Divisor de Renda

Arícia Martins e Tainara Machado (Valor, 16/07/12) apresenta o debate sobre a retomada do crescimento econômico brasileiro. Vamos comentá-lo. Alguns economistas alegam que “as medidas usadas pelo governo para reativar a economia e tirar o Brasil da trajetória de desaceleração que se instalou no mundo todo são as mesmas que ajudaram o Brasil na crise de 2008/2009”. Instrumentos de política econômica são sempre “os mesmos” (políticas monetária, fiscal, cambial e de controle de capital),  o que muda é a intensidade que são utilizados. Atualmente, a baixa da taxa de juros básica atingiu nível histórico. Há economistas que se pautam pelo “contrarismo”, isto é, “se hay gobierno, soy contra!” Acabam sendo “Maria vai com as outras”…

Baseado no afrouxamento monetário, corte de impostos para bens duráveis, destravamento do crédito, e gastos públicos, esses economistas alegam que “o remédio não está funcionando como antes”. Para analistas mais cuidadosos, a pequena eficácia imediata das medidas já adotadas pelo governo é resultado da natureza distinta entre as duas etapas da mesma crise, além de ser também explicada pelo momento distinto vivido pelas economias doméstica e mundial. Agora, está se socializando o prejuízo decorrente da anterior privatização do benefício de salvamento dos banqueiros.

Em 2008, a quebra do Lehman Brothers, nos Estados Unidos, instaurou o pânico nos mercados financeiros e travou os canais de crédito, mas a resposta das autoridades globais, especialmente do Fed, foi rápida e favoreceu uma recuperação já no ano seguinte. Dessa vez, o foco principal é uma crise de dívida soberana na zona do euro, que representa cerca de 25% da economia global. Ela preocupa investidores e diminui a capacidade global de crescimento, inclusive nos emergentes, que antes pareciam imunes às preocupações dos países desenvolvidos.

No Brasil, dizem analistas parciais, os incentivos à demanda esbarram em consumidores mais endividados e com propensão menor a assumir novos compromissos. Em abril de 2012, último dado divulgado pelo Banco Central, o comprometimento com dívidas atingiu 22% da renda das famílias, quatro pontos percentuais acima dos 18% registrados no mesmo mês de 2008. Esse pequeno aumento do endividamento não é suficiente como explicação. Talvez a satisfação de necessidades imediatas, possibilitando o corte de consumo supérfluo face ao temor de desemprego futuro, seja melhor explicação.

Nesse caso, estímulos ao consumo não são suficientes na conjuntura atual para dinamizar a oferta, inclusive porque o excedente de produção mundial ainda coloca os importados em patamar competitivo, mesmo com o câmbio mais depreciado dos últimos meses. Estudo do Banco Central do Brasil, divulgado no Relatório de Inflação, aponta o papel dominante das importações no atendimento do consumo doméstico de bens industriais. Nos quatro primeiros meses deste ano, os importados chegaram a ganhar mercado da indústria nacional. No ano de 2011, os importados ficaram com 100% da expansão anual do consumo. De janeiro a abril de 2012, em relação a igual período de 2011, enquanto o consumo interno desses bens caiu 2,4%, a presença de importados cresceu 0,4%, segundo o Banco Central. O Brasil está com um problema sério de competitividade.

Com consumo menos pujante e produção em queda, a saída para crescer mais seria via investimentos. Alguns críticos alegam que eles se encontram paralisados diante da incerteza elevada proveniente do ambiente externo. Entretanto, as obras para a Copa do Mundo de 2012 estão tendo continuidade, assim como o Programa Minha Casa, Minha Vida. Outros investimentos públicos estão em ritmo menor, mas não por causa de “expectativa incerta”.

Economistas pós-keynesianos sempre apelam para esse argumento: “futuro incerto”. Alegam que, após a crise de 2008, a confiança dos empresários não foi tão severamente afetada, porque a autoridade monetária norte-americana salvou o mercado bancário, depois de perceber que havia instituições financeiras grandes demais para quebrar.

Essa postura é o contrário da adotada  pelo Banco Central Europeu (BCE), que reluta há dois anos em atuar como emprestador de última instância. Isso mudou um pouco com a mudança de sua gestão, mas mesmo assim a postura inflexível da Alemanha ainda pesa sobre as decisões da instituição. Sem expectativa de solução para a situação europeia, a incerteza em relação à economia global continua adiando decisões de investimento e segura o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Entretanto, gastos públicos não se paralisam por causa de “expectativa incerta”, mas dependem sim de decisões de política econômica.

Agora é comum se argumentar que a União Monetária Europeia começou errada. Na hora da crise, espera-se um ajuste definitivo, mas poderá ocorrer algum paliativo. O pior da crise ainda não passou. Partidários do “tudo ou nada” apontam que só há duas soluções possíveis para a Europa: “amargar um longo período depressivo ou desfazer o euro e recomeçar do zero”. Por essa solução radical, ficam todos em compasso de espera, para verificar o resultado final, que não tem data para ocorrer. Quando acontecer, os catastrofistas advertem que “teremos um resultado muito pior para a economia brasileira”, acrescentando que o “momento final” não deve tardar. São os Nostradamus…

Outros afirmam que “a crise atual é muito menos intensa do que a de 2008, embora seja, de fato, mais longa”. Não é desdobramento da mesma crise?! Eles citam o Vix, índice de volatilidade bastante acompanhado pelo mercado financeiro, para afirmar que “a crise mundial hoje é muito menos severa do que a anterior. Naquele momento, o indicador chegou a 89 pontos. Hoje, está em 17 pontos”. Em sua visão, “as políticas anticíclicas também foram mais efetivas naquela época nos países emergentes, especialmente na China”.

Há três anos, os preços das commodities se recuperaram rapidamente e os termos de troca (relação entre preços de exportação e importação) continuaram favoráveis ao Brasil. No episódio atual da crise, a queda da demanda chinesa, devido à desaceleração mundial, contaminou o mercado de commodities. No país asiático, há também o problema de excessiva alavancagem financeira, principalmente no setor imobiliário. Por isso as autoridades estão mais cautelosas na concessão de estímulos, embora tenham afrouxado a política monetária recentemente. No segundo trimestre, a China cresceu 7,6% em relação ao mesmo período de 2011, menor taxa em três anos.

Não são apenas as economias centrais e a China que impõem uma retomada mais lenta da economia brasileira neste ano. A Argentina, principal mercado para produtos manufaturados brasileiros, vinha crescendo numa média de 8% entre 2003 e 2011, avanço que deve desacelerar para algo em torno de 3% este ano. Enfim, o multiplicador de renda ocorre “para cima”, o divisor de renda ocorre “para baixo”…

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