A Favor da Copa

Desde logo, sou a favor de Paz, Amor, Meio Ambiente, Mobilidade Urbana, Saúde, Educação, Habitação, todos os direitos humanos, etc. etc. e contra todo comportamento anti-social: corrupção, violência, vandalismo, exploração, etc. etc.  Quem não é?!

Quem não é praticante de bons valores, pelo menos, se manifesta na rua como fosse. Afinal, quem é irracional de ir contra a fúria das multidões? Nelas, os vândalos fascistas se infiltram para demonstrar sua intolerância contra valores da democracia representativa: partidos e militantes políticos.

Política como ação coletiva organizada visa defender determinados pontos de vista a respeito dos quais há conflito de interesses. A maioria, avaliada nas urnas – e não apenas pelos slogans do pequeno segmento social que vai para as ruas –, estabelece, indiretamente, as prioridades. Para a democracia direta, teria de se agilizar (via web?) a consulta plebiscitaria apenas nas grandes dúvidas a respeito de “o que cobrir com o coberto curto: os pés ou a cabeça?”

Ou há a ingenuidade de achar que há recursos financeiros e humanos abundantes, além da possibilidade de tirar o atraso histórico secular em território semi-continental “prá já”?!

Para examinar a complexidade do atendimento imediato às demandas populares, reflita sobre:

  • como será a implementação de um Plano de Mobilidade Urbana, em escala nacional, contra as prioridades dos governos locais?
  • por que se aponta a necessidade de contratar médicos estrangeiros, para atender os rincões mais pobres do interior do país, contra os interesses corporativos dos médicos brasileiros?
  • como aprovar todos os rendimentos do Fundo Social de Riqueza Soberana, extraídos da exportação do petróleo de águas profundas (pré-sal), serem direcionados para a Educação contra os interesses paroquiais ou barristas dos seus representantes no Congresso?

Como exemplo de conflito de interesses, onde entra a Política para dirimir, vou aqui provocar um debate, defendendo uma posição que seria “impopular” entre os jovens da passeata, mas que talvez seja muito “popular” entre “o resto do povo”: a favor da Copa!

Inicialmente, para distender as tensões, quero citar o filósofo José Simão (Folha de S. Paulo, 21/06/13): “E esse movimento ‘Da Copa eu abro mão’? Agora? Depois que o dinheiro já foi gasto? E ainda tem que pagar multa pra FIFA? Multa Patrão Fifa! Rarara!”

Esclareço, inicialmente, meus interesses no caso: sou amante do futebol como esporte, arte, cultura, lazer. Quero pão e circo! Desejo o prazer semanal para aplacar a luta cotidiana…

Acompanho, semanalmente, pelo menos dois jogos inteiros do meu time via pay-per-view. Quando morava em Belo Horizonte, fui a quase todos os jogos do Cruzeiro, no Estádio Mineirão, durante dez anos: 1965-1974. Dessa vivência – e acompanhamento cotidiano das notícias de meu time – deduzo que há milhares de pessoas como eu, o que faz do futebol talvez o maior lazer do povo brasileiro. Proporcionar-lhes conforto – e as condições de profissionalização do futebol semelhantes às que ocorrem na Europa acho que é um avanço histórico meritório.

Descartemos, de imediato,  o slogan “troco estádio bonito por saúde e educação”. Obviamente, esse valor de troca não se coloca em negociação. Se com R$ 26.621.321.854,19 (Total Contratado: R$ 15.369.594,387,60; Total Executado, isto é, Pago: R$ 6.594.493.091,57) se resolvessem os problemas da saúde e educação isto já teria sido resolvido há tempos!

Sabe quanto é o estoque de dívida pública brasileira? Um trilhão, novecentos e quarenta bilhões de reais! Emitir mais R$ 27 bilhões, se resolvesse todos os problemas da saúde e educação, seria mole…

Na verdade, quem apenas segue o feicebuque não acompanha o site Copa 2014: Transparência em Primeiro Lugar. Ele é uma iniciativa do Poder Executivo Federal, por meio da Controladoria-Geral da União. Tem o objetivo de facilitar o controle social dos recursos públicos que serão investidos para os jogos da Copa do Mundo de Futebol em 2014. Observem, especialmente, o montante e as obras em mobilidade urbana.

