IEDI: Por Que a Indústria É Relevante Para o Desenvolvimento Brasileiro?

A CARTA IEDI (Instituto de Estudos sobre Desenvolvimento Industrial) de 22 de Junho de 2012 (n. 525) enfrenta o Debate sobre Desindustrialização. A queda do peso da indústria de transformação no PIB brasileiro que se observa de forma mais ou menos constante desde os anos 1980, e mais acentuadamente a partir da estabilidade econômica na primeira metade dos anos 1990, tem trazido à tona um antigo debate: qual o papel da indústria de transformação para o desenvolvimento da economia brasileira?

O debate contrapõe duas visões. De um lado, economistas para quem a perda de importância da indústria de transformação seria fruto de uma combinação perversa entre abertura econômica, valorização dos termos de troca e câmbio apreciado. De outro, economistas para quem as transformações na estrutura produtiva não teriam um efeito negativo sobre a indústria e sua perda de importância no PIB seria algo já observado em outras economias.

Pelo menos quatro argumentos amparam a tese de que a indústria manufatureira é, dentre todos os setores produtivos, o que exerce maior impacto no crescimento do produto agregado.

  1. Em primeiro lugar, deve ser considerado que é na indústria onde os efeitos de encadeamento para frente e para trás nas cadeias produtivas são mais fortes. Este argumento tanto vale porque a indústria de transformação se situa no topo da cadeia produtiva de uma economia, ou seja, ela demanda insumos e oferta produtos de e para todos os demais setores, como também porque os elos de ligação entre os setores produtivos dentro da indústria são mais densos. Neste caso, movimentos de expansão ou contração no setor manufatureiro afetam mais um conjunto maior de setores do que impulsos observados fora dele.
  2. Em segundo lugar, devido ao elevado grau de complexidade e complementariedade dos processos produtivos dentro da indústria de transformação, as economias de escala estáticas e dinâmicas estão mais presentes.
  3. Um terceiro argumento é o de que o processo de crescimento econômico depende do ritmo de incorporação do progresso técnico, e é na indústria de transformação onde a mudança tecnológica ocorre majoritariamente, e o progresso tecnológico é difundido para demais setores.
  4. Por fim, como a elasticidade renda das importações de manufaturas é maior do que a elasticidade renda das importações de commodities e produtos primários, a industrialização se torna necessária para aliviar a restrição de balanço de pagamentos ao crescimento de longo prazo.

Economias bem sucedidas no processo de industrialização são aquelas que atingem um estágio de desenvolvimento industrial em que são capazes de desenvolver e absorver novas tecnologias e difundir as mudanças tecnológicas para todo resto da economia. Em contraponto, estruturas industriais onde as rendas obtidas com as exportações são prioritariamente oriundas de setores intensivos em recursos naturais e mão de obra podem se mostrar insuficientes para sustentar o crescimento de longo prazo, pois os estímulos gerados pelo crescimento baseado em fatores abundantes são limitados para promover mudança estrutural, além de torná-lo mais vulnerável às mudanças na economia internacional e ao comportamento da demanda externa.

O desenvolvimento da indústria deve ser entendido como um de processo de causação circular cumulativa, onde dadas as características da produção industrial, estímulos de demanda promovem expansão do produto e da produtividade industrial, que, quando suficientemente fortes, promovem mudança estrutural fortalecendo elos das cadeias produtivas, e disseminando o progresso técnico por toda a estrutura produtiva. Por isso, a indústria é um “motor do crescimento”. Estruturas industriais maduras, mesmo com reduzido peso relativo no PIB, apresentam como característica sua maior capacidade de estimular o crescimento dos demais setores da economia do que estruturas industriais imaturas.

