Entrevista para a Invista Magazine

Entrevista para a Invista Magazine (25/01/12)

1)    Em primeiro lugar, gostaria que o senhor falasse um pouco mais sobre os três perfis tratados no estudo “Comportamento dos Investidores: do homo economicus ao homo pragmaticus”, Texto de Discussão do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Quem, afinal, é o homo economicus, o homo sapiens e o homo pragmaticus? Como cada um deles lida com as finanças e com os investimentos?

Traçamos três perfis de investidores no mercado de capitais: o homo economicus, o homo sapiens, e o homo pragmaticus. Respectivamente, seriam os perfis do homem teórico, do homem real e do homem prático, isto é, da praxis do especulador profissional.

O homem econômico racional é o idealizado, ou seja, abstraído dos comportamentos reais dos participantes do mercado. A economia “purificada” considera a humanidade como estando ocupada, unicamente, em adquirir e consumir riqueza. Esta motivação seria o guia absoluto de suas ações.

Entretanto, não é pura ficção. Na medida em que é possível avaliar o grau de irracionalidade em determinada situação real, é possível prever o desvio real em relação a esse comportamento idealizado. Em síntese, o investidor racional não é um homem emocional, isto é, verdadeiro descendente do homo sapiens. É apenas qualquer homem real que se conforme, circunstancialmente, em algumas decisões financeiras, à lógica das Finanças Racionais.

A tipologia adotada classifica os investidores pragmáticos como aqueles que adotam ponto de vista, modo de pensar, resolução, e tudo mais que contenha apenas considerações de ordem prática. O homo pragmaticus é exclusivamente voltado para objetivos práticos. Busca ser sempre realista e objetivo. Avesso à discussão teórica, sacrifica também princípios ideológicos para a consecução de objetivos em curto prazo.


2)    Na sua pesquisa, se conclui que também existem os investidores “quase racionais”. Quem são eles?

Caso o mercado tenha, de fato, todos esses três tipos de comportamentos de investidores descritos, desde os racionais até os teoricamente irracionais, passando pelos quase-racionais, porém anômalos em relação às teorias convencionais, a questão chave para cada investidor será deduzir qual será o valor predominante de cada ativo no futuro esperado. Em tal mercado, caso tenha a maioria composta por investidores quase-racionais e pragmáticos, de maneira que os racionais fiquem marginalizados quanto ao seu poder de influência, é de se esperar que os valores se afastem dos fundamentos micros, setoriais, concorrenciais ou macroeconômicos. Os preços dos ativos financeiros não convergem para seus valores fundamentais, pois a arbitragem no mercado é distante da perfeição que supõe a Hipótese do Mercado Eficiente.

3)    A maioria dos investidores se encaixa em qual desses perfis?

Para abaixar o nível de abstração, é necessário considerar que, na realidade brasileira, investidores “qualificados”, supostamente com educação financeira suficiente, constituem a minoria ou a elite financeira. No Brasil, estima-se entre 149.000 e 319.00 milionários, quase 600.000 contas de investidores pessoas físicas com posição na BOVESPA, mais de 200.000 investidores com ofertas colocadas via Home Broker, cerca de 150.000 cotistas de clubes de investimento, 276.000 investidores cadastrados no Tesouro Direto, mais de 2,5 milhões de participantes no Sistema de Previdência Complementar. Eram 8,5 milhões clientes dos Administradores de Recursos de Terceiros. Por sua vez, existem milhares de investidores potenciais candidatos a aquisição de maior conhecimento na área financeira, principalmente em mercado de capitais. São eles os mais de 92 milhões de depositantes em poupança. Evidentemente, nesse universo, os especuladores profissionais são minoria. A grande maioria dos investidores “amadores” é composta de homens comuns, ou seja, trabalhadores.

4) No seu trabalho, o sr. discute alguns dos principais erros dos investidores. Poderia comentar sobre eles?

O hábito arraigado, no mercado financeiro brasileiro, de aplicar em renda fixa, seja pré, seja pós-fixada, com a tendência de queda da taxa de juros básica, necessitará ser alterado em favor de buscar maior retorno das aplicações em renda variável com risco. Nesse sentido, as Finanças Comportamentais, ramo da Psicologia Econômica, apresentam o que consideram “erros recorrentes dos investidores”.

