Os Anjos Bons da Nossa Natureza

Os Anjos Bons da Nossa Natureza

Rodrigo Petronio, escritor e professor, é autor de “Venho de um País Selvagem” (Topbooks), “Pedra de Luz” (A Girafa), entre outros. Escreveu resenha (Valor – Eu&Fim-de-Semana, 31/05/13) do livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza“, nova obra de Steven Pinker, um dos expoentes da chamada Psicologia Evolucionária, professor da Universidade de Harvard e considerado pela revista “Time” uma das cem personalidades mais influentes do mundo atual. Vamos editar sua resenha, sugerindo ler esse livro sobre o qual já tínhamos compartilhado uma matéria sobre sua edição norte-americana: Progresso na Geopolítica Mundial.

A violência diminuiu em termos absolutos ao longo da jornada milenar do Homo sapiens até os dias de hoje. Essa é a tese central de “Os Anjos Bons da Nossa Natureza“, nova obra de Steven Pinker. [Ei, leitores de artiguetes acadêmicos, tentem ler as 1.087 páginas dessa “literatura de aeroporto” (sic), talvez diminuam o esnobismo…]

As críticas a sua tese são compreensíveis. Ela é contraintuitiva. Temos hoje a sensação de haver violência por toda parte. Em um grau nunca antes sequer imaginado. E há uma explicação psicológica para isso. Enfatizamos muito mais eventos recentes do que devastações de séculos e milênios passados. O assassinato de um vizinho tem mais impacto para nossa mente do que os cerca de 100 milhões de mortos em nome do comunismo no século XX ou os 65 milhões de mortos durante o tráfico transatlântico de escravos nos séculos XVI e XVII. Uma aberração televisiva surte em nós um efeito maior do que, em números atualizados, os 278 milhões de mortos das conquistas mongóis do século XIII e os 429 milhões da revolta de An Lushan no século VIII.

Ou seja: os fatos atuais ganham uma proporção que comparativamente não deveriam ter. Essa é a chave de ouro de Pinker: desfazer sensos comuns. Desativar as afirmações superficiais sobre o tema. Para isso, alinha sua tese sobre a diminuição da violência em seis tendências.

  1. A primeira, em escala milenar, inicia-se na pré-história com as culturas de caçadores e coletores e se dirige ao surgimento de sociedades com Estado. É o chamado Processo de Pacificação.
  2. A segunda se apoia no conceito-matriz do sociólogo Norbert Elias e é definida como Processo Civilizador. Este se iniciou na Europa no fim da Idade Média, movido sobretudo pela expansão comercial, desdobrando-se até o século XX.
  3. A terceira tendência diz respeito ao que alguns historiadores chamam de Revolução Humanitária. É a mudança de quadrante intelectual promovida pelo racionalismo e pelo Iluminismo dos séculos XVII e XVIII.
  4. A quarta consiste na Grande Paz, surgida após a Segunda Guerra Mundial.
  5. A quinta seria observável a partir de 1989, com o fim da Guerra Fria e da Era da Ideologia, e é chamada de Nova Paz.
  6. E a sexta é a Revolução dos Direitos, baseada no movimento universal de reivindicação de direitos que assistimos nas últimas décadas, em todos os âmbitos.

Essas tendências dependem da atualização de aspectos da natureza humana, concentrados em cinco “demônios interiores”:

  1. violência predatória/instrumental,
  2. dominância,
  3. vingança,
  4. sadismo e
  5. ideologia.

São contrapostos a quatro “anjos bons”:

  1. empatia,
  2. autocontrole,
  3. senso moral,
  4. razão.

O jogo entre essas forças ocorre de acordo com a menor ou a maior vigência de cinco forças históricas que propiciam uma minimização da violência:

  1. o Estado,
  2. o comércio,
  3. a feminização,
  4. o cosmopolitismo e
  5. a racionalização.

A partir desse panorama, em primeiro lugar é preciso evitar interpretações apressadas e maniqueístas. Sim. Pinker refuta as “teorias hidráulicas da violência“, ou seja, concepções segundo as quais a violência humana é cíclica. Essa hipótese é defendida pelo etólogo Konrad Lorenz, um dos mais importantes pensadores das origens evolucionárias da agressão. Antropólogos e filósofos como Walter Burkert, René Girard, Georges Bataille, entre outros, podem ser alinhados nessa corrente. Autores, por sinal, que constituem lacunas na obra de Pinker.

