Expansão da Classe Média pelo Mundo

Expansão da Classe Média pelo Mundo

Érica Fraga (FSP, 14/04/13) informa que a ascensão da classe média de renda – em termos nominais, entre R$ 240 e R$ 780 mensais per-capita, ou R$ 940 a R$ 3.120 como renda familiar, mas medido em PPC (Paridade de Poder de Compra) –  nas últimas décadas não foi um fenômeno exclusivo do Brasil. O movimento foi verificado em todo o mundo emergente e liderado, principalmente, pela Ásia. Essa tendência é considerada possível tábua de salvação para a economia global. Mas existe preocupação sobre possíveis riscos de reversão, já que muitos dos novos consumidores permanecem próximos da pobreza.

“Se definirmos a classe média como pessoas que passaram para cima da linha da pobreza e se transformaram em consumidores, esse fenômeno de expansão tem sido, de fato, global“, diz Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial. “Mas essa passagem não é necessariamente permanente”, ressalta o economista, meu ex-colega do IE-UNICAMP.

Estimativas recentes de pesquisadores da Organização Mundial do Trabalho (OIT) indicam que o percentual de trabalhadores pertencentes à classe média nos países em desenvolvimento mais do que dobrou entre 1991 e 2011, passando de 12,7% para 30,5% do total. O maior salto verificado foi no leste asiático, onde a fatia saltou de 3,1% para 45,4%.

Na América Latina, segundo a OIT, os trabalhadores pertencentes à classe média já representavam 45,1% do total em 1991 e chegaram a 48,4% em 2011.

Os dados são parte de outro estudo que ainda será publicado e divide os trabalhadores dos países em desenvolvimento em cinco classes (ver gráfico acima).

Os pesquisadores da OIT consideram que trabalhadores da classe média são os que têm renda familiar entre US$ 4 e US$ 13 por dia (medidos em paridade do poder de compra, que elimina diferenças de preços entre países).

Estudo do economista Martin Ravallion, professor da Universidade de Georgetown, afirma que a expansão da classe média ocorreu em cerca de 70% dos países. O trabalho, feito para o Banco Mundial em 2009, ressalta que os chineses representam metade do 1,2 bilhão de pessoas que ascenderam à classe média entre 1990 e 2005.

A capacidade de consumir bens além da cesta básica tem sido muito utilizada em definições sobre classe média. Mas não é possível comparar o padrão de vida da classe média emergente nos países em desenvolvimento com o das nações ricas: a classe média do mundo em desenvolvimento é definida como os que não são considerados pobres pelos padrões dos países em desenvolvimento, mas ainda são pobres pelos padrões dos ricos.

No Brasil, a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), ligada à Presidência da República, tem tentado mensurar essa vulnerabilidade. Segundo a economista Diana Grosner, diretora da SAE, 22% da população brasileira pertence ao estrato mais baixo da classe média (dividida em três grupos), com renda familiar per capita mensal entre R$ 291 e R$ 441. Essas pessoas são as mais vulneráveis a uma volta à pobreza e representam um número alto.

Em estudo de 2009 sobre a expansão da classe média, o economista Martin Ravallion citou que 1 em cada 6 pessoas em países em desenvolvimento viviam com renda entre US$ 2 e US$ 3 por dia. O autor considerou renda per capita de US$ 2/dia como limite entre a pobreza e a nova classe média em nações emergentes — valor em paridade do poder de compra de 2005, medida que elimina distorções de preço.

Para Grosner, a inflação mais elevada e o aumento do endividamento representam riscos importantes para a nova classe média brasileira. Outra ameaça, segundo a economista, é o avanço da produtividade em ritmo muito menor que o dos salários. Segundo ela, isso pode fazer com que as empresas decidam repassar os custos maiores para os preços –pressionando mais a inflação– ou demitir.

O risco de retrocesso no processo de expansão da classe média em países emergentes preocupa porque a continuação de sua ascensão é importante para a recuperação da economia global.

“As boas perspectivas para a classe média da Ásia e de outros países como o Brasil são importantes por garantir demanda por bens e recursos mais forte que à de consumidores de países desenvolvidos”, afirma Robert Wood, economista da EIU (Economist Intelligence Unit). Dados da EIU mostram que o forte crescimento da fatia de famílias com renda anual superior a US$ 10 mil foi comum a vários países emergentes na última década.

Segundo o economista Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial, a expansão do emprego e a valorização do trabalho são a principal causa comum para a expansão da classe média em países em desenvolvimento nos últimos anos.

Grosner menciona que o aumento da renda do trabalho explica mais do que 60% do aumento da renda no país na última década.

Especialistas também ressaltam o papel de políticas de transferência de renda para o aumento de uma nova classe consumidora no Brasil e na América Latina.

Segundo Sonia Bueno, presidente-executivo da consultoria Kantar Worldpanel para a América Latina, 22% da população em 15 países da região disse receber algum benefício do governo: “Esse dinheiro acaba em boa parte sendo convertido em consumo”.

Impostos e Pobreza na América do Sul

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