No caso da industrialização brasileira, o processo de substituição de importações, apoiado por políticas desenvolvimentistas, teria se completado nos anos 1980, quando o peso da indústria de transformação no PIB ultrapassava a 30%. Em 1985 observa-se que a estrutura produtiva resultante do processo de industrialização se apresentava bastante diversificada, porém com ainda baixa participação de setores de tecnologia diferenciada e baseada em ciência. Essa característica se mantém ao longo das décadas seguintes. Os setores de média-alta e alta intensidade tecnológica, onde se encontra a indústria de tecnologia diferenciada e baseada em ciência, por exigirem um maior aporte de capital e tecnologia, não se desenvolveram no sentido de ampliar sua contribuição ao valor adicionado da indústria.

Do ponto de vista das etapas de desenvolvimento da indústria a crise da dívida externa no início dos anos 1980 interrompeu o processo de industrialização,  sem que tivesse transcorrido o tempo necessário, bem como o volume de investimento suficiente para o desenvolvimento de um núcleo produtor de tecnologia nacional e a consolidação de um setor forte intensivo em tecnologia. Assim, o processo de industrialização foi interrompido sem que a estrutura industrial tenha atingido o estágio de maturidade.

A estrutura industrial brasileira se caracteriza hoje por ainda ser relativamente diversificada, porém imatura no sentido de estar se especializando em setores intensivos em recursos naturais e com pouco avanço em direção ao fortalecimento de cadeias produtivas com produtos de maior conteúdo tecnológico. Isto sugere que, se esta tendência não for revertida,  a contribuição da indústria para o crescimento da economia deve, inevitavelmente, se reduzir no futuro próximo, reduzindo o potencial de crescimento da economia como um todo.

TEXTO COMPLETO:

 Indústria de Transformação como “Motor do Crescimento”. 

A queda do peso da indústria de transformação no PIB brasileiro que se observa de forma mais ou menos constante desde os anos 1980, e mais acentuadamente a partir da estabilidade econômica na primeira metade dos anos 1990, tem trazido à tona um antigo debate: qual o papel da indústria de transformação para o desenvolvimento da economia brasileira.

O debate atual contrapõe duas visões antagônicas sobre o processo de desenvolvimento brasileiro recente. De um lado, estariam os economistas hoje denominados de novo-desenvolvimentistas, para quem a perda de importância da indústria de transformação seria fruto de uma combinação perversa entre abertura econômica, valorização dos termos de troca e câmbio apreciado. De outro, estariam economistas ortodoxos, para quem as transformações na estrutura produtiva não teriam um efeito negativo sobre a indústria e sua perda de importância no PIB seria algo já observado em outras economias. Acreditam ainda que a tendência à apreciação do câmbio real, na realidade, mais favorece do que prejudica a indústria, pois permite a importação de máquinas e equipamentos tecnologicamente mais avançados.

De fato, nas últimas décadas, comparado com outros países, o Brasil se tornou um produtor especialmente eficiente de mercadorias agroindustriais e minerais, e está prestes a se tornar grande exportador de petróleo. Neste contexto, é razoável que a demanda por importação esteja concentrada em produtos industriais, implicando um aumento da participação de bens importados na oferta de produtos industriais no país, o que deve contribuir para aumentar a eficiência da produção industrial brasileira. Assim, o aumento do peso do setor de serviços nos anos recentes, em detrimento dos setores industriais e agropecuário, seria decorrência natural da alocação dos fatores de produção e da introdução do progresso tecnológico em setores onde o país apresenta claras vantagens comparativas, não tendo porque ser interpretado como um processo de desindustrialização com consequências negativas para a dinâmica do crescimento.

Para se entender qual a importância da indústria de transformação em uma estratégia de retomada do desenvolvimento para a economia brasileira hoje, considerando o contexto de maior integração econômica das economias em escala mundial, apresenta-se inicialmente duas ordens de argumento: um de cunho mais teórico, onde se resgata na literatura sobre o desenvolvimento econômico porque a indústria de transformação é identificada como “o motor do crescimento”, e outro, de cunho empírico, onde se discute como o processo de perda de importância da indústria de manufatura no PIB deve ser qualificado à luz da composição setorial da indústria nacional. Complementa este estudo uma análise sobre a estrutura industrial brasileira.

