Correlação Não É Causalidade

Livro da Vida

O conjunto de conhecimentos acríticos, que constitui o senso comum, possui as características de ser superficial, baseado em crendice e incapaz de dar uma explicação racional para as coisas que acontecem. Os “práticos” não vão além dos dados de sua experiência imediata.

Segundo David Hume (1711-1776), “todos os argumentos derivados da experiência fundam-se na semelhança que descobrimos entre os objetos naturais e que nos leva a esperar efeitos semelhantes aos que já vimos decorrer de tais objetos”. Em outras palavras, “de causas que parecem semelhantes esperamos efeitos semelhantes. Essa é a súmula de nossas conclusões experimentais”[1].

No entanto, diz Hume, nenhum argumento sustenta a inferência causal. Não importa quantas vezes tenhamos verificado que o fato B sucede ao fato A, não há nenhuma prova de que a mesma sequência deva, necessariamente, ocorrer no futuro. Essa prova não pode ser de natureza formal, pois se refere à questão de fato. É impossível que “quaisquer argumentos derivados da experiência provem essa semelhança do passado com o futuro, uma vez que todos esses argumentos se baseiam na suposição de tal semelhança”[2].

Nossa vida prática, soma de nossas experiências cotidianas, é regulada pela suposição da regularidade no curso das coisas, ou seja, no raciocínio causal. A crença na semelhança entre o passado e o futuro, entre o que observamos e o que só podemos presumir, é inferência da experiência costumeira e não do raciocínio científico.

Então, na Economia, assim como no futebol, não basta a estatística dos fatos ocorridos, no passado, para se fazer uma previsão certeira sobre um fato (futuro) que ninguém conhece. O que ocorreu do passado até o presente não garante que se repetirá do presente até o futuro. Esperando sempre a repetição, o agente econômico leigo torna-se “escravo de sua expectativa”.

O senso comum deve dar lugar à ciência. Se isso não ocorre, como disse o mais conhecido divulgador de conhecimentos científicos para o grande público – Carl Sagan –, “o mundo fica assombrado pelos demônios”[3]. No senso comum, a superstição e a pseudociência estão sempre se intrometendo. Seus defensores baseiam-se em evidência insuficiente ou ignoram pistas que apontam para outro caminho explicativo.

Coisas do tipo profecias, mapa astral, cura pela fé, por cristais, através de  Florais de Bach, etc., podem ser enquadradas como pseudociência. É mais fácil de ser inventada que a ciência, porque os confrontos perturbadores com a realidade são evitados mais facilmente. Os padrões de argumentação são muito menos rigorosos. Por isso mesmo, é muito mais fácil a sua divulgação pública. Fala às necessidades emocionais do público leigo. Em seu âmago, reside a ideia de que é o ato de desejar que dá forma aos acontecimentos. A ciência leva-nos a compreender como o mundo é, na realidade, em vez de como desejaríamos que fosse. Alguém disse que “a ciência é o melhor instrumento para medir nossa ignorância”!

As refutações de hipóteses são reconhecidas como centrais para o empreendimento científico. As hipóteses da pseudociência são formuladas de modo a serem invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma perspectiva empírica de refutação. Assim, em princípio, fé ou crenças não podem ser falseadas e invalidadas.

“As nossas percepções são falíveis. Às vezes vemos o que não existe. Somos vítimas de ilusões óticas. De vez em quando sofremos alucinações. Somos inclinados ao erro. (…) as pessoas erram sistematicamente na compreensão dos números, ao rejeitar uma evidência desagradável, ao ser influenciadas  pelas opiniões dos outros. Somos bons em algumas coisas, mas não em tudo. A sabedoria está em compreender as nossas limitações. (…) É nesse ponto que entra o rigor cético e austero da ciência. (…) O método da ciência, por mais enfadonho e ranzinza que pareça, é muito mais importante do que as descobertas dela”[4].

