A Imaginação Econômica de Irving Fisher: Teoria da Dívida Real

Em 1906, Irving Fisher declarou o homo economicus, o homem econômico neoclássico, um defunto e o laissez-faire, uma ideologia morta. A experiência, disse ele, provou que estavam errados os princípios básicos da teoria liberal, segundo os quais os indivíduos eram os melhores juízes do autointeresse e que a busca desse autointeresse produziria os máximo bem para a sociedade. A regulamentação do governo e os movimentos voluntários de reformas não eram prejudiciais, mas necessários.

Declarou que, se tivesse de escolher entre o extremo liberalismo e o socialismo, optaria por esse último, enumerando muitas instâncias em que aquilo que é bom para o indivíduo não é bom para a sociedade. Portanto, o laissez-faire não é uma política correta.

Ele estava convicto que a interdependência econômica, acentuada pela urbanização, especialização econômica e globalização, implicava maior necessidade de dados, educação, coordenação e intervenção por parte do governo. A preocupação com o futuro exigia prevenção e conservação.

Os economistas falam de racionalidade, exterioridades e falhas de mercado. Fisher falava de ignorância e falta de autocontrole. Argumentava que, mesmo quando os indivíduos se comportavam de maneira totalmente racional, o efeito combinado de suas ações poderia reduzir o bem-estar coletivo.

Um tipo especial de ignorância dizia respeito a tratar o presente com se ele constituísse a norma. Sua percepção mais original foi a de que a mente nos prega peças. Denominava isso a ilusão monetária. Para Fisher, a inflação e a deflação – ambas mudanças no nível de preços – eram um mal, pois induziam as pessoas a tomar decisões equivocadas. No nível da macroeconomia, a ilusão monetária significava que levaria muito tempo para que comerciantes, industriais e consumidores se ajustassem às mudanças de preços e taxas de juros.

Ele chegou a duas conclusões a partir do reconhecimento de que o homo sapiens não era o homo economicus, máquina calculadora hiper-racional. Em primeiro lugar, havia grande necessidade de estabelecer a educação compulsória. Em segundo lugar, havia uma necessidade ainda maior de regular o comportamento individual, fosse através de prevenção de incêndios em moradias ou da proibição de jogos, álcool e outras drogas. Fisher foi muito mais longe do que Marshall ao assinalar os limites do modelo competitivo.

Mesmo que todo mundo fosse perfeitamente racional, a busca do autointeresse não implicaria necessariamente acréscimo a resultados socialmente desejáveis. Rejeitava privatizar a oferta de dinheiro ou que a função de polícia do governo devesse ser deixada a particulares.

Preços estáveis são necessários para um sistema monetário justo e transparente. A inflação e a deflação eram nocivas porque os investidores, os consumidores e os homens de negócio não tinham condições de prevê-las perfeitamente ou até de aferir com precisão sua magnitude no presente e no passado recente. Decisões tomadas com base em expectativas incorretas resultavam necessariamente em decisões de investimento falhas e, sob o ponte de vista da economia com um todo, excesso de investimento em algumas áreas e pouco investimento em outras.

Em 1922, os temas preferidos de Keynes eram o dinheiro e as transações bancárias. No entanto, Fisher, virtualmente o único teórico norte-americano da Economia a ser levado a sério em Cambridge, convenceu Keynes de que o dinheiro exercia um efeito muito mais poderoso sobre a economia “real” do que o concedido pelas teorias aceitas. Keynes replicou a opinião de Fisher de que a chave das altas e das depressões era “a criação e a destruição do crédito”.

Keynes tentou demonstrar, em A Tract On Monetary Reform [Um Tratado sobre a Reforma Monetária], que a inflação e a deflação dificultavam investidores e empresários calcularem os efeitos das decisões e levavam-nos a tomarem decisões distorcidas com o objetivo de poupar e investir. “Precisamos liberta-nos da profunda desconfiança que existe em relação a permitir que a regulação do padrão do valor seja tema de uma decisão deliberada. Não podemos mais deixar as coisas entregues à natureza”.

O mal da inflação era que ela distribuía arbitrariamente a riqueza existente, jogando um grupo de cidadãos contra outro e, finalmente, minando a democracia. O mal da deflação era que ela retardava a criação de novas riquezas, ao destruir empregos e rendimentos.

