Civilização: Ocidente X Oriente

Civilização

No livro Civilização: Ocidente X Oriente (São Paulo: Planeta, 2012. pp. 432), Niall Ferguson quer mostrar que o que distinguiu o Ocidente do Oriente – as molas propulsoras do poder global – foram seis novos sistemas de instituições identificáveis e as ideias e os comportamentos associados a eles. Estes “aplicativos” (ou apps) que permitiram que uma minoria da humanidade, originando-se no extremo oeste da Eurásia, dominasse o mundo durante a maior parte dos últimos 500 anos.

Outros aspectos cruciais da supremacia ocidental, como o capitalismo ou a liberdade ou a democracia (ou, aliás, armas, germes e aço), estão implícitos nas breves definições seguintes dos seis apps.

  1. Competição: uma descentralização da vida política e econômica, que criou as condições para o surgimento dos Estados-nação e do capitalismo.
  2. Ciência: uma forma de estudar, entender e, finalmente, transformar o mundo natural, que deu ao Ocidente, entre outras coisas, uma importante vantagem militar sobre o restante.
  3. Direitos de propriedade: o controle da lei como um meio de proteger os proprietários privados e solucionar, pacificamente, as disputas entre eles, que assentou a base para a forma mais estável de governo representativo.
  4. Medicina: um ramo da ciência que possibilitou uma importante melhoria na saúde e na expectativa de vida, inicialmente nas sociedades ocidentais, mas também em suas colônias.
  5. Sociedade de consumo: um modo de vida material em que a produção e a compra de roupas e outros bens de consumo desempenham um papel econômico central, e sem o qual a Revolução Industrial teria sido insustentável.
  6. Ética do trabalho: um sistema moral e um modo de atividade derivados do cristianismo protestante, entre outras fontes, que fornece a coesão à sociedade dinâmica e potencialmente instável criada pelos itens anteriores.

Ferguson pretende mostrar que não foi só a superioridade ocidental que levou à conquista e à colonização de grande parte do restante do mundo; foi também a fraqueza fortuita de seus rivais. Na década de 1640, por exemplo, uma combinação de crise fiscal e monetária, mudança climática e epidemia desencadeou uma rebelião e o colapso da dinastia Ming na China. Isso não teve nada a ver com o Ocidente. Da mesma maneira, o declínio político e militar do Império Otomano teve mais causas internas do que externas. O fracasso de Simon Bolívar em criar os Estados Unidos da América Latina não foi “culpa dos gringos”.

O ponto crítico é que a diferença entre o Ocidente e o restante do mundo era institucional. A Europa Ocidental superou a China, em parte, porque no Ocidente havia mais competição tanto na esfera política quanto na econômica. A Áustria, a Prússia e, mais tarde, até mesmo a Rússia se tornaram mais eficazes em termos administrativos e militares porque a rede de comunicação que levou à Revolução Científica surgiu no mundo cristão, mas não no mulçumano.

A razão pela qual as ex-colônias norte-americanas se saíram muito melhor que as da América do Sul é que os colonizadores ingleses estabeleceram no Norte um sistema de direitos de propriedade e representação política completamente diferente daquele implementado por espanhóis e portugueses no Sul. O Norte era uma “ordem de acesso aberto”, em vez de “fechado”, administrada segundo os interesses de elites exclusivas e em busca de privilégios.

Os impérios europeus foram capazes de penetrar na África não só porque tinham a metralhadora Maxim. Eles também conceberam vacinas contra doenças tropicais às quais os africanos eram igualmente vulneráveis.

Da mesma maneira, a industrialização precoce do Ocidente refletia vantagens institucionais: a possibilidade de uma sociedade de consumidores em massa existia nas ilhas britânicas bem antes do advento e da disseminação da energia a vapor ou do sistema fabril. Mesmo quando a tecnologia industrial estava disponível quase universalmente, a diferença entre o Ocidente e o restante do mundo persistiu; de fato, tornou-se ainda maior.

Sem um maquinário totalmente padronizado de fiação e tecelagem do algodão, o trabalhador europeu ou norte-americano ainda era capaz de trabalhar de maneira mais produtiva, e seu empregador capitalista de acumular riqueza mais depressa do que seus pares orientais.

O investimento em saúde e em educação pública deu bons resultados; onde não houve investimento, as pessoas continuaram pobres. Este livro de autoria de Niall Ferguson é sobre todas essas diferenças – porque existiram e porque foram tão importantes.

Vamos apresentar o essencial da mensagem do último livro de Niall Ferguson nos posts seguintes.

Leia maisResenha do Livro Civilização: Ocidente X Ocidente Publicada no New York Times

2 thoughts on “Civilização: Ocidente X Oriente

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