Comunismo segundo Karl Marx

Manifesto Comunista

Crítica ao Programa de GothaO trabalho de Karl Marx, Kritik des Gothaer Programms (Crítica do Programa de Gotha), escrito em 1875, é composto por um conjunto de observações críticas ao projeto de programa do futuro partido operário alemão, unificado a partir do Partido Operário Social-Democrata, fundado em 1869, em Eisenach, e a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, fundada por Lassalle em 1863. Este projeto sofria de sérios erros ideológicos e de concessões de princípio ao lassallianismo segundo Marx.

Ele e Engels aprovavam a ideia de se fundar um partido socialista único da Alemanha, mas denunciavam o compromisso ideológico com os lassallianos e submetiam-no a uma crítica mordaz. Neste opúsculo, Marx formulou, brevemente, toda uma série de ideias ainda vagas sobre as questões fundamentais da “teoria do comunismo científico”, tais como

  1. a revolução socialista,
  2. a ditadura do proletariado,
  3. o período de transição do capitalismo para o comunismo,
  4. as duas fases da sociedade comunista,
  5. a produção e a distribuição do produto social no socialismo e
  6. os traços fundamentais do comunismo,
  7. o internacionalismo proletário e
  8. o partido da classe operária.

Esta obra constitui um passo no desenvolvimento da doutrina do marxismo sobre o Estado e a ditadura do proletariado. Marx define a tese da inevitabilidade histórica de um estágio especial de transição do capitalismo para o comunismo, com a forma de Estado correspondente à «ditadura revolucionária do proletariado».

Vale a pena as reler, para debater se essa doutrina ideológica foi ultrapassada, devido às experiências concretas das revoluções de uma vanguarda partidária em nome do proletariado. Essas antecipações históricas, ou melhor, “salto de etapa” para o SOREX – Socialismo Realmente Existente, levou ao totalitarismo antidemocrático, comandado por uma nomenclatura partidária? Qual era a concepção original de Karl Marx para o Socialismo e o Comunismo? Encontra-se somente neste livro pequeno de poucas páginas: Crítica do Programa de Gotha?

Vamos destacar abaixo algumas ideias-chave dessa doutrina (com termos contemporâneos do “português brasileiro” entre colchetes), encontrada nesse opúsculo em alguns tópicos das Glosas Marginais ao Programa do Partido Operário Alemão, escritas em 1875. Marx morreu em 1883. Engels as tornou pública, cortando algumas partes, em 1891. Só em 1921, quatro anos após a Revolução Soviética de 1917, o texto foi publicado na íntegra.

3. «A libertação do trabalho exige que os meios de trabalho [meios de produção] se elevem a bem comum da sociedade [coletivização da propriedade] e que o trabalho coletivo seja regulamentado pela comunidade [planejamento central], com repartição equitativa do produto [renda].»

[Marx inicia a “patrulha ideológica”, cobrando “precisão científica” aos termos.]

«Elevação dos meios de trabalho a bem comum»?!

Deve, sem dúvida, querer dizer a sua «transformação em bem comum». Contudo, isto só de passagem.

Que é «provento do trabalho»?!

O produto do trabalho ou o seu valor? E, no último caso, o valor total do produto ou apenas a parte de valor que o trabalho acrescentou de novo ao valor dos meios de produção consumidos? «Provento do trabalho» é uma representação vaga que Lassalle pôs no lugar de conceitos económicos determinados.

Que é repartição «justa»?!

Não afirmam os burgueses que a repartição atual é «justa»? E, de fato, não é ela a única repartição «justa» na base do modo de produção atual? Regulam-se as relações econômicas por conceitos jurídicos ou não nascem, inversamente, as relações jurídicas das econômicas? Não têm também os sectários socialistas as representações mais diversas sobre repartição «justa»?

Para saber o que se quer representar, nesta oportunidade, com a frase «repartição justa» temos de confrontar o primeiro parágrafo com este. Este último subentende uma sociedade em que «os meios de trabalho são bem comum e o trabalho total é regulado cooperativamente» e, pelo primeiro parágrafo, vimos que «o provento do trabalho pertence não reduzidamente, por igual direito, a todos os membros da sociedade».

