O Mestre

O jornalista Lawrence Wright escreveu, há dois anos, uma reportagem para a revista “The New Yorker” sobre os segredos da cientologia, usando como fonte o diretor Paul Haggis, ganhador do Oscar por “Crash” (2004). Haggis era do alto escalão da igreja e largou tudo porque a cúpula da cientologia não apoiou a causa do casamento gay. Ele tem duas filhas homossexuais.

O texto inspirou o livro “Going Clear: Scientology, Hollywood, and the Prison of Belief“,  que a Cia. das Letras deve lançar no Brasil em junho de 2013. Wright conta histórias de astros (do casamento de Tom Cruise ao interesse de Jerry Seinfeld na religião) e se dedica a entender a atração exercida pela cientologia e por seu criador, L. Ron Hubbard. A igreja contesta trechos do livro no site lawrencewrightgoingclear.com.

Será que o filme O Mestre é apenas para os seguidores da cientologia “vestirem a carapuça” ou serve para todos os discípulos de qualquer seita ou religião? Todas beiram o messianismo, propagando fé em vida passada ou futura, pregando a espera de um Messias ou recordando lenda milenar. Não passam de um movimento ideológico que prega a missão de que estaria investido um homem (ou grupo de homens) na salvação da humanidade.

Nesse sentido, o filme ganha caráter mais universal ao mostrar como um charlatão pode criar uma seita e enriquecer-se usando a ingenuidade de pessoas desestruturadas que desejam buscar algo em que acreditar melhor do que o mundo terreno ou materialista.

O velho charlatão era aquele que se apresentava nas praças ou nas feiras para vender drogas e elixires reputados milagrosos, seduzindo o público e iludindo-o com discursos e trejeitos espalhafatosos. Aproximava-se de um mercador ambulante. Dizia ser possuidor de remédios infalíveis tal como um curandeiro milagroso.

Todo aquele que, por seus conhecimentos empíricos e retóricos, faz-se passar por médico e pratica a arte de curar – quaisquer vícios, do alcoolismo à droga – sem estar legalmente autorizado por formação científica, é um charlatão. Mas antes que o descubram, tendo certa empatia com pobres-coitados, isto é,  a capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende, etc., pode habilmente se tornar um guru, um pastor um padre, um bispo, e – quem sabe – um papa!

O que não falta é gente incompetente e sem escrúpulos que recorre a meios condenáveis para atrair clientela. Há pessoa muito esperta que, ostentando qualidades que realmente não possui, procura auferir prestígio e lucros pela exploração da credulidade alheia. Na verdade, “o mestre” é mistificador, trapaceiro, impostor, valendo-se de truques, jogos de esperteza ou expedientes para levar as pessoas a acreditarem nas suas ações.

Como é problema que continua a ocorrer inclusive entre “pessoas bem nascidas” (sic), como os ricos incultos de cidades ditas avançadas, como Nova York, de acordo com o filme, mas poderia ser mesmo no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Em todo lugar há gente esperta e aquele “monte” de gente incauta que não tem cautela, descuidada, imprudente. Por serem destituídas de malícia, crédulas, ingênuas, acabam como inocentes úteis e vítimas das trapaças de “O Mestre”.

André Barcinski, crítico da Folha de S. Paulo, acha que “O Mestre, sexto longa de Paul Thomas Anderson, confirma o cineasta como o mais instigante e surpreendente de Hollywood hoje”. O novo filme do diretor de “Sangue Negro“, estuda origem de culto nos moldes da cientologia

Não concordo que “o filme tem tema semelhante ao da obra-prima Sangue Negro (2007): a obsessão de uma personagem para tentar trazer sentido para sua vida em um mundo que não a entende”. Acho que no filme que mostra os primórdios da exploração do petróleo nos EUA, o protagonista é um empreendedor, no filme sobre a construção de uma seita religiosa, um vigarista de marca maior. Ele, na verdade, pratica o delito do “conto do vigário”, ou seja, através de um ato de má-fé, tenta ou consegue lesar ou ludibriar várias pessoas, com o intuito de obter para si uma vantagem. É um embusteiro, trapaceiro, velhaco.

Em “O Mestre“, são dois protagonistas que se encontram por acaso e se complementam: Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um veterano da Segunda Guerra, paranoico de guerra e alcoólatra, filho de mãe louca e pai alcoólatra, e Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), líder da seita “A Causa“. Dodd adota Quell como um dos seguidores da doutrina para fazer o “trabalho sujo”. Quell, quando vira devoto da Causa, torna-se o intimidador, perseguindo críticos e ameaçando quem se coloca entre Dodd e o avanço da sua doutrina.

Desde os anos 1960, a cientologia é acusada de impor seus métodos com violência. Há vários sites e livros escritos por seus ex-membros que revelam ações brutais de controle, além da perseguição de detratores da religião.

O filme é inspirado, em parte, na vida de L. Ron Hubbard, o fundador da cientologia, religião preferida de astros de Hollywood. Mas o filme não é uma “denúncia” da cientologia. Anderson parece mais interessado em explorar as causas do messianismo de Dodd e da fidelidade de Quell a seu novo “líder”.

