José Luís Fiori e o ‘desenvolvimentismo de esquerda’.

José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Organizou vários livros sobre “Poder Global”, na era neoliberal, com autores desenvolvimentistas, tanto seus colegas na UFRJ, quanto da UNICAMP. Escreve mensalmente no jornal Valor. Hoje (29/02/12), publicou O ‘desenvolvimentismo de esquerda’.

Trata-se de crítica provocativa dirigida, exclusivamente, aos atuais professores do IE-UNICAMP. Afirma que “hoje, parece claro que a ‘época de ouro’ da Escola de Campinas foi da década de 70 até a sua participação decisiva na formulação do Plano Cruzado, que fracassa em 1987.” À primeira leitura, não parece ser crítica construtiva: queima reputações profissionais e políticas de colegas aliados sem colocar nenhuma alternativa. Por que?

Não vamos discutir a introdução do seu artigo, onde, sem definir precisamente qual é seu critério de classificação, tenta demonstrar que, “no Brasil, a relação entre a esquerda e o desenvolvimentismo nunca foi simples nem linear”. O leitor pode deduzir que, para Fiori, “desenvolvimentista” é simplesmente qualquer intelectual, instituição ou regime que defende o desenvolvimento nacional, seja de esquerda, seja de direita. Já ser “de esquerda” parece ser marxista ou socialista. Só?

Fiori, então, chega ao seu objeto de crítica. “Apesar dessas condições políticas e intelectuais adversas, formou-se na Universidade de Campinas, no final dos anos 60, um centro de estudos econômicos que foi capaz de renovar as ideias e as interpretações clássicas – marxistas e nacionalistas – do desenvolvimento capitalista brasileiro.”

Nessa ‘época de ouro’, entre 1974 (criação de sua pós-graduação) e 1986 (saída do governo da “Nova República”), “a ‘escola campineira’ partiu da crítica da economia política da Cepal e de uma releitura da teoria marxista da revolução burguesa para postular a existência de várias trajetórias possíveis de desenvolvimento para um mesmo capitalismo nacional”. O leitor pode deduzir que, para Fiori, somente então a ‘escola campineira’ foi de “esquerda”.

Ressalva que “é verdade que logo depois do Cruzado, e durante a década de 90, a crise socialista e a avalanche neoliberal arquivaram todo e qualquer tipo de debate desenvolvimentista, independentemente do que passou em Campinas”.

“Mas”, vista de fora por Fiori, “parece claro que a própria escola recuou, nesse período. E dedicou-se cada vez mais ao estudo de políticas setoriais e específicas, e para a formação cada vez mais rigorosa de economistas heterodoxos, e de quadros de governo”.

Será que ele não devia ter colocado o benefício da dúvida em favor dos acusados? Será que a Unicamp não foi um polo de resistência à “avalanche neoliberal”? Ela não “recuou” da mídia cotidiana para avançar em profundidade de pesquisa teórica e aplicada? Principalmente, quanto à formação de quadros acadêmicos, políticos e sindicalistas, influentes em escala nacional, a história posterior não demonstrou ter sido mais importante para o desenvolvimento nacional?

Não, para Fiori “a verdade é que, com raras exceções, depois do Plano Cruzado, a ‘escola campineira’ perdeu sua capacidade de criação e inovação dos anos 70, e a maioria de suas ideias e intuições originárias acabaram se transformando em fórmulas escolásticas”.

Vista de dentro, não acho justa sua avaliação. Como exemplo pessoal (que pode empobrecer o argumento), minha defesa de uma Teoria Alternativa da Moeda contra a Teoria Quantitativa da Moeda não considero “escolástica”. A mobilização social realizada por seus professores, seja na imprensa, seja com sindicatos, em defesa dos bancos públicos, foi uma batalha nacional-desenvolvimentista vitoriosa. A formação de inúmeros quadros qualificados foi muito importante para o Governo Lula e, agora, para o da Dilma, inclusive ela própria, minha ex-aluna.

Isso foi mais relevante do que eventual ausência de uma “análise marxista sistêmica”, publicada em lentas publicações universitárias. Por exemplo, escrevi o livro “Brasil dos Bancos” há cinco anos e até hoje a EDUSP não o publicou. Sinto-me orgulhoso de ter dado “minha pequena contribuição”, dentro do Governo Lula, para a ampliação do acesso popular a bancos e crédito. Sei como foi relevante a atuação de colegas meus para a implementação da Bolsa-Família. Poderia dar muitos outros exemplos, inclusive o próprio PAC – Plano de Aceleração do Crescimento incluir programa de urbanização de favelas, a volta do financiamento habitacional, a atuação contra-ciclo do BNDES, a retomada do IPEA, e outras atividades em que quadros formados, direta ou indiretamente, na “Escola Campineira” tiveram importância chave para o desenvolvimento recente. Ser “de esquerda” não é lutar por menor desigualdade social?!

Por isso, é de se estranhar que, “neste início do século XXI, quando justamente o desenvolvimentismo e a escola campineira voltaram a ocupar um lugar de destaque no debate nacional”, segundo a própria opinião de Fiori, ele nos desanque! Por que?

Sua crítica é que “o ‘desenvolvimentismo de esquerda’ estreitou tanto o seu ‘horizonte utópico’ que acabou se transformando numa ideologia tecnocrática, sem mais nenhuma capacidade de mobilização social. Como se a esquerda tivesse aprendido a navegar, mas ao mesmo tempo tivesse perdido a sua própria bússola”.

Os professores do IE-UNICAMP nunca defenderam a ideologia tecnocrática, isto é, o sistema de organização política e social fundado na supremacia dos técnicos. A contínua atuação junto a sindicatos e militância em partidos de esquerda prova isso. Agora, o início de mobilização social de “desenvolvimentistas de esquerda” para debate e formulação de ideias – com a Utopia necessária para a crítica da realidade – em rede nacional, pública e aberta, incomoda o prezado aliado, professor José Luís Fiori?! Por que? Afinal, o que ele propõe em seu lugar?

2 thoughts on “José Luís Fiori e o ‘desenvolvimentismo de esquerda’.

  1. Caro Fernando, gostei dessa sua reflexão sobre o artigo do Fiori….Forte abraço José Marcio Rego

    • Prezado José Márcio,
      grato. Realmente, não entendi a razão política para a crítica destrutiva do prof. Fiori. O que ele, ex-aliado, pretende colocar no lugar da Rede Desenvolvimentista? Receia “retomada da hegemonia” por parte da Unicamp?! Cientista político de seu gabarito não teria esta visão tosca.
      Leu e não gostou do documento? Isso seria apenas uma discordância intelectual, mas ele manifesta como sendo discordância política em relação a nossa “incapacidade de mobilização social” (sic)!
      Talvez o impulso do Fiori em escrever tal artigo tenha nascido de sua presença em reunião no RJ, quando alguns ex-colegas, por sua conta, trocaram ideias a respeito da fundação de equivalente “desenvolvimentista” à Casa das Garças. Daí ele interpretou como a RedeD (rede virtual de debates) fosse projeto de poder tecnocrático! Pior, atacou-nos, sendo que não participamos dessa articulação, errando feio o alvo.
      Valeu a provocação dele para discutirmos o que representa, acadêmica e politicamente, a RedeD.
      Abraço

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