«A todos os membros da sociedade»?!

Também aos que não trabalham? Que acontece, então, ao «provento não reduzido do trabalho»? [É] só para os membros da sociedade que trabalham? Que acontece, então, «ao igual direito» de todos os membros da sociedade?

Mas «todos os membros da sociedade» e «o igual direito» são manifestamente apenas maneiras de dizer. O cerne consiste em que, nesta sociedade comunista, cada trabalhador tem que receber o seu lassalliano «provento não reduzido do trabalho».

Se tomarmos, primeiro que tudo, as palavras «provento do trabalho» no sentido do produto do trabalho, então, o provento cooperativo do trabalho é o produto social total.

A isso há, então, que deduzir:

Em primeiro lugar: cobertura para reposição dos meios de produção gastos [depreciação].

Em segundo lugar: uma parte adicional para expansão da produção [investimento].

Em terceiro lugar: um fundo de reserva ou de seguro contra acidentes, perturbações por fenômenos naturais, etc. [reservas de segurança].

Estas deduções ao «provento não reduzido do trabalho» são uma necessidade econômica e há que determinar a sua grandeza segundo os meios e as forças disponíveis, em parte por cálculo de probabilidades, mas de modo nenhum elas são calculáveis a partir da justiça.

Fica a outra parte do produto total, destinada a servir de meios de consumo.

Antes de se chegar à repartição individual, retira-se de novo dela:

Em primeiro lugar: os custos de administração gerais, não diretamente pertencentes à produção [custos fixos].

Esta parte será, desde o início, limitada do modo mais significativo, em comparação com a sociedade atual, e diminui na mesma medida em que a nova sociedade se desenvolve.

Em segundo lugar: o que está destinado à satisfação comunitária de necessidades, como escolas, serviços sanitários, etc. [impostos].

Esta parte cresce significativamente, desde o início, em comparação com a sociedade atual e cresce na mesma medida em que a nova sociedade se desenvolve. [carga tributária].

Em terceiro lugar: fundo para os incapazes de trabalho, etc., para o que hoje pertence à chamada assistência aos pobres oficial [previdência social].

Só agora chegamos à «repartição» que o programa, sob a influência de Lassalle, tem em vista — [e] apenas de um modo tacanho —, a saber: à parte dos meios de consumo que são repartidos entre os produtores individuais da [sociedade] cooperativa [bens de consumo].

O «provento não-reduzido do trabalho» já se metamorfoseou em «produto reduzido», se bem que aquilo que não vai para o produtor na sua qualidade de indivíduo privado lhe venha a caber, direta ou indiretamente, na sua qualidade de membro da sociedade.

Assim como a frase do «provento não-reduzido do trabalho» se desvaneceu, desvanece-se agora a frase do «provento do trabalho» em geral.

[Depois dessa Contabilidade Social, Marx apresenta, finalmente, sua doutrina socialista.]

No interior da sociedade cooperativa [ordem social comunitária], fundada no patrimônio comum dos bens de produção,

  1. os produtores não trocam os seus produtos;
  2. tampouco, aparece aqui o trabalho empregado nos produtos como valor desses produtos, como uma qualidade material possuída por eles, uma vez que agora, em oposição à sociedade capitalista, já não é por um desvio, mas sim diretamente que os trabalhos dos indivíduos se tornam partes componentes do trabalho total da comunidade.

As palavras «provento do trabalho», rejeitáveis hoje em dia também por causa da sua ambiguidade, perdem, assim, todo o sentido.

Aquilo com que temos aqui a ver é com uma sociedade comunista, não como ela se desenvolveu a partir da sua própria base, mas, inversamente, tal como precisamente ela sai da sociedade capitalista;

[uma sociedade comunista], portanto, que, sob todos os aspectos — econômicos, moral, intelectual —, ainda está carregada das marcas da velha sociedade, de cujo seio proveio.

