Processo Civilizador: de Guerreiros a Cortesãos

O Processo Civilizador I

Teoria do Processo Civilizador, elaborada por Norbert Elias (1897-1990), atribui o declínio da violência na Europa a uma mudança psicológica mais ampla – o subtítulo de seu livro O Processo Civilizador é “Investigações Sociogenéticas e Psicogenéticas”. Paradoxalmente, sua obra-prima foi publicada pela primeira vez na Alemanha nazista, em 1939, da qual fugiu em 1933 por ser judeu. Emergiu da obscuridade em 1969, quando foi publicada uma tradução inglesa dessa história do homicídio, que explica porque houve seu declínio na Europa da Idade Média ao presente. Ele não investigou estatísticas, pois não estavam disponíveis em sua época, mas examinou a qualidade do cotidiano na Europa medieval. A leitura desse livro que inspirou Steven Pinker a escrever seu Os Anjos Bons da Nossa Natureza.

Elias argumenta que, no decorrer de vários séculos, a partir do século XI e amadurecendo no século XVIII, os europeus passaram a:

  1. inibir cada vez mais seus impulsos,
  2. prever as consequências de sua ações em longo prazo,
  3. levar em consideração os pensamentos e sentimentos das outras pessoas.

Um cultura da honra – a prontidão para vingar-se – deu lugar a uma cultura da dignidade – a prontidão para controlar as emoções.

Esses ideais originaram-se de instruções explícitas que os árbitros culturais davam aos aristocratas e nobres, permitindo que eles se diferenciassem dos vilões e camponeses. Mas foram depois absorvidos na socialização de crianças cada vez mais novas até que se tornaram segunda natureza. As regras, ainda segundo Pinker, “acabaram por ser copiadas das classes altas pela burguesia, que se empenhava em emular os aristocratas, e dos burgueses pelas classes inferiores, finalmente se tornando parte da cultura como um todo”.

Elias inspirou-se no modelo estrutural da psique de Freud, no qual as crianças adquirem uma consciência (o superego), internalizando as injunções dos pais quando são jovens demais para entendê-las. Nessa fase, o ego da criança pode aplicar essas injunções para refrear seus impulsos biológicos (o id).

Uma faculdade da mente é o que os psicólogos chamam de autocontrole, adiamento da gratificação e desconto temporal hiperbólico, e que os leigos chamam de “contar até dez”, “pensar duas vezes antes de agir” e “morder a língua”. Outra faculdade importante a considerar é a que os psicólogos chamam de empatia, psicologia intuitiva, tomada de perspectiva e teoria da mente, e que os leigos chamam de “entrar na cabeça da outra pessoa”, “ver o mundo do ponto de vista do outro”, “pôr-se na pele alguém”.

O grau em que as sociedades moralizam as emoções, adotando critérios sobre o que é apropriado nas esferas da sexualidade e excreção, é uma importante dimensão de variação entre as culturas. Avançam em relação às emoções inatas relacionadas a pureza, nojo e vergonha.

As pessoas sintonizam para mais ou para menos sua capacidade de autocontrole.

  1. Uma possibilidade é que o autocontrole necessita ser exercitado, desde os modos à mesa até as regras de etiqueta, ficando então mais forte em tudo, e conterá melhor o impulso de matar o sujeito que acaba de insultá-lo.
  2. Outra possibilidade é que uma dada posição no sintonizador do autocontrole representa uma norma social, por exemplo, a vestimenta do corpo.
  3. Uma terceira é que o autocontrole pode ser ajustado, adaptativamente, segundo seus custos e benefícios no ambiente local.

Afinal das contas, o valor do autocontrole é relativo, e não absoluto. Ter demasiado autocontrole pode levar um agressor a usá-lo em proveito próprio se prever que o outro irá se abster de retaliar. É bom ele crer que haverá revide por reflexo. E ajustar o cursor do autocontrole para demonstrar isso ao agressor.