Entretanto, em nenhum momento Pinker parte da hipótese de que a natureza humana seja boa. Ao contrário. Sua premissa é a de que na evolução do Homo sapiens há uma preponderância esmagadora de “violência endógena”, vez ou outra controlada por “forças exógenas”.

Não poderia ser diferente. No nível evolucionário, como diz Richard Dawkins, os seres vivos são “máquinas de sobrevivência”. Por isso, estão dispostos a cometer qualquer atrocidade para preservar seus genes e seu parentesco. A guerra é a lei da vida em estado puro. Resíduos paleontológicos atestam que o canibalismo foi comum na pré-história. Centenas de passagens bíblicas estimulam a violência. Gravuras medievais retratam um espetáculo de horror cotidiano.

Os enforcamentos e a guilhotina eram verdadeiros parques de diversão até o século XVIII. No século XX, os fundamentalismos ideológicos substituíram os religiosos como álibi para genocídios supostamente estratégicos. Mas, assim como há os demônios, é objetivamente verificável a ação dos bons anjos. E para Pinker eles atuam em uma escalada de pacificação cada vez mais evidente.

Todo controle da violência humana surge de métodos eficientes de mediação. Uma das primeiras mediações foi o Estado. Ao exercer o “monopólio da violência”, ele conseguiu minimizar o círculo vicioso de vingança das hordas sociais e dos bandos. Em vista disso, Pinker se apoia especialmente nas ideias de Hobbes. Para este, há no homem três grandes causas de contenda:

  1. domínio,
  2. medo e
  3. glória.

Desde sempre a humanidade guerreia em nome dessas palavras.

Apenas um pacto de sujeição ao Leviatã pode evitar uma escalada da guerra de todos contra todos. Mas isso tampouco desativa a violência por completo, pois o conflito passa a se exercer no âmbito político. Como reza a sentença do estrategista Carl von Clausewitz, a guerra é a “continuação da política por outros meios”. Para evitar isso, é preciso uma “política de dissuasão”. Esse exercício sistemático de dissuasão é o segredo das sociedades modernas.

Todos os seguintes fatores contribuíram para enfraquecer a unilateralidade dos danos bélicos.

  1. as democracias,
  2. o capitalismo,
  3. a esfera pública burguesa,
  4. o crescimento de pactos comerciais cada vez mais cosmopolitas.

Além disso, na modernidade assistimos à ascensão e aos desdobramentos do que Elias, em suas brilhantes análises dos códigos de corte do Antigo Regime, definiu como “segunda natureza“. Aquilo que no século XVIII eram meras regras de etiqueta, asseio e cuidados principescos, com a Revolução Humanitária acabou se transformando em uma universalização de políticas de bem-estar e de saúde pública.

A expansão da ciência e o impacto das novas tecnologias no cotidiano geraram novas formas dessa segunda natureza humana. Novos instrumentos efetivos de mediação de conflitos. No mundo globalizado, uma rede mundial de investimentos criou malhas interpessoais e econômicas. A violência contra o outro cada vez mais tem se configurado um suicídio em potencial. E essa dinâmica se acentuou com a emergência da Revolução dos Direitos. Paulatinamente o agressor e o agredido começaram a se encontrar mutuamente implicados no dano causado pela violência.

A despeito dessas reflexões bastante decalcadas na realidade, a obra de Pinker pode cansar alguns leitores pelo excesso de fontes estatísticas. Entretanto também isso é compreensível. Afinal, ele não quer cair nas tantas armadilhas do método quantitativo. Estrategicamente, vale-se do cruzamento de dados e de escalas de proporcionalidade. Além disso, cruza critérios distintos, para chegar o mais próximo possível de números absolutos.

Um problema teórico que permanece em aberto é a definição não empírica de violência. Podemos aceitar que os anjos bons de fato criem um ambiente propício a uma cultura mundial de paz.

