Aparente Contradição: Crescimento Baixo do Valor Agregado e Queda da Taxa de Desemprego

Baixos Crescimento e Desemprego Fonte: FSP, 23/12/12

Uma observação sobre o ineditismo histórico da situação econômica atual do Brasil: está com crescimento de um “pibinho”, mas com baixo desemprego, melhoria do rendimento real dos trabalhadores e melhor distribuição de renda. Usufrui já do bônus demográfico. Será válida a hipótese de que se PIB = VA = L + J + A + W, as duas últimas rendas (A + W: Aluguéis e Salários) subiram enquanto L + J (Lucros e Juros) caíram em termos relativos? Sugiro aos econometristas testarem a hipótese.

Pergunta-chave: a quem interessa o “pibão”, se não há desemprego e concentração de renda? Se a resposta for para aumento dos lucros e juros recebidos pelos empresários e rentistas, então, que eles virem empreendedores com investimentos produtivos!

Quanto aos investimentos de longo prazo de maturação das empresas estatais, há o ganho fiscal em curto prazo, decorrente da pequena expansão do produto e da renda da economia, não entrando em depressão neste contexto internacional desfavorável, mas o maior ganho fiscal será em longo prazo, resultante do fato de que a capacidade produtiva da economia será maior nos próximos anos, viabilizando o crescimento da demanda sem pressão inflacionária, maior Produto Interno Bruto (PIB) e arrecadação fiscal mais elevada.

Captura de Tela 2012-12-27 às 09.44.44 Fonte: FSP, 26/12/12

Observação: o PIB PPC (ou PPP em inglês) refere-se ao poder de compra internacional, caso seja medido em dólares. Como a renda per capita em dólares não se dirige apenas às compras de tradables ou commodities internacionais importadas, mas mais a bens e serviços comercializáveis no mercado interno, não se deve deixar enganar pelas aparências: o poder de compra médio em moeda nacional pode ter se elevado, embora medido em moeda internacional possa ter caído, devido à depreciação cambial.

Captura de Tela 2013-01-12 às 11.38.58

10 thoughts on “Aparente Contradição: Crescimento Baixo do Valor Agregado e Queda da Taxa de Desemprego

  1. Nenhum mistério. Quando em meados de 2011 anunciou-se um reajuste de 14%, as máquinas de remarcação de preços entraram em frenético funcionamento, de tal forma que em janeiro de 2011, após o reajuste, o mercado interno era menor quando da vigência do salário anterior. Não existe milagre algum que recupere a economia nesta situação. Ela deverá produzir um “pibiquinho”. Só não é menor pelo efeito esportivo de 2014/16.

    • Prezado Niculaus,
      o problema desta sua hipótese é que os rendimentos reais dos trabalhadores se elevaram, porque aumenta o poder de barganha com baixa taxa de desemprego e a taxa de inflação não se elevou significativamente.
      Minha hipótese é que estamos apenas com um problema de defasagem temporal entre a expansão da capacidade produtiva e a expansão da renda, ou seja, entre o efeito multiplicador e o efeito acelerador. Passado o período de maturação dos investimentos de longo prazo, naturalmente, colheremos as benesses da expansão da capacidade produtiva, inclusive em transporte e energia.
      att.

    • Correção: o reajuste de 14% começou a vigorar el janeiro de 2012, e não como constou: 2011.

      • Dr. Interessante sua hipotese, porém insisto na minha. Examinemos a metodologia de apuração dos índices de preços. Para simplificar, fiquemos no efeito substituição. A inflação do xuxu inventada por M.H.Simonsen, então ministro. Reinventaram o famoso “Não tem pão, comam bolo”. Procedimento nada exato, altamente subjetivo, que deve ter sido modificado por procedimentos paralelos(POF ?).Anteriormente, na época do controle de preços pelos governos militares, existia um levantamento de preços industriais-FOB fábrica que pretendia controlar o setor da porta pra dentro. Formou-se a dança de códigos e mudanças de componentes e peças. Como os mapas de apuração eram indexados pelos códigos, inúmeros ítens tinham de ser substituidos, perdendo-se os aumentos anteriores. A vida real não leva em conta estas artimanhas. Elas visam deprimir a renda da população e o nível de atividade. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Uma economia infectada pela maldição getulista que é o salário mínimo, só pode ser uma economia mínima, onde vegeta um capitalismo mínimo. Não podemos ficar contentes com o papaguear de teorias várias antes de examinar o substrato em que será aplicada. Um exemplo: o médico trata do ser humano e leva seu cavalo ao médico veterinário; a alternativa seria o vestibular na Faculdade de Medicina Veterinária porém o cavalo morreria antes. Sabemos muito sobre os fundamentos teóricos da economia e quase nada dos fundamentos (muitas vezes deformados) da realidade econômica que pretendemos gerenciar. É facil ao médico diferenciar um ser humano de um animal, tanto quanto é difícil ao economista enxergar as difenças entre as muitas formas de economia, bem como as diferenças de comportamento decorrentes.
        Pouco se vendeu neste fim de ano. As liquidações iniciaram-se já em 26/12 p.p., indicando que o aumento do salário “real” é problema do deflator, nada ligado à realidade.
        Pra que investir tanto se não dispomos de mão de obra ? Formá-la demoraria 16 anos.

        Obrigado pela atenção. Agradeceria resposta sua, se couber.
        nicola.

