Variáveis-Metas e Variáveis-Instrumentos da Política Econômica em Curto Prazo

Aperta e Estica o Dinheiro

Como se esboça uma teoria econômica? Observa-se se há alguma regularidade no comportamento dos agentes econômicos. Então, aprende-se com essa repetição. Se um ato dá resultado positivo, é racional repeti-lo. Se der negativo, não se repete a mesma ação, e busca-se outra alternativa.

Os teóricos analisam as séries estatísticas temporais. Cruzam as informações. Buscam correlação, isto é, captar interdependência de duas ou mais variáveis. Configuram a transformação geométrica que associa, no plano, pontos a linhas e linhas a pontos. A correlação linear entre duas variáveis tem como resultado o fato de se tomar como linear a regressão de uma sobre outra, ou seja, ela capta a dependência funcional entre duas variáveis aleatórias.

Por exemplo, como se observa certa regularidade estatística do quociente entre a séries temporais de meios de pagamento (MP) e base monetária (BM), deduz-se o multiplicador monetário pela divisão daquela por esta (k = MP / BM). Daí, como se observou também uma regularidade entre MP e Índice Geral dos Preços (IGP), qualquer “gênio da profissão” pensa com seus “2 neurônio”: se eu (Banco Central) controlar a BM, eu controlo a inflação! “I’m the King of the world!”

Esta onipotência seria verdadeira se o economista lidasse com cobaias de laboratório e não com seres humanos. Estes possuem o mau hábito de pensar que possuem um “self”, uma “alma”, uma auto determinação… Quando sentem que a autoridade monetária não lhes está oferecendo a quantidade de moeda desejada, prejudicando-lhe os negócios com a alta da taxa de juros, eles mudam o comportamento-padrão! Quebram a regularidade anterior da demanda por papel-moeda, alteram a velocidade de circulação da moeda, fazem inovação financeira fora do controle do Banco Central, enfim, atrapalham a teoria dos economistas…

O economista, obsessivo com a reconquista do poder de controle macroeconômico, reage. Arbitra que, em seu modelo, o Banco Central controla uma “variável exógena”: a oferta de moeda. Por que? Porque ela não é resultante do jogo de forças de mercado já que ele abstraiu a autoridade monetária nessa sua “economia de mercado”. Ideologicamente, arbitrou que O Estado está fora de O Mercado. Porém, a dura realidade lhe impõe outra derrota. Em última instância, o Banco Central tem de atuar como emprestador para a salvaguarda do mercado financeiro. Não consegue manter o controle quando seu efeito ultrapassa o limite fatal que ameaça a bancarrota do sistema bancário.

Da mesma forma, quando “por justa causa” dispensa o regime de câmbio flexível e busca estabilizar a cotação do dólar, para evitar um choque cambial inflacionário, a decorrente sobrevalorização da moeda nacional, além do que justificam os fundamentos macroeconômicos, instiga a reação das forças de O Mercado. Este (God) reage com seguidos ataques especulativos, testando a capacidade de defesa da cotação oficial, cuja arma limitada é a dimensão das reservas cambiais. Se estas se esgotam, a autoridade monetária prostra-se e rende-se à verdade: ela não pode se colocar, arbitrariamente, como superior, ou seja, como fosse exógena a O Mercado.

A metodologia científica ressalta que, fora das condições ideais de laboratório, a correlação entre uma variável independente e uma dependente é, em geral, afetada por outras, que se denominam variáveis intervenientes.

  • Variável endógena é determinada por forças que operam dentro do sistema em estudo e no qual está inserida.
  • Variável exógena, por sua vez, é determinada por forças externas ao modelo em consideração.

As políticas econômicas baseadas em regras diferem-se no que diz respeito às variáveis que propõem como meta. As regras que tem como meta os instrumentos da política – preços básicos como juro e câmbio, que mudam os preços relativos – podem obter sucesso irrelevante para o alcance dos resultados desejáveis para variáveis-meta como a inflação e o desemprego, devido a desvios advindos dos choques no multiplicador da moeda, na demanda por moeda, na demanda por bens e serviços, etc. Choques provocam variações de preços relativos. As regras para as variáveis-meta podem levar a melhores resultados, em princípio, mas sua implementação com sucesso pode ser difícil.

No entanto, as variáveis-metas da política econômica em curto prazo no Brasil foram atingidas:

  1. a taxa de inflação – estava em 12,5% em 2002, está em 6,5% em 2013 –;
  2. a taxa de desemprego – 10,5% e 5,5%, respectivamente –;
  3. a relação dívida interna / PIB – 60,6% e 35% –;
  4. a relação dívida externa / PIB – 45,9% e 14%.

Para alcançar o sucesso nessas metas, as principais variáveis-instrumentos utilizadas foram as seguintes.

  1. Taxa de juros básica caiu de 12,5% em 2002 para 8,5% em 2013.
  2. Taxa de câmbio caiu de R$ 3,53 / US$ para R$ 2,20 / US$.
  3. Taxa anual de crescimento do crédito em 2002 era 10,7%; em 2013, espera-se de 15% a 20%.
  4. O saldo do crédito total cresceu de R$ 384 bilhões (23,8% do PIB) em dezembro de 2002 para R$ 2.487 bilhões (54,7% do PIB) em maio de 2013.
  5. A carga tributária elevou-se apenas de 32% do PIB para 36% do PIB no período.
  6. A relação superávit primário / PIB, depois de se elevar bem acima do 3,2% do PIB de 2002, baixou para o patamar de 2,3% do PIB.
  7. O déficit nominal ficará em 2,2% do PIB em 2013.
  8. A dívida externa total referente a maio de 2013 totalizou US$ 325,5 bilhões.
  9. O estoque de reservas internacionais totalizou US$ 374,4 bilhões; eram apenas US$ 13 bilhões em 2002, desconsiderando os empréstimos do FMI.
  10. As transações correntes acumularam, nos últimos doze meses, déficit de US$ 73 bilhões, equivalente a 3,2% do PIB.
  11. Os ingressos líquidos de Investimento Estrangeiro Direto (IED) nos últimos doze meses somam US$ 64,2 bilhões, equivalentes 2,8% do PIB.