Em conformidade, o produtor individual recebe de volta — depois das deduções — aquilo que ele lhe deu. Aquilo que ele lhe deu é o seu quantum individual de trabalho. Por exemplo, o dia social de trabalho consiste na soma das horas de trabalho individuais. O tempo de trabalho individual do produtor individual é a parte do dia social de trabalho por ele prestada, a sua participação nele.

Ele recebe da sociedade um certificado em como, desta e daquela maneira, prestou tanto trabalho (após dedução do seu trabalho para o fundo comunitário) e, com esse certificado, extrai do depósito social de meios de consumo tanto quanto o mesmo montante de trabalho custa. O mesmo quantum de trabalho que ele deu à sociedade sob uma forma, recebe-o ele de volta sob outra.

Reina aqui manifestamente o mesmo princípio que regula a troca de mercadorias, na medida em que ela é troca de equivalentes. Conteúdo e forma alteraram-se, porque, nas circunstâncias alteradas,

  1. ninguém pode dar algo, exceto o seu trabalho, e
  2. porque, por outro lado, nada pode transitar para a propriedade dos indivíduos a não ser meios de consumo individuais.

Porém, no que diz respeito à repartição dos últimos entre os produtores individuais, reina o mesmo princípio do que na troca de mercadorias equivalentes, o mesmo montante de trabalho sob uma forma é trocado pelo mesmo montante de trabalho sob outra.

O direito igual é aqui, portanto, sempre ainda — segundo os princípios — o direito burguês, se bem que princípio e prática já não entrem em conflito, enquanto que, hoje, a troca de equivalentes na troca de mercadorias só existe em média e não para os casos individuais.

Apesar deste progresso, este igual direito está ainda constantemente carregado com uma limitação burguesa. O direito dos produtores é proporcional ao seu fornecimento de trabalho; a igualdade consiste em que ele é medido por uma escala igual: o trabalho.

Mas um indivíduo é física ou intelectualmente superior a outro; fornece, portanto, mais trabalho no mesmo tempo, ou pode trabalhar durante mais tempo [produtividades diferenciadas]; e o trabalho, para servir de medida, tem que ser determinado segundo a extensão ou a intensidade, senão cessaria de ser escala de medida.

Este igual direito é direito desigual para trabalho desigual. Não reconhece nenhuma diferença de classes, porque cada indivíduo é um trabalhador como o outro; mas, reconhece, tacitamente, o desigual dom [talento ou habilidade] individual — e, portanto, a desigual capacidade de rendimento dos trabalhadores — como privilégios naturais. Portanto, é um direito baseado na desigualdade, pelo seu conteúdo, aliás como todo o direito.

O direito, pela sua natureza, só pode consistir na aplicação de uma escala igual;

  • mas, os indivíduos desiguais (e não seriam indivíduos diversos se não fossem desiguais) só são medíveis por uma escala igual desde que sejam colocados sob um ponto de vista igual,
  • desde que sejam apreendidos apenas por um lado determinado, por exemplo, no caso presente, desde que sejam considerados apenas como trabalhadores e que se não veja neles nada mais, ou seja, desde que se abstraia de todo o resto [fim da diferenciação entre trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais].

Além disso: um trabalhador é casado, o outro não; um tem mais filhos do que o outro, etc., etc. Com um rendimento de trabalho igual — e, portanto, com uma participação igual no fundo social de consumo — um recebe, pois, de fato, mais do que o outro, um é mais rico do que o outro, etc. Para evitar todos estes inconvenientes, o direito, em vez de ser igual, teria antes de ser desigual.

Mas, estes inconvenientes são inevitáveis na primeira fase da sociedade comunista [sociedade socialista?], tal como precisamente saiu da sociedade capitalista, após longas dores de parto. O direito nunca pode ser superior à configuração econômica — e ao desenvolvimento da cultura por ela condicionado — da sociedade.

