Relação entre Religião e Ciência

Distribuição de Religiões 240313

No livro Civilização: Ocidente X Oriente (São Paulo: Planeta, 2012. pp. 88), Niall Ferguson levanta uma hipótese surpreendente, ao contrário do que se espera após o conhecimento do papel histórico da Inquisição Estatal, “o caminho da Europa para a Revolução Científica e o Iluminismo tem suas origens relacionadas ao dogma cristão fundamental de que a Igreja e o Estado deviam ser separados [!]. ‘A Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus’ (Mateus 22:21) é uma injunção radicalmente diferente daquela do Corão, que insiste na indivisibilidade da lei de Deus conforme revelada ao Profeta e na unidade de toda estrutura de poder baseada no Islã. Foi justamente a distinção de Cristo entre o temporal e o espiritual, esboçada no século V por Santo Agostinho – em A Cidade de Deus, em oposição a A Cidade dos Homens do Império Romano –, que possibilitou que sucessivos governantes europeus resistissem às pretensões políticas do papado em Roma. De fato, até Gregório VII (1073-85) reafirmar o poder papal sobre a investidura (nomeação) do clero, foram as autoridades seculares [mundanas] que ameaçaram transformar o papa em uma marionete”.

Antes de 1500, a Europa era um “vale de lágrimas”, mas não de ignorância. Grande parte do aprendizado clássico foi redescoberta durante a Renascença, muitas vezes graças ao contato com o mundo muçulmano. Ferguson cita inovações europeias como a polifonia (século XII), o método experimental (século XIII), a perspectiva linear na pintura (1413), o primeiro verdadeiro romance literário (1500).

Renascimento, Renascença ou Renascentismo são os termos usados para identificar o período da História da Europa aproximadamente entre fins do século XIII e meados do século XVII. O período foi marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna. Apesar destas transformações serem bem evidentes na cultura, sociedade, economia, política e religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e significando uma ruptura com as estruturas medievais, o termo é mais comumente empregado para descrever seus efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências.

Mas Ferguson afirma que “um marco mais decisivo que a Renascença foi o advento da Reforma e a decorrente fragmentação do cristianismo ocidental após 1517. Isso se deveu, em grande medida, ao papel revolucionário da imprensa, certamente a inovação tecnológica mais importante do período anterior à Revolução Industrial”. O sistema de Gutenberg, que usava tipos de metal, era mais flexível e dava maior economia de escala do que a invenção da impressão com uma prensa na China, permitindo a rápida produção de panfletos e livros.

Nenhum autor se beneficiou mais dessa explosão de publicações que Martinho Lutero, sobretudo porque percebeu o potencial de escrever na língua vernácula em vez de  em latim. Os luteranos inundaram o mercado alemão com tratados religiosos que criticavam as práticas da Igreja Católica romana. Entre 1521 e 1545, Lutero sozinho foi responsável por metade de todas as publicações a favor da Reforma.

A Reforma protestante foi iniciada por Martinho Lutero, embora tenha sido motivada primeiramente por razões religiosas, também foi impulsionada por razões políticas e sociais:

