Três Correntes na Era da Soberania

Guerra Anglo-Holandesa

O Tratado de Westfália de 1648 não só pôs fim às guerras religiosas, mas também estabeleceu a primeira versão da ordem internacional moderna. A Europa foi então dividida em Estados soberanos, em vez de continuar a ser uma “colcha de retalhos” de jurisdições nominalmente supervisionadas pelo papa e pelo Sacro Imperador Romano.

Essa Era da Soberania viu a ascensão dos Estados que ainda eram ligados a dinastias e religiões, mas cujo prestígio dependia, na verdade, de seus governos, territórios e impérios comerciais. Foi essa consolidação gradual dos Estados soberanos que originou duas tendências opostas encontradas em todos os estudos estatísticos da guerra: as guerras estavam se tornando menos frequentes, porém mais destrutivas.

Uma primeira importante razão do declínio numérico das guerras, inclusive civis, foi a diminuição do próprio número de unidades políticas capazes de lutar entre si. Encolheu de quinhentos na época da Guerra dos Trinta Anos para menos de trinta nos anos 1950.

Trata-se da lógica do Leviatã. Conforme os pequenos baronatos e ducados reuniram-se em reinos maiores, as autoridades centralizadas impediram-nos de guerras entre si. Para um suserano, as brigas privadas em seus domínios são uma perda total. A redução na frequência da guerra, portanto, é mais uma manifestação do Processo Civilizador, apresentado por Norbert Elias.

A maior letalidade das guerras que ocorreram resultou de um avanço chamado revolução militar. Os Estados guerrearam com muito maior violência graças ao progresso nos armamentos, especialmente, canhões e armas de fogo, mas também resultou do recrutamento de maior número de pessoas para matar e ser mortas. Antes, na Europa medieval na Era das Dinastias, os governantes em vez de armar e treinar seus camponeses, preferiam formar milícias ad hoc: contratavam mercenários ou recrutavam hereges ou pobretões incapazes de pagar para escapar.

A serviço do rei, era comum que devessem buscar sua remuneração espoliando a população civil: confiscavam, estupravam, pilhavam, extorquiam. Quando desmobilizados, continuavam com as mesmas práticas sem proteção régia: os marinheiros viravam piratas e os soldados viravam bandidos.

À medida que as forças armadas tornaram-se mais unificadas e permanentes, também ganharam eficácia. Durante a revolução militar dos séculos XVI e XVII, os Estados começaram a formar exércitos profissionais permanentes. Recrutavam grandes números de homens nas várias camadas da sociedade em vez de busca-los apenas na pior ralé. Recorriam a uma combinação de treinamento, doutrinação e punição brutal para prepara-los para o combate organizado. E incutiam nos homens um código de disciplina, estoicismo e valor. Logo, quando dois desses exércitos se enfrentavam, elevava-se, velozmente, a contagem de cadáveres.

A onda gradual de mudança militar tecnológica e organizacional demorou séculos. Napoleão substituiu as batalhas nas quais ambos os lados tentavam conservar seus soldados por ataques nos quais um país mobilizava todos os seus recursos para infligir uma derrota total ao inimigo. A Revolução Industrial, a partir do século XIX, contribuiu para alimentar e equipar maiores quantidades de soldados e transportá-los mais rapidamente para a frente de batalha.

Durante esse longo robustecimento do poder militar, uma segunda força (aliada à consolidação dos Estados) levou à diminuição da frequência dos combates. No século XVIII, potências imperiais como Holanda, Suécia, Dinamarca, Portugal e Espanha pararam de competir no jogo de poder geopolítico e redirecionaram suas energias para as conquistas do comércio.

Esse período relativamente pacífico de 1713 a 1789 foi parte da Revolução Humanitária ligada à Era da Razão, ao Iluminismo e ao nascimento do liberalismo clássico. O abrandamento do fervor religioso significou que as guerras deixaram de ser inflamadas por ideias escatológicas, permitindo aos líderes firmar tratados em vez de lutar até o último homem.

Estados soberanos estavam se transformando em potências comerciais para obterem benefícios mútuos. Escritores populares estavam desconstruindo a honra, equiparando a guerra ao assassinato, ridicularizando a história da violência europeia e assumindo os pontos de vista dos soldados e dos povos conquistados. Filósofos estavam redefinindo a concepção de governo de um meio para colocar em prática os caprichos de um monarca para um meio de melhorar a vida, a liberdade e a felicidade das pessoas individualmente. O desafio era descobrir modos para limitar o poder dos líderes políticos e incentivá-los a evitar a guerra.

Essas ideias transmitiram-se, lentamente, escala social acima e se infiltraram nas atitudes de pelo menos alguns governantes da época, levando ao “absolutismo esclarecido”. E a democracia conseguiu seus primeiros pontos de apoio, após a Guerra Civil inglesa, junto aos colonos emigrantes que levaram suas ideias para a América do Norte.

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