Civilização: Ascensão Lenta, Queda Súbita

America Meridionalis

As civilizações, conforme Niall Ferguson tratou de demonstrar em seu último livro, Civilização: Ocidente X Oriente, são sistemas extremamente complexos, compostos de um número muito grande de componentes que interagem e estão organizados de forma assimétrica, funcionando entre a ordem e a desordem à beira do caos. Tais sistemas estão em constante mutação até atingir pontos críticos, quando pequena perturbação pode desencadear uma “fase de transição” de um equilíbrio benigno a uma crise.

Para entender a complexidade, é útil examinar como os cientistas naturais usam o conceito. Todos os sistemas complexos no mundo natural tem certas características em comum. Uma pequena alteração em tais sistemas pode produzir mudanças enormes, muitas vezes imprevistas, via “efeito amplificador”.

As relações causais costumam ser não lineares, o que significa que os métodos tradicionais de generalizar com base em observações, tais como a amostragem e a análise de tendências, são de pouca utilidade. Certos sistemas complexos são totalmente não deterministas, o que significa que é quase impossível fazer previsões sobre seu comportamento futuro com base em dados passados.

As estruturas políticas e econômicas criadas por seres humanos apresentam muitas das características de sistemas complexos. Vão muito além da noção de uma “mão invisível” de Adam Smith, que parece guiar vários indivíduos à maximização dos lucros. Uma economia complexa é caracterizada por:

  1. interações de agentes econômicos dispersos,
  2. uma ausência de qualquer controle central,
  3. vários níveis de organização,
  4. adaptação contínua,
  5. criação incessante de novos nichos de mercado e
  6. nenhum equilíbrio geral.

Ao contrário da Lei de Rendimentos Decrescentes, em uma economia complexa, o aumento dos rendimentos é perfeitamente possível. O desafio atual é aplicar tais ideias a outros aspectos de atividade humana coletiva, entre os quais a meta-história.

Uma civilização é, por definição, um sistema extremamente complexo. Por mais que haja uma autoridade central simbólica, na prática é uma rede adaptativa de relações econômicas, sociais e políticas. Civilizações de todas as formas e tamanhos apresentam muitas das características de sistemas complexos no mundo natural, inclusive a tendência de passar da estabilidade à instabilidade de forma um tanto repentina.

A civilização ocidental em sua primeira encarnação – o Império Romano – não desapareceu lentamente. Entrou em colapso no decorrer de uma geração, lançada à beira do caos pelos invasores bárbaros no início do século V. Houve outros colapsos comparativamente rápidos, como o dos incas, entre 1530-1540, quando seu império foi dilacerado por poucos invasores estrangeiros com cavalos, pólvora e doenças letais. O governo da dinastia Ming na China sucumbiu, rapidamente, em meados do século XVII. A monarquia Bourbon foi derrubada pela revolução no ano de 1789, inclusive por causa da crise de finanças públicas francesas, provocada pelo apoio aos rebeldes coloniais da América do Norte contra seus inimigos ingleses. Em quatro anos, o rei foi decapitado pela guilhotina, inventada em 1791…

Entre o movimento dos Jovens Turcos, em 1908, e o fim do Império Otomano, foram apenas catorze anos. O Império do Japão atingiu sua máxima extensão territorial em 1942, e em 1945 já não existia mais. Do fim da II Guerra Mundial à crise do Suez, em 1956, o Reino Unido, que já tinha concedido independência a diversas colônias, foi convencido de que não podia desafiar os Estados Unidos no Oriente Médio, selando o fim do Império Britânico. O exemplo mais recente e familiar de queda repentina é, sem dúvida, o colapso da União Soviética.

Se as civilizações são sistemas complexos que mais cedo ou mais tarde sucumbem a disfunções repentinas e catastróficas, quais são as implicações para a civilização ocidental contemporânea? Afinal, o Ocidente veio a dominar o restante do mundo por volta de 1500.

As pesquisas recentes derrubaram a visão em voga de que a economia chinesa estava em pé de igualdade com a ocidental até 1800. O PIB per capita basicamente estagnou na era Ming, e era muito mais baixo que o da Grã-Bretanha pré-industrial, pois a China era uma economia predominantemente agrícola com 90% do PIB composto de cultivos de baixa produtividade, inferiores aos da Inglaterra. Antes da “grande divergência” entre o Oriente e o Ocidente, em 1700, a situação econômica do habitante médio da China era um pouco superior à do habitante dos futuros Estados Unidos. Em 1600, o PIB per capita da Grã-Bretanha já era 60% mais alto do que o da China.

O que aconteceu depois disso foi que a produção e a população da China cresceram na mesma proporção, levando a renda individual a estagnar, enquanto o mundo anglófilo, seguido pelo noroeste da Europa, saiu na frente. Em 820, o PIB per capita dos Estados Unidos era o dobro do da China; em 1870, era quase cinco vezes maior; em 1913, a proporção era quase de 10 para 1.

A Grande Divergência se manifestou de várias formas. Em 1500, as dez maiores cidade do mundo eram quase todas orientais, sendo Pequim de longe a maior, cerca de dez veze o tamanho da pequena e pobre Londres. Em 1900, as maiores cidades eram quase todas ocidentais: Londres era mais de quatro vezes o tamanho de Tóquio, a maior conturbação da Ásia.

Em 1500, os dez reinos europeus que se tornaram os impérios globais do mundo moderno correspondiam a um vigésimo do território do mundo, 16% de sua população e pouco mais de 1/5 de sua produção. Em 1913, esses mesmos Estados mais os Estados Unidos controlavam 58% da superfície terrestre do globo, concentravam 57% de sua população e 74% do PIB global – do qual apenas 18% iam para suas possessões coloniais.

