Ascensão e Queda da China como Grande Potência

Cartografia Século XVI

Pelo que os historiadores e arqueólogos nos podem dizer, segundo se lê no livro de Paul Keynnedy, Ascensão e Queda das Grandes Potências: Transformação Econômica e Conflito Militar de 1500 a 2000 (Rio de Janeiro, Editora Campus, 1989, páginas 17-18), considerando o tamanho, o poder e a navegabilidade da marinha chinesa, os chineses bem poderiam ter navegado em volta da África e “descoberto” Portugal várias décadas antes que as expedições portuguesas começassem a aventurar-se, ousadamente, ao sul de Ceuta.

Mas a expedição chinesa de 1433, em que frota formada por centenas de navios e dezenas de milhares de homens visitou portos desde Malaca e Ceilão até as entradas do Mar Vermelho e Zanzibar, foi a última delas. Três anos depois, um edito imperial proibia a existência de navios de mais de alto-margem. Apesar de todas as oportunidades que se ofereciam no além-margem, a China tinha decidido “voltar as costas para o mundo”.

Considerando-se “centro do mundo”, dadas suas potencialidades – precocidade tecnológica, bibliotecas enormes, construções de canais, cidades imensas, uso de papel-moeda, indústria do ferro cuja produção era muito maior do que a da Inglaterra nas primeiras fases da Revolução Industrial sete séculos depois, exército de mais de um milhão de homens, invenção da pólvora, bússola magnética, etc. – sua postura internacional era de total autossuficiência.

Havia, sem dúvida, uma razão estratégica plausível para essa introversão. As fronteiras setentrionais do Império Chinês estavam novamente sob pressão dos mongóis. Foi considerado prudente concentrar os recursos militares naquela área mais vulnerável. Nessas circunstâncias, uma marinha grande era um luxo caro.

Entretanto, dentro de um século aproximadamente, o litoral chinês e mesmo as cidades de Yangtsé estavam sendo atacadas por piratas japoneses. Mesmo assim, não houve qualquer reconstrução séria da marinha imperial. Nem mesmo o repetido aparecimento dos portugueses ao largo do litoral chinês forçou uma reavaliação. A defesa terrestre era tudo o que os mandarins consideravam necessário. Não tinha sido proibido todo o comércio marítimo realizado por súditos chineses?

Além dos custos e outros desincentivos, portanto, segundo Kennedy, “um elemento chave no recuo chinês foi o simples conservantismo da burocracia confuciana, intensificado no período Ming pelo ressentimento com as modificações que lhes tinham sido impostas antes pelos mongóis”. Nessa atmosfera de restauração, a importante burocracia chinesa limitava-se a preservar e recapturar o passado, e não criar um futuro mais brilhante, baseado na expansão e no comércio de além-mar.

De acordo com o Código Confuciano, a guerra em si é uma atividade deplorável, e as forças armadas eram necessárias apenas pelo medo dos ataques bárbaros ou das revoltas internas. A aversão dos mandarins pelo Exército e a Marinha era acompanhada de uma desconfiança para com o comerciante. A acumulação de capital privado, a prática de comprar barato e vender caro, a ostentação do comerciante novo-rico, tudo isso ofendia a elite, a burocracia erudita – quase tanto quanto provocava o ressentimento das massas trabalhadoras.

Embora não desejando paralisar toda a economia de mercado, os mandarins intervinham contra os comerciantes individuais, confiscando-lhes as propriedades ou proibindo seus negócios. O comércio exterior por súdito chineses deve ter parecido ainda mais suspeito aos olhos dos mandarins, simplesmente por estar menos sob o seu controle.

A aversão ao comércio e capital privado não se choca com as enormes realizações técnicas mencionadas. A reconstrução, pelos Mings, da Grande Muralha da China, e o aperfeiçoamento do sistema de canais, as fundições e a Marinha Imperial eram para as finalidades do Estado, porque a burocracia tinha aconselhado ao Imperador a sua necessidade. Mas assim como esses empreendimentos podiam ser criados, assim também podiam ser negligenciados.

Os canais entraram em decadência, o exército sentia falta, periodicamente, de equipamentos novos, os relógios astronômicos, construídos em torno do ano de 1090, foram postos de lado, as fundições caíram aos poucos em desuso, e não foram apenas esses os desincentivos ao crescimento econômico. A impressão foi limitada às obras de erudição, não sendo empregada para a disseminação ampla do conhecimento prático, e muito menos tolerou-se a imprensa para a crítica social.

O uso do papel-moeda foi suspenso. As cidades chinesas não tiveram nunca a autonomia das ocidentais. Quando a localização da corte imperial era modificada, a capital também era transferida. Não havia burguesia chinesa, com tudo o que essa rotulação implica. Além disso, sem estímulo oficial, os comerciantes e outros empresários não podiam florescer. Mesmos os que adquiriram riqueza, tendiam a dispendê-la em terras e educação, em lugar de investir no desenvolvimento proto-industrial.

Da mesma forma, a proibição do comércio exterior e da pesca afastou outro estímulo potencial à expansão econômica continuada. O comércio com os portugueses e holandeses, nos séculos seguintes, foi de artigos de luxo, embora houvesse sem dúvida muita evasão, controlado pelas autoridades.

Em consequência, a China Ming foi um país muito menos vigoroso e empreendedor do que na dinastia Sung, quatro séculos antes. As técnicas agrícolas aperfeiçoaram-se no período Ming, mas depois de certo tempo até mesmo essa agricultura mais intensiva e o uso de terras marginais tiveram dificuldades em acompanhar o crescimento da população. Este só foi contido pelos “instrumentos malthusianos” da peste, das enchentes e da guerra, todos muito difíceis de serem enfrentados. Nem mesmo a substituição dos Mings pelos Manchus mais vigorosos, depois de 1644, pode deter o constante declínio relativo.

Imperio portugues sec XVI (883 x 629)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s