Monetarismo de Milton Friedman: Controle Geral da Oferta de Moeda como Regra

Milton_Friedman_Pensamentos

Agora que já surge uma novidade para os “modernos conservadores”, isto é, a nova-direita pró-mercado, após a ressaca da crise do livre-mercado, antes de abraçar o Monetarismo de Mercado, vale a pena reler Milton Friedman no original. Geralmente, esta leitura os jovens econometristas brasileiros dispensam em nome da leitura dos manuais norte-americanos com “divulgação mastigadinha da última fronteira-do-pensamento”…

O discurso de Friedman, pronunciado no 8º Encontro Anual da American Economic Association, em Washington, DC, 29 de dezembro de 1967, tornou-se obra clássica na história do pensamento econômico (FRIEDMAN, Milton (1968). O Papel da Política Monetáriain CARNEIRO, R. (org.). Os clássicos da economia 2. SP, Atica, 1997. pp. 254-270.). No discurso, ele critica a hegemonia da política econômica keynesiana. Temos de considerar o contexto da exposição sobre o papel da política monetária por Friedman, em que, de fato, havia hegemonia intelectual dos seguidores dessa política keynesiana, na equipe econômica do governo norte-americano. A primazia era a promoção do pleno emprego. A prevenção da inflação era um objetivo secundário.

Friedman, nesse discurso, destaca os limites da política monetária discricionária de ativismo da demanda. Argumenta que  a autoridade monetária não pode usar seu controle sobre quantidades nominais, para fixar, em nível predeterminado a priori, qualquer quantidade real: a taxa de juros real, a taxa de desemprego, o nível da renda nacional real, e/ou a quantidade de moeda real. Portanto, vale refletir a respeito da razão dessa proposição, monetaristas de mercado!

Friedman não nega a evidência empírica que a política monetária pode e deve ter efeitos importantes sobre essas magnitudes reais. No  curto prazo, a política keynesiana de ativismo da demanda provoca algum impacto sobre o emprego e o produto real, a moeda sendo então “não-neutra”. Entretanto, ela se neutraliza, no  longo prazo, isto é, dado o tempo necessário para os agentes se informarem perfeitamente com os sinais de mercado. Assim, as variações da demanda agregada acabam sendo absorvidas somente por variações no nível geral dos preços.

O efeito real da política monetária expansionista ocorre, segundo Friedman, somente enquanto houver “ilusão monetária”. Esta ocorre devido às imperfeições no canal de informações que possibilitam enganos quanto ao futuro. Há defasagem de percepção entre os agentes econômicos sobre  as variações de preços relativos e as do nível geral de preços, e também sobre as variações nominais e as reais.

Na realidade, a prevalência de longos hiatos temporais na resposta do gasto e dos preços às variações na oferta de moeda, e, em menor extensão, na resposta dos condutores da política monetária às mudanças na economia, tende a converter os esforços discricionários estabilizadores em desestabilizantes. As defasagens das medidas monetárias podem constituir-se em fator desestabilizador da economia, que já teria se alterado, quando começam a surtir efeitos.

As principais defasagens apontadas são:

  1. Defasagens de reconhecimento: de percepção e interpretação, considerando o tempo que ocorre entre a coleta de dados e a capacidade de analisá-los;
  2. Defasagens administrativas: de tomada de decisão, em que leva em conta o grau de centralização e considerações extra-econômicas;
  3. Defasagens de implementação: o tempo necessário para implementação de novas políticas, ou seja,  fazer a regulamentação, a difusão e os esclarecimentos necessários;
  4. Defasagens de impacto: de efeito macroeconômico, ou seja, o tempo necessário para que novas políticas afetem a economia através da mudança de expectativas e do ajuste de portfólios dos agentes econômicos.

Considerando essas defasagens, em reação contra o keynesianismo simplista, é elaborada a crítica à deficiência da política de “dinheiro barato”. A evidência empírica, segundo Friedman, revelava que baixas taxas de juros eram sinal que a política monetária  estava sendo contracionista, indicando que a quantidade de moeda estava crescendo lentamente. Altas taxas de juros, por sua vez, eram sinal que a política monetária estava sendo expansionista no sentido que a quantidade de moeda estava crescendo mais rapidamente do que o nível da produção.

