Da Hegemonia Europeia à Hegemonia Norte-americana

EUA x Europa

Marc Ferro foi um nome de destaque entre os historiadores franceses. No inicio de sua carreira teve dificuldade de ingressar na carreira acadêmica, mas com ajuda de Fernand Braudel, um dos mais importantes historiadores da França, conseguiu mostrar sua importância ao mundo. É um dos principais nomes da 3ª geração da “Escola dos Annales“. Ferro é conhecido por ter sido o pioneiro, no universo historiográfico, a teorizar e aplicar o estudo da chamada relação cinema-história.

Como acadêmico, foi co-diretor da revista Les Annales (Économies, Sociétés, Civilisations), ensinou na l’École polytechnique, foi diretor de estudos na IMSECO (Institut du Monde Soviétique et de l’Europe Central e Oriental), membro do Comitê de redação do Cahiers du Monde Russe et Soviétique e professor visitante nos EUA, Canadá, Rússia e Brasil.

Sua estadia na Argélia, em pleno fervor revolucionário, também não pode ser esquecida. De volta a França, ajudou a organizar comitês de solidariedade aos argelinos.

Vamos editar o tópico intitulado como este post, encontrado em seu livro História das Colonizações (pp. 390-392).

História das ColonizaçõesNo século XIX, o movimento mais amplo é de fato a Revolução Industrial, cuja força motora é a Grã-Bretanha, que passa a ocupar o lugar dominante da Espanha e de Portugal na América do Sul, tanto para escoar seus produtos industriais como para controlar os circuitos comerciais. Os novos Estados nacionais endividam-se para comprar esses produtos. Os ingleses restringem-se em fazer negócios.

Assim, segundo Marc Ferro, “elaborou-se uma espécie de Novo Pacto Colonial, associando os interesses dos industriais europeus com os das classes dirigentes locais, mas em breve os primeiros controlariam parcialmente as economias dos países”.

A Grã-Bretanha era quem mandava no Peru e na Argentina. Os capitalistas alemães tomaram conta do comércio de café na Guatemala. Em Cuba, as companhias norte-americanas apropriaram-se das terras açucareiras. Pouco depois, as planícies da América Central foram dominadas através do Império Bananeiro, controla por Boston nos Estados Unidos. No Haiti e República Dominicana, onde as principais fontes de receita dos Estados eram as alfândegas, o credor norte-americano recuperava seu dinheiro exercendo o controle aduaneiro.

Entre 1870 e 1910, a situação latino-americana foi semelhante à dos processos ocorridos no Egito ou na Tunísia. A “crise venezuelana” de 1902 marcou a passagem, na América Latina, da hegemonia europeia para a norte-americana. Theodore Roosevelt liderou a cruzada armada contra os devedores em nome dos credores norte-americanos. Essa intervenção se fez em nome da Doutrina Monroe.

Marc Ferro argumenta que os Estados Unidos agiram diferentemente dos europeus, pois “os ingleses não atribuíram o menor caráter moral ou ideológico à sua dominação econômica. Sem dúvida, na África e em outras regiões, eles afirmavam agir em nome da Civilização [Ocidental], mas não na América Latina. Ali, faziam business, as usual, e contentavam-se com as vantagens concretas. (…) os norte-americanos, ao contrário, queriam exportar seu puritanismo de origem. Essa exigência de virtude política que está na base da Independência e da Revolução que fizeram. Os ianques gostariam de conduzir os latino-americanos a uma administração ‘saudável’ de seus negócios: ora, o que para os latino-americanos parece uma astúcia hipócrita para controlar seus orçamentos e seus países é, na verdade, mais do que uma tática, uma autêntica estratégia”.

Servindo para justificar vantagens materiais óbvias, o moralismo pedagógico tinha o objetivo de perpetuar uma relação de dominação. Em nome dos princípios liberais – democracia eleitoral, propriedade privada, e livre mercado – exercia-se a Política do Big Stick [“o grande porrete”]  da Doutrina Monroe. O Big Stick foi o slogan usado pelo presidente estadunidense Theodore Roosevelt para descrever o estilo de diplomacia empregada como corolário da Doutrina Monroe, a qual especificava que os Estados Unidos da América deveriam assumir o papel de polícia internacional no Ocidente.

Roosevelt tomou o termo emprestado de um provérbio africano, “fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete”, implicando que o poder para retaliar deveria estar disponível, caso fosse necessário, tipo “cenoura ou porrete”. Roosevelt utilizou pela primeira vez esse slogan na Feira Estadual de Minnesota, em 2 de Setembro de 1901, doze dias antes que o assassinato do presidente William McKinley o colocasse, subitamente, na Presidência.