Um declínio no comportamento violento, diz a teoria do Processo Civilizador, coincidiu com um declínio da impulsividade, honra, permissividade sexual, incivilidade e maus modos à mesa. Esse emaranhado de processos psicológicos, no entanto, não serve como explicação se resume-se a dizer, de maneira tautológica, que “as pessoas passaram a se comportar menos violentamente porque aprenderam a inibir seus impulsos violentos”.

Mas Elias propôs dois gatilhos exógenos que deram início a todo esse processo – e não entrar em “dilema de a galinha ou o ovo”, tipo “se a impulsividade das pessoas mudou primeiro e a redução na violência veio em consequência, ou vice-versa”.

O primeiro foi a consolidação de um genuíno Leviatã, ou seja, as monarquias centralizadas se impuseram depois de séculos de anarquia medieval produzida por baronatos e feudos europeus. A Europa tinha cerca de 5 mil unidades políticas independentes no século XV. O processo de consolidação dessas unidades políticas foi acelerado pela revolução militar: o advento das armas de fogo, dos exércitos permanentes e de outras tecnologias de guerra caras que só podiam ser sustentadas por uma vasta burocracia e uma ampla base de renda arrecadada.

As lutas entre cavaleiros e camponeses não eram apenas um estorvo, mas também um desperdício de oportunidades face às possibilidades de lucro da nacionalização da justiça. Assim que o Leviatã assumiu o comando, as regras do jogo mudaram. A corte, basicamente uma burocracia governamental, não via serventia em façanhudos e rixentos, e procurava guardiões responsáveis para dirigir suas províncias. Os nobres tiveram de mudar seu marketing, cultivando a polidez, para não melindrar os favoritos reais, e a empatia, para entender o que eles queriam.

Os modos apropriados à corte passaram a ser chamados de “cortesia” – palavra cuja etimologia é bastante expressiva. Os guias de etiqueta originaram-se como manuais sobre a melhor maneira de se comportar na corte do rei.

Elias descreve a sequência de séculos na qual a cortesia foi passando dos aristocratas que lidavam com a corte para a elite burguesa que tratava com os aristocratas, e daí para o resto da classe média. Sua teoria que associa a centralização do poder do Estado a uma mudança psicológica no vulgo expressa a transição “de guerreiros a cortesãos”.

A segunda mudança exógena na parte final da Idade Média foi uma revolução econômica. Trataremos dela em próximo post: Processo Civilizador: Revolução Econômica

8 thoughts on “Processo Civilizador: de Guerreiros a Cortesãos

  1. Boa Noite Prof. Fernando,

    Preciso fazer um desabafo e parabenizar o senhor, mesmo tendo uma opinião política diferente, o seu blog tem contribuído muito para o meu conhecimento e amadurecimento, enquanto economista “plural”, pois acredito que nossa ciência de oficio, é bem mais abrangente que modelos e pressupostos de racionalidades discutíveis.

    Então mesmo tendo criticado um posicionamento seu, relativo a um texto sobre os atuais protestos em nosso país, e que foi respondido com a devida educação e inteligência, que um gentleman como o senhor. Venho fazer um desabafo!

    Prof. Fernando, o senhor esta me levando ao prejuízo e a um terrível embate com minha escrivaninha, pois a cada dica de Livros (Em sua maioria, excepcionais!), estou adquirindo muitos deles, e já não consigo ter espaço suficiente para aprovisiona-los, junto com os demais livros de Economia e etc.
    Acredito que este meu problema (Discutível), se deve a qualidade do blog e a inteligência do administrador, então novamente quero parabeniza-lo e agradece-lo, por dividir com seus leitores (Em especial este que vós escreve!), estas grandes obras e suas aulas, pois infelizmente nossas academias, falham ao propiciar metodologias de ensino em Economia para nossos professores na área, e com suas aulas aqui expostas, sinto que tenho aprendido muito e também tenho conseguido a cada dia ensinar melhor e com uma visão mais abrangente.