  • Mas até que ponto essa paz será uma conquista coletiva autêntica e não a coroação de uma distopia?
  • A paz pode ser um subterfúgio para deixarmos nossos demônios adormecidos e postergarmos sua vingança final?
  • Em que medida essa paz será a paz do Grande Irmão de George Orwell ou poderá se assemelhar ao mundo novo e admirável profetizado por Aldous Huxley?

Eis perguntas que não silenciam.

Por outro lado, a pesquisa monumental ainda não é a maior contribuição de sua obra. Há outro aspecto ainda mais importante: ela pode representar o começo de uma revolução cognitiva. Por quê? Durante muitos séculos, duas concepções de natureza humana estiveram em conflito.

  1. A primeira pode ser definida como uma concepção trágica. De acordo com ela, seríamos determinados por leis inacessíveis, sejam elas cósmicas ou divinas.
  2. A segunda baseia-se na crença em uma natureza humana maleável. Caberia a nós a liberdade de definir o que queremos ser.

Na modernidade, essas duas posturas descrevem em linhas gerais o que podemos chamar, respectivamente, de:

  1. um pensamento conservador, e
  2. outro, pensamento progressista.

Para Pinker, essas duas concepções da natureza humana são rigorosamente falsas. Nascem de uma visão equivocada sobre o ser humano. Para demonstrar isso, recorre ao conceito que foi tema de seu outro livro: “Tábula Rasa“. Na Teoria Cognitiva, o conceito de tábula rasa não significa que a natureza humana seja modelável ao infinito. Quer dizer, sim, que as constantes de nossa natureza precisam de agentes externos para se atualizar.

[FNCPath dependence é a idéia de que as decisões que enfrentamos dependem da trajetória do conhecimento acumulado no passado e das decisões antes tomadas, e são, portanto, limitadas pela base de competência atual. Em outras palavras, a história importa para situações de tomada de decisões atuais e tem uma forte influência sobre o planejamento estratégico. Competências que foram construídas no passado definem a faixa opção para as jogadas de hoje. Novas oportunidades de negócios, em particular aqueles baseados no progresso tecnológico, surgem, gradualmente, como consequência das competências adquiridas antes de novas descobertas – e ao longo do tempo.]

Essa perspectiva produz uma guinada radical. Desmancha a divisão ideológica [entre conservadores e progressistas] com a qual nos habituamos durante tantos séculos.

Ser trágico não é denegar a algum ser transcendente a causa do nosso destino. É sim compreender que cabe a nós definir quais anjos ou demônios queremos trazer à luz.

Ser otimista não é ignorar a nossa herança maldita, na ilusão de que tudo será redimido pela nossa liberdade. Mas aceitar finalmente que os anjos e demônios nos pertencem. São nossa herança evolutiva. Inalienável.

Em um mundo ameaçado pela crescente polarização ideológica, cujos estragos são incalculáveis, esse ensinamento é mais do que bem-vindo. É salvador.

Anjos e demônios não são duas formas finais da natureza humana em uma batalha caricata. Eles são uma encruzilhada onde se encena a fatalidade de termos de escolher o que somos. Se conseguirmos suprimir o papel desempenhado pela violência como uma necessidade adaptativa da espécie, a violência simplesmente perderá sua razão de ser.

Somos uma das maiores aberrações do universo. E, em termos evolucionários, não deveríamos sequer ter existido. Mas também é preciso reconhecer: conseguimos fazer algo de bom nesses milênios sobre a Terra. Nesse sentido, a paz deixará de ser uma hipótese escandalosa. (…)”

Leia maisSTEVEN PINKER – Os Anjos Bons da Nossa Natureza

7 thoughts on “Os Anjos Bons da Nossa Natureza

      1. Prezado Fernando,
        já li os livros de Steven Pinker: Tábula Rasa e Como a Mente Funciona. Gostei muito da sinopse – sempre precisa – que fez do livro: Os Anjos Bons na Nossa Natureza, me ajudou bastante na compreensão desse livro e já comecei a lê-lo!
        Também tenho lido todas as suas publicações e gosto de colaborar na procura das fontes; aliás, considero importante que as publiquemos facilitando ainda mais o acesso ao conhecimento. Abs.

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