Em uma fase superior da sociedade comunista,

  1. depois de ter desaparecido a servil subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, também a oposição entre trabalho espiritual e corporal [intelectual e manual];
  2. depois de o trabalho se ter tornado, não só meio de vida, mas, ele próprio, a primeira necessidade vital;
  3. depois de, com o desenvolvimento múltiplo dos indivíduos, as suas forças produtivas terem também crescido e todas as fontes da riqueza cooperativa jorrarem com abundância;
  4. só então o horizonte estreito do direito burguês poderá ser totalmente ultrapassado e a sociedade poderá inscrever na sua bandeira: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades!

Alarguei-me sobre o «provento não-reduzido do trabalho», por um lado, sobre «o direito igual», «a repartição justa», por outro lado, para mostrar quão criminoso é,

  • por um lado, querer-se impor de novo como dogmas ao nosso Partido representações que num certo tempo tiveram sentido, mas que agora se tornaram uma tralha antiquada de frases, e
  • que, por outro lado, falseiam a concepção realista — que tão penosamente foi inculcada no Partido, mas que lançou raízes nele — novamente através de balelas ideológicas jurídicas e outras, tão correntes entre os democratas e os socialistas franceses.

Abstraindo do até aqui desenvolvido, era em geral errôneo fazer da chamada repartição algo de essencial e pôr nela o principal acento.

Em todas as épocas, a repartição dos meios de consumo é apenas consequência da repartição das próprias condições da produção; esta última repartição, porém, é um carácter do próprio modo de produção.

O modo de produção capitalista, por exemplo, repousa em que as condições materiais da produção estão repartidas entre não-trabalhadores, sob a forma de propriedade de capital e propriedade de terra, enquanto a massa é apenas proprietária da condição pessoal de produção: a força de trabalho.

Se os elementos da produção se repartem desta maneira, a repartição atual dos meios de consumo segue-se por si própria.

Se as condições materiais da produção forem propriedade cooperativa dos próprios trabalhadores [coletivização dos meios de produção], segue-se, do mesmo modo, uma repartição dos meios de consumo diversa da atual.

O socialismo vulgar (e, por ele, por seu turno, uma concepção da democracia) herdou dos economistas burgueses o considerar e o tratar a distribuição independentemente do modo de produção e o expor, portanto, o socialismo como girando principalmente em torno da distribuição. Depois da relação real estar há muito tempo esclarecida, por que voltar a trás?

4. «A libertação do trabalho tem que ser obra da classe operária, em face da qual todas as outras classes são uma só massa reacionária.»

A primeira estrofe é tirada das palavras introdutórias dos Estatutos internacionais, mas «melhorada». Diz-se lá: «A libertação da classe operária tem que ser o feito dos próprios operários»; aqui, pelo contrário, «a classe operária» tem que libertar — o quê?! «O trabalho.» Compreenda quem puder…

Em compensação, a antístrofe é, pelo contrário, uma citação de Lassalle, da mais pura água: «em face da qual (da classe operária) todas as outras classes formam uma só massa reacionária».

No Manifesto Comunista [elaborado pelo próprio Marx em 1848] diz-se:

«De todas as classes que hoje confrontam a burguesia, só o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As restantes classes [rurais, camponesas, aristocráticas?] enfraquecem-se e soçobram com a Grande Indústria; o proletariado é dela o produto mais próprio

A burguesia é considerada aqui como classe revolucionária — como portadora da Grande Indústria — face aos [senhores] feudais e estratos médios [artesãos?] que querem manter todas as posições sociais que são obra de modos de produção antiquados. Não formam, portanto, juntamente com a burguesia, senão uma só massa reacionária.

Por outro lado, o proletariado é revolucionário face à burguesia, porque, crescido ele próprio do solo da Grande Indústria, se esforça por despojar a produção do caráter capitalista que a burguesia procura perpetuar.

Mas o Manifesto acrescenta: que «as classes médias… se tornam revolucionárias… em vista da sua passagem iminente para o proletariado» [hipótese distinta que o risco de proletarização torna a pequena-burguesia reacionária].

Deste ponto de vista, portanto, é um contrassenso que elas «juntamente com a burguesia» e, sobretudo, com os senhores feudais, face à classe operária, «formem uma só massa reacionária».