Pelo menos quatro argumentos podem ser elencados para explicar porque a indústria manufatureira é, dentre todos os setores produtivos, o que exerce maior impacto no crescimento do produto agregado. Em primeiro lugar deve-se considerar que é na indústria onde os efeitos de encadeamento para frente e para trás nas cadeias produtivas são mais fortes. Este argumento tanto vale porque a indústria de transformação se situa no topo da cadeia produtiva de uma economia, ou seja, ela demanda insumos e oferta produtos de e para todos os demais setores, como também porque os elos de ligação entre os setores produtivos dentro da indústria são mais densos. Neste caso, movimentos de expansão ou contração no setor manufatureiro afetam mais um conjunto maior de setores do que impulsos observados fora dele.

Em segundo lugar, devido ao elevado grau de complexidade e complementariedade dos processos produtivos dentro da indústria de transformação, as economias de escala estáticas e dinâmicas estão mais presentes. As economias de escalas estáticas são as oriundas da planta industrial, e permite a queda nos custos unitários de produção na media em que a escala aumenta. As economias de escala dinâmicas são oriundas da expansão industrial que induz mudanças técnicas através de processos como o learning by doing. Desta forma, há farta evidência empírica de que existe uma elevada correlação entre aumento do produto industrial e aumento da produtividade industrial. Esta correlação é conhecida na literatura como a lei de Verdoorn. Kaldor, nos anos 1960, definiu a direção de causalidade entre produto e produtividade, mostrando que a produtividade na indústria manufatureira é uma função crescente da produção industrial.

Um terceiro argumento é o de que o processo de crescimento econômico depende do ritmo de incorporação do progresso técnico, e é na indústria de transformação onde a mudança tecnológica ocorre majoritariamente, e o progresso tecnológico é difundido para demais setores. Neste sentido, o setor produtor de máquinas e equipamentos ocupa uma posição especial dentro da cadeia produtiva industrial, pois na medida em que o progresso técnico é incorporado nas máquinas de nova geração, a dinâmica deste setor influencia de forma decisiva os processos de produção nos demais setores da economia. Com o avanço da tecnologia de informação deve-se considerar a estreita relação entre o desenvolvimento de máquinas e equipamentos e os serviços de informática associados, e portanto, uma visão mais atual sobre a atividade da indústria manufatureira deve incluir também os serviços de informação a ela associados.

Por fim, como a elasticidade renda das importações de manufaturas é maior do que a elasticidade renda das importações de commodities e produtos primários, a industrialização se torna necessária para aliviar a restrição de balanço de pagamentos ao crescimento de longo prazo. Economias bem sucedidas no processo de industrialização são aquelas que atingem um estágio de desenvolvimento industrial em que são capazes de desenvolver e absorver novas tecnologias e difundir as mudanças tecnológicas para todo resto da economia. Em contraponto, estruturas industriais onde as rendas obtidas com as exportações são prioritariamente oriundas de setores intensivos em recursos naturais e mão de obra podem se mostrar insuficientes para sustentar o crescimento de longo prazo, pois os estímulos gerados pelo crescimento baseado em fatores abundantes é limitado para promover mudança estrutural, além de torná-lo mais vulnerável às mudanças na economia internacional e ao comportamento da demanda externa.

Assim, a dinâmica do desenvolvimento da indústria manufatureira ocorre através da interação entre aspectos de oferta e de demanda, em particular a demanda externa, ao longo do tempo. Ao se considerar o desempenho diferenciado da indústria na estrutura produtiva, entende-se como as forças de oferta e demanda, ao interagirem, amplificam impactos que são transmitidos por toda a economia, ora criando um círculo virtuoso de mais crescimento ou um círculo vicioso de crescimento fraco ou com declínio do produto.