  1. os conflitos políticos entre autoridades da Igreja Romana e governantes das monarquias europeias, pois os governantes desejavam para si o poder espiritual e ideológico da Igreja e do Papa, muitas vezes para assegurar o direito divino dos reis;
  2. práticas como a usura eram condenadas pela ética católica romana, assim, aqueles que desejavam algum “prêmio” para ceder seu capital para obtenção de lucro por terceiros, seguiriam uma nova ética religiosa adequada ao espírito capitalista, necessidade esta que foi atendida pela ética protestante, ou seja, o conceito de Lutero de que a fé justifica a prosperidade;
  3. algumas causas econômicas para a aceitação da Reforma foram o desejo da nobreza e dos príncipes de se apossar das riquezas da Igreja romana e de ver-se livre da tributação papal que, apesar de defender a simplicidade, era a instituição mais rica do mundo;
  4. na Alemanha, como a pequena nobreza estava ameaçada de extinção, em vista do colapso da economia senhorial, muitos desses pequenos nobres desejavam expropriar terras da Igreja, o que puderam fazer com a Reforma;
  5. durante a Reforma na Alemanha, autoridades de várias regiões do Sacro Império Romano-Germânico pressionadas pela população e pelos luteranos, expulsavam ou assassinavam sacerdotes católicos das igrejas, substituindo-os por religiosos com formação luterana;
  6. Lutero defendia que “a existência de senhores e servos era vontade divina”, portanto, era radicalmente contra a revolta camponesa iniciada, em 1524, pelos anabatistas, liderados por Thomas Münzer, que comandou massas camponesas contra a nobreza imperial, propondo uma sociedade sem diferenças entre ricos e pobres e sem propriedade privada; Lutero escreveu, posteriormente: “Contras as hordas de camponeses (…), quem puder que bata, mate ou fira, secreta ou abertamente, relembrando que não há nada mais peçonhento, prejudicial e demoníaco que um rebelde“.

“Por sua ênfase na leitura individual das escrituras e no ‘ensino mútuo’, o novo meio de comunicação escrita foi verdadeiramente a mensagem da Reforma. No entanto, assim como com tantos outros aspectos da supremacia ocidental, a competição comercial desempenhou seu papel. […] os benefícios econômicos da imprensa se espalharam por toda a sociedade”.

A imprensa difundiu outros ensinamentos além dos de Lutero. Os conservadores religiosos passaram a denunciar aquela “máquina vilã”, a imprensa. Também reveladas e difundidas pela imprensa foram as obras dos filósofos da Antiguidade, notadamente as de Aristóteles, bem como as de humanistas anteriores à Reforma. Antes de 1500, mais de mil obras científicas e matemáticas haviam sido impressas. Os tipógrafos italianos desempenharam um papel especialmente importante ao disseminar técnicas de aritmética e contabilidade úteis para o comércio.

Pode-se dizer que a Revolução Científica começou com avanços quase simultâneos no estudo do movimento dos planetas e da circulação sanguínea. No entanto, a nova ciência era mais que mera observação precisa. Começando com Galileu, consistiu na experimentação sistemática e na identificação de relações matemáticas. As possibilidades da Matemática foram ampliadas com o cálculo infinitesimal e o diferencial. Por fim, a Revolução Científica foi também uma Revolução Filosófica, visto que derrubou teorias tradicionais sobre a percepção e a razão. Essa sucessão de inovação intelectual deu origem à Anatomia, à Biologia, à Química, à Geologia, à Geometria, à Matemática, à Mecânica e à Física modernas.

Ferguson (2012: 93-95) ilustra essa Revolução com uma lista dos 29 avanços mais importantes do período que vai de 1530 a 1789. Entre os avanços científicos mais importantes do mundo – 369 eventos mencionados em quase todas as obras de referência sobre a História da Ciência –, uma proporção alta (38%) ocorreu entre o início da Reforma e o início da Revolução Francesa. O papel da liberdade de pensamento, tanto religiosa quanto política, é uma variável essencial na Teoria das Realizações Humanas, assim como as contribuições da urbanização e do conflito militar, pela relação próxima entre a guerra e o progresso científico.

Em meados do século XVII, esse tipo de conhecimento científico estava disseminando tão rapidamente quanto a doutrina da Reforma Protestante um século antes. Juntos, a imprensa e os serviços postais cada vez mais confiáveis criaram uma rede de comunicação extraordinária.

No entanto, para alguns homens, não era nada fácil conciliar a nova ciência com a doutrina cristã, à qual poucos estavam prontos a renunciar. Mas foi uma Revolução Intelectual ainda mais transformadora que a Revolução Religiosa que a precedeu e, sem querer, a provocou. Estabeleceram-se as regras fundamentais da pesquisa científica, inclusive no que diz respeito à difusão de descobertas e à atribuição de crédito ao primeiro a publicá-las.

