O Profeta da Inovação: Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa

O Profeta da InovaçãoJá postei diversas resenhas sobre a biografia de Joseph Schumpeter, escrita por Thomas K. McCraw (Rio de Janeiro: Record, 2012. pp. 768) – confira, pesquisando o nome do autor ao lado. Eram registros para eu me lembrar de comprar o livro. Finalmente, eu o li – e o recomendo.

Schumpeter usou a expressão “destruição criativa” pela primeira vez em 1942, para se referir à maneira como os produtos e métodos capitalistas inovadores estão constantemente tomando o lugar dos antigos. “A destruição criativa é o fato essencial do capitalismo”, escreveu. “Capitalismo estabilizado é uma contradição em termos”.

O conceito de destruição criativa expressa duas ideias conflitantes, o que não chega a surpreender, pois Schumpeter era o exemplo acabado da inteligência capaz de sustentar duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo, e ainda assim manter-se funcional. A adjetivação da Áustria “tecno-romântica”, onde nasceu, se aplica ao homem.

Ele gostava de se passar por aristocrata, embora fosse originário da classe média. Como jovem prodígio acadêmico, deixou a geração mais velha deslumbrada com os livros que escreveu na faixa dos vinte anos. A partir dos trinta, tornou-se ministro das Finanças da Áustria, reinventou-se como banqueiro, ganhou fortuna que perdeu com a quebra do mercado de ações. Depois de retornar à vida acadêmica, mudou-se para os Estados Unidos, passando a lecionar em Harvard. Teve de fazer conferências remuneradas para conseguir dinheiro para a viagem transatlântica.

Comportava-se como um homem do mundo e um bon-vivant. Considerava a autoconfiança como o componente mais valioso da prudência e gostava de dizer que pretendia tornar-se o maior economista, cavaleiro e amante do mundo. E vinha, então, a frase de efeito: “as coisas não iam bem com os cavalos”…

Seu trabalho intelectual se tornou uma verdadeira obsessão, como frequentemente acontece com homens de gênio. Não raro sustentava não apenas duas ideias opostas ao mesmo tempo, mas meia dúzia delas. Considerava que Karl Marx estava profundamente certo em muitas questões, mas errado em outras por causa de uma ideologia inflexível, aliás tal como John Maynard Keynes, seu contemporâneo. Diferentemente, ele próprio esperava tornar-se um cientista social isento de valorações, que se mantivesse puro e livre de vieses ideológicos em seu trabalho.

Sua própria visão era a profunda tensão analítica derivada do confronto entre o determinismo, por um lado, e a contingência, por outro. Quanto mais estudava diferentes sistemas econômicos, mais ele se convencia das incomparáveis vantagens do capitalismo em matéria de produtividade e crescimento.

Schumpeter sonhava com o desenvolvimento de uma “Economia exata”, uma ciência de rigor indisputável, como a Física, com uma capacidade definida de previsão. Considerava-se capaz de reconciliar os mais depurados modelos matemáticos de teoria abstrata com dados concretos colhidos no campo histórico e sociológico. Embora não tenha alcançado essa aspiração romântica, seu empenho no sentido de resolver os problemas da neutralidade valorativa, da precisão científica e da fidelidade à experiência histórica rendeu enormes dividendos em sua análise do capitalismo.

As questões essenciais, envolvendo o capitalismo, enfrentadas por autores da segunda metade do século XIX e primeira do XX, eram:

  1. o que vem a ser, e
  2. como e porque vinha funcionando em certos lugares e não em outros.

Schumpeter identificou o capitalismo como uma expressão de inovação, de luta humana e pura e simples destruição, tudo ao mesmo tempo. Ele descrevia o capitalismo como a maioria das pessoas o vivencia:

  1. desejos do consumo insuflados pelo constante martelar da propaganda;
  2. violentos solavancos para cima e para baixo na ordem social;
  3. metas alcançadas, destroçadas, revistas e novamente alcançadas, em infindável processo de tentativa e erro.

Para o capitalismo, e para o próprio Schumpeter, em caráter pessoal, nada podia ser considerado estável. O alvoroço era frequente.

Schumpeter considerava-se um conservador. Sabia que a destruição criativa fomenta o crescimento econômico, mas também solapa preciosos valores humanos. Entendia que a pobreza causa sofrimento, mas também a prosperidade não garante a paz de espírito.

Uma acentuada elevação do padrão de vida seria, provavelmente, uma conquista de supremo valor para qualquer sociedade. Mas o capitalismo tem uma terrível fama de espoliar os pobres em proveito dos ricos, e nunca foi capaz de alcançar uma distribuição de riqueza que a maioria pudesse considerar justa. Para a esquerda representa uma maldição a ser combatida e superada. Para a direita, é algo indigno que se pode aceitar, mas propriamente celebrar.

Schumpeter investiu imensa energia na análise e explicação da inovação capitalista. O mecanismo econômico básico do capitalismo, segundo seu verbete escrito para a Enciclopédia Britânica, não é muito complicado: “Uma sociedade pode ser considerada capitalista quando confia seu processo econômico à orientação dos homens de negócio. Pode-se considerar que isto implica:

  1. em primeiro lugar, a propriedade privada dos meios de produção […]
  2. em segundo, a produção para o lucro privado, ou seja, a produção pela iniciativa particular em proveito privado”.
  3. Ele acrescentava um terceiro elemento, “tão essencial para o funcionamento do sistema capitalista quanto os outros dois”, a criação do crédito.

No cerne do seu ethos, o capitalismo está sempre olhando para a frente e se escora no crédito para lançar novos empreendimentos.

