Os Filmes de Minha Vida – Fase na Terceira-Idade em Campinas (2008-2013)

Para encerrar, por ora, essa séries de posts com “Os Filmes da Minha Vida”, embora sem ter encerrado minha vida, meu sentimento é que a história pessoal de muitos brasileiros se passaram dentro do contexto de vida que também viveram seus ídolos. A meu ver, a recuperação dessas fases da vida nacional através de documentários tem sido o que mais me emocionou recentemente. Já dá para dar um curso para alunos de gerações mais novas sobre o que se passou no Brasil dos anos 60s, 70s, 80s, 90s… Os 2000 eles ainda estão vivendo.

Vamos apresentar os resumos dos roteiros, neste post, na ordem das décadas em que eles retratam o Brasil – e não seguindo a data produção cinematográfica.

Anos 50:

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Com depoimentos comoventes e curiosos de amigos e grandes personalidades brasileiras como Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Tônia Carrero, Toquinho, Carlos Lyra, Antônio Candido, Edu Lobo, Francis Hime e Miúcha, o longa traz interpretações de Camila Morgado  e de Ricardo Blat. O show, o ponto de partido do longa, conta com grandes músicos da MPB – Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Zeca Pagodinho, Yamandú Costa, Renato Braz, Mônica Salmaso, Mariana de Maraes, Sergio Cassiano, MS Bom, Nego Jeif, Lerov e Mart´Nália – interpretando grandes sucessos musicais de Vinicius.

Nascido em 1913, no Rio de Janeiro de família de classe média, Vinicius de Moraes foi testemunha e personagem de importantes transformações na cidade e desenvolveu um dos percursos mais originais da cena cultural brasileira do século XX. Ousou reunir a cultura erudita e popular, compôs, em parceria com Tom Jobim, uma das músicas mais tocadas em todo o mundo, em todos os tempos.

O documentário não restringe apenas à vida artística de Vinicius, sua vida pessoal, marcada por muitas paixões, nove casamentos e amizades duradouras, também é retratada por raridades em arquivos, depoimentos de amigos e familiares. A essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretação de muitos de seus clássicos.

Emocionou-me ao ver a Vida, os amigos, os amores de Vinicius de Moraes, autor de mais de 400 poesias e cerca de 400 letras de música. Sentir o clima do Rio dos anos 50, em plena tarde de sol, no próprio Rio de Janeiro, depois de uma praia de manhã, foi injeção de ânimo para Viver.

Anos 60:

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Loki (2008): É um documentário biográfico brasileiro de 2008 de longa-metragem (120 minutos) dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e produzido pelo Canal Brasil sobre a vida e a obra de Arnaldo Baptista, líder e fundador da banda Os Mutantes, um dos grupos musicais mais importantes da Música Popular Brasileira e fundamental no movimento conhecido por Tropicália. Além do próprio Arnaldo Baptista, vários artistas que acompanharam e participaram da trajetória dos Mutantes e da posterior carreira solo do músico, prestam longos e emocionados depoimentos: Tom Zé, Sérgio Dias (irmão de Arnaldo), Gilberto Gil, Roberto Menescal, Liminha. Os fãs mais recentes como Lobão, Sean Lennon e Devendra Banhart – que afirma que os Mutantes são melhores que os Beatles, além de Kurt Cobain (que aparece falando dele numa cena) e o crítico Nelson Motta também prestam sua homenagem. Pela família falaram a mãe de Arnaldo, a pianista clássica Clarisse Leite; a segunda mulher, a atriz Martha Mellinger (com quem teve um filho), e a atual companheira Lucinha Barbosa. A ex-mulher e ex-cantora dos Mutantes, Rita Lee, contudo, negou-se a participar dos depoimentos, embora tenha concordado em ceder imagens em que ela aparece, para o filme.

Na parte final o documentário registra a volta dos Mutantes em 2006 (com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee), com destaque ao show em homenagem à Tropicália realizado no Barbican Centre, em Londres e o show em 2007, no aniversário de São Paulo.

O filme foi exibido em 2008 no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ganhando o prêmio de Melhor Documentário – Júri Popular em ambas as ocasiões. Arnaldo compareceu às sessões e foi ovacionado pelo público.

