O Clube do Filme

Clube do Filme - exemplos

O Clube do Filme (em inglês: The Film Club) é um livro do escritor canadense David Gilmour (homônimo do guitarrista do Pink Floyd), lançado em 2007, que trata da educação dada pelo próprio autor a seu filho adolescente, trocando a escola regular pelo compromisso de assistir três filmes por semana. Traduzido e lançado no Brasil em 2009 pela Editora Intrínseca, o livro foi o oitavo mais vendido no Brasil, naquele ano, na categoria “Não-ficção“, conforme levantamento da revista Veja.

Eram tempos difíceis para David Gilmour – separado da mãe do filho, sem trabalho fixo, com o dinheiro curto e o filho de 15 anos colecionando reprovações em todas as matérias do ensino médio. Diante da desorientação e da infelicidade desse “filho-problema”, o pai faz uma oferta fora dos padrões – o garoto poderia sair da escola – e ficar sem trabalhar e sem pagar aluguel, desde que assistisse semanalmente a três filmes escolhidos pelo pai, vistos e debatidos por eles em seguida.

Com essa aposta diferente na recuperação e na formação de um rapaz que está em plena “crise do desenvolvimento”, isto é, da passagem da adolescência para a fase de “jovem adulto” (tão dolorosa em termos psicológicos quanto a crise da meia-idade aos quarenta anos), formaram o Clube do Filme. Semana a semana, lado a lado, pai e filho viam e discutiam o melhor (e, ocasionalmente, o pior) do cinema.

Os Incompreendidos, de François Truffaut, inaugurou a seleção. A juventude do cineasta havia sido árdua: mal-amado pelos pais, ele fora delinquente até encontrar no cinema, primeiro como crítico e depois como diretor, uma vocação. Na última cena de Os Incompreendidos, seu protagonista – e alter ego – foge do reformatório, vaga até uma praia deserta e então olha para a câmera, que congela a imagem. Jesse não chegou a vibrar (Instinto Selvagem, mostrado a seguir, despertou mais entusiasmo), mas gostou o suficiente para o pai cutucá-lo: o que significava aquele desfecho?

Jesse formulou uma interpretação: o personagem estava se dando conta de que se livrar das coisas que lhe desagradavam fora fácil. Agora vinha a parte difícil: encontrar um rumo. Não é simples para um adolescente articular sua perplexidade. Os Incompreendidos, porém, além de ser um grande filme, deu a Jesse uma imagem de sua confusão e uma deixa para desabafar.

Episódios como esse são o fio condutor de O Clube do Filme sobre os três anos de cinefilia compartilhados por pai e filho. O relato evoca não apenas as dores da transição entre fases de vida, por que passam pais e filhos, mas também o fenômeno mágico que às vezes se dá em sala escura, diante de uma tela: uma descoberta e uma comunhão que, exatamente por prescindirem de palavras, ultrapassam o que se pode dizer.

Como o ato de viver é dispersivo e a experiência humana é diluída, as mais diferentes emoções e os mais diferentes sentimentos se acumulam. Mas, no Cinema, assim como no Livro, é possível ver um mundo organizado, captar uma parcela da realidade. Quando isso acontece, é uma revelação!

Se alguém descobre a possibilidade de estar se dizendo, em um texto ou em uma cena, e trocar isso com os outros, vai entender que o livro é também um modo como alguém se disse, se contou. A leitura de um bom livro e a contemplação de um bom filme são grandes revoluções que uma pessoa, no plano individual, pode passar. Quando você lê ou vê uma síntese de um aspecto da vida que lhe incomoda, é uma experiência inigualável, só comparável a um grande amor!

Trocar a instrução formal pelo cinema foi uma proposta surgida do desespero. Gilmour a adotou porque o ódio à escola estava afastando o filho da boa educação e porque ver filmes lhe pareceu ser o meio mais seguro de garantir que eles tivessem uma proximidade franca e frutífera. “Mas perdi a conta de quantas vezes acordei de madrugada com o pavor de destruir o futuro do meu filho”, disse ele em entrevista à revista Veja (Edição 2120, 8 de julho de 2009).

O medo de que nem a alternativa da educação pelo cinema funcionasse inspirou uma série de precauções. Para que as sessões não ganhassem ar de obrigação nem terminassem por fazer de Jesse um esnobe, Gilmour tomou uma decisão de repudiar qualquer método. Filmes célebres ou obscuros, bons ou ruins, recentes ou antigos, americanos ou de qualquer outra procedência se sucederam no aparelho de DVD conforme o pai, crítico de cinema bissexto, se lembrava deles, ou conforme o humor do adolescente o determinasse. Quando Jesse caiu em tristeza profunda por causa de uma namorada, fez-se um pequeno Ciclo de Filmes de Terror: nada como uma emoção forte para ajudar a esquecer outra.

Outra medida foi a de evitar preleções, dica que, assim como as listadas no post a seguir, eu (FNC) pretendo usar no meu Curso sobre Economia no Cinema. O pai-guia dava algumas dicas sobre o que se iria ver e evitava falar além da conta. Os filmes é que deveriam falar por si mesmos, e, depois, seria a vez do expectador falar – ou não – sobre eles.

De alguns dos títulos, ele tirou lições diretas (veja o quadro acima); outros o inspiraram de maneiras sutis. Jesse, depois, retornou de livre vontade aos estudos, já rodou um curta-metragem, no qual também atuou, e prepara o roteiro de um longa. Sua inspiração foi Woody Allen, o cineasta com quem mais se identificou, durante o aprendizado, e por meio do qual identificou em si o desejo de escrever bem.

A educação heterodoxa, baseada em filmes assistidos e debatidos, recupera um tipo de convivência que se tornou raro: aquele em que pessoas se reúnem em torno de um interesse comum. Dos tempos pré-históricos, em que os mitos eram transmitidos de geração para geração à volta da fogueira, até o início do século XX, em que pais e filhos se juntavam para ouvir um deles ler um romance ou acompanhar uma história pelo rádio, essa é uma forma primordial de lazer, além de uma necessidade evolutiva.

Nesses momentos, os mais velhos ensinam o que podem aos mais jovens e aprendem algo novo com eles; os laços se estreitam e os horizontes, por sua vez, se expandem. A vida afobada de hoje tende a limitar tais oportunidades.

Nesse sentido, O Clube do Filme é um grande lembrete: os filmes, sejam eles bons ou ruins, representam o acúmulo da experiência humana da mesma forma que a Literatura, a História ou a Filosofia. Com a vantagem de que mesmo os adolescentes mais arredios (ou especialmente estes) adoram assistir a eles. Alguns gostam tanto que se dispõem até a conversar sobre eles. E outros ainda descobrem nessa saída formulada por um pai (ou um professor), que não sabe mais o que fazer para motivá-los, exatamente aquilo que lhes faltava: uma porta de entrada.

Fonte: Isabela Boscov. Veja. Edição 2120, 8 de julho de 2009.

1 thought on “O Clube do Filme

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s