Em geral, as pessoas tendem a confiar demasiadamente na própria capacidade de tomar decisões financeiras. Há a crença otimista que sempre serão capazes de escolher ações cujos ganhos de capital (e renda de dividendos) superarão os da media do mercado. O excesso de confiança aparece com a adoção da estratégia de “comprar e vender no momento certo”, pois elas acham que saberão “comprar antes que os preços subam” e “vender antes que eles caiam”. Infelizmente, neste entra-e-sai, em alguns dias, elas poderão estar fora do mercado, justamente quando houver alta acentuada. Em cerca de dez anos, se perderem apenas cinco dessas altas, provavelmente, elas ganharão menos do que ganhariam em renda fixa sem risco. Seria melhor, então, adotar a simples estratégia de “comprar e manter”, aguardando anos para chegar o momento oportuno de realizar os ganhos com ações, durante a aposentadoria.

As ideias básicas das Finanças tradicionais não são difíceis de conhecer, porém dificilmente são aplicadas pelo investidor individual: descontar o valor do dinheiro no tempo, considerando o custo de oportunidade esperado, diversificar riscos e não achar que vai sempre superar o mercado. As decisões equivocadas em investimentos financeiros podem impor perdas graves às famílias. A educação financeira, inclusive nas escolas, poderá contribuir para diminuir esses dramas familiares.

5) Uma pessoa com excesso de confiança, por exemplo, acha que sempre vai conseguir comprar e vender no momento certo? A confiança em excesso pode acabar nos “traindo”?

A grande maioria desses investidores comuns possui excesso de confiança. Acha que acertará o market timing: a hora certa de comprar antes da alta e vender logo antes da baixa. Eles tendem a ser otimistas, pois quase todos se acham dotados de capacidade de avaliação acima dos outros. Logicamente, esta impressão subjetiva é sentida por parte de cada indivíduo, mas é impossível se confirmar, de fato, para todos.

Os especuladores profissionais, já tendo vivenciado mais esses impulsos emocionais, buscam o autocontrole. Não tem ilusão de ordem, desacreditando de qualquer análise fundamentalista ou técnica explicativa do movimento caótico dos preços. Desdenham a diversificação, pois significaria perda de escala e diluição de ganhos. Assim, optam por apostar em poucos ativos (dois ou três), por vez, e colocar limites tanto para perda (“stop loss”) quanto para ganho. É maneira de se prevenir contra a “ancoragem”, a obsessão por esperar, indefinidamente, na baixa, o retorno ao valor inicial do investimento, evitando realizar o prejuízo, devido à aversão ao sentimento de “perdedor”. Mas eles também sabem que a ganância pode ser incontrolável, quando se está ganhando, passar a querer mais e mais até, subitamente, perder!

6) No seu texto, o senhor se refere à “diversificação ingênua” (pag. 14). O que é isso exatamente? O conceito de “não colocar todos os ovos na mesma cesta é muito simplista?

Aquele que segue as Finanças Tradicionais, tenta fazer a diversificação de portfólio de acordo com a teoria racionalista, buscando correlação negativa entre os movimentos de preços dos ativos, para haver compensação da queda de valor de uns com a elevação de preços dos outros. Fazer isso, precisamente, é complexo. Tem de se calcular a covariância entre todos eles ou entre cada qual e o mercado. As mentes humanas não apreciam raciocínios complexos e cálculos com resultados incertos. Elas adotam simplificações, buscam similaridade com o já vivenciado e acreditam na representatividade dada por memória seletiva.

Com essas heurísticas, como mostram as Finanças Comportamentais, decisões de investimentos, em geral, deixam de ser racionais e passam a ser emocionais e/ou intuitivas. Há preferência pela “familiaridade” das ações de empresa em que se trabalha ou se conhece a marca. A seleção da carteira de ativos por parte do investidor comum acaba sendo baseada na “regra 1/n”, ou seja, ele divide o montante total igualmente entre as poucas ações ou os poucos investimentos que ele conhece! Este segundo tipo de comportamento adota a chamada “diversificação ingênua”, tipo investir 50% do dinheiro em ações da Petrobrás, 50% em ações da Vale, ambas empresas produtoras de commodities.