A autoridade monetária poderia assegurar baixas taxas de juros nominais, mas, para isto, teria partir para o que pareceria ir em direção oposta, em aparente paradoxo, através de seu engajamento com política monetária deflacionista. Isto porque as altas taxas de juros nominais correspondiam à política inflacionária, com movimento, anterior, em direção oposta, no sentido de queda das taxas de juros.

Critérios de avaliação da política monetária, segundo Friedman:

  1. estado do emprego: a autoridade monetária não pode saber qual é a taxa natural, seja de juros, seja de desemprego, em função de sua instabilidade dinâmica. Portanto, não pode fixar a taxa de mercado, neste nível, e o emprego não pode ser critério para a política monetária.
  2. condições do mercado monetário: se a autoridade monetária responder a todas variações das taxas de mercado, colocará em encadeamento efeitos de longo prazo, que farão o ritmo de crescimento monetário  aleatório, e gerará instabilidade.
  3. taxa de juros nominal: considerações a respeito  da diferença entre as conseqüências imediatas e as atrasadas de determinada política explicam também porque as taxas de juros nominais são mal indicador de se a política monetária é “contracionista” ou “expansionista”.
  4. taxa de câmbio: estabelecida unilateralmente, na ausência de coordenação de políticas macroeconômicas dos principais Bancos Centrais, a taxa de câmbio é guia indesejado;
  5. taxa de inflação: a ligação entre a ação da autoridade monetária e o nível de preços, embora ocorrendo, é mais indireta que a ligação entre as decisões políticas dela e qualquer dos vários agregados monetários.
  6. quantidade de moeda: a defasagem temporal e a magnitude do efeito são muito mais favoráveis a este último indicador; logo, a evolução de certo agregado monetário é o melhor guia para a política monetária.

A Currency School, no século XIX, também alegou que as ações do Banco da Inglaterra acentuaram, mais do que aliviaram, os distúrbios econômicos. Quando esse Banco Central, finalmente, decidia aplicar políticas restritivas para colocar obstáculo à perda de ouro, que era o lastro monetário, estas ações políticas tendiam coincidir com e exacerbar os pânicos financeiros e as crises de carência de liquidez que, inevitavelmente, surgiam, nos períodos seguintes aos de excesso de crédito e moeda. Assim, seus argumentos prenunciaram, em mais de 100 anos, a doutrina de Friedman.

Essa análise poderia ser traduzida também, diretamente, em termos wicksellianos a respeito da discrepância entre as taxas de juros natural e de mercado. No entanto, a autoridade monetária não pode saber qual é a taxa natural. Esta varia de tempo em tempo. O problema básico é que sempre que a autoridade monetária acha que conhece a taxa “natural“, e tenta fixar a taxa de mercado neste nível, este não seria conduzido pela política determinada. A taxa “de mercado” se afasta da taxa natural por razões outras do que não a da política monetária.

A conclusão geral de Friedman é: “A autoridade monetária controla quantidades nominais, diretamente, a quantidade de seu próprio passivo. Em princípio, ela pode usar deste controle para fixar certa quantidade nominal – o câmbio, o nível de preços, o nível nominal da renda nacional, a quantidade de moeda por uma ou outra definição – ou fixar a taxa de variação em alguma quantidade nominal – a taxa cambial, a taxa de inflação ou deflação, a taxa de crescimento ou declínio na renda nacional nominal, a taxa de crescimento da quantidade da moeda. Não pode usar seu controle sobre quantidades nominais para fixar uma quantidade real – a taxa de juros real, a taxa de desemprego, o nível da renda nacional real, a quantidade de moeda real, a taxa de crescimento real da renda nacional, ou a taxa de crescimento real da quantidade de moeda” (FRIEDMAN; op. cit.; p. 262).

A política monetária não pode fixar essas magnitudes reais em níveis predeterminados a priori, mas ela pode e deve ter efeitos importantes sobre estas magnitudes reais. Uma coisa não é inconsistente com a outra. A conclusão de Friedman a respeito desse ponto é: “há sempre um trade-off  temporário entre inflação e desemprego; não é um trade-off permanente”.

