Conceito do Dinheiro

Ilha Yap da Pedra-Moeda

Na minha aula sobre o Conceito de Dinheiro, eu conto para meus alunos uma história, que li em Milton Friedman, a da Ilha da Pedra-Moeda [i]. Eles acham que não é verdade! Que falta de credibilidade no professsor… 🙂

Eis a história: “Na virada do século, os cerca de 5.000 a 6.000 habitantes da ilha Yap, na Micronésia, adotavam moedas de pedras, feitas de calcário encontrado numa ilha que fica a uns 640 quilômetros de distância. Elas eram extraídas, moldadas e levadas, para Yap, em canoas ou balsas. Tinham a forma de círculo, para que um eixo as atravessasse e facilitasse o transporte. Sim, quanto maiores fossem, maior era considerado seu valor. As trocas eram baseadas na confiança mútua: depois de fazer um grande negócio, a dificuldade do transporte da moeda levava a que o dono aceitasse o mero reconhecimento da propriedade da pedra-moeda, sem nem mesmo uma marca para indicar a troca, deixando-a no mesmo lugar.

Assim, havia uma família cuja riqueza era indiscutível, reconhecida por todos. Sua fortuna baseava-se em uma pedra-moeda enorme, que jazia no fundo do mar, onde caíra, durante seu transporte para Yap, devido a uma tempestade. O acidente não deu má sorte à família, pois todos os companheiros de viagem testemunharam que a magnífica moeda se perdera sem que o proprietário tivesse qualquer grau de culpa.

Outro evento digno de nota ocorreu quando os alemães colonizadores  impuseram uma multa aos nativos por desobediência à ordem de manutenção das estradas em boas condições. A multa foi cobrada, marcando um certo número das pedras-moedas mais valiosas com uma cruz, com tinta preta, para mostrar os direitos do governo alemão sobre elas. O povo, tristemente empobrecido assim, reparou as estradas. Então, o governo apagou as cruzes. Pronto! Os cidadãos retomaram a posse de seu capital… e viveram felizes para sempre!”

Agora, eu tenho o testemunho de Martin Sandbu (FSP, 22/06/13), editorialista econômico do “Financial Times“. Será que meus incrédulos alunos agora acreditarão, vendo a foto acima?

“O que é o dinheiro? Mesmo economistas capazes de usar sem constrangimento expressões técnicas como “transações repo”, “obrigações caucionadas de dívida” e “relaxamento quantitativo” podem enfrentar dificuldades para oferecer uma resposta.

O economista Felix Martin, em “Money: The Unauthorized Biography” (Dinheiro: a Biografia não Autorizada, ed. Vintage Digital), dá o seu relato sobre esse assunto.

Para ele, o dinheiro é para nós aquilo que a água é para os peixes — ocupa posição tão central em nossa existência que compreendê-lo requer certo esforço conceitual.

A primeira coisa a apreciar aqui é que o dinheiro envolve mais que moedas e cédulas.

Martin acredita que uma concepção errônea quanto à natureza do dinheiro — a de que se trata apenas de uma mercadoria utilizada para executar transações e pode, portanto, ser tratada como qualquer outro bem de mercado — é a raiz da negligência das autoridades econômicas com relação a bolhas e de sua condução inapropriada das crises financeiras.

O livro começa com duas ilustrações exóticas do argumento de Martin.

A primeira é a ilha de Yap, no Oceano Pacífico, cuja moeda era o fei, grandes rodas de pedra com até 3,6 metros de diâmetro.

Elas raramente eram movidas para facilitar transações –mais ou menos como acontece com as modernas contas bancárias eletrônicas, as fei são representações simbólicas de valor, e podem mudar de dono sem mudar de mãos.

A segunda é a poesia homérica. A Ilíada e a Odisseia, escreve Martin, são “uma descrição vívida e detalhada da era imediatamente anterior à invenção do dinheiro”.

Os dois exemplos servem para ajudar a solapar um dos alvos principais do livro: a ideia convencional de que o dinheiro foi inventado para superar as dificuldades práticas do comércio por escambo.

As economias de subsistência dos épicos homéricos não dispõem de dinheiro mas tampouco se envolvem em escambos — são transacionados bens saqueados em guerras, ocorrem trocas de presentes e rituais de compartilhamento em forma de sacrifícios.

o caso de Yap mostra, de seu lado, que o dinheiro não precisa ser trocado fisicamente pelos bens comerciados para que desempenhe um papel no comércio.

Para Martin, o dinheiro é assim tão simples — e assim tão difícil de definir. Consiste de obrigações desincorporadas de relações sociais específicas, ou seja, de direitos que podem ser livremente transferidos a terceiros. Isso serve mais obviamente ao meio circulante legal, ou seja, às moedas garantidas por um soberano.

Mas formas privadas — vales, sistemas privados de compensação — também funcionam como dinheiro, na medida em que possam satisfazer a esses critérios.

Como Martin mostra, a história do dinheiro é uma narrativa da luta dos governantes contra os usuários e provedores privados de crédito — acima de tudo, os banqueiros. De fato, a história de nossa atual crise é a do crédito privado, rompendo seus grilhões.

Martin estudou os clássicos, além de Economia, e seu livro está tão repleto de alusões literárias e históricas que a história quase se conta sem ajuda. Mas há pouco de original na definição do autor para o dinheiro como crédito transferível, em lugar de peças de metal.

Seu relato das dúvidas sociais e filosóficas sobre a sociedade de mercado, aliás, deve muito ao livro “As Paixões e os Interesses” (1977), de Albert Hirschman, publicado no Brasil pela Record.

Não o afirmo como crítica, porque o trabalho de Martin é uma síntese soberba que merece ser lida nem que apenas por seu poder de sintetizar, mas a análise talvez pareça limitada para os leitores que já conhecem o tema.

É simplista sugerir que a Economia como profissão não anteviu a crise (o que é verdade) por se ver o dinheiro como uma simples mercadoria de troca.

Mas se a tese de Martin tropeça ocasionalmente, sua narrativa jamais o faz. Como introdução lúcida e pitoresca aos 3.000 anos de nossa história monetária, o livro vale seu peso em fei.”

MONEY: THE UNAUTHORIZED BIOGRAPHY
AUTOR Felix Martin
EDITORA Vintage Digital
QUANTO R$ 69,95 (formato Kindle; 336 págs)


[i]           FRIEDMAN, Milton. Episódios da história monetária. Rio de Janeiro, Record, 1994. Cap. 1.

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