As intenções desta diplomacia eram proteger os interesses econômicos dos Estados Unidos na América Latina. Estas ideias levaram à expansão da U.S. Navy e a um maior envolvimento nas questões internacionais. Isso levou à Diplomacia do Dólar, que se seguiu à administração Roosevelt, e que pode ser encarada como uma versão tardia da Diplomacia das Canhoneiras.

Theodore Roosevelt “libertara” Cuba e as Filipinas do domínio espanhol e, em nome de manter essa segurança nacional, os norte-americanos passaram a controlar a América Central. Essa política diplomática perdurou por todo o século XX, expressando-se como intervenção militar, p.ex., no Hait em 1915, na Guatemala logo após a Segunda Guerra Mundial, ajuda ao desembarque na Baia dos Porcos de contrarrevolucionários para atacarem Fidel Castro em Cuba, múltiplas ingerências na política dos pequenos Estados da “República das Bananas”, nos anos 60 e 70, e, depois, oposição à Revolução Sandinista na Nicarágua.

Existia uma correlação entre os créditos concedidos aos governos norte-americanos e os crimes cometidos nesses países contra os Direitos Humanos, sobretudo após 1976, quando, novamente, a América Latina abriu seus cofres para a “reciclagem dos petrodólares” e os investimentos diretos estrangeiros (IDE), essencialmente norte-americanos. Essa ajuda direta ou indireta sempre se fez em nome da “luta pela democracia” e “contra a subversão comunista”, princípios liberais que a política norte-americana dizia encarnar…

Essa prática dos Estados Unidos não se limitou aos Estados latino-americanos. Também alcançou, depois das Independências políticas nos anos 60, Estados como a Indonésia e a Coreia do Sul, submetidos à vigilância, “para afastá-los do comunismo”…

No Vietnam, deu origem a uma das guerras mais colonialistas da história contra a emancipação dos povos nativos. Segundo Ferro, “sem poder jogar uma Bomba A em cima de um aliado da URSS, e pressionado pela opinião pública, Richard Nixon resolveu se retirar em 1973”.

“Quando à ‘ajuda’ que acompanhou essa política [diplomática norte-americana], seu resultado foi enriquecer os mais ricos dirigentes dos países mais pobres; e empobrecer os mais pobres habitantes desses países”.

Leia mais:

Elisabete-Peiruque-UFRS-Revisão da História pela Literatura;

Resenha de O Livro Negro das Colonizações_José Jobson de Andrade Arruda

xadrez capitalista

3 thoughts on “Da Hegemonia Europeia à Hegemonia Norte-americana

  1. Prezado Fernando,

    A foto acima, se por um lado excita, por ou brocha, e lembrou-me um fato do início da década passada, minha esposa ao chegar no Tio Sam, ficou surpreendida com a quantidade de modelos de carros diferentes, começou a contar pelo olhar no “rodoanel” de Washington, e ultrapassou, pela memória visual, mais de trinta modelos sem repetição. Uma década depois, esse mesmo fato pode ser observado no Brasil, principalmente em sampa, na marginal, rodoanel ou Rodovia dos Bandeirantes. Numa análise qualitativa superficial, isso mostra o impacto da mudança que o país vem passando nos últimos dez anos.
    Porém tem o outro lado da moeda, eu as vezes me assusto quando estou andando na rua de Sampa hoje de forma distraída, pois pela paisagem e volume das pessoas, chego a pensar que estou andando nas ruas do Tio Sam, recupero a memória e me refaço do susto, mas o fato é que estamos mais próximo de lá não só na paisagem dos carros, mas em outras paisagens também, ou seja, a contrapartida é que, a situação excita e brocha, como a foto.
    A música de Belchior, símbolo de uma geração, “Como nossos pais”, diz a certa altura, “…, Na parede da memória, Esta lembrança É o quadro que dói mais…”. a percepção da realidade é que as novas gerações brasileiras está bem diferente, mas muito diferente da gerações dos nossos pais, estamos mais para a “geração-brocha” do lado de cima do equador, no carro e na graxa.

    E la nave va

    • Prezado Oswaldo,
      bem observado, bem observado…
      A homogeneização pela cultura norte-americana é ocidental: Américas, Europa e parte da África (exceto o Norte maometano).
      No Oriente Médio e parte da Ásia, ainda há certa resistência, para o bem (preservação de valores éticos) e para o mal (conservação da generofobia e homofobia dos mulçumanos)…
      att.

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