    Muito obrigado pelo conhecimento divido!

    Obs. Se o senhor indicar mais dois livros, terei de retirar um dos dois retratos que possuo em minha escrivaninha, um é da minha mãe e o outro da minha noiva, então o senhor pode me coloca em um situação no mínimo complicada, com estas duas mulheres gaúchas de origem italiana..kkkkk

    • Prezado Elvis,
      eu que agradeço seu amável incentivo!
      Hoje, quando vi que tinha muitos Comentários a responder, pensei: “aí, tô sem saco de debater com direitistas mal-educados”…
      Felizmente, eu me deparo com seus elogios! “Cafuné na cabeça” até macaco gosta…
      Quanto ao desabafo, compartilho contigo a mesma angústia: não tenho mais espaço livre para colocar os imensos livros que desejo ler!
      Estou encarando, atualmente, “Os Anjos Bons da Natureza”. Já li quase 300 páginas e não cheguei nem a 1/3! Não quero passar todo o mês só o lendo, pois as “Conversas com Martin Scorsese” me aguardam, assim como a bibliografia do Nelson Mandela – ainda bem que ele está se restabelecendo… Mas tenho ainda empilhado na cabeceira um livro sobre a História da Matemática e “O Cérebro Criou o Homem”. Pelo visto, nasci sem cérebro… E tenho de preencher o vazio.
      Abraço
      PS: só não compartilho a sorte de ter mama italiana bem sucedida pela noiva… 🙂

  2. Fernando, parabéns!!!, querido amigo.

    Amo o Norbert Elias, e “O Processo Civilizador” sempre está por perto. Adoro, quando, se não me falha a memória, no Introdução do volume dois, ele nos enisna sobre o tempo, e mostra que a condição humana, tal como hoje a concebemos, faz parte de um longo e lento processo de construção do próprio homem, abarcando toda a sorte de conhecimentos acumulados durante a trajetória daquilo que insistimos chamar de humanidade.

    Sobre o tempo, da civilização e do próprio capitalismo, ele faz um relato maravilhoso, e se não é assim, é mais ou menos assim: “Quando não me perguntam sobre o tempo, sei o que ele é, dizia um ancião cheio de sabedoria. Quando me perguntam, não sei mais. Então porque fazer a pergunta?”

    Seguindo na mesma linha do Elvis, que fez um elogio a voce que eu não saberia fazê-lo, e que te conheço há tanto tempo, mando uma coisinha do Bobbio, que está no “O Tempo da Memória”, e que para mim descreve perfeitamente o que voce vem fazendo no seu Blog:

    “O bom empirista, antes de se pronunciar, deve retornar diversas vezes ao problema sobre o qual está debruçado, observando-o sob todos os aspectos; olhar os dois lados da moeda, como já disse muitas vezes a propósito, por exemplo, da relação entre direito e força, entre norma e poder, em especial entre a norma fundamental e o poder soberano. Como a realidade tem muitas faces, é difícil vê-las todas. Daí nasce a exigência da cautela crítica e, não obstante todos os possíveis controles, a possibilidade de errar. Da possibilidade do erro derivam dois compromissos que devem ser respeitados: o de não persistir no erro e o de ser tolerante com o erro dos outros.”

    Voce é dez, amigo. Bjs.

    • Querida Glorinha,
      só a generosidade leva a tais elogios. Agradeço muito a você e ao Elvis, que gostaria de conhecer na próxima vez que eu for visitá-la.

      Compartilhamos os mesmos gosto por grandes autores: Elias e Bobbio. Nesta semana, postarei uma série sobre o Elias.
      bjs

  3. Ôôba!!! Estou morrendo de saudades,
    De um tempo feliz que passou e eu não vi
    Gosto de manhã, de sapoti
    Carícias no ar, um colibri
    Samambaias na varanda
    Tudo isso passou, perdi …

    Vou mandar a música por e-mail, por aqui eu não sei…

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