Ideologias Contrailuministas e as Eras do Nacionalismo e da Ideologia

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A Revolução Francesa e as guerras revolucionárias e napoleônicas na França causaram nada menos do que quatro milhões de mortes. Luard designa 1789 como o início da Era do Nacionalismo. Os participantes da precedente Era da Soberania haviam sido impérios dinásticos espalhados que não se definiam como “nação” no sentido de um grupo que compartilha uma terra natal, uma língua comum e uma cultura. Essa nova era foi povoada por Estados mais bem alinhados como nações, que competiam com outros Estados-nações pela predominância.

Anseios nacionalistas desencadearam trinta guerras de independência na Europa e levaram à autonomia da Bélgica, Grécia, Bulgária, Albânia e Sérvia. Também inspiraram as guerras de unificação nacional da Itália e Alemanha. Os povos da Ásia e da África não eram considerados dignos de autoexpressão nacional, por isso os Estados-nações europeus trataram de aumentar sua glória colonizando-os. Como contrapartida, houve a descolonização política da América espanhola e portuguesa, embora fosse submetida à espécie de colonização comercial pela Inglaterra.

A Primeira Guerra Mundial, nesse esquema, é a culminância desses anseios nacionalistas. Foi desencadeada pelo nacionalismo sérvio contra o Império Habsburgo, inflamada por lealdades nacionalistas que jogaram os povos germânicos contra os eslavos e, logo depois, contra os britânicos e franceses, e terminou com o desmembramento dos impérios multiétnicos Habsburgo e Otomano, dando origem aos Estados-nações da Europa Central e Oriental.

Luard encerra essa Era do Nacionalismo em 1917. Esse foi o ano que os Estados Unidos entraram na guerra e a redefiniram como uma luta da democracia contra a autocracia, e na qual a Revolução Russa criou o primeiro Estado autodenominado comunista. O mundo entrou na Era da Ideologia, na qual a democracia e o comunismo lutaram contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial e um contra o outro durante a Guerra Fria. Luard, escrevendo em 1986, deixou um travessão após 1917-… Hoje, Pinker diz que essa Era concluiu-se em 1989.

O conceito de uma Era do Nacionalismo é um tanto arbitrário. O argumento de Pinker que as guerras revolucionárias e napoleônicas foram inflamadas tanto pelo espírito nacional da França quanto pelo resíduo ideológico da Revolução Francesa, bem antes da chamada Era da Ideologia.

Michael Howard entende melhor os dois séculos passados vendo-os como uma batalha por influência entre quatro forças que, ocasionalmente, se juntaram em coalizões temporárias:

  1. Humanismo esclarecido;
  2. Conservadorismo;
  3. Nacionalismo; e
  4. Ideologias utópicas.

Steven Pinker, radicalmente, acha que, quanto à França napoleônica,  “é  melhor classificá-la como a primeira implementação do fascismo”. Embora Napoleão realmente realizasse algumas reformas racionais (como sistema métrico e códigos de direito civil), na maioria dos aspectos ele retrocedeu em relação aos avanços humanistas do Iluminismo:

  1. Assumiu o poder recorrendo a um golpe de Estado;
  2. Eliminou o governo constitucional;
  3. Reinstituiu a escravidão;
  4. Enalteceu a guerra;
  5. Obrigou o papa a coroá-lo imperador;
  6. Restaurou o catolicismo como religião do Estado;
  7. Instalou o nepotismo com três irmãos e um cunhado em tronos estrangeiros; e
  8. Empreendeu implacáveis campanhas de aumento territorial com uma criminosa desconsideração pela vida humana.

“A França revolucionária e napoleônica (…) foi consumida pela combinação do nacionalismo francês com uma ideologia utópica. Essa ideologia, como a versões do cristianismo que a precederam e o fascismo e o comunismo que a sucederam, era messiânica, apocalíptica, expansionista e certa de sua retidão. Via seus oponentes como irremediavelmente perversos, como ameaças existenciais que tinham de ser eliminadas em nome de uma causa santa. (…) o utopismo militante foi um desfiguramento do ideal iluminista do progresso humanitário” (Pinker, 2013: 334-5).

As grandes potências assumiram a responsabilidade de preservar a paz e a ordem e seu Concerto da Europa foi um precursor da Liga das Nações, das Nações Unidas e da União Europeia. Esse Leviatã internacional merece grande parte do crédito pelos longos intervalos de paz na Europa do século XIX.