Derivado da palavra latina credo – “Eu creio” -, o crédito representa uma aposta em futuro melhor. Os empreendedores e os consumidores que fazem essa aposta frequentemente pouco se importam com o passado e não têm muita paciência como o presente. Empreendem projetos inovadores e fazem compras que requerem recursos muito maiores do que os disponíveis. A alavancagem financeira da rentabilidade patrimonial é o segredo do negócio capitalista!

O empreendedor, independentemente do porte da empresa em que atua, é o agente da inovação e da destruição criativa. Seus projetos produzem empregos, elevam rendas e resultam em progresso econômico geral. Ao liberar suas energias criativas, todavia, os empreendedores passam por cima dos antigos, destruindo suas fortunas. Mais cedo ou mais tarde, a maioria dos negócios fracassará, às vezes prejudicando comunidades inteiras, além dos indivíduos.

O capitalismo reduz as relações humanas a grosseiros cálculos pessoais de custo e benefício. Coloca os valores materiais acima dos espirituais, danifica o meio ambiente e mobiliza os aspectos mais sórdidos da natureza humana. Os negócios podem transformar tudo em objeto de lucro, incluindo os sete pecados capitais, com a possível exceção da preguiça. Porém, o capitalismo torna-se o equivalente econômico da famosa definição da democracia por Churchill: o pior sistema possível à parte todos os demais. Apesar de seus defeitos, só capitalismo tem sido capaz de fomentar as inovações científicas e as técnicas medicinais necessárias para elevar a humanidade acima do estado natural de vida animalesca e curta.

Dois dentre os maiores pensadores, Adam Smith e Karl Marx, chegaram a conclusões opostas. Smith (1723-1790) considerava a economia de mercado como um sistema quase ideal, ao passo que Marx (1818-1883) a condenava como uma pausa desagradável no inevitável caminho para o socialismo. Schumpeter, tendo vivido em época (1883-1950) em época que pode estudar o capitalismo em sua plena maturidade, superou os dois precursores mais famosos na sofisticação de suas análises.

O capitalismo pode assumir formas muito diversas em ambientes diferentes. Podendo ser considerado não só um sistema econômico, mas também social e cultural, o capitalismo pode funcionar tanto para finalidades boas quanto ruins. Pode ser moral, imoral ou – na maioria das vezes – amoral. Tudo depende do contexto, ou seja, da capacidade de determinado grupo ou Nação maximizar os componentes criativos e, simultaneamente, atenuar os efeitos colaterais do processo destrutivo.

Na geração de Schumpeter, muita gente liberal se formou com uma visão excessivamente otimista do capitalismo. Mas, na primeira metade do século XX, as guerras, as hiperinflações, as depressões, o totalitarismo e o genocídio serviram, para a esquerda, como confirmação do fracasso dos mercados e da superioridade do socialismo. Schumpeter observava a luta mortal dos sistemas econômicos e ideologias políticas pela supremacia. Via famílias e comunidades oscilarem constantemente entre a riqueza e a pobreza. Não tinha ilusões sobre o capitalismo, mas tampouco duvidava de seu próprio veredito: nesse sistema, a geração de riqueza econômica melhorava a vida do indivíduo comum de tal maneira que superava os efeitos negativos de longe.

No momento de maré alta do sentimento capitalista, Schumpeter defendeu que o processo capitalista eleva, progressivamente, o padrão de vida das massas. Mas o capitalismo não é o estado natural da vida humana. Se fosse, teria surgido muito antes na história e hoje prevaleceria praticamente em todo lugar. Trata-se de um sistema construído e mantido com dificuldade impar. O capitalismo moderno precisa ser ativamente cuidado e regulado, com sofisticação e determinação.

Schumpeter acreditava que o mundo só poderia beneficiar-se plenamente do capitalismo se as pessoas entendessem como ele funciona. Este é um dos motivos pelos quais passou tanto tempo tentando apreendê-lo e explicá-lo.

10 thoughts on “O Profeta da Inovação: Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa

  1. Prezado Fernando,
    Os Cientistas (sic!) Econômicos precisam ler Nietzsche
    Prezado Prof. Belluzzo, Schumpeter pescou a ideia de “destruição criadora” (e não contou a ninguém) em Nietzsche: O Nascimento da Tragédia.
    Alias os dois volumes sobre Schumpeter (Vida e Obra), fim dos nos 70, início dos anos 80, diz claramente que ele foi professor na cadeira de antropologia no início da carreira.
    Belluzzo responde: Escola Austríaca de Economia

    para dizer algo sobre a “ciência” dura:
    Em fins de 2011 os cientistas do CERN concluiram em testes que tinham ultrapassados a velocidade da luz, um dos pilares da teoria de Einstein. Em seguida foi divulgado (Economist) que um laboratório dos EUA também tinham chegado a mesma conclusão em testes (2007), mas não resolveram assumir que deveriam ter feito algo de errado. O CERN revíu seu resultado, pois disseram que havia três fios desencapado no teste. Três cientistas da equipe não concordaram com a decisão e segundo o Físico e Filósofo, Prof. da FFLCH da USP, Osvaldo Pessoa (aula sobre Teoria da Relatividade no segundo semestre de 2012), os três foram demitidos, também disse que era uma informação que precisaria ser checada.
    Trocando em miúdo, até na chamada “ciência dura”, no fundo, no fundo, a decisão é política.
    E la nave va

  2. Fernando, meu nome é Paulo Falcão e pretendo reproduzir este seu artigo no blog questões relevantes. No entanto, ideitifiquei alguns pontos que me pareceram erros de revisão. Você tem um e-mail para o qual eu possa enviar-lhe o texto com os apontamentos? O meu é paulofalcao1960@gmail.com

    Abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s