Concentração está no DNA dos bancos, diz economista (Entrevista à Folha de S.Paulo, 25/08/12)

Para autor, ter escala e acesso popular é estratégico para as instituições

ELEONORA DE LUCENA (FOLHA DE SÃO PAULO, 25/08/12)

Os bancos precisam olhar além dos milionários da “elite branca” e massificar sua clientela para ter sucesso no Brasil. Essa é uma das teses centrais de Fernando Nogueira da Costa, 60, em “Brasil dos Bancos”, que conta a história do sistema nacional.

Ex-mestre de Dilma Rousseff, professor de economia da Unicamp e ex-dirigente da Caixa e da Febraban (federação dos bancos), ele diz que a concentração está no DNA dos bancos e não significa competição menor. Confira.

Folha – A crise estimula a concentração bancária?
Fernando Nogueira da Costa – É parte do DNA dos bancos a concentração. É uma ingenuidade histórica essa discussão nos EUA de que é preciso fragmentar os bancos para que eles não sejam grandes demais para quebrar. Os clientes querem bancos grandes demais que não possam quebrar.
O que é diferente de dizer que banqueiro não pode quebrar. Bancos precisam ser fiscalizados, regulados. A concentração não significa diminuição de competição.

Não?
Não. Fragmentar os bancos acaba sendo um custo social superior. Não há como um banco não ser muito capitalizado para ser solvente e seguro. Banco pequeno é de negocio, de gestão de fortuna.

Foi descoberto o escândalo da Libor, há o caso do dinheiro sujo no HSBC, o JPMorgan teve perdas. Há uma lógica nesse conjunto de notícias?
A lógica da liberalização anterior, quando a fiscalização se afrouxou, deixando a autorregulação para o mercado. Se não há limite, há maximização dos ganhos, bônus, levando a fraudes e manipulações.

No livro o sr. afirma que os bancos que se voltam apenas à “elite branca” se tornam insignificantes. O sr. escreve “embranquece, enriquece, desaparece”. Por quê?
Lembrei o governador Claudio Lembo. Há uma concentração absurda de renda, que melhorou, mas a história não foi ultrapassada. Houve uma mobilidade maior e o número de milionários cresceu.
O conceito de milionário foi mudando; agora é o “trimilionário”. Cerca de 50 mil clientes têm pelo menos R$ 1 milhão aplicados. Isso é a concentração de riqueza.

Mas por que um banco, para ter sucesso, tem que necessariamente se voltar para o conjunto da população no Brasil?
O título que escolhi, “Brasil dos Bancos”, tem uma ironia. Mas o sentido que eu dou é que a historia bancária não pode ser segregada da de seu povo. Não pode ser voltada para essa elite diminuta, que foi o erro estratégico dos bancos estrangeiros.
Quando o banco dá acesso popular, fica com uma escala de clientes imensa. Os clientes ficam dentro do sistema e o banco passa a ser um criador de moeda interno. Dar escala e dar acesso popular é estratégico.

Como o sr. analisa a tensão entre governo e bancos?
É um avanço histórico fomentar a competição via Banco do Brasil e Caixa. Não é fragmentando o sistema bancário e abrindo as fronteiras que se aumenta a competição. Essa foi a tentativa dos anos 1990 e deu em nada. Nos anos 1980 deu em crise bancária e a desnacionalização.
Os bancos vieram e poucos ficaram. Banco precisa de fiscalização. No Brasil, 45% do crédito está nos bancos públicos -os privados têm 38%, e os estrangeiros, 17%.

No livro o sr. critica a demonização dos bancos. Por que ela existe?
Eu me considero de esquerda, mas nunca demonizei banqueiro. As razões para a demonização não são justas. Há razões históricas -a crítica da igreja católica aos juros.
Há um desconhecimento da população, que acha que o banqueiro é um explorador porque paga menos juros do que cobra. Qualquer negócio tem que dar lucro. É preciso cobrar uma regulação, não fazer critica [pessoal] ao banqueiro.

Mas a rentabilidade dos bancos aqui não é maior do que no exterior?
O “spread” brasileiro é extraordinariamente maior que o resto do mundo. Uma das razões é a memória inflacionária, uma tradição de uma economia instável. A automação bancária é um fator de rentabilidade muito grande.