A dinâmica de interação entre forças pelo lado da oferta e pelo lado da demanda é facilmente explicada através do processo de causação circular cumulativa. Neste processo estímulos advindos da demanda agregada devem provocar mudanças na estrutura produtiva, e, na medida em que façam avançar a produtividade na indústria, através do processo de industrialização, permite acelerar a difusão do progresso técnico, aumentando a produtividade agregada da economia e consequentemente a competitividade das exportações do país. Portanto, fundamentalmente, o processo de causalidade cumulativa decorre da existência na indústria de retornos crescentes de escala estáticos, que explicam mudanças nos termos de troca através da queda nos custos unitários, e dinâmicos, resultantes do progresso técnico induzido pela expansão da produção, que permite melhoria na qualidade dos produtos. Estas duas forças capturam os efeitos preço e não preço sobre a competitividade, fortalecendo a ligação entre mudança na estrutura industrial e dinâmica das exportações. Assim, a presença de economias de escala, permite elevar o nível de produtividade industrial, o que por sua vez permite a obtenção de maiores lucros para as firmas e dessa forma uma maior capacidade de investimento. De forma circular e cumulativa, a expansão da indústria de transformação estimula o aumento da produtividade e contribui para acelerar a taxa de mudança tecnológica de toda economia, aumentando sua competitividade no mercado externo. O aumento da exportação realimenta o circuito, fazendo expandir o setor industrial, aumentando a produtividade e assim por diante.

Um corolário deste raciocínio é que o nível de demanda agregada dos países seria resultado de diferenças nas estruturas produtivas. Dentre os componentes da demanda agregada, as exportações têm uma importância de destaque, pois são os gastos autônomos que geram divisas e refletem a competitividade da produção do país. A condição de equilíbrio do balanço de pagamentos mostra a importância que as exportações têm em aliviar a restrição externa ao crescimento. Uma conclusão desta análise é que um país que deseje aumentar sua taxa de crescimento de longo prazo deve promover uma mudança em sua estrutura produtiva no sentido de incentivar setores produtores de bens de elevada elasticidade renda de exportação. O foco seria então as indústrias com retornos de escala crescentes, notadamente as que produzem bens com maior conteúdo tecnológico e valor unitário, ou seja, as indústrias com tecnologia diferenciada e baseada em cieência.

Desindustrialização e Seu Significado para o Crescimento Econômico. 

A despeito dos argumentos teóricos a favor da industrialização, a observação empírica aponta para a tendência de perda de importância da indústria manufatureira no PIB nos países desenvolvidos a partir do pós-Guerra. Tal tendência também é observada em economias latino americanas e africanas a partir da década de 1980.

A economia que se desindustrializa é aquela onde o setor industrial perde importância como fonte geradora de empregos e/ou de valor adicionado. Vários fatores contribuem para esta perda. Por um lado, pode-se dizer que  o desenvolvimento econômico leva “naturalmente” todas as economias a se desindustrializarem. Isto se explica porque a elasticidade renda da demanda de serviços tende a crescer com a renda per capita, tornando-se maior do que a elasticidade renda da demanda por manufaturados. Em consequencia, o peso do setor de serviços no PIB tende a aumentar. Por outro, a produtividade do trabalho cresce mais rápido na indústria do que no setor de serviços, e portanto a participação do emprego industrial deve declinar antes da queda da participação da indústria no valor adicionado. Na realidade, pode-se considerar que a desindustrialização pode estar associada a uma estratégia das empresas em transferir para o exterior atividades manufatureiras mais intensivas em trabalho e/ou com menor valor adicionado. Neste caso, deve-se observar um aumento da participação de produtos com maior conteúdo tecnológico e maior valor adicionado na pauta de exportação.