Tema de atuação Valor (em R$)
Contratado Liberado
Valor total 9,551,873,125.71 4,858,157,528
Desenvolvimento Turístico 932,876,245 232,101,702
Estádios 4,067,566,243 2,964,902,546
Mobilidade Urbana 4,551,430,638 1,661,153,281

A Matriz de Responsabilidades é o documento que apresenta os valores a serem investidos na Copa do Mundo de 2014. Ela define o papel dos governos federal, estaduais e municipais, bem como de agentes privados, na liberação de recursos e na execução das ações com os seguintes detalhamentos:

Financiamentos por Tema
Financiamentos por Cidade-sede
Financiamentos por Instituição Financiadora

Acesse o Portal da Copa e veja também os conteúdos não relacionados com o monitoramento da execução orçamentária. Assista os vídeos sobre as obras de mobilidade urbana, ampliação de aeroportos e construção dos estádios. O País demonstrou capacidade de planejar e executar as necessárias obras de infraestrutura.

Seis estados já possuem portais de transparência da Copa. Antes de gritar de maneira generalizada “Contra a Corrupção”, acesse esses e outros sites relacionados ao evento em: Sites sobre a Copa.

Outra ideia estapafúrdia é achar que “o dinheiro da Copa de 2014 é investimento a fundo perdido”. Instituições financeiras públicas federais dão retorno ao Tesouro Nacional não só via pagamento de dividendos e impostos, mas também evitando ciclo recessivo e propiciando maior arrecadação fiscal com a multiplicação da renda.

Este é um conceito macroeconômico que talvez os adeptos do feicebuque não dispõem, pois não é intuitivo. A variação inicial nos gastos provoca um incremento primário sobre a renda daqueles agentes econômicos que são recebedores desses gastos. Eles ampliarão seu consumo de acordo com a propensão a consumir, levando a nova ampliação da renda. Os agentes beneficiados por esse incremento secundário também aumentarão seu consumo, provocando novo acréscimo de renda, e assim por diante, em uma sequência gastos-renda-gastos-renda... Através dessa multiplicação, as elevações de consumo induzidas pelo gasto inicial fazem que no final a renda cresça mais que a própria variação da despesa inicial. Os empregos também se multiplicam. Por que há baixa taxa de desemprego no Brasil?

Leia maisImpactos Econômicos da Copa do Mundo de 2014

Quanto custa um estádio de futebol ou ainda temos tempo de economizar 42 Maracanãs

Mas para exemplificar em que a disponibilidade dos novos estádios poderá propiciar ao futebol, o maior lazer coletivo do povo brasileiro, vamos estudar o caso recente do meu  time preferido. O Cruzeiro teve as maiores médias de público e renda dos Estaduais deste ano. A informação é da Pluri Consultoria.

Ao todo, o clube celeste arrecadou R$ 8.646.370 em sete jogos em casa no Campeonato Mineiro; renda média por partida de R$ 1.235.196. A vantagem para o segundo colocado é colossal: o Corinthians ganhou por partida R$ 787.132. O Bahia aparece na terceira colocação (R$ 591.778) e o Atlético-MG, na quarta (R$ 505.076), pois jogou no acanhado Estádio Independência.

Renda Bruta dos Times por Campeonatos Estaduais 2013
O Cruzeiro também lidera na média de torcedores (24.532), seguido pelo Timão (23.887). O público total no Estádio Mineirão no Campeonato Estadual foi de 171.727. Neste quesito, o Santa Cruz, conhecido pelo fanatismo da torcida, é um dos destaques, na terceira colocação, com média de 19.318.

Público Total dos Times por Campeonato Estadual 2013
Os bons números celestes se justificam pelo sucesso do programa de sócio-torcedor e pela volta ao Estádio Mineirão após dois anos em reforma.

Quanto ao argumento do risco da “elitização do futebol”, tema aqui já tratado [veja post Europeização ou Elitização do Público dos Estádios para a Copa], além da meia-entrada obrigatória para os estudantes e idosos, há a seguinte política de preços para os sócios-torcedores.

Programa de Sócio-Torcedor do Cruzeiro julho de 2013

O pay-per-view da Net para todos os jogos dos Campeonatos Estaduais e do Brasileiro sai por R$ 59,00 mensais, ou seja, assistindo 8 jogos / mês, a média é R$ 7,50 por jogo.

Sócios-Torcedores 220613

Eduardo Ohata (FSP, 22/0613) informa que a receita dos clubes representada pelos sócios-torcedores — número que este ano saltou de 362 mil para mais de 500 mil, impulsionado pelo “programa de fidelidade” liderado pela Ambev –, bate valores de contrato de TV, patrocínio e espaço na camisa.

A explicação da rápida escalada do número de sócios-torcedores passa pelo bolso. Até a virada do ano, as vantagens do sócio frequentemente se referiam à ida ao estádio, com compra antecipada de ingresso e descontos. Porém, desde a criação do programa da Ambev, este ano, sócios-torcedores dos clubes que aderiram têm descontos em uma cesta com mais de 600 produtos ou serviços de dez empresas. A soma dos descontos pode superar o valor da mensalidade.

