Conceito de Dinheiro e Origem de Leis sobre Usura

Aula 2 Conceito de Dinheiro

shylockFilme: O Mercador de Veneza (2004), de William Shakespeare – Sinopse: trata-se de uma das obras mais polêmicas do célebre dramaturgo inglês. Escrito no findar dos anos 1500, época em que os judeus estiveram ausentes da Inglaterra (foram expulsos em 1290, e só seriam novamente aceitos em 1655), capta as chocantes caricaturas feitas pelos ingleses. Em O Mercador de Veneza, o personagem que mais chama a atenção é o vilão, criado para dar tom cômico à peça. Trata-se do agiota e judeu, daí a polêmica, Shylock, retratado como indivíduo desprezível. A vítima, o cristão Antônio, cidadão bem sucedido de Veneza, faz contrato atípico com o agiota, penhorando 453 gramas de sua própria carne como colateral. O judeu faz questão de cumprir a garantia do sistema contratual necessário ao funcionamento regular da Economia Monetária, o que levaria o cristão à morte.

Assista OnLineO Mercador de Veneza

PostO Pesadelo Americano: O Sonho AcabouFinanças Islâmicas.

ArtigoUsing The Merchant of Venice in Teaching Monetary Economics

A Igreja Católica acreditava que o usurário que adquirisse lucro sem nenhum trabalho e até dormindo contrariava a Palavra de Deus, que diz no livro do Gênesis capítulo 3 versículo 19: “comerás teu pão com o suor do teu rosto“. Assim, o usurário não vende a seu devedor nada que lhe pertença, mas apenas o tempo, que pertence a Deus. Disso não deve tirar nenhum proveito. No Islã, o Sagrado Alcorão diz: “2:278 Ó crentes, temei a Allah e abandonai o que ainda vos resta da usura, se sois crentes.

As doutrinas cristãs e judaica foram baseadas em diferentes intepretações das escrituras bíblicas do Velho Testamento concernentes a empréstimo com juro. A escritura do Deuteronômio é o que estabelece a doutrina cristã de maneira diferente da lei judaica. O padrão duplo deuteromiceto faz distinção entre “irmão” e outros. Porque os judeus consideram a si descendentes de Jacob, eles são “irmãos” e não podem cobrar juro um dos outros, mas podem cobrar juro de estrangeiros ou não-judeus como os cristãos. Por isso, Shylock, personagem judeu na peça de Shakespeare, refere-se a Jacob em sua defesa da usura.

Em contraste, cristãos consideram todos os homens “irmãos” porque todos os homens são descendentes de Adão. Em sermão, Cristo instrui a multidão a tratar todos os homens da mesma maneira que cada qual deseja ser tratado. Dessa perspectiva cristã, não há diferença entre “irmãos” e outros, porque todos os homens devem ser tratados da mesma maneira.

Apesar dessa visão cristã, a sociedade inglesa da época de Shakespeare, assim como a europeia continental,  pode ser descrita como antissemita. Os judeus ingleses haviam sido expulsos, durante a Idade Média, e não puderam retornar até o governo de Oliver Cromwell. Frequentemente, eram retratados nos palcos da época como uma caricatura horrenda, com narizes em forma de gancho e perucas vermelhas chamativas, quase sempre descritos como avaros usurários. Invariavelmente, os judeus eram descritos como maus, ardilosos e gananciosos.

Durante o século XVII, em Veneza e diversos outros lugares, os judeus foram obrigados a usar um chapéu vermelho em público, para que fossem facilmente identificados. Não cumprir esta regra poderia até mesmo levar à pena de morte. Os judeus também tinham que viver em gueto, bairro constantemente vigiado por guardas cristãos, supostamente “para sua própria segurança”. Estes guardas deviam ser pagos pelos próprios judeus.

Na recente versão para o cinema de O Mercador de Veneza, filmada em 2004, Antônio é mostrado cuspindo em Shylock, no início do filme. Caracteriza o ódio de Shylock por Antônio como decorrente deste tratamento antissemita que ele sofre do outro.

