Previsões Econômicas

big_previsoes

Bráulio Borges é economista-chefe da LCA Consultores. Está entre os previsores mais conhecidos de O Mercado. Escreveu sua defesa na FSP (03/01/13). Depois, Clóvis Rossi lhe criticou (FSP, 06/01/13) duramente. Reproduzo abaixo a polêmica recente a respeito de previsões econômicas.

“Todo começo de ano acontece a mesma coisa: exacerbam-se as críticas do grande público aos analistas econômicos (economistas principalmente) e às suas projeções, a ponto de muitos questionarem a real utilidade desses profissionais para a sociedade como um todo.

No início de 2013 não será diferente. E isso nunca vai mudar. Por quê? Porque os erros são inevitáveis, em razão de uma série de fatores que vou elencar a seguir.

Em primeiro lugar, o mundo real é caracterizado pela incerteza com relação ao futuro. Embora há muitas décadas venha se tentando quantificar, através da análise de riscos, parte dessas incertezas, o fato é que elas sempre estarão presentes.

Eventos como uma guerra, a quebra de um grande banco ou catástrofes naturais são muito difíceis de serem previstos com uma antecedência razoável, mas geram efeitos relevantes sobre o ambiente econômico.

Em segundo lugar, um bom analista econômico, ao utilizar seus modelos estatísticos de projeção, sabe (ou deveria saber) que um modelo é sempre uma simplificação da realidade, por definição.

Por mais que se possa (e se deva) melhorar os modelos ao longo do tempo, eles nunca conseguirão captar toda a complexidade do ambiente econômico do mundo real.

Não custa lembrar, também, que uma projeção central gerada por um modelo qualquer sempre está associada a um intervalo de confiança e também a uma probabilidade de ocorrência.

Aproveitando esse último ponto, já entro na terceira questão: a grande maioria dos analistas possui mais de um cenário, cada um deles com suas respectivas probabilidades que podem ir mudando ao longo do tempo.

Obviamente, quem tem dez cenários na prática não tem nenhum. Mas, usualmente, os analistas têm dois ou três cenários – e nem sempre os usuários das projeções e o público sabem (ou têm interesse em saber) disso.

Em quarto lugar, às vezes o próprio passado é incerto: em meados de 2011, o governo americano revisou fortemente o PIB desde 2008, mostrando que a recuperação da economia não foi tão brilhante assim; os dados históricos podem ser fraudados (como ocorreu nos escândalos contábeis no início da década passada nos EUA ou com as finanças da Grécia recentemente) e, algumas vezes, escondidos propositadamente.

Em quinto lugar, o mundo real é permeado de múltiplos equilíbrios muitas vezes instáveis. Um país que em um momento é considerado solvente pode, do dia para a noite, tornar-se insolvente aos olhos do mercado.

Nem sempre é trivial prever esses movimentos. Mas eles ocorrem o tempo todo.

Ainda assim, apesar de todos os erros que cometemos em nossas projeções, elas são importantes para subsidiar o planejamento e a tomada de decisão de consumidores, empresas, bancos e governos.

O processo de construção dessas projeções auxilia na melhor compreensão da realidade, o que contribui para reduzir a incerteza com relação ao futuro. Certamente é bem melhor enxergar a luz no final do túnel (mesmo que possa estar bem distante) do que tentar caminhar na completa escuridão.”

CLÓVIS ROSSI

Não são previsões, são chutes

“Esqueça a catarata de previsões sobre o desempenho da economia publicadas recentemente. Não passam de “chute”.

É a cândida confissão de um “chutador”, Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, em artigo publicado quinta pela Folha.

Borges acusou o golpe representado pelas críticas do “grande público aos analistas econômicos (economistas principalmente) e às suas projeções” (para o desempenho da economia em 2012).

Resolveu, então, explicar que “os erros são inevitáveis em razão de uma série de razões” que ele lista em seguida.

Depois de ler as tais razões, a única conclusão possível é a de que não há previsões, mas “chutes”, até porque a primeira razão já seria suficiente para não tomar palpites de analistas/economistas como se fossem a palavra de Deus: “O mundo real é caracterizado pela incerteza em relação ao futuro”.

Tremenda obviedade, mas necessária porque boa parte dos economistas se acha profeta infalível. Para aliviar a barra dos economistas tapuias, é forçoso dizer que no mundo todo todo mundo “chuta”.

A propósito: na quinta-feira, Nick Malkoutzis, subeditor da edição em inglês do jornal grego “Kathimerini”, exumou, em artigo para o “Guardian”, previsão de William Buiter, economista-chefe do Citigroup, para quem a Grécia deixaria a eurozona no início de 2013.

A Grécia não só continua no euro como, em novembro, os depósitos em seus bancos aumentaram pelo terceiro mês consecutivo, sinal de confiança, depois da sangria de depósitos dos três anos anteriores.

Não quer dizer que a Grécia saiu da crise, mas, se os clientes do Citi fizeram apostas com base no “chute” de Buiter, perderam dinheiro. Mas o economista-chefe continua no cargo e continua “chutando”.

É uma pena que os jornalistas brasileiros não sigamos a recomendação do título do artigo de Malkoutzis: “Única certeza sobre a Grécia em 2013? Previsões são fúteis“.

No Brasil, continuamos ano após ano reproduzindo acriticamente previsões dos mesmos oráculos que erram ano após ano. Nem sequer tomamos o cuidado de avisar aos leitores que as previsões estão sujeitas a “erros inevitáveis”, para voltar ao texto de Bráulio Borges.

Anos atrás, sugeri em coluna na página A2 que excluíssemos da lista de fontes todos os analistas/economistas que tivessem errado por x pontos percentuais suas previsões sobre o ano anterior. A sugestão continua valendo, embora admita que ela se tornou impraticável agora porque todos os oráculos erraram nas suas previsões sobre o crescimento brasileiro.

Borges termina seu artigo defendendo a validade do que chama de “projeções“, mas que, na verdade, são “chutes“. Escreve: “É bem melhor enxergar a luz no final do túnel (mesmo que possa estar bem distante) do que tentar caminhar na completa escuridão“.

Bom argumento, desde que os jornalistas deixemos claro que a luz pode ser a da saída do túnel ou a de um trem vindo em direção contrária ou de um vagalume ou de qualquer outra ilusão ótica.”

1 thought on “Previsões Econômicas

  1. Fernando, vou pegar carona nesta discussão. Pobre dos colegas que se aventuram (é trata-se de uma aventura, e direi porque) a previsões, sem pensar que não há previsões que apresentem a mínima lógica se não considerarem o maior agente de frustração de qualquer prognóstico, a saber: o gabarito usado para medida da economia é um papel moeda: o dolar dos EUAN. Não há o que se prever se o gabarito varia de tamanho. ESTE É O PROBLEMA QUE TEREMOS DE RESOLVER !

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s