Diversificação, no sentido usado pela comunidade de investimentos, significa “espalhar dinheiro”, isto é, colocá-lo em uma porção de pequenas especulações, em vez de em poucas e grandes. Diminui a escala de eventual ganho de capital. A recomendação do homo pragmaticus é, ao especular, colocar seu dinheiro em alternativas que realmente o atraiam, e em mais nenhuma, jamais comprando algo apenas pela necessidade de ter uma “carteira diversificada”. O clichê em Wall Street foi reformulado: “ponha todos os seus ovos no mesmo cesto e tome conta do cesto!”. Enfim, é muito mais fácil tomar conta de um, ou poucos cestos, do que de uma dúzia deles. Mas isso é válido apenas para os especuladores profissionais focados apenas nesse negócio.

7) Existem quatro fatores com conexão direta com a diversificação ingênua: contabilidade mental, dependência pela forma, aversão à perda e medo de arrependimento. O que significa cada um deles?

Há quatro fatores com conexão direta com a diversificação ingênua. O primeiro é a contabilidade mental: a maneira como os investidores individuais, cognitivamente, contabilizam as suas atividades financeiras. Eles possuem a tendência de manter contas mentais separadas para cada investimento, fazendo com que tenham dificuldade de olhar a carteira de investimentos como um todo. Os investidores enxergam os dividendos como renda e não como capital, logo, retirar os dividendos e gastá-los faz sentido e não é doloroso, ao contrário de vender ação com lucro, consumir parte desses recursos e comprar outra ação. Seguindo a regra de bolso “não se faz compra com venda de patrimônio”, usar renda para o consumo é mais aceito pelos investidores do que consumir capital.

A forma como os investidores separam “capital” de “renda” faz com que eles tomem decisões diferentes em relação a seus investimentos, comprovando a dependência pela forma. Os teóricos das Finanças Comportamentais afirmam que as maneiras diversas pelas quais os mesmos retornos dos investimentos são demonstrados aos investidores influenciam muito em suas novas alocações. Os investidores reagem de maneira diferente ao mesmo problema, simplesmente, quando a forma de apresentação desse problema é alterada. Segue daí o segundo fator da diversificação ingênua, que é a “conta de riqueza”, ou seja, a propensão a resgatar aplicações classificadas em contas de maior liquidez interfere, inconscientemente, na alocação adequada de recursos. Nesse caso, os investidores individuais não seguem a seguinte regra de bolso dos profissionais: “dinheiro não tem carimbo”…

O terceiro fator relacionado à diversificação ingênua refere-se à aversão à perda, referente à assimetria entre os sentimentos de ganho e perda. Perda tem muito mais impacto emocional, em qualquer pessoa, do que ganho de mesma magnitude. Esse fenômeno leva os investidores a não quererem vender nenhum ativo com prejuízo já que estariam, assim, assumindo a perda. A esperança pela recuperação do investimento, provavelmente, é a maior causa de perdas em carteiras de investimento já que pode fazer com que os prejuízos se perpetuem.

Finalmente, o quarto fator com conexão direta com a diversificação ingênua é o medo do arrependimento. Não é, exatamente, a aversão à perda, mas sim à sensação de ser o responsável direto pela perda. Ele faz com que as pessoas tomem decisões uniformes ao longo do tempo, por exemplo, aplicar em ações o mesmo percentual de sua renda, todos os meses, independentemente do estado do mercado acionário, isto é, em alta ou em baixa. A busca pela minimização do arrependimento também leva os investidores a preferir consumir os dividendos a vender ação para gastar os recursos, pois, se sua cotação subir, depois, eles se arrependerão. Cria-se a heurística da afeição em relação àquela ação ou qualquer outra propriedade.

8) O senhor conclui que os investidores profissionais, inclusive gestores, assessores, consultores e especuladores assumidos, incorrem nos mesmos “erros” que cometem os investidores comuns. Sendo assim, qual a vantagem de se “terceirizar” o controle de seus investimentos?

