Previdência Complementar Privada: Passado Recente e Futuro Esperado

Rentabilidade X Taxa de Administração

Karla Spotorno (Valor, 16/01/13) alerta que, na média, a rentabilidade da maioria dos segmentos da previdência privada excedeu por pouco ou nem conseguiu superar o CDI, referencial do mercado financeiro para as aplicações mais conservadoras, segundo levantamento feito pela NetQuant e pela Towers Watson. O estudo também demonstrou uma equação desanimadora para os investimentos, apesar de previsível. Quanto maiores os custos para investir, pior a rentabilidade. Quem aceitou pagar 3% ao ano ou mais de taxa de administração em 2012, não conseguiu os 8,4% de retorno entregue pelo CDI nos fundos de renda fixa ou com pouca renda variável. Como mostra a tabela acima sobre o segmento com a mais alta taxa de administração, somente o investimento com 49% de renda variável superou o referencial conservador, oferecendo uma rentabilidade média de 9,93% em 2012.

Quando comparadas aos resultados dos fundos de investimentos, as rentabilidades médias da previdência se mostram ainda mais acanhadas. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os cinco segmentos mais rentáveis entre os fundos entregaram mais de 18% de retorno médio no ano passado. No grupo dos fundos de previdência com a menor taxa de administração, o segmento mais rentável foi o mais arrojado (com 49% de renda variável), registrando uma rentabilidade média de 11,71%. O valor é exatamente 10 pontos percentuais menor que o dos fundos renda fixa índices (21,71%), campeões no levantamento da Anbima. A diferença não pode ser desprezada, sobretudo pelo fato de a Previdência Complementar ter sido o investimento preferido da pessoa física. Segundo a Anbima, a categoria foi a que mais captou em 2012. A diferença da captação líquida (saldo entre os aportes e os resgates) para a segunda colocada, a dos fundos multimercados, foi de quase R$ 15 bilhões.

Os resultados em termos de rentabilidade são ruins há muito tempo. Antes de 2012, quando os juros eram mais altos, o retorno médio era igualmente mais alto. Agora, a situação é diferente. Os resultados da pesquisa trazem à tona uma característica da previdência privada aberta no Brasil. É um produto caro. Se fosse surpreendido com um retorno tão baixo e custo alto, o investidor deveria sacar, caso não tivesse tributação mais elevada sobre esse saque.

Nos últimos anos, em menor ou maior grau, as seguradoras afirmam estar atenuando o peso do ônus que impõem aos clientes. Algumas reduziram a taxa de administração. Outras acabaram com a cobrança da taxa de carregamento na entrada. Essa taxa é um percentual do aporte do cliente que é desviado para o caixa da seguradora. A Icatu Seguros afirma que nos seus produtos não existe mais esse custo. A seguradora optou por cobrar o carregamento na saída dos recursos, ou seja, quando o participante decide sacar o dinheiro. Segundo a empresa, quanto mais tempo ele deixa o capital investido, menos paga de carregamento. Em três anos, o pedágio na saída é zerado.

Muitos investidores já entenderam que precisam pagar menos para acelerar a construção da futura aposentadoria. Há cerca de seis anos, uma taxa de administração cara motivou o investidor a portar o seu plano para uma nova seguradora. Mesmo satisfeito com a escolha, ele não deixa de prestar atenção ao tema. Com certa regularidade, passeia pelo mercado para verificar as taxas de administração praticadas por outras empresas. É uma forma de se certificar que está sendo onerado de forma justa por sua seguradora.

Controlar os custos do plano de previdência é apenas uma das medidas que o investidor precisa colocar em prática imediatamente. As pessoas devem entender que a previdência é para o longo prazo. Também precisam assimilar que esse tipo de investimento pode apresentar volatilidade. Ao que tudo indica, o investidor não parece muito à vontade para aumentar o risco de sua aplicação migrando para a renda variável. Segundo o levantamento da NetQuant e da Towers Watson, a captação líquida dos fundos com renda variável foi negativa pelo segundo ano consecutivo. Em 2012, esse segmento perdeu R$ 1,35 bilhão. Os fundos abertos sem renda variável captaram R$ 31,5 bilhões. Nem precisa usar uma bola de cristal para prever o comportamento do investidor. Quando a bolsa cai, o pessoal tira o dinheiro das ações. Em 2011, o Índice Bovespa (Ibovespa) caiu 18,11%. Em 2012, subiu 7,4%, sendo que a maior parte desse ganho aconteceu em dezembro.

O retrato do mercado pode ser visto nos resultados da HSBC Seguros. Os fundos que menos cresceram foram aqueles com componente da bolsa. O fundo que mais captou foi um de renda fixa com risco de crédito. Concentrou 40% da captação líquida de janeiro a novembro. O segundo fundo mais atraente ao cotista do HSBC foi um de renda fixa com títulos indexados à inflação. Lançado em outubro, o portfólio já tem mais de R$ 200 milhões de patrimônio líquido.