Na trilha-sonora são ouvidos vários clássicos dos Mutantes, como Qualquer Bobagem, Ando Meio Desligado, Balada do Louco, Top Top, Tecnicolor e Panis et Circenses, algumas delas em versões raras, além de músicas da primeira banda de Arnaldo Baptista, O’Seis; de sua carreira solo; e de outros projetos idealizados pelo compositor, como a peça de teatro Heliogábalo, da qual foi diretor musical, e os grupos Patrulha do Espaço e Unziotro.

Em circuito comercial, Loki foi lançado em 19 de junho de 2009. O filme começa mostrando Arnaldo na atualidade, pintando quadros em sua casa em Juiz de Fora (MG). Ele e o irmão relembram a infância e o início da carreira de músicos, acompanhando o irmão mais velho Cláudio que queria montar uma banda de rock. É dito que Arnaldo vendeu um “dólar de ouro” para comprar seu primeiro contrabaixo. Na escola, eles conheceram Rita Lee, que tinha uma banda só de mulheres. Como eles consideravam que tocavam bem e cantavam mal e que elas cantavam bem e tocavam mal, os grupos acabaram por se mesclar, com Rita Lee se tornando a principal vocalista da nova banda que surgiu: Os Mutantes. Os irmãos dizem que a presença de Rita os diferenciava de outras bandas de rock, principalmente nas roupas que usavam.

É analisado o momento fundamental da carreira de “Os Mutantes”, quando concordaram em se apresentar acompanhando Gilberto Gil cantando “Domingo no Parque” no III Festival da Canção de 1967, um dos eventos televisados de maior audiência no país, na época. O baterista Cláudio não concordou com a ideia, pois achava que a música não era rock (e não se apresentou) mas Arnaldo deixa claro numa entrevista dada no programa, que queria partir para um som basicamente nacional, o que significaria se afastar da influência do rock internacional que na época caracterizava a Jovem Guarda.

Reconhecidos internacionalmente, eles se apresentaram na Europa em 1970, na mesma época em que Gil e Caetano Veloso estiveram exilados em Londres. A partir desse momento, os integrantes da banda e principalmente Arnaldo mergulharam nas experimentações de drogas pesadas tais como o LSD, o que prejudicaria irreversivelmente a convivência dos integrantes e a qualidade das apresentações, conforme lamenta Liminha, um dos componentes da época. Ele entrara em 1971, juntamente com o baterista Dinho.

Nesse momento, Os Mutantes começaram um som mais progressivo, o que teria desagradado Rita Lee e levou a que abandonasse o grupo. Essa hipótese não é totalmente tida como a única explicação da saída da cantora.

Arnaldo diz com ressentimento que Rita apoiou sua primeira internação em uma clínica psiquiátrica. Depois disso, ele ficou marcado no meio artístico, não conseguindo mais apoio dos companheiros, gravadoras e da própria mídia para prosseguir com sua carreira musical.

Um dos músicos que participaram da gravação do álbum solo de Arnaldo, Lóki (1974), diz que tinha receio de entrar para o projeto e relutou quando recebeu o convite do músico, pois sabia dos desequilíbrios dele. Acabou seguindo a intuição de que seria um “álbum histórico”, o que foi confirmado por estudiosos como Nelson Motta. Nas composições desse álbum, Arnaldo deixa claro sua dor pela separação de Rita e o fim de seu casamento e dos Mutantes logo a seguir.

São mostradas cenas dos projetos posteriores de Arnaldo, como a formação do grupo Patrulha do Espaço. Até que sua carreira em declínio é interrompida quando, ao ser internado pela quinta vez na ala psiquiátrica de um hospital em São Paulo em 1982, ele não aguentou e saltou da janela do terceiro ou quarto andar do prédio, no dia do aniversário de Rita, conforme ele conta amargamente.

No entanto, a família de Arnaldo chegou a processar o hospital, alegando a falta de grades na janela e que ele teria tentado fugir dos médicos e caiu acidentalmente. De qualquer modo ele sofreria graves lesões cerebrais e ficaria em coma por dois meses. Foi nesse momento que sua companheira atual, a ex-tiete Lucinha, começou a acompanhar o tratamento e nunca mais saiu de seu lado.