Mais recentemente tem sido identificado um tipo de desindustrialização causada pela apreciação da taxa de cambio real, que se segue após a descoberta de grande volume de recursos naturais escassos. É a desindustrialização causada pela denominada “doença holandesa”.  Em geral identifica-se que países que vivem a “doença holandesa” enfrentam um processo dedesindustrialização precoce, ou seja, o processo de perda relativa de peso da indústria no PIB se inicia a um nível de renda per capita inferior ao observado nos países desenvolvidos quando os mesmos iniciaram o seu processo de desindustrialização. O diagnóstico da desindustrialização precoce leva a que se defina uma situação onde países podem se desindustrializar antes de sua estrutura industrial ter atingido o “ponto de maturidade”, ou seja, antes de poderem esgotar todas as possibilidades de desenvolvimento econômico que são permitidas pelo processo de industrialização, entendido pela lógica da causação circular cumulativa.

Em suma, entendendo o processo de industrialização como um processo cumulativo, pode-se descrever suas etapas como iniciando com a produção de bens de consumo para abastecimento do mercado doméstico, sendo esta etapa seguida pela produção de bens de capital, que em um primeiro momento deve abastecer a demanda doméstica. A construção dos elos das cadeias produtivas ao longo dessas etapas iniciais, na medida em que seja bem sucedida, deve evoluir para uma etapa final do processo de industrialização que se caracterizaria pela produção industrial de máquinas e equipamentos também para atender a demanda externa. Neste estágio, entende-se que a economia já teria desenvolvido um núcleo endógeno de geração de progresso técnico, tecnologicamente fortalecido e articulado com o todo o sistema produtivo, estando apto, portanto, a dinamizar e alcançar excelência produtiva em toda a estrutura de produção. Uma vez que a economia alcance esta etapa, considera-se que o processo de industrialização atingiu sua fase de maturidade, ou seja, a estrutura produtiva demonstraria um elevado grau de homogeneidade em termos da produtividade.

Industrialização e Desindustrialização da Economia Brasileira. 

O processo de aceleração da industrialização brasileira se deu no pós-Guerra até meados dos anos 1980, com o peso do valor adicionado da indústria no PIB passando de 20% em 1947 até atingir a 36% em 1985, passando a decair a partir de então, chegando a pouco mais de 15% em 2011. A tendência a queda da indústria manufatureira no total do valor adicionado da economia tem sido mais evidente a partir de 2004.

Dada as características da indústria brasileira, sua dinâmica de crescimento determina em grande medida o crescimento da economia, ou seja, os anos que a indústria de transformação cresceu mais acelerado, também foram os de maior crescimento do PIB e vice-versa. Do pós-Guerra até 1980 a taxa de crescimento do produto industrial tendeu a se situar acima do PIB na maioria dos anos. A partir da crise da dívida externa, no início dos anos 1980, quando o processo de industrialização via substituição de importações foi interrompido, até 2010, em apenas 10 anos, de um total de 30, o valor adicionado da indústria ficou acima do crescimento do PIB.

Assim, considerando a elevada correlação entre o crescimento da indústria manufatureira e o PIB, os ciclos de desenvolvimento industrial coincidem com os ciclos de desenvolvimento da economia brasileira. Estes, por sua vez, são fortemente influenciados pelas fases de liquidez internacional. Apesar de apresentar um padrão de desenvolvimento altamente dependente de poupança externa, a economia brasileira se caracteriza por ter sua dinâmica “voltada para dentro”, ou seja, é uma  economia relativamente fechada. Mesmo considerando o processo de abertura econômica a partir dos anos 1990, as contas nacionais registram que as exportações como percentagem do PIB a preços correntes passaram de 6,6% em 1996 parar 10,9% em 2010, e as importações de 8,4% a 11,7%, respectivamente.

Para se avaliar sua importância da indústria manufatureira para o desenvolvimento atual da economia brasileira importa investigar em que estágio de desenvolvimento se encontra sua estrutura produtiva. O processo de substituição de importações apoiado por políticas desenvolvimentistas teria se completado nos anos 1980, quando o peso da indústria de transformação no PIB ultrapassava a 30%. A tabela a seguir mostra a evolução da participação dos setores de atividade classificados segundo o tipo de tecnologia para 1985 e 2009. Ela revela que a estrutura produtiva resultante do processo de industrialização se apresentava em 1985 bastante diversificada, porém com ainda baixa participação de setores de tecnologia diferenciada e baseada em ciência.