Na Icatu Seguros, os clientes continuam buscando aplicações mais conservadoras. O que tem sido feito é tentar oferecer opções mais sofisticadas, como o fundo com títulos de inflação. Não faz sentido ter previdência com alta liquidez. A empresa estuda o lançamento de um novo produto com renda variável focado em ações de empresas que pagam bons dividendos.

A oferta de produtos adequados ao perfil do investidor não é suficiente para explicar o sucesso da captação líquida dos portfólios privados em 2012. Um fator importante é o esforço de vendas. A força de vendas é essencial para o investidor entender as vantagens da aplicação e, inclusive, aplicar de olho no longo prazo.

É importante destacar que a pesquisa feita pela NetQuant e pela Towers Watson com 711 fundos de previdência privada indica o retorno médio do setor. Naturalmente, há gestores que conseguiram rentabilidades melhores. É o caso da Icatu. Um de seus fundos mais arrojados, o multimercados Brasil Total, rendeu 37,16% em 2012. O Itaú Unibanco Vida e Previdência também desponta na pesquisa com bons resultados. Dois de seus fundos de renda fixa abertos para captação aparecem como os mais rentáveis, proporcionando ganhos entre 27% e 28%.

Muitas vezes, porém, fundos de maior retorno e com taxas menores são acessíveis apenas a clientes com maior volume para aplicar. Se esses números campeões estão muito distantes do que o investidor lê no extrato de sua previdência, talvez seja o momento de copiar, não esquecendo de conferir a relação custo e retorno. O investidor deve ter em mente que retornos maiores exigem custo menor, mais risco ou mais prazo.

O mercado de previdência privada ganhou uma árdua mas já prevista tarefa neste início de ano. Não se trata apenas de substituir os títulos de curto prazo por outros mais longos, como determinou a resolução 4.176, publicada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) no dia 2 de janeiro. A obrigação de alongar o prazo médio das carteiras é a parte mais fácil da missão dada pelo governo federal. O maior desafio é explicar ao investidor as mudanças. O investidor está acostumado a enfrentar pouca volatilidade em suas aplicações e também está habituado a olhar diariamente a variação das cotas. Em um investimento de longo prazo, isso não faz muito sentido.

O alongamento dos prazos de vencimento dos títulos que compõem os investimentos no Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e no Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) – como são chamados os planos de previdência aberta – tende a implicar em um aumento da volatilidade das cotas quando os ajustes começarem a ser feitos. Essa característica não deveria ser motivo de resgates desesperados pelos participantes da previdência, afinal o objetivo do produto é usufruir dos ganhos na aposentadoria. Aos poucos, as pessoas vão perceber que os melhores retornos estarão no longo prazo e vão acabar se acostumando com essa mudança.

Há dúvida se o investidor se assistirá com o aumento da volatilidade da mesma forma que aconteceu, por exemplo, no episódio da marcação a mercado dos fundos de investimento em 2002 – quando produtos conservadores tiveram variações bruscas de resultado. A situação agora é completamente diferente. Além de as empresas terem mais dois anos e 11 meses para se adequarem à norma do CMN, a mudança é reflexo de um novo cenário macroeconômico. O investidor já está percebendo que o futuro esperado se alterou. A poupança não é mais a mesma, nem o mercado imobiliário. Agora, entenderá que a previdência também mudou. O mesmo deve acontecer com os fundos de investimento.

No Itaú Unibanco, a estratégia para alongar o prazo médio da carteira está na oferta de novos fundos. Segundo Nascimento, os produtos que foram lançados no ano passado já tinham prazos maiores. Essa foi a forma que a empresa encontrou para atrair o aplicador que já entendeu que a aplicação não foi desenhada para sofrer um resgate poucos meses depois. “É importante que o investidor entenda que a poupança que ele está fazendo é para o longo prazo. Se ele não entende e sai de forma precoce, fica complicado para o gestor aplicar, por exemplo, em títulos de dez anos para um projeto de infraestrutura”, afirma Nascimento.

Pela resolução 4.176, o prazo médio remanescente das carteiras dos fundos de previdência deve ser de 1.825 dias (cinco anos). Considerando derivativos, o prazo médio das carteiras pode ser menor e ficar em 1.095 dias (três anos). Segundo Nascimento, as estimativas mostram que 70% das carteiras ainda estão alocadas em ativos de curto prazo. A adequação do prazo médio deve ser concluída até dezembro de 2015. “A substituição será gradual. E não vão faltar ativos. A resolução veio em linha com o que esperávamos”, diz o executivo do Itaú Unibanco e presidente eleito da Fenaprevi. Ele assume o cargo em 28 de fevereiro.

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