Os leitores podem ver a própria peça de Shakespeare como uma continuação desta tradição antissemita. Uma interpretação da sua estrutura afirma que Shakespeare queria contrastar a misericórdia dos principais personagens cristãos com o espírito vingativo de um judeu, que não tem a graça religiosa necessária para compreender a misericórdia. Da mesma maneira, é possível que Shakespeare tenha considerado a conversão forçada de Shylock para o cristianismo como um “final feliz” para o personagem, já que, para uma platéia cristã, o ato teria salvo sua alma e permitido que ele fosse aceito no céu no dia de sua morte. Outra interpretação é que “a peça se baseia nas moralidades medievais, em que a Virgem Maria (representada por Pórcia) argumenta em defesa do perdão às almas humanas contra as acusações implacáveis do Diabo (Shylock)”.

Muitos leitores e espectadores modernos, pelo contrário, veem a peça de Shakespeare como um apelo por tolerância. Para eles, Shylock seria um personagem afável, citando como evidência disto o fato do ‘julgamento’ dele no fim da peça ser uma farsa jurídica, com Pórcia atuando como juiz quando não tinha direito de fazê-lo. Os personagens que mais acusam Shylock de desonestidade recorrem à táticas condenáveis para vencê-lo.

A despeito de quais fossem as próprias intenções de Shakespeare ao escrever a peça, ela foi utilizada por antissemitas ao longo da história. O próprio subtítulo da edição de 1619, “With the Extreme Cruelty of Shylock the Jew…” (“Com a Extrema Crueldade de Shylock, o Judeu”) parece descrever de maneira apropriada como Shylock era visto pelas plateias inglesas. Os nazistas usavam o usurário Shylock em sua propaganda antissemita. Pouco tempo depois da Kristallnacht, em 1938, O Mercador de Veneza foi transmitido via rádio para todo o país alemão, e produções da peça foram encenadas em Lübeck (1938), Berlim (1940) e outros pontos do território nazista.

A maneira como os judeus foram descritos na literatura inglesa ao longo dos séculos carrega de maneira forte “a marca de Shylock”. Com algumas poucas variações, a maior parte das obras literárias do país até o século XX mostram o judeu típico como “um forasteiro rico, lascivo e avarento, tolerado apenas por suas reservas de ouro”.

Já a inexplicável depressão de Antônio — “Não sei, realmente, por que estou triste” — e sua completa devoção a Bassânio levaram alguns críticos a desenvolver a teoria de que ele sofreria de amor não-correspondido por seu amigo, e estaria deprimido por Bassânio ter chegado na idade em que deve casar-se com uma mulher. Em suas peças (e em sua poesia), Shakespeare frequentemente descreveu laços entre homens com diferentes graus de homossocialidade, o que fez com que alguns críticos especulassem sobre uma possível correspondência por parte de Bassânio às afeições de Antônio, apesar de sua obrigação de se casar.

Outros intérpretes da peça veem o suposto desejo sexual de Antônio por Bassânio como questionável. Michael Radford, diretor da versão de 2004 com Al Pacino, explicou que, embora o filme contenha uma cena onde Antônio e Bassânio se beijem, a amizade entre os dois é platônica, condizendo com a visão predominante da amizade masculina na época em que se passa a peça. Jeremy Irons, o intérprete de Antônio, numa entrevista, concordou com o ponto de vista do diretor, afirmando que “não interpretou um Antônio gay“. Joseph Fiennes, no entanto, que interpretou Bassânio, encorajou uma interpretação homoerótica – e até mesmo surpreendeu Irons com o beijo durante a cena, filmado em apenas uma tomada. Fiennes defendeu sua escolha, afirmando: “eu jamais inventaria algo antes de fazer meu trabalho de investigação sobre o texto. Se você olhar a escolha de linguagem … você consegue ler um linguajar muito sensual. Isto é a chave para mim nesta relação. O melhor de Shakespeare e o porquê dele ser tão difícil de ser definido é a sua ambiguidade. Ele não está dizendo ‘eles são gays’ ou ‘eles são héteros’, eles está deixando isso a cargo dos atores. Achei que deveria existir um grande amor entre os dois personagens (…) existe uma grande atração. Não acho que eles tiveram relações sexuais, mas isto é o público que deve decidir.”

Leia maisO Mercador de Veneza e a Teoria dos Contratos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s