Depois desse momento difícil, com Arnaldo e Lucinha sofrendo também problemas financeiros dada a dificuldade de receberem os direitos autorais, o casal assistiria ao renascimento do interesse pelos Mutantes a partir de citações de vários artistas internacionais importantes, tais como David Byrne e Kurt Cobain, sendo que este tentou se encontrar com o Arnaldo em 1993 mas não conseguiu. Até que Sean Lennon, que faria o trabalho artístico do álbum Tecnicolor, que era para ser lançado em 1970 mas só o foi em 2000, com as canções em novas roupagens, convidou Arnaldo para uma apresentação em um show no Brasil em 2000. Ele não sabia mas foi a primeira apresentação de Arnaldo em vários anos.

Com o interesse renovado pelas suas canções, o irmão Sérgio se juntaria a Arnaldo e à cantora Zélia Duncan e relançariam o grupo Os Mutantes, se apresentando em Londres de 2006 e no Brasil em 2007, com Arnaldo totalmente a vontade com o palco e o público.

Tropicália

Tropicália (2012): Muito se falou e escreveu sobre o Tropicalismo, movimento que mudou profundamente não só a música como a cultura brasileira no final dos anos 1960, revelando os nomes de alguns de seus, até hoje, maiores ídolos – Caetano Veloso e Gilberto Gil –, mas sendo interrompido pelo confronto com a ditadura militar.

Quase cinco décadas depois do auge deste movimento, entre 1967 e 1969, o documentário “Tropicália“, de Marcelo Machado, reavalia suas manifestações, encontrando material para repensá-lo e ao seu contexto, revelando seus principais participantes e também suas raízes e precursores.

O filme consumiu cinco anos de pesquisa e foi bem-sucedido em vários aspectos. Um deles, fugir ao tom professoral sem deixar de ser informativo, tornando possível a novas gerações ter uma visão clara de um período que não viveram. Para quem o viveu, é como rever a trilha sonora e emocional da própria vida, pois não falta emoção em vários pontos do relato.

O longo tempo dedicado à produção permitiu façanhas como localizar, nos vastos e imprevisíveis arquivos do mundo, imagens inéditas de figuras tão midiatizadas quanto Caetano Veloso e Gilberto Gil, cujo registro era até agora desconhecido dos próprios personagens. Um exemplo foi a participação dos dois artistas no Festival da Ilha de Wight, na Inglaterra, em 1970, em que um Caetano já no exílio, após meses de prisão, canta a canção “Shoot me dead“, acompanhado pelo escritor Antonio Bivar no pandeiro.

O maior acerto no conceito do filme, que tem roteiro do próprio diretor e de Di Moretti, é justamente a inserção do Tropicalismo em seu contexto.

Traça, assim, seu parentesco com outras manifestações da mesma época, como o Cinema Novo, que produzia um diretor com a contundência de um Glauber Rocha e filmes como “Terra em transe“, além da iconoclastia do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa em montagens transgressoras como a de “O rei da vela“, de Oswald de Andrade, e também o trabalho do artista plástico Hélio Oiticica – a quem se deve o nome “Tropicália“, título de uma instalação vista no Museu de Arte Moderna carioca e que batizou a canção de Caetano Veloso em torno da qual se construiu o disco “Tropicália ou panis et circensis“, espécie de manifesto musical de sua época.

O documentário também demole equívocos, como uma suposta rixa dos tropicalistas contra o Roberto Carlos na época da Jovem Guarda. Na verdade, o que fica evidente é a centrífuga verdadeiramente antropofágica, para citar o termo cunhado com tanta felicidade por Oswald de Andrade, a que recorreram os tropicalistas, mesclando entre suas influências os sons dos pífaros nordestinos e as guitarras elétricas dos Beatles.

Tropicália” também acerta na preocupação com um visual criativo em suas vinhetas e passagens, intercalando suas imagens preciosas, construindo novos sentidos em torno de um tema sobre o qual parece haver ainda tanto a dizer. Assistir aos comentários de seus participantes revendo o passado contribui para delinear com mais nitidez um retrato de época que é artístico, político, mas também afetivo.

