Argumento

Assisti, nos últimos workshops que presenciei, 60 apresentações durante três dias! Estas maratonas são organizadas com 12 sessões de duas horas cada, duas em cada turno, com cinco expositores por “mesa”. Lá para as tantas, o expectador não retém mais as inúmeras “ideias-chave” e passa a observar apenas a “corrida-contra-o-tempo-de-20-minutos”. O fundista conseguirá ou não? O juiz-cronometrador será rigoroso ou tolerante?

Adiada a absorção do conteúdo para se ler depois do seminário, em resumos ou PowerPoints apresentados, resta a reflexão sobre a forma de apresentação dos colegas. Em alguns casos, ficamos solidários com as queixas dos alunos. Em outros, ficamos admirados.

Qual é a forma ideal de apresentação? Como a organizar de maneira lógica, permitindo fácil compreensão para qualquer ouvinte? É simples, dividi-la em três partes. Primeiro, diga o que vai dizer. Depois, diz. Para finalizar, repita o que disse

Há um plano para expor qualquer assunto em público – ou escrever uma tese. Levante a sua hipótese original; apresente possíveis argumentos prós e contras; enalteças os prós; refute os contras; deduza que sua hipótese se transformou em uma tese, enquanto ninguém o convencer do contrário.

Argumentar é discutir, mas, principalmente, é raciocinar, deduzir, concluir, tirar ilações. Quando você discute com alguém, a argumentação é a busca da razão que os dois aceitam, ajudando-os a descobrir ou se aproximar da verdade almejada por ambos. Para isso, é fundamental o respeito mútuo.

Consequentemente, a argumentação é um método através do qual o indivíduo pode avaliar os problemas sociais que lhe dizem respeito. É um meio de criar hipóteses e deduzir conclusões. É uma técnica de emitir opiniões com o objetivo de defender uma determinada posição. É um instrumento poderoso de análise e crítica de todos os meios de troca de opiniões.

Aprender como se deve defender uma tese, capaz de resistir às análises da lógica e às evidências dos fatos, por escrito ou oralmente, não é apenas exigência da formação acadêmica, mas é o cotidiano da política e dos negócios. Argumentação é a arte influenciar os outros através da evidência e da lógica. Desta definição inferem-se os dois elementos onipresentes à argumentação. O primeiro é a certeza manifesta pela Evidência. O segundo é a coerência do raciocínio dada pela Lógica.

A escolha de um tema para posicionamento pessoal deve se guiar, em primeiro lugar, por ser passível de evidência. Deve ser motivo de controvérsia, caso contrário, a unanimidade de aceitação torna desnecessária a argumentação, pois o consenso é o túmulo da opinião. A importância ou o interesse do tema que justificará sua discussão.

Em qualquer discussão, os argumentos precisam ter concisão, clareza e força. Concisão aliada à precisão e exatidão é brevidade. Clareza é a transparência de linguagem. Força é o impacto da frase.

Vimos que sustentam-se os argumentos através de evidência e raciocínio. As evidências são os fatos, os exemplos, as estatísticas e os testemunhos. Raciocinar é o processo de extrair inferência dessas evidências, ou seja, é fazer uso da razão para conhecer e julgar a relação entre elas. Podem considerar-se quatro tipos de raciocínio: indução, dedução, relações causais, analogia.

Há uma distinção filosófica entre empirismo e racionalismo. Os empiristas recorrem à associação de ideias ou eventos para levar à aprendizagem. Realçam a importância das experiências sensoriais. Os racionalistas acreditam que a razão humana é a fonte essencial do conhecimento. O enfoque racionalista destaca mais os problemas de organização, compreensão, interpretação e significado do compreendido.

O racionalismo tem se reduzido a modelagem abstrata de um equilíbrio geral idealizado. O empirismo, por sua vez, busca o associacionismo de números, apresentando infinitos PowerPoints com gráficos expressando tendências das séries estatísticas temporais, seja anuais, seja mensais.

Fazer uma retrospectiva é restringir-se à exposição em que se apresentam somente as obras de um autor, de uma escola de pensamento, de uma época, com perspectiva histórica, mostrando a respectiva evolução. O historicista sempre conta histórias, adotando um método de teorizar que junta fatos, generalizações de baixo nível de abstração e teorias de alto nível abstrato, e adiciona ainda pitadas de julgamentos de valor em uma narrativa que imagina coerente. Muitas vezes, as enfadonhas leituras de séries temporais são substituídas pelo relato de uma série de acontecimentos recentes. As palestras improvisadas resumem-se a uma retrospecção da memória recente, isto é, de fatos recém registrados.

Prefiro os palestrantes que ousam fazer uma análise prospectiva, isto é, mostrar uma “vista ao longe”. Procuram prever a evolução futura da sociedade brasileira. Essa ação de olhar para a frente, enxergar à distância, ver a perspectiva, constitui uma ciência que examina as possibilidades futuras de algo. No caso, substituem a contabilidade dos fatos registrados do passado ao presente por hipóteses a respeito do que poderá ocorrer no futuro.

Um sambinha do Paulinho da Viola sumariza meu argumento:

“Tá legal,

Tá legal, eu aceito o argumento,

Mas não me altere o samba tanto assim (…)

Sem preconceito ou mania de passado

Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar

 

Faça como um velho marinheiro

Que durante o nevoeiro

Leva o barco devagar”

Referência bibliográfica: Penteado, J. R. Whitaker. A Técnica da Comunicação Humana. SP; Pioneira; 1991.

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