Ao longo da década de 1970 foram implementados dois programas de desenvolvimento (I Plano Nacional de Desenvolvimento – PND, de 1968-73 e o II PND de 1974-79), que permitiram consolidar o processo de diversificação da estrutura industrial brasileira, porém sem a instalação de um núcleo de desenvolvimento de inovação tecnológica. Essa característica, de uma indústria diversificada, mas especializada em setores de média e de baixa tecnologia, se mantém ao longo das décadas seguintes, quando as mudanças mais significativas na estrutura produtiva ocorreram nas atividades intensivas em recursos naturais, em trabalho e em escala. Observa-se assim que os setores de média-alta e alta intensidade tecnológica, onde se encontra a indústria de tecnologia diferenciada e baseada em ciência, por exigirem um maior aporte de capital e tecnologia, não se desenvolveram no sentido de ampliar sua contribuição ao valor adicionado da indústria.

Tendo em vista as vantagens comparativas do país, seria de se esperar que o processo de consolidação do parque industrial brasileiro começasse pelos setores produtores de commodities industriais. De fato, o grupamento de setores com atividades intensivas na exploração de recursos naturais já contribuía com mais de 30% do total do valor adicionado da indústria em 1985, sendo que deste total as indústrias de Alimentos, Bebidas e Fumo respondiam por 12,8%, tornando-se em 2009 o setor de maior peso (18,5%). O grupamento de indústrias especializadas na exploração de recursos naturais apresentou um ganho de participação de 10,2 pontos percentuais de 1985 a 2009. Esse ganho se deveu basicamente ao aumento da participação das atividades de exploração e refino de petróleo, que contribuíam com 5,2% do valor adicionado total em 1985 e passaram a contribuir com 14,1% em 2009.

As indústrias intensivas em trabalho perderam 3 pontos percentuais de 1985 a 2009. A perda de participação mais intensa no interior deste grupamento foi na indústria Têxtil. A atividade de fabricação de Produtos de Metal consolidou sua participação no valor adicionado da indústria aumentando seu peso de 3,5% em 1985 para 4,0% em 2009.

As indústrias intensivas em escala também têm perdido participação ao longo do tempo. Porém, sua contribuição em torno de 30% do valor adicionado da indústria permite afirmar que as primeiras etapas do processo de industrialização estão claramente consolidados. As indústrias deste grupamento proporcionam a base para a produção de bens intermediários tanto para os setores de bens de consumo como de bens de capital (Metalúrgica Básica, Borracha e Plástico, Produtos Químicos), além de englobar os setores de bens de consumo como o de produção de veículos. As maiores mudanças ocorreram na Metalúrgica Básica, que perdeu participação em 5,3 pontos percentuais de 1985 a 2009, no setor de Material de Transporte, que aumentou sua participação em 5,6 pontos percentuais e no setor de Produtos Químicos, que  chegou a contribuir com 13,4% do valor adicionado total da indústria em 1985, sendo o grupamento de maior peso na indústria naquele ano, para a seguir ir perdendo peso até 2009 (-6,4 pontos percentuais).

Os grupamentos de indústrias diferenciada e baseada em ciência, onde estão classificados os setores de bens de capital, apresentaram pequena queda de participação (-1,7 pontos percentuais) de 1985 a 2009. Porém, a presença com pouco menos de 15% do valor adicionado da indústria, em média no período analisado, indica que o processo de industrialização brasileiro já teria iniciado a etapa de fornecimento de parte das máquinas e equipamentos para abastecer o mercado doméstico e exportar o excecente.