Ferguson (2012: 95) afirma: “a Revolução Científica foi, de acordo com toda e qualquer medida científica, totalmente eurocêntrica. (…) Em nítido contraste, inexistiu nesse período um progresso científico otomano. A melhor explicação para essa divergência era a soberania irrestrita da religião no mundo muçulmano. No fim do século XI, clérigos islâmicos começaram a afirmar que o estudo da filosofia grega era incompatível com os ensinamentos do Corão. Era uma blasfêmia insinuar que o homem poderia ser capaz de discernir o modo de operação divino, o qual, em todo caso, podia variar segundo a vontade de Deus”.

Sob influência do clero, o estudo da filosofia antiga foi tolhido, livros foram queimados, e os chamados livre-pensadores foram perseguidos. Cada vez mais, as madraçais – escolas islâmicas –  concentravam-se exclusivamente na teologia, em uma época em que as universidades europeias estavam ampliando o escopo de seus estudos.

Também houve resistência à imprensa no mundo muçulmano. Para os otomanos, a escrita era sagrada: havia uma reverência religiosa pela pena, uma preferencia pela arte da caligrafia em detrimento da tipografia.

Esse fracasso em conciliar o Islã com o progresso científico se mostraria desastroso. Os cientistas muçulmanos, que um dia foram fonte de ideias e inspiração para os estudiosos europeus, agora estavam de fora das investigações mais recentes. Se a Revolução Científica foi gerada por uma rede de comunicação, o Império Otomano estava praticamente desconectado.

O clero muçulmano eliminou as chances de progresso científico no exato momento em que as igrejas cristãs da Europa estavam afrouxando seu controle sobre a liberdade de pesquisa. Na segunda metade do século XVII, governantes de toda a Europa promoviam ativamente a ciência, sem se preocupar muito com os receios do clero.

Independentemente do mecenato real, mais importante foi um novo tipo de comunidade científica, que tornava possível compartilhar ideias e abordar problemas de maneira coletiva, por um processo de competição direta. Isso não significa que a Ciência moderna foi ou é totalmente colaborativa. Na época, assim como agora, os cientistas eram movidos tanto pela ambição quanto pelo altruísmo. Mas, devido à necessidade de publicar as novas descobertas, o conhecimento científico pode crescer e se acumular – embora, às vezes, com ressentimentos pessoais…

Houve, de fato, uma importante divisão intelectual entre o pensamento metafísico do continente europeu e a prática empírica das Ilhas Britânicas. Estas últimas, com sua cultura singular de experimentação e observação paciente, produziram os avanços tecnológicos sem os quais não poderia ter havido Revolução Industrial. Não é por acaso que três das mais importantes inovações tecnológicas do mundoa máquina a vapor (1764), o cronômetro marítimo (1761), capaz de informar a localização longitudinal, e a máquina de fiar hidráulica (1769) – foram inventadas no mesmo país, na mesma década.

No Ocidente, a ciência e o governo haviam se tornado parceiros. Em Istambul, o sultão presidia com indolência um Império Otomano decadente com problemas estruturais, profunda crise fiscal e crise monetária, corrupção e conflitos religiosos. A burocracia otomana fora equipada com escravos, muitas vezes capturados nas comunidades cristãs dos Balcãs. Depois, a seleção e a promoção pareciam depender mais do suborno e do favorecimento do que da aptidão. A taxa de rotatividade em cargos públicos se tornou absurdamente alta à medida que as pessoas se acotovelavam para obter vantagens pessoais. A expansão da Prússia seria como uma imagem espelhada da contração otomana: a conquista de um novo tipo de poder baseado em racionalismo implacável.

Houve a libertação dos intelectuais da religião e de outras limitações. Este pensamento livre era concebido primordialmente para aumentar o Poder do Estado. Desdobrou-se a aplicação do conhecimento científico ao domínio do Poder Militar. Foi um processo de competição, inovação e progresso, que rapidamente abriu uma distância imensa entre o Ocidente e o Oriente.

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