Tesouro Direto: Dicas

 

Karla Spotorno (Valor, 21/06/12) dá informações importantes para quem deseja aplicar no Tesouro Direto. A redução do limite mínimo para investir em títulos públicos tornou o Tesouro Direto mais convidativo para o pequeno investidor. Com apenas R$ 30, ele pode realizar a sua primeira compra programando o investimento pelo site da corretora onde tem conta ou pelo site do próprio Tesouro. Apesar de acessível, a aplicação nos títulos demanda uma série de cuidados. O primeiro é em relação aos custos da operação. O maior deles para quem só pode aplicar os valores mínimos é a tarifa da transferência do dinheiro da conta corrente para a conta na corretora. Em média, os bancos cobram entre R$ 7 e R$ 8,60 para o correntista fazer um DOC pelo internet banking. Se decidir solicitar a transferência no caixa do banco, a tarifa chega a R$ 15. Pagar uma tarifa tão alta para investir um valor tão baixo torna a operação inviável.

Quem opta por abrir uma conta em uma corretora independente deveria, portanto, verificar quantos DOCs pode fazer sem custo ou buscar alternativas. Uma opção é procurar corretoras que permitam o depósito em suas contas de formas alternativas. Os clientes da corretora Spinelli, por exemplo, podem depositar por meio de boleto bancário sem custo. Quem aplica R$ 100 ou mais pela XP Investimentos pode pedir o débito em sua conta corrente sem ônus algum. Quem paga esse custo ao banco é a própria XP. “Por enquanto, assinamos esse acordo com o Itaú. Mas queremos fechar o mesmo contrato com todos os grandes bancos”, afirma Eduardo Glitz, diretor de Operações da XP Investimentos.

Outra opção que o correntista tem é aplicar pela corretora do próprio banco. Normalmente, não há cobrança na transferência dos recursos da conta corrente para a conta da corretora. Entretanto, nesse caso, é preciso observar um outro custo. É a taxa de administração que, segundo o site do Tesouro Direto, varia de zero a 0,5%. Todos os agentes ligados a grandes bancos cobram algum percentual.

No Banco do Brasil, campeão no Tesouro Direto em número de compras, a taxa é de 0,5%. Na simulação feita por Marcelo d’Agosto (veja na tabela), fica evidente que o pequeno poupador deve preferir o ônus dessa taxa no lugar de pagar a tarifa do DOC para transferir o dinheiro. Correntista da Caixa, aplicando seus recursos em três títulos públicos por meio do próprio banco não deve se importar em pagar essa taxa, porque se sente mais seguro ao trabalhar com o banco que já conhece e pode ir, pessoalmente, à sua agência para se cadastrar no Tesouro Direto.

Obviamente, o ideal é conseguir reduzir ao máximo as taxas e tarifas para maximizar a rentabilidade dos títulos, como mostra a comparação entre LFT (título pós-fixado que segue a Selic) e poupança. Há custos, entretanto, que não podem ser evitados, independentemente da corretora ou do banco. São a taxa de negociação (0,10% sobre operação ou 0,05% a partir da terceira compra programada) e também a taxa de custódia (0,30% ao ano sobre o saldo em títulos do investidor). Quanto às duas outras (taxa de administração e tarifa para a transferência do dinheiro), é possível negociar. O investidor precisa entender que existe o “custo da sola de sapato”. Ele precisa pesquisar e procurar as melhores oportunidades.

O pequeno poupador também precisa entender que ele terá um outro custo para driblar: o da preguiça. Complicou, o cérebro foge de cálculos complexos. Investir em títulos públicos é bem complicado, para o leigo, até pelos nomes dos papéis. O próprio secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, admite a complexidade da operação. No prefácio do livro “O Mapa do Tesouro Direto“, de Mara Luquet (Editora Saraiva), ele diz: é um “mercado assustador à primeira vista”.

No caso do Tesouro Direto, quem decide qual ativo vai comprar é o próprio investidor. Ele precisa avaliar algumas variáveis, como preço, prazo, rentabilidade dos títulos, e questões pouco triviais na vida de um pequeno poupador como perspectivas para a inflação e para a taxa básica de juros. Via de regra, as corretoras e bancos não recomendam qual papel comprar. De fato, o investidor precisa ter essa autonomia, inclusive para fazer as operações pela internet. Porque as compras e as vendas são feitas pelo site. Os clientes do Banco do Brasil que operam no Tesouro Direto são, na maioria, de alta renda. Pertencem à categoria BB Estilo ou ao private do banco.

O investidor iniciante necessita conversar com algumas pessoas, ir ao banco, ler o noticiário econômico, fazer simulações, aprender com o curso virtual do Tesouro Direto e mandar e-mail para o Tesouro Nacional. Só depois de tudo isso, conseguirá decidir o que comprar. Nem todo pequeno investidor tem tamanha vontade. O que se vê é que, ao descobrir que precisa abrir uma conta na corretora do banco, o investidor já fica reticente.