 

Anos 70:

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Dzi Croquettes (Brasil, 2009): Direção de Tatiana Issa e Raphael Alvarez. Com depoimentos de Gilberto Gil, Nelson Motta, Pedro Cardoso, Miguel Falabella, Ney Matogrosso, Marília Pera, Cláudia Raia, Liza Minnelli, entre outros.

O documentário resgata a trajetória dos atores/bailarinos que se tornaram símbolos da contracultura ao confrontar a ditadura, usando a ironia e a inteligência. Os espetáculos revolucionaram os palcos com performances de homens com barba cultivada e pernas cabeludas, que contrastavam com sapatos de salto alto e roupas femininas. O grupo se tornou um enorme mito na cena teatral brasileira e parisiense nos anos 70.

A década de 70 foi de rompimento, de mudança, de fugir de padrões e buscar o novo, o desconhecido. A contracultura abriu espaço para questionamentos sobre a realidade, a ruptura ideológica e a transformação social. Nesse contexto um bailarino norte-americano desembarca no Rio de Janeiro: Lennie Dale. Ele conseguiu unir a bossa nova a um swing do jazz nova-iorquino. Liderou o encontro de 13 homens com 13 talentos. Surgia então o furacão que iria abalar as estruturas sexuais das pessoas, abrir portas, quebrar tabus, mudar a cena teatral Brasileira e Internacional. Surgia então os Dzi Croquettes!!!

O grupo revolucionou os palcos cariocas com seus espetáculos andróginos. Desobedientes e debochados, decidiram desrespeitar a ordem do regime militar com inteligência. Os sapatos de salto alto e as roupas femininas, propositalmente, exibiam as pernas cabeludas e a barba cultivada pelos homens do grupo. O primeiro show, em 1972, foi um grande sucesso, apesar de ter sido banido pelo Serviço Nacional de Teatro. A comédia de costumes era um deboche ao sistema de ditadura e à realidade brasileira. O grupo também fez muito sucesso na Europa, especialmente na França, onde levou plateias parisienses à loucura.

Estava em fase com a vanguarda do glam-rock andrógino. O Glam rock (abreviação de Glamour Rock) é um gênero musical, considerado um subgênero do rock, criado na Inglaterra , conhecido também como glitter rock. Foi um estilo de música nascido no final dos anos 60 e popularizado no início dos anos 70. Era principalmente um fenômeno inglês que foi difundido em meados de 1971 e 1973. O Glam foi marcado pelos trajes e performances com muitos cílios postiços, purpurinas, saltos altos, batons, lantejoulas, paetês e trajes elétricos dos cantores. Eram os tempos da androginia e do glamour e suas músicas agitadas de rock n’ roll esbanjavam energia sexual. A ênfase lírica abordava a “revolução adolescente” (T. Rex – “Children of the Revolution “, Sweet – “Teenage Rampage“) assim como uma ampla notoriedade na direção de temas heterosexuais, sobre a decadência e fama.

Os cantores de Glam, frequentemente, vestiam-se de forma andrógina, com maquiagem vistosas, trajes extravagantes não diferentes aos que Liberace e Elvis Presley vestiam quando tocavam em cabarés. Um exemplo famoso seria David Bowie durante a fase de Ziggy Stardust e Aladdin Sane. O Glam Rock se diferencia do Glam Metal, por ter um som menos pesado.

No Brasil, o grande ícone do Glam rock foi o Secos & Molhados. Destaque também para o primeiro disco solo de João Ricardo, mais conhecido como “disco rosa”, bem como o primeiro disco de Rita Lee & Tutti Frutti, o “Atrás do Porto tem uma Cidade“. O primeiro representante do Glam Rock no Brasil, foi, no entanto, o cantor Edy Star.