A exemplo do magnata do petróleo de Daniel Day-Lewis em “Sangue Negro“, Anderson criou em Quell e Dodd personagens fascinantes. A comparação entre as soberbas atuações de Phoenix e Hoffman é o que mais justifica assistir o filme. A fotografia e também a trilha sonora elaborada por Jonny Greenwood (guitarrista do Radiohead) são destaques.

O roteiro não é sobre cientologia. “O Mestre” decepcionará quem espera uma radiografia da misteriosa doutrina que tem uma crença baseada em alienígenas e é contra a utilização de remédios para tratar de doenças mentais.

A trama sobre a origem de uma seita chamada “A Causa“, na década de 1950, tem, no entanto, similaridades com as raízes das religiões. A começar por seu “guru”, o físico e filósofo Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), inspirado no criador da cientologia, o escritor de ficção científica L. Ron Hubbard (1911-1986).

No contraponto do líder frio que promete resolver traumas com uma espécie de regressão hipnótica, há Freddie Quell (Joaquin Phoenix), ex-soldado americano que volta para casa após o fim da Segunda Guerra Mundial e busca fuga de seu trauma com álcool e sexo. “Militares gostam de ter comando e, quando retornam das missões, procuram uma direção. Só que não há ninguém apontando o caminho“, disse o cineasta.

O teor do roteiro fez com que Tom Cruise, indicado ao Oscar de ator coadjuvante por “Magnólia“, também dirigido por Paul Thomas Anderson, se indispusesse com o amigo diretor. Lucia Winther, representante da cientologia no Brasil, diz que não há orientação de boicote do longa e afirma, mesmo sem ter visto o filme, que a representação de Hubbard “é uma fraude”.

“Não baseei meu personagem em Hubbard. Todas as religiões são baseadas em maluquices“, responde Hoffman, ator indicado ao Oscar pelo papel, assim como Amy Adams, excelente atriz que faz a esposa de Dodd, e o extraordinário Phoenix.

Cientologia

3 thoughts on “O Mestre

  1. Prezado Fernando,

    Ainda não vi O Mestre, mas como sugestão em tempos de renúncias e de olhares voltados para o Vaticano, rever Viridiana, de Luis Buñuel é uma boa proposta. Filme censurado em muitos países e apedrejado pelo Vaticano, Buñuel faz críticas sociais e religiosas com sagacidade (as cenas que fazem referência à Santa Ceia, a do assassinato por um punhado de dinheiro, a brutalidade que a pobreza gera no ser humano, a transformação de Viridiana), enfim, melhor ver o filme e estar atento para os personagens e cenas, porque o senhor Luis Buñuel gira a metralhadora em várias direções.

    Aliás, sobre ‘Mestre’, o Vaticano acabou de perder um, mas já já colocam outro em seu lugar.

    Muito bom ler os textos do seu blog Fico atenta para os ensinamentos. Obrigada.

    Att.

    Clélia

    • Prezada Clélia,
      aprecio muito seus inteligentes comentários.
      Quanto à Santa Ceia, hoje, consegui baixar o filme A Última Ceia! Eu o assisti há anos, mas pelo que lembro tem referência à revolta dos escravos no Haiti. Quero o rever.
      Outra dica: acabei de rever O Poder Vai Dançar, que coloquei na lista de Filmes da Minha Vida, em série de posts a partir de quarta-feira, dia 27/fev.
      Veja que foi tema de tese na USP:
      O poder vai dançar (Cradle will rock, 1999), dirigido por Tim Robbins, ajuda entender a História, os avanços e limites de dois momentos históricos: a década de 1930 e a de 1990 nos Estados Unidos. Definido como uma história predominantemente verdadeira, o filme apresenta personagens e fatos reais e fictícios, que se alternam e se relacionam. Ele é composto por uma série de narrativas, aparentemente fragmentadas e desconexas, mas cujas relações são construídas em todo o seu decorrer. De modo geral, podemos dizer que o filme retrata a década de 1930, momento de potencial revolucionário na História dos Estados Unidos, uma vez que a crise econômica potencializou e tornou visíveis os problemas decorrentes do sistema capitalista. Em seu intento, o diretor se aproxima da concepção benjaminiana de História, à medida que, mais do que simplesmente reproduzir a narrativa desse período, opta por se apropriar de um momento explosivo do passado, carregado de elementos em comum com o presente, e utilizar a citação do passado como fonte de inspiração no combate presente. Ou seja, parte desse passado para na verdade dizer algo sobre a realidade em que está inserido, da década de 1990. Assim, ao pensar sobre esses contextos históricos, nos possibilita refletir sobre suas características, motivações e conseqüências. Para tanto, Tim Robbins se utiliza de elementos do teatro épico, e não apenas retrata os elementos históricos do período, mas busca principalmente provocar uma reflexão por parte da audiência. E tal reflexão vai além do entendimento da história, avança sobre questões como o reconhecimento pelo artista de sua condição de proletário da cultura e sobre o limite que se coloca entre fazer arte paga por empresas e a prostituição, entre outras.
      Grato,
      abraço

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