A desnacionalização dos 1990 foi ruim para o país?
Sim. Não trouxe nenhuma inovação, os juros não caíram. Mas a entrada do Santander fomentou a reação dos grandes nacionais. A aquisição do Real pelo Santander levou o Itaú a negociar com o Unibanco. A competição fomentou a concentração.

BRASIL DOS BANCOS
AUTOR Fernando N. da Costa
EDITORA Edusp
QUANTO R$ 74 (532 págs.)

8 thoughts on “Concentração está no DNA dos bancos, diz economista (Entrevista à Folha de S.Paulo, 25/08/12)

  1. FNC: Meus parabéns pela biografia e pela obra.
    Permita-me, porém, modestamente fazer um reparo, correndo o risco de estar querendo ensinar o Pai Nosso para o vigário.
    O comércio bancário tem na mera intermediação o serviço mais rentável. Ao captar depósitos de poupança a 1/2 % ao mês, emprestar este fundo a 1% significa um spread que se aproxima de 100%! Basta um gerenciamento de caixa eficiente.
    Da mesma forma, captar CDBs (não sei se ainda existem) a 0,7% e emprestar a 1,5% resulta em spread semelhante, ceteris paribus para a demais condições.
    Falar dos repasses governamentais é localizar serviços cuja receita sofre dedução apenas de custos administrativos e operacionais diretos. O spread deve ser fantástico pois os bancos privados concorrem ferozmente na conquista destes clientes.
    A conta parece complicar justamente quando entra em cena a fiscalização. Só para exemplificar, quando sobreveio o 2º golpe dentro do golpe de 1964, o fatídico 13 de dezembro de 1968 trouxe à luz o primeiro decreto de natureza econômica assinado pelos 3 patetas transferindo o ônus do IOF para o cliente do sistema financeiro, já que antes era dos bancos e das seguradoras. E até hoje assim o é. Pode ?

    • Prezado Nicola,
      no livro, apresento detalhadamente o modelo da formação da taxa de juros de empréstimo usado por bancos, ou seja, do spread. Não se pode esquecer que boa parte dele refere-se à imputação do risco de perda com os inadimplentes aos adimplentes, que pagam todos os compromissos. Banco não pode perder dinheiro de terceiros ao empresta-lo.
      att.

      • Se depender deste que vos responde, os pobres banqueiros estão desculpados, de coração !

      • Prezado Nicola,
        a gente dá entrevista de uma hora e meia, explicando nossas posições, detalhadamente, porém o editor a reduz a uma lauda…
        Penso que não se pode simplificar questão complexa, transformando algumas responsabilidades individuais em “culpa social”. Lembro que Marx fala a respeito da “figura do capital”, ou seja, um lugar social, uma categoria sociológica. Não podem daí os marxistas e/ou a esquerda “demonizar” todos os banqueiros. Luta de classes não é luta pessoal.
        Detalhe: com o afastamento das “famílias da banca” e a profissionalização da gestão, a maioria dos executivos dos bancos é composta de profissionais de carreira, bancários que subiram até o último degrau da hierarquia.
        A origem do preconceito está na origem histórica dos “banqueiros”: judeus segregados em guetos onde os reis e a nobreza católicos, pois o Estado não era laico, recorria a empréstimos para gastos suntuários. A igreja medieval condenava a cobrança de juros e os classificava como usurários. Protegia os seus sustentáculos. Infelizmente, essa mentalidade religiosa medieval discriminatória ainda permanece…
        Para a análise macroeconômica, acho que o relevante é analisar o sistema bancário. Diagnosticar todos os problemas financeiros como responsabilidade pessoal de uma categoria de gente apenas alivia o esforço mental dos acusadores. Na realidade, todos nós, bancos e clientes, compomos o sistema bancário.
        att.

  2. Antes de mais nada, vou ler o livro, depois, às perguntas.Parabéns mais uma vez. A regulação bancária é importante e deve ser sempre mencionada quando se critica banco como o vilão das crises monetárias, por exemplo. A supervisão bancária, no meu humilde entendimento ainda não é tão eficiente.

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