Sobre o Objetivismo

Seguindo sugestão do texto Economics goes to Hollywood, baixei e assisti o filme The Fountainhead (no Brasil, Vontade Indômita). É um filme norte-americano de 1949, preto-e-branco, do gênero Drama, dirigido por King Vidor (1894-1982). Ele dirigiu fez vários filmes que dignificavam os pobres e expunham o racismo e os horrores da guerra, inclusive o épico Guerra e Paz (1956). O roteiro de The Fountainhead é de Ayn Rand que adaptou seu livro homônimo de 1943. Objetivismo é a filosofia identificada por esta autora e filósofa russa-americana. Dele queremos tratar neste post através de informações obtidas na maior enciclopédia da história humana, Wikipedia.

Frank Lloyd Wright, arquiteto inspirador do protagonista do filme, se tornou para Rand a confirmação de que “todo homem é artífice do próprio destino“. No romance de 1943, a escritora Ayn Rand se inspirou em sua vida para abordar, entre mito e alegoria, o capital humano, isto é, a capacidade pessoal de ganho que cada indivíduo carrega consigo: No man takes what’s mine [“Ninguém tira o que é meu”] diz o subtítulo do filme. Mostra o conflito entre a pureza dos ideais originais e a tentativa de corrompê-los para agradar à opinião pública forjada pelos interesses da mídia.

A sinopse do filme é a seguinte. Howard Roark (Gary Cooper) é um jovem arquiteto idealista e individualista, que deseja realizar um trabalho inovador e sem interferências, mas encontra resistência por parte do articulista do jornal The Banner, Elsworth Toohey, que prefere apoiar medíocres e manipuláveis como Peter Keating, o que lhe dá poder pessoal de influenciar as obras em construção de acordo com o padrão neoclássico. O jornal popular molda a opinião pública. Roark fica sem clientes e para não contrariar seus princípios, fecha seu escritório e vai trabalhar como operário em uma pedreira, onde conhece a rica Dominique.

Roark tem a chance de voltar ao seus projetos quando recebe a encomenda de um enorme edifício modernista. Apesar de grande campanha do jornal contra a obra, o proprietário autoriza Roark a seguir com a construção. Finalizado o edifício, e mesmo se impondo como uma obra revolucionária, as pessoas continuam temendo contratar Roark. Ele se sustenta projetando pequenas construções como postos de gasolina e residências, até que se torna o arquiteto de maior prestígio da cidade. Mesmo assim continua sem receber encomendas públicas em função das campanhas jornalísticas que sofrera. Enquanto Roark ganha prestígio, Keating fica sem trabalho. Ele procura Roark para um projeto popular habitacional e o convence a projetá-lo como se fosse dele. Mas a planta sofre interferência na construção e Roark não hesita em dinamitar a obra, o que o leva a julgamento.

A personagem de Howard Roark foi inspirado no arquiteto Frank Lloyd Wright, embora a arquitetura figure no roteiro apenas como pretexto para a autora defender sua filosofia. Um dos conceitos centrais em sua obra é o de que o projeto deve ser individual e orgânico, de acordo com sua localização e finalidade. Wright influenciou os rumos da arquitetura moderna com suas ideias e obras. Ele é considerado um dos arquitetos mais importantes do século XX – veja seu trabalho no Volume 1 da Coleção Folha Grandes Arquitetos.

Em uma cena de julgamento no tribunal (veja vídeo no final do post), Roark discursa, veementemente, durante quase seis minutos, em nome do Individualismo, conforme a filosofia conhecida por Objetivismo, criada por Ayn Rand. Examinaremos primeiro este, depois o Individualismo. Coincidentemente, no dia que assisti o filme, eu tinha lido a respeito dele como parte da ideologia dos liberais norte-americanos, lá posicionados à esquerda.

Obs.: veja em tela cheia para enxergar legenda em português.

