião radical, porém, foi apresentada por Ana Paula Sousa (Folha de S. Paulo, 25/02/12) através de entrevista de Donald Rosenfeld, durante passagem por São Paulo para visitar a família de sua mulher brasileira, “os filmes foram, um dia, o que os EUA produziam de melhor. Mas os grandes estúdios destruíram a própria atividade: mais de metade do que fazem hoje é lixo. E como os estúdios são perdulários, Hollywood está quebrando.”

O produtor de “A Árvore da Vida“, que concorre ao Oscar de filme e de direção, desconhece as meias palavras quando o assunto é a indústria cinematográfica norte-americana, negócio do qual faz parte há 25 anos. Rosenfeld, com 49 anos e quase 30 filmes, foi o mais jovem produtor a integrar a Academia de Hollywood.

Provocador, encaixava-se à perfeição na figura de “outsider” da indústria cinematográfica. Seria essa sua autoimagem? “Da perspectiva dos grandes estúdios, sim. Faço filmes com 10% do orçamento e, ainda assim, ganho dinheiro. Lidar com estúdios é como lidar com banqueiros.

Na Economia das Imagens, segundo o produtor, a cultura do excesso, tipo limusines à disposição do diretor, cachês exorbitantes para os atores e marketing feroz, começa a cobrar sua conta. “Se gasta US$ 150 milhões para produzir um filme, você precisa pegar o público na marra. E o público não tem vindo.”

Seus recursos, Rosenfeld vai buscar com investidores privados. “São pessoas que fizeram fortuna na vida e que lamentam o fim do cinema. Há certo nível de filantropia no que fazem, mas sempre recebem o dinheiro de volta”.

Qual a magia faz com que US$ 10 milhões sejam suficientes para custear uma grande produção? “Basta colocar todo o dinheiro na tela e não nos bolsos da equipe“.

Para Rosenfeld, nada é mais representativo da crise de identidade hollywoodiana do que o Oscar deste ano. “As indicações revelam um desejo por algo perdido“, analisa. “‘O Artista’ é sobre um tempo em que era possível fazer filmes criativos. ‘A Árvore da Vida‘, que acredita mais nas imagens do que nos diálogos incessantes, é uma reflexão sobre o sentido do cinema.”

“Gostaria que meus filmes fossem usados nas escolas de cinema. Hollywood, um dia, também quis fazer clássicos. Hoje, faz filmes com humor grotesco, estereótipos, xenofobia…. Hollywood é como o ex-presidente George Bush Jr.

No passado, também se fazia filmes alienantes, que não são usados nas Escolas de Cinema. Criavam-se, além desses, filmes críticos à realidade como hoje também são feitos alguns. Estes ficaram na História do Cinema.

2 thoughts on “Economia da Imagem

  1. Olá, F.

    Quando leio posts como esse, sobre cinema, me pergunto porque voce não estreita suas relações com o George Kornis e com o Fábio Sá Earp? Eles estão trabalhando nesta área de Economia da Cultura e creio que teriam grande prazer em trabalhar contigo. Do meu ponto de vista, voce juntaria “a fome com a vontade de comer”, pois desde que te conheço a cultura é uma de suas preocupações e voce tem um olhar para ela dissecador, aliás como é o seu olhar para o mundo. Pense nisto!

    A imagem da moça se abraçando com o smoking do homem que deseja é extremamente erótica, sensual, sem mostar nada. Aliás, a sutilieza e o rigor técnico, para mim, foram as marcas dos grandes vencedores do Oscar. E nem sei o nome do diretor de O Artista e, provavelmente, nem saberei… Os dois enaltecem e fazem a elegia do cinema, sem antepor realismo e alienação, ou seja, tratam o cinema na sua origem: fábrica de sonhos. Depois é que a tecnologia foi apropriada para a propaganda política e para a conscientização das massas, isto em raras experiências. Se a atualidade prefere o terror??? São outros quinhentos … Mas a mim me parece, antes de tudo, querer recusar a realidade e comprar fórmulas prontas para aquilo que não deseja enfrentar, inclusive a falta de emoção …. Adoro que ambos – O Artista e Hugo Cabret – recuperem, para mim, a magia do cinema.

    Vejo filmes na TV para passar o tempo, quando estou cansada demais. Caso contrário, escuto música, passeio no teto em devaneio e leio bons livros que me levam para mundos e relações desconhecidas. Não leio críticas sobre filme algum, a não ser depois que os vejo, e mesmo assim reluto. Minha ignorância chega ao displante de eu ter ido ver O Artista, com minha irmã Isabel, minha parceira de cinema desde os 10 anos de idade, e beiro os 60, sem saber que era um filme mudo e preto e branco do início ao fim. E me supreendo!!! Me encanto!!!! Fui ver Hugo Cabret, porque o Scorsese é o meu diretor preferido, desde que o Visconti morreu e acompanho a produção dele. Claro, cheguei ao cinema e não sabia que era um filme com a tecnologia 3D. Logo eu que havia afirmado que não veria nada em 3D… Vi e gostei, apesar dos óculos terem me incomodado um pouco, pois tenho grau alto e um sobre o outro, como o filme é longo, me foi desconfortável. Como é onírico e cativante, fui novamente capturada e tenho vontade de rever para me fixar em detalhes… O Scorsese, para mim, é o melhor…

    Cinema, do meu ponto de vista, é como a psicanálise, nesta sou paciente, e não leio nada sobre. Fecho a sala e quero ser atendida pelo terapeuta, conhecer minhas emoções e limites. Só li o básico, para eu não parecer muito ignorante. Em relação ao cinema, sigo o Luiz Severiano Ribeiro, que em sua rede dizia: cinema é a melhor diversão! Minha mãe adorava, minha irmã Isabel sabe tudo, e eu vou e, simplesmente, assisto. Quero ser arrebatada pelo filme. Se me encanta, adoro!!! Se me desvenda algo que não sei, acho bom!!! Se me emociona, agradeço e faço jus ao preço do ingresso. Se é terror, luta, violência, nem vou!!! Agora, quero a sala escura, a tela grande, o desconhecido compartilhando as emoções ao redor e a ida ao banheiro e o comentário, com um bom café, na saída.

    Pense em enveredar pela Economia da cultura, pois voce irá adorar e os campos são vastíssimos e não desbravados. Engraçado é que posso pensar me mercado para artes plásticas, mas me recuso a pensar pelo mercado em relação ao cinema. Pouco choro ao assistir filmes, mas choro em concertos de música clássica, recorrentemente, e também frente a obras de artistas plásticos que venero, como o Rotko, o Tziano, o Goya, o Hopper, o Cèzanne… Vá lá entender…

    Bjs, Glorinha Moraes.

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