A ciência está longe de ser um instrumento perfeito de conhecimento. É apenas o melhor que temos. Não há certezas no conhecimento. Toda vez que testamos nossa ideias, no mundo exterior, estamos fazendo ciência. Este é o mecanismo de correção de erros. Está embutido em seu próprio âmago. Um dos grandes mandamentos da ciência – que os economistas nem sempre seguem – é: “desconfie dos argumentos de autoridade”. As autoridades devem provar suas afirmações como todo mundo. Doctus cum libro [sábios com o livro] são aqueles incapazes de pensar por si mesmos e só repetem o que leram nas obras de outros.

O método mais intuitivo de exposição é refazer a cronologia dos acontecimentos. Muitas vezes leva ao historicismo, isto é, o autor sempre recontar a mesma história, desde as origens mais remotas até o fenômeno em foco no presente. Supõe-se que tudo que veio antes é causa do que veio depois. Os antecedentes explicam os descendentes. Cansa o leitor e o ouvinte e não explica nada.

Outro erro comum da pseudociência é achar que correlação é causalidade. Por exemplo, a dedução de que a causa do câncer é beber água, porque todos que morreram da câncer bebiam água… Uma correlação espúria é uma relação estatística existente entre duas variáveis, mas onde não existe nenhuma relação causa-efeito entre elas. Essa relação estatística pode ocorrer por pura coincidência ou por causa de uma terceira variável. Neste caso, pode ocorrer que as variáveis A e B sejam correlacionadas porque ambas são causadas por uma terceira variável C.

Em econometria, o método de variáveis ​​instrumentais (IV, em inglês) é usado para estimar relações causais, quando experimentos controlados não são viáveis​​. Um instrumento é uma variável que não se pertence à equação explicativa mas está correlacionada com as variáveis ​​explicativas. Em modelos lineares, existem dois requisitos principais para a utilização de um método IV:

  1. O instrumento deve ser correlacionado com as variáveis ​​endógenas para ser explicativo, isto é, condicionado às outras variáveis​​.
  2. O instrumento não pode ser correlacionada com o termo de erro na equação explicativa, isto é, o instrumento não pode sofrer o mesmo problema que a variável original para a qual ele servirá de instrumento.

Suponhamos, por exemplo, que um pesquisador deseja estimar o efeito causal do tabagismo sobre a saúde geral.

Em princípio, a existência de correlação entre a saúde e o hábito de fumar não implica necessariamente que o fumo piora a saúde, porque:

  1. Outras variáveis ​​podem afetar tanto a saúde quanto o hábito de fumar. Por exemplo, pode ocorrer por acaso que pessoas de uma certa cidade exposta à poluição radioativa fumem muito, mas é a poluição que realmente causa problemas de saúde à esta população em estudo.
  2. Mesmo que o tabagismo cause realmente problemas, a saúde em si pode afetar o hábito de fumar, por exemplo, um paciente muito doente pode se sentir instigado a fumar mais.

Fazer estudos controlados, por exemplo, colocar uma pessoa em um laboratório, sem exposição à poluição, fumando quantidades controladas, pode ser difícil, caro ou antiético. Uma opção alternativa, portanto, seria o pesquisador tentar estimar o efeito causal do tabagismo sobre a saúde a partir de dados observacionais, utilizando, por exemplo, a alíquota de imposto sobre o tabaco como um instrumento para evitar fumar em uma regressão da saúde.

Observa-se, então, se as alíquotas de imposto sobre o tabaco afetam apenas positivamente a saúde, porque elas afetam o hábito de fumar, mantendo as outras variáveis do modelo fixas. Portanto, a correlação entre impostos sobre o tabaco e a saúde é uma evidência de que o tabagismo provoca alterações na saúde. Uma estimativa do efeito do tabagismo sobre a saúde podem ser feita também fazendo uso da correlação entre os impostos e os hábitos de fumar.

