Debate sobre Distribuição de Renda do Trabalho no Brasil

Na época do “milagre econômico brasileiro”, quando cursei a FACE-UFMG (1971-1974), a profissão de economista estava começando a ficar conhecida pela classe média urbana que emergia. Eu escolhi o curso de Ciência Econômica com o objetivo de me tornar, posteriormente, “Analista de Sistema”, especialização em pós-graduação. Esse era meu objetivo depois de me formar no Ensino Superior, coisa que era ainda mais estranha, na época, do que curso de Economia. Detestei meu estágio em Programação de Computadores (IBM-360). Curti estudar Economia Política – nunca curti os economistas… Bem, começou a fazer sentido para mim quando li, na imprensa alternativa (jornal “Opinião”), o debate entre economistas sobre a concentração de renda no Brasil. Naquele momento de euforia oficial, a denúncia fazia sentido social. Hoje, fico satisfeito de ver nas páginas da “grande imprensa burguesa” (rs.rs.rs.) debate entre economistas sobre distribuição de renda.

Mariana Schreiber (Folha de S. Paulo,  21/02/12) mostra que, segundo recente estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, “o diploma de curso superior não tem assegurado, necessariamente, crescimento do poder de compra nos últimos anos. Na média, a renda dos trabalhadores com diploma universitário ficou praticamente estagnada de 2003 a 2011. Nesse período, o salário médio desse grupo teve ganho real (acima da inflação) de apenas 0,3%, indo a R$ 3.850,52. Na outra faixa de tempo de estudo, a remuneração média dos trabalhadores que têm até oito anos de escolaridade subiu 30,6% acima da inflação nesses últimos oito anos. Viva!

O estudo do IBGE abrange as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre. Para o economista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), meu companheiro de fundação no Rio de Janeiro do Núcleo de Economistas do PT, quando o Partido dos Trabalhadores foi fundado, João Saboia, “a estagnação da renda média entre graduados mostra que não há um apagão generalizado de profissionais qualificados”.

O economista do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Naércio Menezes recorre à lógica da oferta e da demanda para afirmar que o número maior de profissionais com nível superior limitou o ganho de renda nesse grupo. Segundo o IBGE, o número de trabalhadores com curso superior cresceu 63% nos últimos oito anos, devido à massificação do ensino, inclusive por causa do incentivo das bolsas do ProUni, criação do candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, ex-Ministro da Educação.

Mas isso varia de acordo com as áreas de formação, dizem os dois economistas. João Saboia, da UFRJ, diz que o forte aumento do salário mínimo no governo Lula elevou a remuneração dos menos escolarizados. Naércio Menezes, do Insper, afirma que foram abertas muitas vagas de pouca escolaridade no setor de serviços (garçons, cabeleireiros), aumentando a disputa por esses profissionais. Curiosamente, os desenvolvimentistas tendem a destacar preços (no caso, salário), os neoliberais, quantidade.

Saboia analisou o perfil dos cargos formais gerados para profissionais com ensino superior em 2010 e notou que a carência de mão de obra é mais concentrada em áreas de perfil técnico, como física, química, engenharia, matemática e biotecnologia. A demanda por esses profissionais vem crescendo com a expansão dos setores de construção civil, infraestrutura e petróleo.

Segundo levantamento, realizado a partir de dados do Ministério da Educação, apenas 13,6% dos alunos que concluíram a universidade entre 2001 e 2010 se graduaram em Cursos de Ciências Exatas como os listados acima. A grande maioria (67,6%) veio de áreas de ensino das chamadas Ciências Humanas, como Direito, Educação, Ciências Sociais e Artes. Saboia observa que parte desses profissionais não está conseguindo empregos em suas áreas.

Em seu estudo, Sabóia descobriu também que 16% das novas vagas ocupadas em 2010 por pessoas com curso superior eram cargos de assistentes e auxiliares administrativos. Outros 4,7% eram postos técnicos de nível médio na indústria e no comércio. Tem muita gente se formando, mas não exatamente no que o mercado está precisando, então essas pessoas não estão sendo valorizadas.

Presidente de consultoria que faz recrutamento de profissionais com salários entre R$ 6.000 e R$ 15 mil, afirma haver “um apagão de profissionais qualificados em todas as áreas”. Em algumas, segundo ele, não faltam pessoas graduadas, mas faltam profissionais com boa formação. O ensino superior brasileiro, de maneira geral, ainda não tem a qualidade que deveria ter. Falta qualidade na formação, principalmente em Instituições de Ensino Superior voltadas para o lucro, e sobra vaga no mercado.

O problema é mais grave em áreas técnicas. Os salários oferecidos a engenheiros cresceram entre 30% e 50% acima da inflação nos últimos cinco anos.

Portanto, uma hipótese a ser investigada para a desconcentração da renda do trabalho, ocorrida recentemente no Brasil, é que “a grande discrepância entre a evolução dos salários dos profissionais com ensino superior (0,3% entre 2003 e 2011) e daqueles com pouca escolaridade (30,6%) aproximou a renda desses grupos e reduziu a desigualdade do país”.

Em alguns casos, cargos que não exigem nem ensino fundamental hoje oferecem remuneração próxima às recebidas por graduados. Por exemplo, “edital de concurso da Prefeitura de Vila Rica (MT) causou revolta nas redes sociais [Primavera da Classe Média?] ao revelar que o salário de professores de Matemática, Geografia e Português eram menores que os de torneiro mecânico ou operador de escavadeira. A seleção para professor exige curso superior do candidato que, caso aprovado, receberá R$ 1.246,32 por mês, por jornada semanal de 30 horas (R$ 41,54 por hora). O torneiro mecânico, com fundamental completo, e o operador de escavadeira hidráulica, que pode ter fundamental incompleto, vão receber R$ 1.291,98 por 40 horas semanais (R$ 32,30 por hora). O diretor de recursos humanos de Vila Rica, disse que o salário oferecido a professores segue o piso nacional da categoria. Segundo ele, operar escavadeira hidráulica exige capacidade técnica que poucos profissionais possuem.”

É verdade! Por que não há mudança de opção entre o trabalho intelectual e o trabalho manual: status social? Levanto a hipótese que é porque essa divisão intelectual-manual, nesse nível de baixa qualificação no Ensino Superior brasileiro, está cada vez mais sem sentido.

Leia maisRenda do Trabalho X Renda do Capital

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