“A receita com os sócios-torcedores representa hoje mais do que o que recebemos de direito de TV ou patrocínio”, comemora Gilvan Tavares, presidente do Cruzeiro que, percentualmente, assistiu o maior crescimento no número de sócios-torcedores entre os clubes participantes.

“[O sócio-torcedor] representa muito mais do que recebemos com patrocínio de camisa. E a tendência é aumentar, porque o sócio-torcedor alavanca a bilheteria“, argumenta Gilvan, que revelou que seu clube arrecada R$ 3 milhões mensais dos sócios. Com esse influxo de dinheiro dos sócios-torcedores, contratou os jogadores Dedé e Souza.

Com vantagens não relacionadas à ida aos estádios, a tendência é a adesão de torcedores de outros estados. É uma das apostas do Flamengo, cuja arrecadação com o sócio-torcedor atualmente só perde para o patrocínio master e fornecedor de material. “A arrecadação do sócio-torcedor tornou possível a contratação do [atacante] Marcelo Moreno e do técnico Mano Menezes. Dependemos do aumento do programa para chegarmos a mais reforços”, afirma Fred Luz, diretor de marketing do Flamengo.

A meta traçada pela Ambev é chegar à marca de um milhão de sócios-torcedores até o fim do ano. Seus executivos lançam mão de números de fora do país para mostrar o potencial do programa.

“O Internacional, clube nacional com maior quantidade de sócios-torcedores, tem 2% dos torcedores como sócios. Já o Benfica, que tem o maior número de sócios-torcedores do mundo, tem 4%”, compara Ricardo Roza, gerente corporativo da Ambev.

Todas essas arrecadações, vindas do público nos estádios reformados, dos sócios-torcedores e do televisionamento, propiciarão a aquisição e a manutenção de bons jogadores nos grandes times. A qualidade do futebol brasileiro melhorará e atrairá maior público, tornando-o um lazer habitual para todos. A Copa de 2014 se pagará em longo prazo.

Só faltará excluir os vândalos infiltrados nas torcidas organizadas

Torcida do Cruzeiro

7 thoughts on “A Favor da Copa

  1. Eu já adorava seu blog, agora, sabendo que você é cruzeirense…………………………………………………………viva o futebol, o Cruzeiro, o debate, a economia, o cinema e ótimo fim de semana, às vezes acompanhando o canal ESPN, mesmo admitindo que é muito melhor do que os demais, todos, no quesito combate às agruras da copa, eles pegam muito pesado nessas análises simplórias e nada esclarecedoras, principalmente do ponto de vista econômico.
    Tenho sugerido isso em alguns posts a eles, mas acredito que, mesmo sabendo que o buraco é mais embaixo, é difícil não entrar na onda, ainda mais acreditando que são eles os detentores dessa “verdade crítica”.
    Se salva o José Trajano e o Juca, muito de vez em quando……….bom fim de semana

  2. Oi Fernando,

    Parabéns pela postagem.

    É difícil falar em meio a tudo que está ocorrendo. E você está fazendo com muita coragem e competência. Independente do mérito pela mobilização da juventude, eventual explosão de demandas reprimidas, etc… a mim me apavora esse turbilhão de irracionalidade. Esse da Copa então…

    Nessa altura do campeonato (da Copa das Confederações, desculpe a piada mas não perco o vício) ter como porta voz da razão o Zé Simão é porque a coisa tá feia. Eu nem vou falar da dimensão relativa dos recursos gastos, da diferença entre gasto corrente e gasto de investimento, nos efeitos sobre mobilidade urbana… . Você já esclareceu.

    Me espanta é o que leio. A que ponto nossa classe média alta perdeu o poder de consultar um site de dados. Basta ler as declarações de um publicitário e um humorista da Globo acampados (só o primeiro) na Delfim Moreira.

    Em relação a Copa acho que há um vetor, meio oportunístico, que é válido: o problema dos serviços públicos no Brasil. Mas há outros péssimos. O primeiro é o ataque conservador à “gastança”, que pode se disfarçar das formas sub-reptícias de bom mocismo oportunista. A outra é uma mistura de complexo de vira-lata com massacre da imprensa. O Brasil é uma m… e não pode dar certo uma Copa aqui. Durante uns três anos foram despejadas toneladas de matérias da Veja, O Globo e assemelhados.. dizendo que nada ficaria pronto… que o Brasil seria incapaz de completar os estádios, etc… . Isso alimentou uma falsa certeza na classe média, “mad as hell”, que de repente se viu traída.