O conhecimento era poder. Mas por que o conhecimento europeu era superior a todos os demais antes da I Guerra Mundial? Por que o Ocidente dominou o Resto do Mundo e não o contrário? Niall Ferguson argumentou que “foi porque o Ocidente desenvolveu seis aplicativos que o restante do mundo não tinha”. Foram:

  1. A competição, já que a própria Europa estava politicamente fragmentada e em cada Monarquia ou República havia entidades corporativas competindo entre si.
  2. A revolução científica, já que todos os principais avanços do século XVII em Matemática, Astronomia, Física, Química e Biologia ocorreram na Europa Ocidental.
  3. O Estado de Direito e o governo representativo, já que no mundo anglófono surgiu um sistema melhorado de ordem social e política, com base nos direitos de propriedade privada e na representação dos donos de propriedades em legislaturas eleitas.
  4. A medicina moderna, já que praticamente todos os avanços em saúde dos séculos XIX e XX, incluindo o controle de doenças tropicais, foram feitos por europeus ocidentais e norte-americanos.
  5. A sociedade de consumo, já que a Revolução Industrial aconteceu onde havia um fornecimento de tecnologias que aumentam a produtividade e uma demanda por produtos melhores, mais baratos e em maior quantidade.
  6. A ética do trabalho, já que os ocidentais foram o primeiro povo no mundo a combinar trabalho mais extensivo e intensivo com taxas de investimento mais elevadas, possibilitando a acumulação continuada de capital.

3 thoughts on “Civilização: Ascensão Lenta, Queda Súbita

  1. Prezado Prof. Fernando Nogueira da Costa,

    É sabido que a leitura é uma forma importante de conhecimento, no meu post anterior, Moises, O livro Egípcio dos mortos e Os Dez Mandamentos, mostrei meu interesse e minha surpresa no assunto, mas gostaria de fazer breve comentários, a começar pelo título do livro anterior de Niall Ferguson, ““Civilization: The West and the Rest”, que sinaliza e demonstra sutilmente a “figura” do historiador inglês, ou nas palavras que pincei da resenha do NYT, indicado no seu primeiro post sobre o livro:

    (…) “Some criticize its study as narrow, limiting, arrogant and discriminatory, asserting that it has little or no value for those of non-European origins. Or it is said to be of interest chiefly as a horrible example.” (Resenha do Livro Civilização: Ocidente X Ocidente Publicada no New York Times).

    Acrescentaria que, na parte que nós toca, ou toca a mim, digamos como colonizados europeus que somos, e ‘ameríndio’ que também somos, mas não assumimos, pois somos uma sociedade falsa-letrada, no meio do caminho, entre o “Tupy or not tupy, that is the question”, ou como diria ainda Oswald de Andrade, “lei do homem lei do antropófago”, e na ironia de Eduardo Viveiros de Castro sobre o pensamento de Oswald de Andrade, “lei do homem lei do antropólogo”, creio que até mesmo os europeus já sente que a construção da superioridade “mitológica eurocêntrica” dos últimos séculos não se sustenta mais, a crise ocidental, crise de valores e de repensar e reformular o individualismo ocidental (não apenas crise econômica), pode-se ver, que parte principal da crise, começa entre nós pela tese de Oswald de andrade de 1950, “A crise da filosofia messiânica” que vem da década de 20), é a Des-construção da pseudo-superioridade mitológica eurocêntrica dos últimos séculos.

    São inúmeras obras escritas nas últimas décadas, cito duas, que contém centenas de referências, a começar pelas observações e erros de teorias assinalados e registradas por Mário de Andrade, já em 1920, quando das suas leituras dos artigos e ensaios nas revistas europeias e americanas:

    -The Crest of-the Peacock: Non-European Roots of Mathematics. 3rd-Ed. 2011 (First 1991), by Joseph, George Gheverghese.

    (a história da matemática ao longo dos milênios, pois a ciência começou em “High Priests of Ptah in Memphis” -Egito)

    – Debt -The First 5.000 Years, 2011. Graeber, David. (link para download)
    Livros dessa qualidade, nós não temos tradução, o que mostra, novamente, mais um sinal de sermos ainda uma sociedade falso letrada, “está claro”, diria Mário de Andrade em suas cartas, ou aquela referência de Euclydes da Cunha já dizia no final do século XIX, sobre a elite que ficava olhando e sonhando da praia com o outro lado do Atlântico, ou o que disse Sergio Buarque, sobre a mesma elite da República Oligárquica, “de abrirem a janela e não darem com o Sena nem o Reno nem o Tâmisa, mas com bananeiras, o semi-árido e o sertão a perder de vista”.

    Desse ponto de vista, não mudamos muito ainda, porém o livro do inglês e historiador “fashion-trash”, Ferguson, está na praça, “está claro”. Como diria Schopenhauer, sobre a arte de não ler lixo é sumamente importante.

    La nave va,
    Sds,
    http://www.advivo.com.br/blog/oswaldo-conti-bosso/livros-e-livros-fashion-trash

    • Prezado Conti-Bosso,
      não considero o livro de Nial Ferguson, professor de Harvard e London School e pesquisador em Oxford e Stanford, “um lixo”.
      Eu não esnobo a capacidade de divulgação acessível para maior número de leitores. Embora possa discordar e criticar as ideias eurocêntricas, elas provocam a reflexão e o debate. Leia, como contraponto, o post sobre o livro Armatya Sen, neste blog, onde ele faz uma crítica construtiva, isto é, oferecendo uma análise alternativa ao eurocentrismo dos “supremacistas do Ocidente”.
      att.

  2. Pingback: Detroit: Zumbilândia… » Crônicas da KBR

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s