Mas a estabilidade foi imposta por monarcas que reinaram sobre heterogêneos amálgamas de grupos étnicos, os quais começaram a clamar por voz ativa na gestão dos seus assuntos. O resultado foi o nacionalismo. A paz não era particularmente desejável no curto prazo; só viria quando todas as nações fossem livres. Reivindicavam o direito de usar de quanta força fosse necessária para libertar-se, travando as Guerras de Libertação Nacional.

Os sentimentos nacionalistas logo se entrelaçaram a todos os outros movimentos políticos. Assim que os Estados-nações emergiram, tornaram-se o novo establishment  que os conservadores se empenhavam em conservar. Quando os monarcas se converteram em ícones de suas nações, o conservadorismo e o nacionalismo gradualmente se fundiram.

Por fim, segundo Pinker (2012: 337), “a doutrina gerou os movimentos nacionalistas messiânicos, militantes e românticos do fascismo e do nazismo. Uma interpretação semelhante da história como uma irreprimível dialética de libertação violenta, porém substituindo as nações pelas classes sociais, tornou-se o alicerce do comunismo no século XX”.

Os herdeiros liberais do Iluminismo britânico, norte-americano e kantiano não militaram em oposição ao nacionalismo, pois se viram em um impasse: não podiam defender monarquias e impérios autocráticos. “Assim, o liberalismo aderiu ao nacionalismo envernizado como ‘autodeterminação dos povos’, que cheirava vagamente a democracia”.

O termo “nação” ou “povo” passou a representar os indivíduos que compunham a nação, e então os líderes políticos passaram a representar a nação. “Um governante, uma bandeira, um exército, um território, uma língua, passaram a ser cognitivamente equiparados a milhões de indivíduos de carne e osso”.

O argumento de Pinker (2012: 338) é que “um dos perigos da ‘autodeterminação dos povos’ é que, na verdade, não existe ‘nação’ no sentido de um grupo etnocultural que coincide com um pedaço de terra. (…) Se um mundo utópico for aquele no qual fronteiras políticas coincidem com fronteiras étnicas, os líderes serão tentados a acelerar seu advento com campanhas de limpeza étnica e irredentismo. Além disso, na ausência da democracia liberal e de um forte comprometimento como os direitos humanos, a sinédoque na qual um povo é igualado a seu governante político transformará qualquer confederação internacional (como a Assembleia Geral das Nações Unidas) em uma caricatura. Ditadores baratos são acolhidos na família das nações e recebem carta branca para matar de fome, aprisionar e assassinar seus cidadãos”.

A Era da Ideologia que começou em 1917 foi um período no qual os rumos da guerra foram determinados pelos sistemas de crenças inevitabilistas do Contrailuminismo do século XIX. O nacionalismo militarizado romântico – a doutrina de que a própria guerra era uma atividade salutar, totalmente distinta de seus objetivos estratégicos – inspirou os programas expansionistas da Itália fascista e do Japão imperial e, com uma dose adicional de pseudociência racista, da Alemanha nazista.

A liderança de cada um desses países cerrou fileiras contra o individualismo e o universalismo “decadente” do Ocidente liberal moderno. Cada uma foi movida pela convicção de que estava destinada a ter o domínio sobre um território natural: o Mediterrâneo, a orla do Pacífico e o continente europeu, respectivamente. A Segunda Guerra Mundial começou com invasões para concretizar esses destinos.

“Ao mesmo tempo, o comunismo romântico militarizado inspirou os programas expansionistas da União Soviética e da China, que quiseram dar uma mãozinha ao processo dialético pelo qual o proletariado ou o campesinato deveria derrotar a burguesia e estabelecer uma ditadura em país após país. A Guerra Fria foi produto da determinação dos Estados Unidos de conter esse movimento mais ou menos dentro das fronteiras em que ele se encontrava no fim da Segunda Guerra Mundial” (Pinker, 2012: 342).

Durante a maior parte da história humana, pessoas influentes sedentas de poder, prestígio ou vingança puderam contar com sua rede política para ratificar essa ânsia e, no esforço de satisfazer os poderosos, desativar sua compaixão pelas vítimas. Em outras palavras, acreditava-se na legitimidade da guerra.

Embora os componentes psicológicos da guerra não tenham desaparecido – dominância, vingança, insensibilidade, tribalismo, pensamento de grupo, autoengano –, desde fins dos anos 1940, eles vêm se desagregando na Europa e em outros países desenvolvidos de um modo que leva à diminuição das frequências das guerras.

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Antecedentes Hobbesianos e as Eras das Dinastias e Religiões

Três Correntes na Era da Soberania

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