O documentário sobre o Dzi Croquette conseguiu reunir os integrantes do grupo, assim como amigos e admiradores para uma bateria de entrevistas exclusivas sobre o que era ser um dzi croquette, a formação, os textos, a censura, o sucesso até a desintegração do grupo, mas nunca da ideia-chave. O documentário conta com depoimentos de amigos e artistas consagrados no cenário artístico brasileiro e internacional, como o diretor e coreógrafo americano Ron Lewis, Gilberto Gil, Nelson Motta, Marília Pêra, Ney Matogrosso, Betty Faria, José Possi Neto, Miéle, Aderbal Freire Filho, Jorge Fernando, César Camargo Mariano, Elke Maravilha, Cláudia Raia, Miguel Falabella, Liza Minnelli (grande admiradora e amiga do grupo), Pedro Cardoso, Norma Bengell, entre tantos, e ainda os integrantes originais do grupo: Claudio Tovar, Ciro Barcelos, Bayard Tonelli, Rogério de Poly e Benedito Lacerda.

Mais de 45 depoimentos colhidos no Rio de Janeiro, Nova York e Paris contam a trajetória desse grupo em uma trajetória fascinante recheada de sucessos, fracassos, assassinatos, grandes voltas por cima e a recuperação de uma parte da nossa história que não deveria jamais ser esquecida.

Dzi Croquettes é hoje o documentário mais premiado do Brasil. Não basta dizer isso?

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Raul: o Início, o Fim e o Meio (2012): Raul Seixas teve muitas mulheres, como mostra o documentário de Walter Carvalho. A primeira, no entanto, Edith, que se recusou a aparecer no filme, é considerada por amigos e familiares do músico o grande amor de sua vida e até, para alguns, a causa da entrega ao alcoolismo, vício que ajudou a matá-lo precocemente, aos 44 anos, vítima de uma pancreatite em consequência da diabete, em 1989.

“O Raul morreu por amor. De uma paixão pela Edith. Ele ‘marcou uma touca’ lá no início e achou que poderia resolver quando quisesse. E nunca mais ele conseguiu chegar perto. Ela foi embora com a filha (Simone) e ele nunca mais a viu”, conta o diretor de “Janela de alma” (2001) e “Cazuza – O tempo não para” (2004).

Raul conhecia Edith desde a adolescência e se casou com ela aos 23 anos, após completar o segundo grau, fazer cursinho e passar na faculdade só para convencer o pai da moça, um pastor protestante americano, a permitir que ficassem juntos. A “farsa”, segundo os amigos de infância de Salvador, deu certo e o sogro foi convencido. Sete anos depois, no entanto, após acompanhar o amigo e parceiro Paulo Coelho no exílio político em Nova York, e estourar no Brasil com o álbum “Gita”, viu sua mulher ir embora e levar a filha do casal para os Estados Unidos.

Simone aparece no longa e diz, em inglês, que não sente nada pelo pai e que não o conheceu. Ainda lê, via Skype, uma carta de Edith, na qual diz que não dá entrevistas sobre Raul porque são lembranças que a fazem mal e que ela está “feliz e envelhecendo ao lado do homem que ama”.

O artista teve outras quatro mulheres marcantes, todas presentes no documentário: Gloria Vaquer (irmã de Jay Vaquer), Tania Menna Barreto, Kika Seixas e, por fim, Lena Coutinho, de quem se separou um ano antes de morrer. Teve ainda três filhas mulheres: Simone; Scarlet, que também foi morar nos EUA com a mãe, Gloria; e Vânia, de Kika, a única que mora no Brasil. Diante de tantas trocas de companheiras, é impossível não perguntar: Raul era mulherengo?

“Só quando estava no final da relação”, diz o amigo Sylvio Passos. “Ou então quando estava bêbado, doidão. Aí o que caía na rede era peixe”, completa, com um detalhe revelador para um personagem que começou a beber antes por volta dos 13 anos e nunca mais parou.

Fundador e presidente do fã-clube Raul Rock Club, Sylvio, no entanto, concorda com Walter Carvalho sobre a paixão eterna do cantor. “Fiquei nove anos convivendo com o Raul e ouvindo ele falar da Edith. Ele tinha uns rolinhos de Super 8 em que apareciam Edith e Simone, e chorava feito criança toda vez que assistia”, lembra.