Todos esses fatores emocionais que envolvem as decisões financeiras levam os investidores individuais a confiar seus investimentos a gerentes de carteiras em atividade profissional, apesar das evidências apontarem que a maioria deles não consegue, sistematicamente, superar os principais índices do mercado. Os poucos gerentes ocasionalmente bem-sucedidos não mostram consistência de ano para ano, dificultando a distinção entre sorte e habilidade. Mas quando se transfere a responsabilidade de decidir para outra pessoa, o investidor se livra da carga emocional de ser o responsável direto pela decisão que levou à perda. O autoengano é menos doloroso que o medo do arrependimento.

Entretanto, um dos debates na “fronteira teórica” das Finanças Comportamentais diz respeito a se as heurísticas dos investidores individuais, “amadores” e/ou pessoais de “investimentos pequenos” são distintas das dos investidores institucionais, “profissionais” e/ou terceirizados de “investimentos grandes”. É importante inclusive para deduzir se faz sentido segregar operações financeiras de grande porte, deixando-as restritas aos “investidores qualificados”. Envolve também a discussão da importância e dos limites da “educação financeira” em que, supostamente, se formaram os investidores profissionais. Cabe a reflexão sobre o papel dos órgãos reguladores em exigir e das instituições em prover essa educação aos seus clientes. Pode-se inclusive debater se o fato de existir insider e outsider provoca boom e crash, comportamentos miméticos de “seguir o líder da manada”, etc.

Os investidores acostumam a aconselhar-se com assessores financeiros que são mais treinados e focados no cotidiano do mercado. Entretanto, eles também são humanos e, logicamente, estão também sujeitos a diversos fenômenos comportamentais. Por exemplo, esses assessores de investidores relutam em buscar informações que contradizem suas crenças formadas previamente. São céticos quanto às evidências que enfraquecem suas opiniões. Eles têm comportamento distinto do científico, pois não buscam falsear suas hipóteses, mas apenas contatos com pessoas que pensam semelhantemente. Trata-se da “validação ilusória”.


 

9) Existe um tipo “ideal” de comportamento quando se fala em investimentos?

Existe sim um tipo “idealizado” pela ortodoxia econômica, mas totalmente abstrato, pois, como dizemos antes, está baseado na premissa da racionalidade ilimitada. Na realidade, não há ciência, mas sim arte, na especulação profissional. Pesquisar bem e reagir, rapidamente, à chegada de novas informações são as habilidades apreciadas entre os especuladores. Eles têm que estar sempre de prontidão, inteiramente dedicados ao acompanhamento do noticiário e estimando como o mercado reagirá. Dispõem-se a correr certos riscos. São “curto-prazistas”.

Os trabalhadores, em geral, não têm tempo (e vontade ou mesmo talento) para se dedicarem à especulação. Para a maioria deles, a estratégia conveniente não é ativa (“comprar e vender rapidamente”), mas sim passiva (“comprar e reter em longo prazo”), aguardando, pacientemente, a capitalização dos ganhos de maneira assegurada. Não imaginam que possam se enriquecer no mercado de capitais, enquanto permanecem dedicados ao mercado de trabalho, isto é, a sua profissão. Muitos nela encontram satisfação. Nem todos são alienados em relação aos produtos de seus trabalhos e buscam se enriquecer para abandoná-lo.

Com seleções de carteiras distintas, ao longo dos diversos ciclos de vida, tipo de jovem agressivo, meia-idade moderado, idoso conservador, aposentado, de acordo com cada faixa de idade, perfil do investidor e cenário futuro, os trabalhadores devem aprender a fazer adequações “táticas” para atingir a “meta estratégica”: segurança financeira na aposentadoria. O comportamento deve ser reavaliado ao longo do tempo: fase de acumulação com expansão patrimonial, fase de preservação e fase de usufruto.

O mundo real das finanças não é tão fácil de enfrentar como sugerem os autores de livros de autoajuda financeira. Os trabalhadores não são filhos de pai rico. Aqui, são filhos do Brasil.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s