Apesar de todo esforço do Tesouro Nacional em popularizar a compra de títulos públicos nos últimos 10 anos, a aplicação está longe de ser popular. Do investidor, é exigida uma certa sofisticação para entender a aplicação e bastante “sola de sapato” para comprar os títulos, visto que não há um esforço comercial maciço para a venda. As aplicações no Tesouro Direto são extremamente interessantes para o investidor, mas não para os bancos. Questões como essa ajudam a explicar o tamanho acanhado do Tesouro Direto no ano de seu 10º aniversário. Até maio, havia apenas R$ 8,4 bilhões em títulos na mão de pessoas físicas. O valor é irrisório diante do patrimônio total dos fundos de varejo (R$ 324 bilhões) e do saldo em caderneta de poupança (R$ 433 bilhões). Se driblarem os custos, os pequenos poupadores têm a chance de mudar esse quadro.

Luciana Seabra (Valor, 21/06/12) informa que a demanda crescente por títulos públicos indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fez com que as NTNs-B representassem 70,8% das vendas totais de títulos pelo Tesouro Direto em maio de 2012. A participação é a maior desde a criação do programa (janeiro de 2002), que permite a compra de títulos públicos por pessoas físicas pela internet.

As vendas do Tesouro Direto somaram R$ 303,5 milhões em maio, 26,2% mais do que no mês anterior. A NTN-B principal, que paga uma taxa prefixada mais a variação da inflação, respondeu por quase metade desse valor. Esse também foi o título mais rentável em maio. O papel com vencimento em 2035 rendeu 4,99% no mês.

O crescimento da demanda pelos títulos indexados à inflação está relacionado à trajetória de queda da taxa Selic. Existe uma preocupação de que a taxa da inflação talvez vá subir mais à frente em função do afrouxamento da política monetária. Com esses títulos, o investidor evita que o aumento do nível de preços “coma” a rentabilidade de suas aplicações.

Em contrapartida, a LTN e a NTN-F (papéis prefixados) ficaram em segundo plano, com 25,5% do total aplicado em maio. Qualquer mudança de cenário traz um risco grande para quem compra papel prefixado. Se a taxa Selic voltar a subir, por exemplo, os investidores que optaram pelo pré estariam presos a retornos mais baixos.

A preferência por títulos com prazos mais longos, com vencimentos superiores a cinco anos, também foi ampliada em maio de 2012, representando 65% das aplicações – o que, para o Tesouro Nacional, reafirma o programa como opção de poupança de médio e longo prazo. Os rendimentos mais polpudos para prazos mais longos podem ter atraído investidores que planejam a aposentadoria.

Em maio, 4,5 mil novos participantes se cadastraram no Tesouro Direto, o que elevou o número total de cadastrados a 300,8 mil. Nos últimos doze meses, o incremento foi de 24,3%. As aplicações de até R$ 5 mil concentraram 61,3% do volume aplicado, sendo que 26,2% dos investimentos foram de até R$ 1 mil. Para todas as compras, o valor médio por operação foi de R$ 14.372.

O estoque total de títulos públicos em poder dos investidores do Tesouro Direto é de R$ 8,4 bilhões. Em maio de 2012, os títulos remunerados por índices de preços chegaram a 59,6% desse total, também o maior valor da série histórica. Os títulos prefixados são 30,9% do estoque.

Marcelo d’Agosto (Valor, 21/06/12) informa que a decisão do governo de substituir papéis da dívida pública vinculados à taxa Selic (LFTs) por títulos prefixados ou corrigidos pela inflação vem afetando, ainda que de forma indireta, os aplicadores no Tesouro Direto. Desde o fim de março de 2012, os investidores estão tendo que administrar o efeito da elevação do ágio sobre o valor nominal das LFTs, que continua aumentado. No início deste ano, o aplicador que quisesse atrelar suas economias à taxa básica de juros podia comprar a LFT com vencimento em 7 de março de 2017 por preço quase idêntico ao valor de face.

Na prática, significava que era possível contar com uma alternativa que proporcionava rendimento muito próximo a 100% da taxa básica de juros. Agora, não existe mais essa possibilidade. Em meados de junho, esse mesmo papel era negociado com taxa de -0,09%. Trocando em miúdos, equivale a um ágio de 0,4%, que tem o efeito prático de reduzir a expectativa de rentabilidade do investidor para 99% da Selic.

Mais importante do que a pequena redução da rentabilidade esperada, equivalente a 0,1% ao ano, é a sinalização dada pelos grandes investidores, que são os responsáveis pela formação do preço de mercado dos títulos. Aparentemente, muitos profissionais preferem, no atual momento, ganhar menos para garantir o conforto de poder vincular as aplicações à taxa Selic do que arriscar nas demais alternativas disponíveis no mercado.

No passado, o deságio nas LFTs quase sempre era sinal de que a gestão da dívida pública enfrentava dificuldades. Agora, acontece o oposto. Uma possível razão para o aparecimento desse ágio é que a velocidade de substituição de LFTs pelos demais papéis chegou a um limite, pelo menos por ora.

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