Se teve várias musas, Raul também teve seus parceiros, como Paulo Coelho, com quem mantinha uma relação quase como um casamento: “Tinha tudo, menos o sexo”, conta no longa o hoje escritor, coautor de grandes sucessos como “Sociedade alternativa”, “Gita”, “Há dez mil anos atrás” e “Tente outra vez”.

Até com Paulo, porém, a relação teve um rompimento. Por mais de dez anos, se “separaram”. O reencontro foi no palco do Canecão, na turnê que Raul fez com Marcelo Nova, a última da vida do músico, em 1989. Com a carreira literária de vento em popa e morando na Suíça, o escritor quase fica de fora do documentário.

“Já tinha pensado em fazer o filme sem o Paulo, o que seria uma perda irreparável. Mas o Feijão (Denis, produtor) não desistiu. Um dia, o Multishow exibiu um especial dos 20 anos da morte do Raul, e o Sylvio (Passos) disse que eu estava fazendo um trabalho sério. O Paulo por acaso vê, pega o telefone, liga para o Feijão e diz que pode falar comigo.”

Na entrevista, uma coincidência caiu como uma luva para retratar uma relação cheia de misticismo e com uma certa rivalidade. Uma mosca, imortalizada por Raul em “Mosca na sopa”, ronda e pousa em Paulo Coelho por várias vezes. Após dizer que não vai matar e até chamá-la de Raul, ele não resiste e dá um tapa no inseto, antes de sorrir.

Os arquivos foram colhidos em televisão, jornal, cinejornal e filmes de família. A imagem mais antiga em movimento é de Raul garoto, com menos de 20 anos, comprando cigarro na Bahia, sua terra natal.

De 2009 a 2010, a equipe entrevistou 94 pessoas, entre amigos e familiares, mas 44 foram cortadas na edição final, restando 50. Com mais de 400 horas de material, o diretor levou um ano e seis meses para montar o filme. Entre os famosos, estão, Paulo Coelho, amigo, principal parceiro e por ano desafeto de Raul; além de Caetano Veloso, Tom Zé, Zé Ramalho, Pedro Bial e Roberto Menescal, entre outros.

“Hoje em dia a grande maioria dos que surgem são artistas fabricados. Na época do Raul, que é a época do Caetano, do Gil, do Chico, do Geraldo Vandré, era ao contrário. A prova disso é que hoje muitos não duram tanto. Ele era um artista irreverente, um compositor, um artista de palco, um tipo de artista que não acontece mais”, define Walter Carvalho.

Anos 80:

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Cazuza – O Tempo não Para (2004): é um filme brasileiro de 2004, do gênero drama biográfico, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, e com roteiro baseado na vida do cantor e compositor Cazuza. O roteiro foi escrito por Fernando Bonassi e Victor Navas, é baseado no livro Cazuza, Só As Mães São Felizes, escrito pela mãe do cantor, Lucinha Araújo, e pela jornalista Regina Echeverria.

Daniel de Oliveira usou lentes de contato e emagreceu 11 quilos para o papel, em um regime radical. O ator ainda fez aulas de canto para chegar ao timbre de Cazuza.

Em algumas cenas, algumas das pessoas que foram representadas pelos atores aparecem verdadeiramente. Durante a canção Maior Abandonado, quando o personagem Zeca, vivido por Emílio de Mello, joga um copo no palco e Cazuza corta o pé, aparece, ao seu lado, o verdadeiro Zeca (Ezequiel Neves). Pouco depois, durante a canção O Tempo Não Pára, aparece a verdadeira Lucinha Araújo (vivida no filme por Marieta Severo), aplaudindo e jogando uma rosa ao palco.