Será que nas últimas eleições se gritou aos artesãos, aos pequenos industriais, etc., e aos camponeses: “Perante nós, vocês, com os burgueses e os senhores feudais, não formam senão uma só massa reacionária”?!

Lassalle sabia de cor o Manifesto Comunista, tal como os seus crentes [seguidores fiéis] sabem os sagrados escritos da autoria dele. Se, portanto, ele o falsificou tão grosseiramente, isso só aconteceu para embelezar a sua aliança com os adversários absolutistas e feudais contra a burguesia.

No parágrafo acima, aliás, o seu sábio versículo é tirado a ferros, sem nenhuma conexão com a citação desfigurada dos Estatutos da Internacional. É, portanto, aqui uma simples impertinência e, com efeito, de modo nenhum pode ser desagradável ao senhor Bismarck: uma daquelas grosserias baratas em que o Marat berlinense negocia [ofensa irônica ao rival].

5. «A classe operária age pela sua libertação, antes do mais, no quadro do atual Estado nacional, consciente de que o resultado necessário do seu esforço, que é comum aos operários de todos os países civilizados, será a fraternidade internacional dos povos.»

Em oposição ao Manifesto Comunista e a todo o socialismo anterior, Lassalle concebia o movimento operário do ponto de vista nacional mais estreito. E depois da ação da Internacional, é seguido nisso!

É totalmente evidente que, para poder lutar, a classe operária tem de se organizar como classe, no seu país, e que o ambiente nacional é a cena imediata da sua luta. Nesta medida, não “pelo conteúdo”, mas, como o Manifesto Comunista diz, “pela forma”, a luta de classes é para ela nacional.

Mas, o «quadro do Estado nacional hodierno», por exemplo, do Império alemão, está ele próprio, por seu turno, economicamente «no quadro do mercado mundial», politicamente, «no quadro do sistema dos Estados». Qualquer negociante sabe que o comércio alemão é, ao mesmo tempo, comércio externo e que a grandeza do senhor Bismarck consiste, precisamente, no caráter de sua política internacional.

E a que reduz o Partido Operário Alemão o seu internacionalismo? A consciência de que o resultado do seu esforço «será a fraternidade internacional dos povos» — uma frase tomada da Liga burguesa da Paz e da Liberdade, que deveria passar por equivalente da fraternidade internacional das classes operárias na luta comum contra as classes dominantes e os seus governos.

Acerca das funções internacionais da classe operária alemã, portanto, nem uma palavra! E, assim, ela deve dobrar a parada face à sua própria burguesia, irmanada já contra ela com a burguesia de todos os outros países, bem como à política de conspiração internacional do senhor Bismarck!

De facto, a profissão de fé internacionalista do Programa fica ainda infinita [e] profundamente abaixo da do Partido do Comércio Livre. Também ele pretende que o resultado do seu esforço é «a fraternidade internacional dos povos». Porém, ele também faz alguma coisa para tornar internacional o comércio, e de modo nenhum se contenta apenas com a consciência de que todos os povos, nos seus países, fazem comércio…

A ação internacional das classes operárias não depende de maneira alguma da existência da «Associação Internacional dos Trabalhadores». Esta foi apenas a primeira tentativa de criar um órgão central para aquela ação; uma tentativa que, pelo impulso que deu, teve consequências duradouras, mas que, na sua primeira forma histórica, não era prolongável mais tempo após a queda da Comuna de Paris.

A Norddeutsche de Bismarck estava completamente com razão quando, para satisfação do seu amo, anunciava que o Partido Operário Alemão, no seu novo programa, tinha abjurado do internacionalismo

(…)

[IV]

Chego agora à secção democrática.

A. «Livre fundamento do Estado.»

Antes do mais, segundo II, o Partido Operário Alemão aspira ao «Estado livre».

Estado livre — que é isso?!

Não é de modo nenhum objetivo dos operários achar que para se livrarem da estreita mentalidade de humildes súditos é necessário tornar o Estado «livre». No Império alemão, o «Estado» é quase tão «livre» como na Rússia.