Depois dessas considerações, voltamos ao nosso tema: política e planejamento econômico. Classificam-se as políticas econômicas em três tipos, segundo os objetivos governamentais:

  1. Estrutural: voltada para a modificação da estrutura econômica do país, por exemplo, alterando a forma de propriedade vigente, regulando o funcionamento do mercado em defesa da concorrência, criando empresas públicas, regulamentando os conflitos trabalhistas, alterando a distribuição de renda, nacionalizando empresas estrangeiras, etc.
  2. Estabilização conjuntural: visa a superação em curto prazo de problemas macroeconômicos como inflação, desemprego e déficit do balanço de transações correntes.
  3. Expansão sustentada: tem por objetivo a manutenção ou a aceleração do crescimento econômico em longo prazo.

Mostraremos na próxima série de posts que, embora seja um instrumento de intervenção na realidade, a política econômica não está isolada do resto do mundo. Ela tem limites sociais e políticos. Portanto, não existe algo que possa ser considerado uma Teoria Econômica Pura da Política Econômica.

Essa proposição fica clara se consideramos uma metodologia correta para enquadrá-la. Há três níveis de abstração em Economia Política.

No nível mais elevado de abstração, estão as teorias puras que revelam a consistência no uso dos instrumentos de política econômica.

No nível intermediário, o analista deve reincorporar todos os conflitos de interesse antes abstraídos. Neste âmbito dos conflitos sociais e políticos entre interesses antagônicos, por exemplo, via eleições democráticas, que se estabelece a definição do regime macroeconômico. Define-se, então, para determinado mandato, qual será a característica estrutural do planejamento do desenvolvimento em longo prazo, condicionante do manejo dos diversos instrumentos das políticas públicas.

No nível mais baixo de abstração, quando (e onde) há a necessidade de se contextualizar, ou seja, datar e localizar os eventos, que se capta os imperativos de dada conjuntura na prática da arte de tomadas de decisões práticas. Em outras palavras, a partir daqueles pré-requisitos teóricos, é  neste plano mais concreto que se demonstra a arte, a sensibilidade ou a habilidade no uso dos instrumentos de política econômica em curto prazo.


[1]           HUME, David. Escritos sobre Economia. São Paulo, Abril Cultural, 1983. p. 165.

[2]           HUME, David. Investigação. São Paulo, Abril Cultural – Série “Os Pensadores”, 1980. p. 148.

[3]           SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

[4]           SAGAN; op. cit.; p. 37.

3 thoughts on “Correlação Não É Causalidade

  1. Prezado Fernando,
    Reforçando as suas colocações intelectuais, considero o senso comum um gerador de crenças inúteis que alimentam um cotidiano dogmático que se identifica com o imaginário das pessoas e se traduz em um legado empobrecido de significados para a própria sociedade!
    Gosto de ler Hume (estou lendo o tratado da natureza humana), e já li quase todos os livros do Carl Sagan. Sem sombra de dúvidas de que o posicionamento crítico perante o senso comum, nos mostra que esse legado colabora para o próprio atraso tecnológico e científico de nosso país.
    Os nossos políticos são o próprio senso comum de seus eleitores, cuja postura crítica é insuficiente para analisar o preparo de cada um de nossos representantes. Abraços.

    Segue os principais livros de Carl Sagan para download: direto:http://universoracionalista.org/os-10-melhores-livros-de-carl-sagan/
    Danid Hume – importante resumo: http://marcosfabionuva.files.wordpress.com/2011/08/resumo-de-um-tratado-da-natureza-humana.pdf

    • Prezado {RCRISTO, só para constar, os seres humanos viveram por mais de 10.000 anos sem o dito “conhecimento-científico-pós-cartesiano do Séc.XVI”, incluindo toda a arquitetura, engenharia civil, naval, militar, os fármacos, as economias, comércios, mercados, etc, etc, etc. A base deste conhecimento era empírico-racional, que no jogo tentativa-erro foi motor da evolução intelectual humana. O atual método científico é FRUTO deste esforço humano milenar. Esse “esforço” humano se chama “Senso Comum” (Conhecimento compartilhado e transmitido) e inclui sim, erros, equívocos, ilusões e acertos, algo bem comum também no meio científico.

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