“Poética” de Aristóteles: Para Avaliar Roteiros de Filmes

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Encontra-se a Poética de Aristóteles no segundo volume dedicado à sua obra na Coleção Os Pensadores (São Paulo: Abril Cultural, 1984: 241-269). Estas poucas páginas consagraram o filósofo grego, ainda hoje, como “o mestre dos roteiristas” – autores ou poetas.

Aristóteles (Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia. Juntamente com Platão e Sócrates (professor de Platão), Aristóteles é visto como um dos fundadores da filosofia ocidental.

A Poética (em grego antigo: Περὶ ποιητικῆς; em latim: poiétikés), provavelmente registrada entre os anos 335 a.C. e 323 a.C., é um conjunto de anotações das aulas de Aristóteles sobre o tema da poesia e da arte em sua época, pertencentes aos seus escritos acroamáticos (para serem transmitidos oralmente aos seus alunos) ou esotéricos (textos para iniciados).

Estes cadernos de anotações eram destinados às aulas do Liceu e serviam de guia para o professor Aristóteles, anotações esquemáticas destinadas a serem desenvolvidas em suas aulas e não para serem conhecidas através da leitura. Praticamente tudo que se conservou de Aristóteles faz parte das obras acroamáticas. É o primeiro escrito conhecido que procura especificamente analisar determinadas formas da arte e da literatura, também um registro limitado de como era a arte grega em seu tempo. A Poética, “não é apenas a primeira teoria do Teatro ocidental; trata-se de um livro que influenciou essa arte ao longo de sua história e que ainda ecoa”.

A comédia é, como disse Aristóteles, é imitação de maus costumes, mas não de todos os vícios; ela só imita aquela parte do ignominioso que é o ridículo. O ridículo reside num defeito ou numa tara que não apresenta caráter doloroso ou corruptor. Tal é, por exemplo, o caso da máscara cômica feia e disforme, que não tem expressão de sofrimento.

Quanto à epopeia [“épico histórico”], por seu estilo corre a par com a tragédia [“drama”] na imitação “de homens superiores” [ou “dos assuntos sérios”], mas sem empregar um só metro simples ou forma negativa. Nisto, a epopeia difere da tragédia.

E também nas “dimensões” [ou “extensões”]. A tragédia empenha-se, na medida do possível, em não exceder o tempo de uma evolução solar, ou pouco mais. A epopeia não é tão limitada em sua duração; e esta é outra diferença. Se bem que, no princípio, a tragédia, do mesmo modo que as epopeias, não conhecesse limites de tempo.

Quanto às partes constitutivas, umas são comuns à epopeia e à tragédia, outras são próprias desta última. Por isso, quem numa tragédia souber discernir o bom e o mau, sabê-lo-á também na epopeia. Todos os caracteres que a epopeia apresenta encontram-se na tragédia também.

Especialmente interessante para nosso Curso Economia no Cinema, é a leitura do Capítulo abaixo reproduzido da Poética de Aristóteles. Em lugar de “poeta”, leia-se “roteirista”, de “tragédia”, leia-se “drama”.

CAPÍTULO IX – Poesia e História. Mito Trágico e Mito Tradicional. Particular e Universal. Piedade e Terror. Surpreendente e Maravilhoso.

1. Pelo que atrás fica dito, é evidente que não compete ao poeta narrar exatamente o que aconteceu; mas sim o que poderia ter acontecido, o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade.

2. O historiador e o poeta não se distinguem um do outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso (…). Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido.

3. Por tal motivo a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular.

4. O universal é o que tal categoria de homens diz ou faz em determinadas circunstâncias, segundo o verossímil ou o necessário. Outra não é a finalidade da poesia, embora dê nomes particulares aos indivíduos; o particular é o que “o fulano” fez ou o que lhe aconteceu.

5. Quanto à comédia, os autores, depois de terem composto a fábula (ou o mito), apresentando nela atos verossímeis, atribuem-nos a personagens, dando-lhes nomes fantasiados, e não procedem como os poetas iâmbicos que se referem a personalidades existentes.

6. Na tragédia, os poetas podem recorrer a nomes de personagens que existiram, e por trabalharem com o possível, inspiram confiança. O que não aconteceu, não acreditamos imediatamente que seja possível; quanto aos fatos representados, não discutimos a possibilidade dos mesmos, pois, se tivessem sido impossíveis, não se teriam produzido.

7. Não obstante, nas tragédias um ou dois dos nomes são de personagens conhecidas, e os demais são forjados; em certas peças todos são fictícios, (…), no qual fatos e personagens são inventados, e apesar disso não deixa de agradar.

8. Portanto, não há obrigação de seguir à risca as fábulas tradicionais, donde foram extraídas as nossas tragédias. Seria ridículo proceder desse modo, uma vez que tais assuntos só são conhecidos por poucos, e mesmo assim causam prazer a todos.

9. De acordo com isto, é manifesto que a missão do poeta consiste mais em fabricar fábulas do que fazer versos, visto que ele é poeta pela imitação, e porque imita as ações.

10. Embora lhe aconteça apresentar fatos passados, nem por isso deixa de ser poeta, porque os fatos passados podem ter sido forjados pelo poeta, aparecendo como verossímeis ou possíveis.

11. Entre as fábulas e as ações simples, as episódicas não são as melhores; entendo por fábula episódica aquela em que a conexão dos episódios não é conforme nem à verossimilhança nem à necessidade.

12. Tais composições são devidas a maus poetas, por imperícia, e a bons poetas, por darem ouvido aos atores. Como destinam suas peças a concursos, estendem a fábula para além do que ela pode dar, e muitas vezes procedem assim em detrimento da sequência dos fatos.

13. Como se trata, não só de imitar uma ação em seu conjunto, mas também de imitar fatos capazes de suscitar o terror e a compaixão, e estas emoções nascem principalmente, quando se nos deparam ações paradoxais, e mais ainda quando os fatos se encadeiam contra nossa experiência, pois desse modo provocam maior admiração do que sendo devidos ao acaso e à fortuna.

14. Com efeito, as circunstâncias provenientes da fortuna nos parecem tanto mais maravilhosas quanto mais nos dão a sensação de terem acontecido de propósito, como, por exemplo, a estátua de Mítis, em Argos, que em sua queda esmagou um espectador, que outro não era senão o culpado pela morte de Mítis, no momento em que a olhava –, pois fatos semelhantes não parecem devidos ao mero acaso.

15. Daí resulta, necessariamente, tais fábulas (ou mitos) serem mais belas(os).

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