Os Amantes Passageiros

Lições que aprendi com a cinefilia: não se deve “levar a sério” uma comédia de costumes, apenas rir com as ironias. Não se deve também guiar-se por críticos de cinema que desejam ser sempre “levados a sério”. Eles são apenas mal humorados. Tanto que foram surpreendidos com a (des)continuidade da obra de Pedro Almodóvar, pois esperavam mais um melodrama sofisticado ou uma visita eventual a outro gênero cinematográfico, tipo sua incursão na ficção científica em A Pele Que Eu Habito.

Os apreciadores da obra do diretor espanhol, como eu, novamente constatarão que ele não é linear. Preza, antes de mais nada, sua liberdade criativa. Os fãs se divertirão com mais uma comédia escrachada, Os Amantes Passageiros, no estilo de sua primeira fase: Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão, Labirinto de Paixões, Maus Hábitos e Que Fiz Eu Para Merecer Isto?.

Eu estava com saudade de seu Cinema! Mesmo em comédias, que críticos da “Ilustrada” concedem uma única estrela (tipo Ruim), ele faz refletir sobre (e rir de) a cena contemporânea, muito mais do que a série de filmes adolescentes de 3D e efeitos especiais que recebem diversas estrelas desses “ilustres críticos”.

Almodóvar nunca pôde estudar cinema, pois nem ele nem a sua família tinham dinheiro para pagar os seus estudos. O auto didatismo possibilita a liberdade de “pensar fora-da-caixa”. Antes de dirigir filmes, foi funcionário da companhia telefônica estatal, fez desenho em quadrinhos, foi ator de teatro avant-garde e cantor-líder de uma banda de glam-rock. Assumidamente homossexual, os seus filmes abordam, livremente, a sexualidade.

Em Os Amantes Passageiros, faz mais pelo casamento homossexual do que muitas Marchas do Orgulho Gay. Por que? Porque trata com a maior naturalidade da tesão, seja homossexual, seja heterossexual, e de outras cositas más que os conservadores direitistas – que estão em alta no País – consideram taras, degradação moral, desvio de conduta, perversão, depravação, degeneração… Portanto, moralistas de plantão, afastai-vos! Desconjuro, vade retro!

Almodóvar não só dirige como também escreve seus roteiros. Ironiza o abuso de drogas, álcool e vários outros tabus do “politicamente correto”. Cria uma comédia  de costumes que se passa em um avião em voo sem um trem de aterrisagem como uma “metáfora de uma Espanha que não sabe para onde vai, não sabe onde aterrissar, quem vai estar no comando ou quais serão os perigos”.

Então, o país é um avião em pane, em pleno voo. A tripulação da Primeira Classe dá um “relaxante muscular” para os passageiros e as aeromoças da Classe Econômica adormecerem. Enquanto isso, pilotos e passageiros da Primeira tem direito a tudo! Pudera, quem são eles?  Cada qual tem uma estória pessoal “cativante”.

Tem o banqueiro, fugitivo da bancarrota espanhola, que compreende a razão da fuga familiar de sua filha, perdida na noite. Ele confessa, com a maior naturalidade, que apenas dedicou à sua vida profissional, isto é, às trapaças…

Tem a dominatrix, filha de católicos, famosa cafetina sadomasoquista que se defende dizendo possuir vídeos com o atendimento a todos os seus clientes: os 600 homens mais poderosos da Espanha, inclusive o primeiro da lista, o Rei… Viaja para o México para prestar um serviço internacional.

Ela tem, de fato, motivo para ter complexo de perseguição. Envolve-se com o assassino mexicano/sul-americano (“abaixo do Rio Grande é tudo mesma coisa”), contratado pela esposa do cliente. Mas ele confessa que tem um “código de honra machista”: não mata mulheres!

Tem o casal de noivos em plena prática (ao vivo) da lua-de-mel. Ele é traficante de drogas, um mulo que ajuda a incrementar o coquetel com mescalina.

Tem o artista famoso, permitindo (via conversa no telefone público) todos acompanharem sua conversa com as ex-amantes: uma enlouquecida suicida, filha de socialite, que se preocupa mais com coquetéis da Casa Dior, e outra aeromoça, inocente-útil-romântica-ex-apaixonada. Esta sequência é, praticamente, o único momento que a ótima fotografia sai do ambiente de aeroporto e avião.