A liberdade consiste em transformar o Estado, organismo que é colocado acima da sociedade, em órgão a ela inteiramente subordinado. Hoje em dia, também as formas de Estado são mais livres ou menos livres na medida em que elas limitam a «liberdade do Estado».

O Partido Operário Alemão — pelo menos, se fizer seu este Programa — mostra que nele as ideias socialistas não o tocam nem de leve, uma vez que, em vez de tratar a sociedade existente (e isto vale para toda a sociedade futura) como base do Estado existente (ou Estado futuro para a sociedade futura), trata antes o Estado como um ser autônomo, que possui as suas próprias «bases espirituais de costumes e liberais».

E ainda: que mau uso o programa dá às palavras «Estado hodierno», «sociedade hodierna» e que mau entendimento ainda mais absurdo produz ele acerca do Estado a quem dirige as suas reivindicações!

A «sociedade hodierna» é a sociedade capitalista, que existe em todos os países civilizados, mais ou menos expurgada de elementos medievais, mais ou menos modificada pelo desenvolvimento histórico particular de cada país, mais ou menos desenvolvida.

O «Estado hodierno», pelo contrário, muda com as fronteiras do país. No Império prusso-alemão é diferente de na Suíça, na Inglaterra é diferente de nos Estados Unidos. «O Estado hodierno» é, portanto, uma ficção.

No entanto, os diversos Estados dos diversos países civilizados, apesar da sua variada diversidade de formas, têm tudo isto em comum: erguem-se sobre o solo da sociedade burguesa moderna, só que umas mais ou menos desenvolvidas sob o ponto de vista capitalista. Também têm, portanto, em comum certos caracteres essenciais. Neste sentido, pode falar-se de «sistema de Estado hodierno», em contraste com o futuro, em que a sua raiz atual, a sociedade burguesa, se terá extinguido.

Pergunta-se, então: por que transformação passará o Estado em uma sociedade comunista? Em outras palavras, que funções sociais permanecerão então, que sejam análogas às funções atuais do Estado? Há que responder a esta pergunta apenas cientificamente. E não é juntando de mil maneiras a palavra Povo com a palavra Estado que se fará avançar a solução do problema um passo que seja.

Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista fica o período da transformação revolucionária de uma na outra. Ao qual corresponde também um período político de transição, cujo Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado.

Ora, o Programa nem se ocupa do último, nem do futuro Estado da sociedade comunista.

As suas reivindicações políticas não contêm senão a velha ladainha democrática, conhecida de toda a gente: sufrágio universal, representação legislativa direta [plebiscitos], direito do povo, exército popular, etc. São um simples eco do Partido Popular burguês, da Liga da Paz e da Liberdade.

São reivindicações altissonantes que, uma vez que não sejam exageradas em representação fantástica, estão já realizadas. Só que o Estado ao qual elas pertencem não está dentro das fronteiras do Império alemão, mas na Suíça, nos Estados Unidos, etc. Esta espécie de «Estado do futuro» é Estado hodierno, se bem que existindo fora «do quadro» do Império alemão.

Mas, esquece-se uma coisa. Uma vez que o Partido Operário Alemão declara expressamente mover-se dentro «do Estado nacional hodierno», portanto, [dentro] do seu Estado, do Império prusso-alemão — as suas reivindicações também seriam, aliás, em grande parte desprovidas de sentido, uma vez que só se reivindica aquilo que ainda não se tem —, ele não devia esquecer o principal, a saber: que todas essas lindas coisinhas repousam no reconhecimento da chamada “soberania do povo”, que, portanto, só tem cabimento em uma República democrática.

Uma vez que não se tem a coragem — e sabiamente, pois as condições pedem precaução — de reclamar a República democrática, como os programas operários franceses fizeram, sob Louis-Philippe e sob Louis-Napoléon — também não havia que ter-se refugiado nas tapeações nem «honradas», nem dignas, de reclamar coisas que só têm sentido numa República democrática de um Estado que não é senão um despotismo militar, com armadura burocrática, e blindagem policial, adornado com formas parlamentares, misturado com elementos feudais e, ao mesmo tempo, influenciado já pela burguesia, e, ainda por cima, imaginar poder impor a esse Estado semelhantes coisas «por meios legais»!.