O que a política monetária pode fazer, segundo Friedman:

  1. prevenir a própria moeda de ser uma fonte maior de distúrbio econômico.
  2. providenciar background estável para a economia, em que os agentes econômicos podem se comportar  com plena confiança que o nível geral dos preços procederá de maneira conhecida, no futuro, com o cumprimento de uma programação monetária.
  3. contrabalançar distúrbios maiores no sistema econômico, surgidos de outras fontes, por exemplo, de déficit público, ajudando a prevenir a ameaça inflacionária com taxa de crescimento monetário mais lenta do que seria desejado para sancionar as necessidades provocadas por aumento no nível geral de preços.

Dessas suas considerações, surge o Programa para a Estabilidade Monetária através do estabelecimento de regra para o crescimento da oferta de moeda. A autoridade monetária guiaria a si própria por certa magnitude que pode controlar, e não por outras fora de seu controle direto, por exemplo, as taxas de juros e as taxas de desemprego correntes.

A autoridade monetária deve abster-se de abruptas oscilações na política: ela falha em não tolerar o diferimento entre as suas ações e os efeitos subsequentes sobre a economia. Ela tende a determinar suas decisões pelas condições presentes, mas elas afetarão a economia somente no futuro indeterminado: 6 ou 9 ou 20 ou 50 meses após. Devido às defasagens, muitas vezes, sente impelida a contrair ou expandir a oferta de moeda, o que pode ser desastroso.

Portanto, a autoridade monetária deve evitar tais oscilações adotando, publicamente, a política de atingir determinada taxa de crescimento estável em certo agregado monetário específico. Seria melhor ter alguma taxa fixa que produzisse moderadas inflação ou deflação, desde que fossem estáveis, que passar por amplas e erráticas perturbações. Deve seguir com persistência essa meta.

A maior contribuição que a autoridade monetária poderia dar, segundo Friedman, seria através da adoção de política monetária estável: não perturbar o livre funcionamento das forças de mercado.

Os modelos monetaristas se omitem a respeito de como os policy-makers podem se manter impassíveis face aos distúrbios estocásticos de vários tipos, muitos não diretamente observados. Eles produzem surpresas nas variáveis observadas e deslocam o ritmo da economia do pretendido e esperado curso.

Os distúrbios relevantes para a política monetária tomam diferentes formas:

  1. surpresas nos componentes privados da demanda real agregada: consumo, investimento, exportações líquidas;
  2. mudanças de portfólios, especialmente aquelas que afetam demandas por base monetária, reservas bancárias e a demanda líquida por ativos monetários estrangeiros;
  3. choques de preços de oferta, por exemplo, movimentos inesperados nos salários nominais, ou na produtividade do trabalho, ou nos preços das importações.

A operação da política monetária, de acordo com o credo monetarista, acaba sendo recessiva.

Os canais de transmissão à economia dos objetivos da política monetária são:

  1. a contração do crédito de curto prazo impede às empresas de contratar fatores aos preços correntes ou esperados, se subsistem expectativas inflacionárias; o provocado excesso de oferta de fatores é estímulo à redução ou à manutenção de seus preços, sufocando pressões altistas.
  2. a redução do nível de atividades força as firmas a adotarem estratégias de expansão de mercados, via promoções ou liquidações, para fazer frente aos compromissos contratados; a ação da política monetária é demorada, devido à necessidade de persuadir os agentes econômicos a mudarem suas estratégias.

As autoridades monetárias adquirem credibilidade com a própria manutenção da política contracionista, acima das pressões políticas para mudá-la. O equilíbrio fiscal é relevante para que elas não se vejam forçadas a acomodar déficits públicos com emissão monetária. Nessa abordagem monetarista, a inflação é reduzida pela diminuição do crescimento da oferta monetária: se isso causa ou não recessão depende muito da credibilidade na mudança de regime monetário, para que todos os agentes que fixam preços e salários ajustem seu comportamento.

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