Tem a vidente virgem, isto mesmo, ela possui o poder de ver o futuro, é admirada como uma santa (virgem), mas esse poder afasta todos os homens – e ela não aguenta mais! Tem pressentimento de (e está disposta a) acabar com aquele tabu naquela noite… Noite de pânico ou de farra?

Os três comissários de bordo gays são os protagonistas que comandam a festa. Eles tentam entreter os passageiros da classe executiva uma vez que as televisões não funcionam – e nem os celulares. Como viver em um mundo sem isso?! A ironia com o celular e a conversa pessoal no telefone, para todos escutarem, é impagável.

Almodóvar afirmou que esse é “seu filme mais gay”. Tratando a homossexualidade com muito humor, o diretor coloca seus três comissários como gays cheios de trejeitos típicos de travestis, “bichas loucas”, “viados” e outros qualificativos dirigidos pelos machos, que acabam não resistindo à “vida alegre” deles – e aderem à “causa”. O piloto é bissexual e amante de um deles, que “morre de ciúme”, pois soube que ele teve uma experiência sexual com o copiloto, que deseja abandonar a heterossexualidade, pois é infeliz no casamento. O diálogo entre os dois no momento de maior tensão é cômico! Ele usa todos os estereótipos como elementos naturais da vida como ela é.

Outro prazer é reencontrar nossos velhos conhecidos “atores de Almodóvar”. Desde a abertura, escutamos música clássica “Pour Elise” (Beethoven) modificada por ritmo portenho, sendo a trilha para a animação bem colorida a la Almodóvar. Logo em seguida, nos deparamos com Antônio Banderas e Penélope Cruz, aliás, fazendo uma ponta de grande importância para detonar a trama. Depois, Javier Cámara (o enfermeiro do Fale Com Ela), Carlos Areces e Raúl Arévalo se destacam na pele dos comissários, enquanto que Antonio de la Torre e Hugo Silva interpretam, respectivamente, o piloto e o copiloto. Já os passageiros da Classe Executiva são Lola Dueñas e Cecilia Roth (atrizes “desde sempre” do Almodóvar), José Maria Yazpik, Guillermo Toledo e José Luis Torrijo.

Outra velha conhecida, em filmes de Almodóvar, é a excelente seleção musical. Além da brincadeira com a música de Beethoven, nos créditos iniciais, mostra os três gays ultracaricatos comissários em uma performance com dublagem de I’m So Excited, canção marcante do grupo feminino The Pointer Sisters. Parece ser uma homenagem-citação de Priscila, a Rainha do Deserto. O dito sério crítico da “Ilustrada” da Folha de S. Paulo não entende isso! Ele a desqualifica: “a cena, pensada como se os Irmãos Marx ressurgissem num palco de boate gay, beira o constrangimento.” Mas isto é visto, claramente, pela reação perplexa dos passageiros! O final é embalado pela batida de “The Look“, do Metronomy, música que minha filha adolescente vivia escutando aqui em casa.

A fotografia de José Luis Alcaine, outro parceiro constante do diretor. Caracteriza-se pelas cores primárias e o destaque ao vermelho-e-amarelo tão espanhol.

Quem pode classificar tal filme como um “Almodóvar menor” por ele não abordar “temas sérios”?! Com muito humor metafórico, ele aborda, simplesmente, a crise atual na Espanha!

Leia maisPedro AlmodóvarLa Canciones de Almodóvar

8 thoughts on “Os Amantes Passageiros

  1. Eu amei esse filme! Amo Almodóvar!

    Depois do que eu classifiquei como obra prima, o “A Pele que Habito”, acho que ele resolveu brincar em cima de tudo. Mesmo trazendo todos as temáticas que permeiam toda a sua obra.

    Gostei da análise!

    • Prezado Lella,
      agradeço o convite. Logo que eu assistir um filme interessante no circuito comercial, compartilharei. No entanto, como os lançamentos estão parcos, só tenho assistido a Netflix, especialmente as séries de TV. Atualmente, estou na segunda temporada de Suits.
      abs

  2. Gratíssima! Pela força (Acho que agora estou de fato saindo dessa recente fase down…) e por compartilhar seus textos sobre Filmes!
    Pode deixar que linko o que pediu. Eu iria linkar o Blog. Como também encontrarei a foto que melhor traduz cada artigo. É que como regra de lá… cada texto deve conter pelo menos uma foto/imagem relativo ao filme. E irei levando aos poucos.

    Abraços,

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