É um espanto alguém falar, até hoje, em continuidade da política econômica do governo FHC! Não só por se ter alcançado esses resultados tão distintos, como também pela irracionalidade que seria continuar algo que antes não funcionava…

5 thoughts on “Variáveis-Metas e Variáveis-Instrumentos da Política Econômica em Curto Prazo

  1. Quando você escreve:
    “Esta onipotência seria verdadeira se o economista lidasse com cobaias de laboratório e não com seres humanos. Estes possuem o mau hábito de pensar que possuem um “self”, uma “alma”, uma auto determinação… Quando sentem que a autoridade monetária não lhes está oferecendo a quantidade de moeda desejada, prejudicando-lhe os negócios com a alta da taxa de juros, eles mudam o comportamento-padrão! Quebram a regularidade anterior da demanda por papel-moeda, alteram a velocidade de circulação da moeda, fazem inovação financeira fora do controle do Banco Central…”

    Isso é basicamente uma instância da crítica de Lucas, e se encaixa perfeitamente na teoria de expectativas racionais. Não vejo confilto com a teoria ortodoxa padrão. Ao contrário – esse mecanismo é a grande força dessa teoria em oposição a teoria keynesiana. Na própria definição da critica de Lucas da wikipedia:

    The Lucas critique, named for Robert Lucas’ work on macroeconomic policymaking, argues that it is naive to try to predict the effects of a change in economic policy entirely on the basis of relationships observed in historical data, especially highly aggregated historical data.

    1. Prezado Jorge,
      percebo em vários comentários que o comentarista deseja me “enquadrar” em determinada linha de pensamento, particularmente, “economia heterodoxa”. Lamento os decepcionar, mas penso que esta, como corpo acabado e organizado em uma doutrina unificada, não existe.

      Sempre existiu, sim, teorias alternativas ao mainstream, isto é, a corrente principal, mas compostas de críticas externas ou imanentes às teorias hegemônicas. Naturalmente, até para haver o diálogo entre os críticos e os criticados, os autores tem uma grande área de pensamento em comum, seja conceitos, seja teorias explicativas do comportamento humano.

      Ninguém é “dono da verdade”. Todos tem seus erros e seus acertos, mesmo porque a ciência evolui através do debate respeitoso, onde o próprio autor tem de buscar a auto subversão de suas ideias, isto é, tentar falsear suas hipóteses com possíveis contra-argumentos, para mantê-las ou descartá-las.

      Quando fui pesquisar a história da Teoria Monetária, desde seus primórdios, descobri vários raciocínios de autores do final do século XVIII e início do século XIX semelhantes aos dos autores do século XX. Antecipação? Ninguém inventou nada a partir do zero? Racionalidade não é monopólio…

      att.

  2. Caro Fernando

    Ao contrário – seu comentário foi extremamente ortodoxo. E não é um fato isolado – muitos economistas que se consideram “desenvolvimentistas”, “heterodoxos”, etc … tem recorrido recentemente a essa mesma linha de comentários mais ortodoxos ao comentar o desempenho recente da economia brasileira. Mesmo o próprio Lula tem criticado a condução da politica fiscal e econômica do governo Dilma. Não é apenas uma crítica da oposição.
    Acho que é um sinal que logo estaremos voltando a condução macro mais ortodoxa da economia do início do governo Lula.

    1. Prezado Jorge,
      “não existe política econômica ortodoxa ou heterodoxa, existe sim boa ou ruim, de acordo com as dadas circunstâncias”. Cito de memória minha querida mestra, Maria da Conceição Tavares.

      Tenho alertado para meus jovens colegas, que colocam em primeiro lugar a disputa por nicho de mercado de sua “marca”, tipo um rótulo-na-testa “eu sou isto” ou “eu sou aquilo”, que mais importante que essa defesa de sua “imagem ideológica” é a obtenção de resultados concretos que beneficiam a maioria da população.

      Desde o início do Governo Lula, o Ministro Pallocci, um médico sem comprometimento com essa disputa corporativa – “Ai, que dúvida existencial, minha equipe é ortodoxa ou heterodoxa?”🙂 -, definiu bem: a defesa do poder aquisitivo dos salários, combatendo a inflação, é compromisso básico de governo do Partido dos Trabalhadores. Ou não é?! Assim como, em determinadas circunstâncias, a promoção e defesa do emprego com o crescimento econômico.

      Quem disse que “política ortodoxa defende a estabilização, política heterodoxa promove o crescimento”?! Isto é o típico raciocínio binário (0 ou 1), “2 neurônio” (tico-e-teco), fácil, mas idiota, pois não sabe o mal que faz a si próprio e aos outros com isso…

      att.

      PS: quanto aos social-desenvolvimentistas, tenho vários posts a respeito neste modesto blog. Não os resuma a “heterodoxos”… Aliás, minha sugestão é abandonar esses rótulos “ortodoxo” e “heterodoxo”, que reduzem de maneira simplória a complexidade da realidade em vez de a explicar.

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