Do ponto de vista das etapas de desenvolvimento da indústria, o aprofundamento do processo de industrialização em direção a setores mais intensivos em tecnologia teria sido prejudicado ainda nos anos 1980, dentre outros fatores, pelo aumento do grau de vulnerabilidade externa acirrada pela crise mexicana em 1982 e pela elevação do grau de incerteza na economia decorrente da aceleração inflacionária. De fato, a crise da dívida externa no início dos anos 1980 interrompeu o processo de industrialização, sem que tivesse transcorrido o tempo necessário, bem como o volume de investimento suficiente para o desenvolvimento de um núcleo endógeno produtor de tecnologia nacional e a consolidação de um setor forte intensivo em tecnologia. Pode-se dizer assim que o processo de industrialização foi interrompido sem que a estrutura industrial tenha atingido o estágio de maturidade. Mesmo assim, observa-se comparando 1985 e 2009 que os ganhos e perdas na estrutura produtiva foram localizados. O aumento do peso relativo dos setores intensivos em recursos naturais está ligado ao aumento de importância da indústria petroleira; a perda de importância relativa do segmento intensivo em trabalho está ligado à queda de participação da indústria Têxtil. A perda relativa de importância do segmento intensivo em escala está associado à perda de importância da indústria de Metalurgia Básica e produtos Químicos. Os grupamentos das indústrias diferenciada e a baseada em ciência pouco alteraram suas participações.

Mesmo mostrando uma relativa rigidez na composição dos setores industrias, observa-se que é a partir da abertura econômica, nos anos 1990, que as maiores mudanças ocorrem. Isto pode ser ilustrado comparando a composição dos grandes segmentos de setores em 1970, 1985 e 2009.

Tendo identificado que a estrutura industrial brasileira como relativamente diversificada, porém imatura no sentido de estar se especializando em setores intensivos em recursos naturais e com pouco avanço em direção ao fortalecimento de cadeias produtivas com produtos de maior conteúdo tecnológico, pode-se concluir que, se esta tendência não for revertida através de políticas específicas, a contribuição da indústria para o crescimento da economia deve, inevitavelmente, se reduzir no futuro próximo. Esta tendência já é identificada, comparando-se a trajetória de crescimento da indústria de transformação e do PIB, desde 1970. Observa-se que a partir de 1980, quando o processo de industrialização é interrompido, o setor manufatureiro perde a dianteira em termos de liderança no crescimento da economia.

Em conclusão, a consequencia da perda de importância da indústria de transformação no PIB se revela comprometedora para o crescimento de longo prazo, pois pelo princípio da cuasalidade cumulativa, uma estrutura industrial imatura não permite que o país avance no processo de catching up com as economias desenvolvidas. Mais ainda, a tendência à especialização em bens de baixo valor adicionado não sustenta o crescimento de longo prazo, ou seja, não reduz a restrição externa ao crescimento.

Isto porque as inovações de produto e de processos não estariam sendo criadas no país, ou seja, o ‘núcleo de progresso técnico’ seria voltado para aumentar as vantagens comparativas na produção e comercialização de produtos básicos, e a elasticidade-renda da demanda por importação continuaria maior que a elasticidade-renda da exportação. Assim, o dinamismo da economia de crescer “voltada para dentro”, no contexto de uma estrutura industrial imatura, implica uma trajetória de crescimento de longo prazo relativamente baixa e sujeita às restrições de liquidez internacional. O debate sobre a importância da indústria para o desenvolvimento brasileiro deve, portanto, ser retomado a partir do reconhecimento que uma estrutura industrial imatura não permite explorar plenamente as vantagens em termos de aumento de produtividade e de competitividade da economia que são possibilitados pelo processo de industrialização.

2 thoughts on “IEDI: Por Que a Indústria É Relevante Para o Desenvolvimento Brasileiro?

  1. Pingback: O poder da indústria: encadeamentos para frente e para trás | Paulo Gala

  2. O Brasil aparti dos anos 80 com a divida externa, começou uma longa jornada de dívidas e um freio no crescimento, principalmente na indústria.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s