    Parafraseando o Geraldo Vandré, com a certeza na frente, sentindo-se traída, resolveu colocar a história na mão. Aí veio o tal preço excessivo. Como se os mesmo não ouvissem, e concordassem diariamente com o “Sardenberg”, e o nosso publicitário-ignár(i)o acampador do Leblon não achasse um absurdo “diminuir o primário” para aumentar o gasto CORRENTE com saúde e educação. Uma pouca vergonha !!

    Em tempo: a isso se somou esse saudosismo da estética da miséria de alguns comentaristas esportivos. Há milhares de variáveis nessa discussão da elitização do esporte. Desde a elitização mesmo, quando o esporte passa a virar big business (nos EUA .. na Europa ainda tem muito de lavanderia) até a diversificação das formas de lazer. No Rio de Janeiro dos anos 1960, no qual cresci, um jogo qualquer entre América e Vasco levava pelo menos 40 mil pessoas ao Maracanã. Hoje em dia esse é público de final de turno e quiçá de campeonato. Mas quais eram as opções de lazer na época? Meu filho fica domingo jogando “smite” online com players all around the world aos berros pelo Skype. Muitos amantes do futebol podem ir para o boteco da esquina e assistir em TV de 60 polegadas HD. Outros jovens mais atléticos brincar de skate no novo Parque de Madureira…

    Achar que o mundo inteiro muda e o futebol ia ficar congelado nas doces memórias do “time do América de 1961” é válido do ponto de vista pessoal, igual a canção velho Francisco do Chcio Buarque: quase já não lembro de nada…

    Mas, transformar em plataforma política???

    Grande abraço,
    Carlinhos

    • Prezado Carlinhos,
      faço de suas sábias reflexões as minhas. Os conservadores não medem o que falam.
      O raciocínio estático fiscalista ou contabilista não sabe medir corretamente o custo de oportunidade. Os investimentos em infraestrutura urbana e aeroportuária, juntamente com as reformas dos Estádios, foi uma oportunidade relativamente barata (R$ 27 bi) para se implementar em curto prazo, tirando o atraso que aquela mentalidade contra gastos de investimentos colocou o País.
      Abraço

  3. Olá,

    Também sou fanático por futebol, e sou leitor do blog. Não contra ou a favor da Copa, mas realmente não consigo concordar que as obras tenham sido bem planejadas. Os nossos estádios “modernos” já nascem atrasados, construídos dentro do paradigma do Campeonato Inglês, quando o “novo moderno” é o paradigma alemão, de grandes gerais, ingressos baratos, cerveja e bandeiras hasteadas. Para melhores discussões, leia o Impedimento, site do qual também sou leitor.

    A Copa me parece ter sido tratada como um grande “Banheiro do Papa” (se não assistiu, assista), pelo Governo Federal e pelos governos locais, independentemente do partido. Para quem não é fanático, se trata apenas uma competição padronizada que ocorre de 4 em 4 anos em algum lugar do mundo. Disputas sem sentido para sediar a Abertura da Copa, por exemplo. Nem nós, fanáticos por futebol, nos lembramos aonde foi a abertura das últimas Copas. Não vi grandes avanços na gestão do nosso futebol, com Marin no comando da CBF, e nossos clubes estão com mais dinheiro por conta da situação econômica do país. Boa gestão é algo raro e efêmero, vide meu time, o São Paulo.

    Um abraço,

    • Prezado Kadu,
      grato pelo seu ótimo comentário. Desconhecia a diferença desse “paradigma alemão”. Mas ambos campeonatos, o inglês e o alemão, enchem seus estádios, não?

      Acho que a Copa foi uma oportunidade para a necessária rápida reforma de velhos estádios, centros de lazer popular, que não ocorreria sem ela. Lembre o caso da Fonte Nova, onde houve queda de arquibancada, colocando em risco de morte os torcedores.

      Da mesma forma, creio que não haveria as obras de mobilidade urbana e em aeroportos sem essa motivação. O “custo de oportunidade” face à “saúde e educação”, a meu ver, está mal calculado.

      Acho que essas reformas são uma oportunidade histórica para se investir na profissionalização do nosso futebol. Isso significa rebelar-se contra os velhos dirigentes amadores em clubes, federações e confederações. Será passo difícil (inclusive porque são entidades privadas), mas necessário.

      Há excessos de “elefantes-brancos” em Manaus, Cuiabá, Brasília e Natal? Desconfia-se que sim, portanto, se for o caso de corrupção, cabe ao MP acusador denunciar: Quem? O que? Onde? Por que meios? Por que? Como? Quando?

      Mas, antes, cabe fazer uma reflexão: será que esses estádios não foram apenas os motivos para aproveitar a oportunidade de equipar essas importantes capitais?

      Abraço

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