A Imaginação Econômica de Joseph A. Schumpeter: Empreendedorismo, Inovação e Crédito

Logo que acabei a leitura do livro A Imaginação Econômica: gênios que criaram a Economia Moderna e mudaram a História (São Paulo, Companhia das Letras, 2012, pp. 577), deu-me vontade de, depois de meses na cabeceira, iniciar a da extensa biografia O Profeta da Inovação: Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa. Antes de resenha-la, vamos resumir o que Sylvia Nasar escreveu a respeito desse grande autor.

À semelhança da maioria dos intelectuais de sua geração, Schumpeter era fascinado pelas implicações, para a sociedade, da Teoria da Seleção Natural, formulada por Darwin. Justamente quando a mudança constante era a marca distintiva dos tempos modernos, a teoria econômica ignorava o processo que estava tornando a economia mais produtiva, especializada e complexa.

Os economistas concordavam com o pressuposto de que a economia se clonava ano após ano, tornando-se marginalmente maior ao longo do tempo, mas permanecendo essencialmente imutável em relação a todas as outras particularidades. Os teóricos queriam analisar como uma pequena mudança em uma variável econômica afetava todas as demais, mas a teoria estática existente se adequava mal (ou de modo algum) se a mudança em questão fosse grande ou se a linha do tempo fosse longa demais para se poder ignorar com segurança as mudanças estruturais na tecnologia, na força de trabalho ou nas instituições.

Ao contrário das colocações da Escola Histórica alemã, a história econômica não poderia pretender melhor desempenho. A ciência abstrata, ao contrário da história, era geral. A história preocupava-se com aquilo que aconteceu de fato, a ciência com aquilo que poderia ou não acontecer sob circunstâncias específicas. Era isso que tornava a ciência um instrumento de comando e de perícia. Se a Economia viesse a ser uma ciência, ela também teria de ser geral.

Precisava-se de uma Teoria do Desenvolvimento Econômico e o jovem recém-formado na Universidade de Viena pretendia elaborá-la. A ambição de Schumpeter era substituir a teoria estática da Economia pela teoria dinâmica, assim como Darwin pusera de lado a biologia tradicional a favor da biologia evolucionista. Sua ideia era exatamente igual à ideia de Karl Marx, que também tinha uma visão da evolução econômica como um processo distinto, gerado pelo próprio sistema econômico.

Marshall, cujo lema era o de que a natureza não dava saltos, enfatizara o procedimento de melhorias contínuas, sempre em aumento, por parte dos administradores e dos trabalhadores especializados, que se acumulavam ao longo do tempo. Schumpeter enfatizava saltos inovadores, teatrais, extremados e descontínuos.

A essência do desenvolvimento econômico consistiria  em um diferente emprego dos serviços existentes, relativos à força de trabalho e à terra. No entanto, somente tecnologias não conseguiam explicar por que algumas economias estavam se desenvolvendo e outras não, visto que novas máquinas e métodos poderiam ser e estavam sendo transferidos globalmente.

Em seu drama econômico, Marx descartara explicitamente qualquer papel para o indivíduo. Beatrice Webb queixou-se certa vez de que o “proprietário autômato” de Marx era guiado por forças sobre as quais não exercia controle algum, em relação às quais não tinha a menor percepção, perseguindo cegamente o lucro sem sequer ter consciência de qualquer desejo a ser satisfeito.

O enfoque de Schumpeter era o elemento humano. Para ele, o desenvolvimento dependia, basicamente, do empreendedorismo. Compartilhava a obsessão alemã do final do século XIX com a liderança. Interessou-se pela Teoria do Talento Hereditário como causa das rendas desiguais e o papel das elites.

O principal personagem da narrativa de Schumpeter era o líder visionário. A função de um empreendedor era “revolucionar o padrão de produção explorando uma invenção ou, de modo geral, uma possibilidade tecnológica ainda não tentada. Isso poderia significar novos produtos ou novas fontes de fornecimento de matérias primas”. Em contraste com o capitalista autômato de Marx ou engenheiro proprietário de Marshall, o empreendedor se diferenciava pela vontade de destruir velhos padrões de pensamento e ação, direcionando os recursos existentes para novos usos. A inovação significava superar obstáculos, a inércia e a resistência. Necessitavam-se qualificações excepcionais e homens excepcionais.

Seus empreendedores são motivados menos pelo amor ao dinheiro do que por um ímpeto dinástico – “o impulso e a vontade de fundar um império privado” -, bem como pela ânsia de dominar, lutar e obter o respeito dos outros. Havia, finalmente, “a alegria de criar, fazer com que as coisas se realizassem ou simplesmente exercer a própria energia e talento”.

A ciência e a tecnologia não eram independentes, mas sim “produtos da cultura burguesa”, exatamente como “o desempenho dos negócios”. A despeito de sua visão dominadora, o empreendedor podia prosperar apenas em certos ambientes. Direitos de propriedade, livre-comércio e câmbio estável eram importantes, mas a chave de sua sobrevivência era o crédito barato e abundante. Seus empreendedores são banqueiros e outros agentes financeiros que mobilizam capital, avaliam projetos, administram risco, monitoram os administradores, fazem bons negócios, redirecionam os recursos de velhos para novos canais.

A peculiar dependência do sistema financeiro em relação à confiança e ao crédito tornava-o vulnerável aos pânicos e às crises. Porém, sem mercados de crédito que funcionassem bem e um setor bancário robusto, uma economia seria privada de taxa de juros baixa e do crédito abundante necessários para a inovação. O que distinguia as economias bem sucedidas não era a ausência de crises e a baixa repentina dos preços dos ativos, mas o fato de elas se recuperarem amplamente o terreno perdido quando ocorria novamente um encadeamento de investimentos.

As taxas de juros mais elevadas do mundo inteiro eram encontradas nos países mais pobres. Neles havia poucos bancos, mas muitos agiotas; pouco investimento, mas muito entesouramento; nenhum crédito, mas muita usura.

Ao enfatizar o ambiente de negócios local, em vez dos recursos naturais, a Teoria do Desenvolvimento de Schumpeter sugeria que as nações construíam seus próprios destinos. Os governos que quisessem ver seus cidadãos prosperarem deveriam desistir de ambições territoriais e se concentrar em promover um clima favorável aos negócios – sólidos direitos de propriedade, preços estáveis, livre-comércio, impostos moderados e regulação consistente, em benefício dos empreendedores locais.

Rendas em elevação e novos desejos de consumo proporcionariam tantas oportunidades para empreendimentos lucrativos quanto a abertura de novos territórios. Enquanto o comércio fosse possível, a inovação poderia contrabalançar as restrições relativas à população, ao território e aos recursos. A fórmula de Schumpeter visando ao sucesso econômico era otimista, apoiava-se na igualdade de oportunidades e era desprovida de beligerância.

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