      • Prezado Nicola,
        contra os números ou os fatos, há argumentos, porém eu não luto contra eles. O efeito substituição na cesta básica de consumo é apurado nas POFs, não nas pesquisas mensais.
        Quanto ao salário mínimo, veja o que postei às 12:00 a respeito da importância da política de salário mínimo real.
        Investir demanda mão de obra qualificada e, portanto, incentiva a busca de ensino, devido às oportunidades abertas. É um processo dinâmico que não leva tanto tempo, seja em ensino técnico, seja em ensino superior.
        att.

  2. Respeito seus argumentos, porem, como explicar um alardeado aumento de salário medio (aumento do tamanho de mercado) e pleno emprego (menor taxa de desemprego) com uma queda de 1% da atividade industrial ? Essa indústria está longe da plena utilização da capacidade instalada. Falta mercado, consumido por remarcações preventivas; mesmo porque os 14% incidem apenas em uma parcela ínfima de mercado ( a parcela dos que auferem o maldito salário mínimo, que voce precisa procurar de lanterna na mão). Já os efeitos de remarcações indiscriminadas destroem todo o mercado (muito maior ! Do tamanho do Brasil)
    Não tenho o menor apego às estatísticas cozinhadas no caldeirão de um regime expúrio. Meu objetivo não é ter razão no que digo. Sou um economista registrado no Corecon sob nº 7256 (ou mais ou menos isso), formado na escolinha da beira do Rio Pinheiros s/nº, em 1972. Desde então formei minha convicção. Ela decorre da análise de situações concretas, não teóricas, apesar de baseada nelas. Sem nenhum compromisso a não ser com a verdade da profissão que abracei.
    Quanto á importância do salário mínimo “real” trata se de uma maquiagem estatística, conveniente aos dominantes.
    Torço, de coração, para que o esforço dos ultimos tres governos para ampliar o abastecimento de mão de obra qualificada produza seus frutos, mas isto não tem nada a ver com o objeto de nossa discussão: o cavalo do médico já estará morto.

    • Prezado Nicola,
      acho difícil ter um debate objetivo quando um dos contendores não tem “o menor apego às estatísticas cozinhadas no caldeirão de um regime espúrio”. Trabalhei no IBGE entre 1978 e 1985, justamente, durante o final do regime militar. Militávamos, no IERJ, IBASE, PT, Sindicato de Econoministas e CORECON-RJ, para defender as estatísticas. Vi amiga e colega de mesa ser demitida por causa de denúncia de tentativa de manipulação por parte do presi do IBGE, sob encomenda de notório Ministro e ex-professor da “escolinha da beira do Rio Pinheiros s/nº”.
      att.

    • Prezado Rodrigo,
      acho que a “contabilidade para inglês ver” é uma boa herança colonial, usada desde os tempos de monitoramento do FMI até os tempos contemporâneos de vigilância de economista-contabilista ortodoxo.
      Você não leu os posts, no final do ano passado, quando escrevi sobre “novo regime fiscal”?
      Basicamente, o argumento heterodoxo é que a meta do superávit primário de 3,1% do PIB está na anacrônica com a fase depressiva do ciclo econômico internacional, superestimada e desnecessária face à queda da relação dívida pública / PIB.
      Hoje, basta um superavit de 0,9% do PIB para essa relação se manter em torno de 35%.
      Portanto, acho uma “bobagem” essa acusação de “falcatrua contábil”, afinal, o Fundo Soberano tem como uma de suas finalidades justamente a atuação anticíclica!
      att.

  3. Dr. Fernando, longe de querer sustentar pontos de vista baseado em posição de intransigência. Prova é que meu interesse foi despertado pelo título de seu post. É justamente este título que confere uma inconsistência aritmética mesmo à contabilidade nacional.
    Retornando ao tema, cheio de detalhes, teremos que procurar de lanterna na mão os brasileiros que recebem o salário mínimo, além dos aposentados. No entanto, a grita que se estabeleceu quando o 1º jornalista curioso descobriu os 14%, parece que a inflação iria fugir do controle. Sim, houve aumento generalizado de preços após tal anúncio; apenas que o subsequente aumento do índice geral de preços atingiu toda a economia, daí seu efeito depressivo: encolheu o mercado. Faça as contas, é um fenômeno meramente aritmético.
    Já tivemos em 2008 um efeito de sentido contrário, quando da quebra de bancos no irmão do norte. Descobriu-se, então, que a maior riqueza do Brasil é o consumo da miséria, quando manteve-se o dinamismo da economia brasileira decuplicando-se o valor da bolsa família. Marx deve ter-se regozijado: é a própria acumulação primitiva do capital vista do ponto de vista de um dos fatores de produção: o verdadeiro proletário miserável.
    Moral da história: quando o $$$ é do governo venha a nós as benesses; quando um mero reajuste de 14% é anunciado nossos capitalistas dão um tiro no próprio pé, mais que anulando um efeito de expansão do mercado, altamente desejável.
    Meu intuito, em nenhum momento foi polemizar. Quis, outrossim, transmitir a um colega, altamente titulado, ativo e detentor de uma posição de destaque no cenário nacional, as convicções que venho desenvolvendo a partir do anúncio do malfadado 14%.
    Hoje considero o tal salário mínimo uma maldição para a economia pois transforma a curva de demanda da economia em uma linha quebrada. Isto é péssimo.
    Desde já apresento as minhas desculpas por algum aborrecimento causado.

    Saudações profissionais.
    Niculaus, o outro que leu Babeuf.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s