O filme retrata a vida do compositor e cantor Cazuza desde quando começou a carreira, atuando na peça Paraquedas do Coração, no Circo Voador, o sucesso com o Barão Vermelho e sua carreira solo até sua morte em 1990, em decorrência de complicações causadas pela AIDS. Mostra a vida desregrada que marcou o percurso profissional e pessoal de Cazuza, filho único de papai rico, João Araújo, o produtor musical, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, do início da carreira, em 1981, até a morte em 1990, aos 32 anos. Apresenta o sucesso com o Barão Vermelho, a carreira solo, as músicas que falavam dos anseios de uma geração, o comportamento transgressor e a coragem de continuar a carreira, criando e se apresentando, mesmo debilitado pela Aids.

itamar1-201x300Daquele Instante em Diante (2012): Documentário que percorre a trajetória musical de Itamar Assumpção (1949 – 2003), desde os anos da Vanguarda Paulista na década de 1980 até a sua morte aos 53 anos. Com depoimentos daqueles que conviveram com o artista, o filme reúne uma seleção de imagens raras garimpadas em acervos e arquivos particulares, que mostram sua presença antológica nos palcos e momentos de intimidade entre amigos e familiares.

Segundo a resenha de Carlos Freitas, publicada na revista Piauí, Daquele Instante em Diante, documentário sobre Itamar Assumpção, dirigido por Rogério Velloso, “revela um artista maior que sua fama de maldito. É um retrato vivo deste que foi um dos mais agudos integrantes do hall dos músicos que definiram a música brasileira atual, quanto ao posicionamento mais autoral, de compositores como produtores, donos de suas carreiras.”

Sem dar muita ênfase aos aspectos polêmicos da vida pessoal de Itamar, revelando inclusive um lado mais ameno, de pai e marido cuidadoso, cultivador de orquídeas, que inspiraram o nome da sua banda “Orquídeas do Brasil”, a escolha do diretor foi por um foco mais musical. Destaca a controversa posição do músico, morto em 2003, aos 53 anos, vítima de câncer, perante o mercado fonográfico.

Os 20 anos da carreira de Itamar Assumpção, de fato, retratam a trajetória da música independente do Brasil. Um luta de um artista inconformado com o seu tempo. Incondicional à sua verve autoral, ele não se curvou as concessões que o meio musical impunha. E sofreu com a falta de reconhecimento de sua obra em vida. Segundo a poeta e parceira musical Alice Ruiz, Itamar não aceitava “ter nascido para ser póstumo”.

Nove dos seus doze discos foram lançados por ele próprio ou por selos independentes, em época em que isso significava uma divulgação e distribuição praticamente nulas. Como disse o baixista do Isca de Polícia e fiel escudeiro Paulo Lepetit: “o sucesso bateu várias vezes na porta do Itamar, mas ele nunca atendeu”.

Itamar Assumpção abriu mão do sucesso (e enriquecimento) em nome da liberdade de criar, mesmo que isso significasse discos gravados de forma precária. Mas para muitos é aí que reside a força discos da fase de Itamar à frente da banda Isca de Polícia, como “Sampa Midnight” e “Às Próprias Custas S/A“. São pedras preciosas brutas, sem lapidações.

Rogério Velloso se empenhou em desfazer a ideia de que Itamar se predispunha à vanguarda para se opor ao popular. “É como se, para chegar até as pessoas, eu precisasse evitar ser popular”, disse Itamar numa das suas declarações no filme. Numa outra, tendo ao fundo o verso “ser carioca e baiano/ por que que eu não pensei nisso antes?” da canção que dá título ao filme, Itamar questiona a renovação da música no Brasil: “será que a música brasileira vai ser sempre Caetano e Gil?”.

Assim, de forma ágil e fragmentada, o diretor filma seu documento biográfico, sobrepondo declarações e apresentações de Itamar Assumpção, fruto de um longo garimpo de dois anos em arquivos das TVs Cultura, Globo, Bandeirantes e do Itaú Cultural. As imagens resgatam apresentações históricas da Isca de Polícia, inclusive no emblemático Lira Paulistana, palco da vanguarda musical da cena paulista nos ano 80.

No show da Isca com participação de Arrigo Barnabé – que, segundo Itamar, o ensinou sobre música atonal e música contemporânea –, no Projeto Pixinguinha, entre as interpretações de Itamar Assumpção e suas backing-vocals, do soberbo baterista Gigante Brazil, morto em 2008, do baixista Paulo Lepetit e do guitarrista Luiz Chagas, residia uma música que pulsava com intensa originalidade. À frente do seu tempo, desafiava tons, desconstruindo padrões rítmicos do samba, reggae, funk.