A mais famosa frase de Keynes – “a longo prazo todos estaremos mortos” – consta do Tratado no seguinte contexto: “Esse longo prazo é um guia enganoso para os atuais negócios. A longo prazo todos estaremos mortos. Os economista se impõem uma tarefa por demais fácil, por demais inútil se, em tempos tempestuosos, a única coisa que têm a nos dizer é que, quando a intempérie passar, o oceano voltará a se acalmar”.

Ele combatia a crença de que a inflação e a deflação se curariam sem um controle ativo. As nações tinham de fazer escolhas deliberadas entre dois objetivos desejáveis, porém incompatíveis. Ele tomou essa ideia emprestada a Fisher, a quem denominou “o pioneiro da estabilidade dos preços em oposição à estabilidade do câmbio”.

Em mundo em que o capital circulava livremente através das fronteiras, os países tinham de escolher:

  • por um lado, entre preços estáveis para suas importações e exportações e,
  • por outro, entre preços estáveis para seus bens e serviços produzidos domesticamente.

Não poderiam ter ambos. Precisariam escolher. Keynes não deixou pairar dúvidas sobre a escolha que favorecia. A estabilidade dos preços internos era de uma importância fundamental para elevar taxas de desemprego e transferências de riqueza socialmente destrutivas.

Fisher elaborou uma análise abstrata do comportamento das taxas de juros quando o nível de preços está mudando. Ele enfatizava a distinção entre as taxas reais e as taxas nominais de juros como fundamental para a análise moderna da inflação.

A Equação de Fisher ficou conhecida como Jn = Jr + pˆ , isto é, o juro nominal deve ser fixado pelo Banco Central considerando o juro real e a taxa de inflação esperada. Invertendo a equação se deduz que, quando a inflação é suficientemente baixa, a taxa real de juros pode ser aproximada como a taxa nominal de juros menos a taxa de inflação esperada. Isto é verdade por definição

Apesar de Fisher acreditar que os investidores em geral eram afligidos em vários graus pela “ilusão monetária“, eles não conseguiam ver o poder aquisitivo dinheiro variar ao longo do tempo em termos dos bens que ele poderia comprar no futuro.

Fisher achava que o valor econômico subjetivo não é apenas uma função de quantidades de bens e serviços possuídos ou trocados, mas também do momento no tempo no qual eles são comprados. Um bem disponível agora possui um valor diferente do que o mesmo bem disponível em uma data futura.

O valor possui uma dimensão do tempo, além da dimensão da quantidade. O preço relativo dos bens disponíveis em uma data futura, em termos de bens sacrificados hoje, é medido pela taxa de juros. Aqueles constituem o custo de oportunidade, este constitui o ganho de capital pelo adiamento do consumo.

Fisher desenvolveu uma Teoria da Grande Depressão, chamada de dívida-deflação, que atribuía as crises ao estouro de uma bolha especulativa, ou seja, preços inflados de ativos — formas de manutenção de riqueza.

De acordo com a Teoria da Dívida-Deflação, uma sequência de efeitos do estouro da bolha ocorre:

  1. Euforia com a alavancagem financeira: uso de recursos de terceiros para elevar a rentabilidade patrimonial até que o boom vira crash.
  2. Venda por desespero ou pânico, para liquidação da dívida.
  3. Contração da oferta monetária, quando os empréstimos bancários são amortizados.
  4. Uma queda no nível dos preços dos ativos pelo excesso de oferta e escassez de demanda monetizada.
  5. Uma queda ainda maior no patrimônio líquido das empresas, “passivo próprio a descoberto” ou insuficiente para cobrir o passivo de terceiros, precipitando falências.
  6. Uma queda nos lucros pela deflação: adiamento de compras para o futuro quando estará mais barato.
  7. Uma redução no produto, no comércio e no emprego.
  8. Pessimismo com a elevação da capacidade produtiva ociosa e perda de confiança em novos planos de investimentos.
  9. Acumulação de dinheiro em reservas ociosas: “armadilha da liquidez” ou predomínio de preferência por liquidez absoluta.
  10. Uma queda nas taxas de juros nominais e um aumento da taxa de juros real ajustada pela deflação.

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