Mesmo a democracia vulgar, que vê na República democrática o advento do Reino Milenário, e não tem nenhuma suspeita de que é sob esta última forma de Estado da sociedade burguesa que há que resolver, definitivamente, pelas armas, a luta das classes [foi colocada nesta tradução “a luta armada”, expressão que não aparece em outras traduções] — mesmo ela está montanhas acima de um democratismo deste tipo, confinado dentro dos limites do policialmente autorizado e, logicamente, não autorizado.

Que, de fato, por «Estado» se entende a máquina governamental ou então o Estado na medida em que ele constitui um organismo separado da sociedade, por divisão do trabalho, mostram-no já estas palavras: «O Partido Operário Alemão reclama como base econômica do Estado: um imposto único e progressivo sobre o rendimento, etc.» Os impostos são a base econômica da máquina do governo e de nada mais.

No Estado do futuro, que existe na Suíça, esta reivindicação está consideravelmente satisfeita. O imposto sobre o rendimento pressupõe as diversas fontes de rendimento das diversas classes sociais, portanto, a sociedade capitalista. Não é, pois, nada de extravagante que os Financial Reformers de Liverpool — burgueses com o irmão de Gladstone à cabeça — apresentem a mesma reivindicação que o Programa. (…)”

Questões para Reflexões:

1. A ideia de determinismo histórico não se encontra na própria obra de Marx, que atribui ao proletariado um ser e uma missão revolucionários?

De fato, Karl Marx chega a usar a expressão “que se impõem de maneira necessária”…

O determinismo aparece por um argumento de tipo negativo – no proletariado se concentram a máxima alienação, miséria e degradação que até agora couberam ao homem e, portanto, fazer a revolução é a única saída possível, para quem não tem nada a perder.

Mas aparece também por um argumento de tipo positivo – apenas o proletariado era, para Marx, inteiramente ligado à organização da produção moderna e, portanto, o único iniciador possível da sociedade futura.

Na verdade, o caráter revolucionário de um sujeito histórico não se define a priori, mas sim a posteriori: sujeito revolucionário é quem fez a revolução!

2. Bem, se não é o povo, quem será a vanguarda revolucionária, “portadora da boa consciência, da linha justa e da marcha da história”?

Este é o populismo que sugere que há “um povo mais povo do que o próprio povo”…

O populismo acabou inventando um povo “duplo”, isto é, um povo objetivamente revolucionário – porque as leis da história determinariam que assim o seria – e subjetivamente atrasado – porque a alienação capitalista assim o determinaria.

O vanguardismo, aliás, se depara com um problema insolúvel, pois se vê a considerar, ao mesmo tempo:

  1. que a marcha da história é objetivamente inelutável e logicamente previsível – sem essa justificativa a luta revolucionária se descambaria para o voluntarismo – e
  2. que é preciso “ajudar” essa história a marchar. Com isto, a consciência e a vontade, que eram dispensáveis em virtude das leis históricas, voltam a ser necessárias, para que essas leis se cumpram.

O dilema da vanguarda é: a história se faz sem os homens ou somente com alguns homens?

Leia mais:

Maio/2012/ – Revista Filosofia (ciência e vida) – Uma carta de Karl – Da Redação
1/6/12 – Revista Filosofia – Uma teoria desfocada – Vitor Bartoletti Sartori
06/04/2012 – Revista Filosofia – Hegel na mira de Karl Marx – Gustavo Daizeni
28/07/2012 – O Estado de S. Paulo – Sabático – Preparando para Marx – Maria Fernanda Rodrigues
01/08/2012 – Revista Sociologia – Marxismo: coisa do passado? – Vitor Bartoletti Sartori
01/11/2012 – Le Monde Diplomatique – Livros – Crítica do programa de Gotha – João Alexandre Pechanski

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