Era vanguarda sim, com suas inovações indo muito além da mediocridade predominante. Eu morava, no início dos anos 80 no Rio de Janeiro, queria comprar seus discos, mas poucos o conheciam. Mesmo as lojas especializadas eram difíceis de encontrar. Consegui apenas assistir seu show no Projeto Pixinguinha, e quando voltei para Campinas, em 1985, compra-los na loja Baratos Afins, na “Galeria do Rock” no início da Avenida São João, no centro de São Paulo.

Rock Brasilia filme

Rock Brasília – Era de Ouro (2011): Documentário nacional sobre a trajetória do cenário rock/musical de Brasília nos anos 80, desde os primórdios, das bandas embrionárias até o estouro nacional de Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Com depoimentos de diversos músicos, familiares e personalidades importante, o filme revela detalhes sobre a chamada Era de Ouro da cidade e a origem de diversos grupos.

Na verdade, a denominação Era de Ouro é ruim. Melhor seria Era da Luta pela Democracia. O Aborto Elétrico nasceu em 1978, após alguns membros terem presenciado o surgimento do Punk Rock em Londres, quando lá estudaram. Eram filhos de pais professores que faziam pós-graduação no exterior e/ou diplomatas. A geração do rock dos anos 80 em Brasília surge, então, com som e letras mais agressivas, viscerais, com atitude em momento que o país destilava raiva pela derrota da campanha massiva de rua pelas Diretas Já no Congresso. A juventude tinha ultrapassado a alienação do Odara de Caetano Veloso, o Lança-Perfume de Rita Lee e o “chopp-com-batatas-fritas” da Blitz! O som da rebeldia vinha justamente da cidade para qual todas as esperanças se voltavam  para lá ocorrer mudança política com o final do regime militar ditatorial.

A espontaneidade dos depoimentos dos músicos, e mesmo a identificação com os que moraram em suas superquadras e que, de alguma forma, viram o movimento do rock ocorrer na cidade, revelam que eles não tinham muita dimensão política do que representavam. Tanto que o Capital Inicial já se lança como sucesso de venda de discos e vira pop. A indústria de discos logo os devora, deglute e vomita.

Vladimir Carvalho retrata a geração que gerou bandas como Capital Inicial, Legião Urbana e Plebe Rude, valorizando a capacidade que esses jovens tiveram de se expressar em meio a condições adversas. Eram jovens que reagiam ao autoritarismo, pois, moradores no campus da UnB, quando crianças presenciaram a invasão da polícia espancando estudantes. “Eram jovens cultos, viajados e que fizeram músicas e letras permeadas dessa reação naquele momento de transição da política. Eles não foram cooptados, eles cooptaram”, disse o cineasta, que era professor da Universidade de Brasília (UnB) na década de 1980 e registrou os momentos  iniciais das bandas, além de entrevistas com seus integrantes em 1987 e 1988.

“Percebi que havia história no movimento desses rapazes porque eles estavam voltando a Brasília depois de tocar em várias cidades brasileiras. Comecei a gravar os shows que aconteciam na Foods (lanchonete da Asa Sul), na UnB e a gravar entrevistas com esses garotos. Isso ficou guardado por mais de 20 anos. A minha sorte é que não estragou”, acrescentou.

Vladimir ressalta o exemplo dessa geração pelo papel de resistência e, principalmente, de crença em um sonho. “É necessário olhar no retrovisor para entender muito do Brasil de hoje. Esses garotos deram um ensurdecedor exemplo de perseverança e crença em um sonho. E tem que ser assim para que esse sonho se torne realidade”, disse. “Eles ainda sentiram o peso dos resquícios da ditadura, chegaram a ser presos em um show inicial, em Patos de Minas, e viram que  o negócio era sério”.

As cinebiografias e/ou os documentários musicais estão melhor retratando Que País Era Este do que qualquer ficção conseguiu. Através de depoimentos e imagens transmitem, de fato, o que vivi nas fases da minha vida.

 

1 thought on “Os Filmes de Minha Vida – Fase na Terceira-Idade em Campinas (2008-2013)

  1. Estou emocionada de voltar a sentir todo o brilho da minha geração. Muito bom o trabalho de resgate!

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