O Objetivismo afirma que:

  • a realidade existe independentemente da consciência, neste sentido, esta filosofia difere do idealismo e se identifica com o materialismo;
  • o ser humano tem contato direto com a realidade através dos sentidos;
  • o ser humano pode ter conhecimento objetivo pelo processo de formação de conceitos, da lógica dedutiva e indutivaLógica é a arte de não-contradição; Indução é o processo mental de partir de fatos particulares e generalizá-los para formar novas ideias; Dedução é o processo mental de formar conclusões a partir de premissas, indo do abstrato ao concreto-particular;
  • o objetivo moral da vida humana é atingir a própria felicidade ou interesse racional;
  • o único sistema social consistente com esta moralidade é um que respeite os direitos dos seres humanos à vida, liberdade, propriedade e busca à felicidade; os norte-americanos o identificam com o capitalismo laissez-faire, e
  • a função da arte é transformar as ideias metafísicas mais abstratas, reproduzindo seletivamente a realidade, em forma física.

O nome Objetivismo vem do princípio de que o conhecimento e valores humanos são objetivos: eles não são criados pelos pensamentos que alguém tem, mas determinados para natureza da realidade, para serem descobertos pelo ser humano. Rand disse que escolheu este nome porque o termo preferido para uma filosofia baseado na primazia da existência – existencialismo – já havia sido usado pelos que partilhavam a crença que o pensamento filosófico começa com o sujeito humano, não meramente o sujeito pensante, mas as suas ações, seus sentimentos e sua vivência enquanto um ser humano individual.

Em Metafísica, suas proposições são:

  • A realidade existe, independentemente da observação do ser humano, dos sentimentos, desejos, esperanças ou medos.
  • A existência existe e é primária.
  • A consciência humana é consciente da realidade.
  • O que é, é: tudo possui identidade.
  • Toda entidade obedece a Lei da Causalidade: causa e efeito.

Em termos de Epistemologia ou Conhecimento, suas contribuições são:

  • A razão é o único meio para perceber a realidade, a única fonte de conhecimento, o único guia de ação e o meio básico de sobrevivência.
  • Como todo conhecimento é baseado nos sentidos, eles são axiomáticos.
  • Conceitos são formados omitindo medidas.

Quanto à Ética, a parte da filosofia dedicada aos estudos dos valores morais e princípios ideais do comportamento humano, propõe o seguinte:

  • O ser humano, cada um, é um fim em si mesmo e não um meio para o fim de outros humanos. Deve existir em função de seus próprios propósitos, não se sacrificando por outros, nem sacrificando outros por ele.
  • A primeira escolha de todo ser é a existência ou a não-existência e, por isto, a vida do ser humano se identifica por seu padrão moral de vida. Sem ela, nenhum outro valor é possível.
  • A racionalidade é a maior virtude; todas as outras seis virtudes derivam dela: produtividade, justiça, orgulho, independência, integridade, honestidade.

Quanto à Política, as concepções do Objetivismo são:

  • É primordial a defesa da liberdade, em um sistema político onde os homens se tratam como negociantes livres, em trocas voluntárias, com benefício mútuo, e nunca como vítimas e executores, senhores e escravos.
  • Cada pessoa sobrevive baseado na sua habilidade de exercitar e usar a razão. Para que isto seja possível, é preciso banir a iniciação de violência.
  • O governo precisa proteger os direitos do indivíduo à sua vida, liberdade, propriedade e a busca da felicidade.
  • Órgãos essenciais de um governo são apenas a polícia, o exército e as cortes de leis.
  • O governo tem de estar separado da economia, religião, educação e ciência.
  • Como este governo financiaria suas atividades? Com, e somente com, doações voluntárias de seus cidadãos.

Percebe-se que esse Objetivismo advoga um Estado mínimo, de acordo com o credo herdado dos colonos norte-americanos do século XVIII, quando o mais que eles queriam era a liberdade para conquistar “terras devolutas”, isto é, dos nativos, apropriando-as. Do “governo”, sem pagar impostos extorsivos, só desejavam segurança pública e proteção jurídica. O restante ficaria por conta de iniciativas particulares ou comunitárias.

Será que o Subjetivismo se contrapõe ao Objetivismo?

Leia o próximo postSobre o Subjetivismo

“Há milhões de anos, um homem descobriu como fazer o fogo. Provavelmente se queimou na fogueira, que ensinou seus irmãos a acender. Mas deixou-lhes um presente que eles não haviam concebido e acabou com a escuridão da Terra.

Ao longo dos séculos, houve homens que abriram novos caminhos, armados unicamente com sua própria visão. Grandes criadores, pensadores, artistas, cientistas, inventores. Estiveram sozinhos contra os homens de seu tempo.

Cada pensamento novo foi rechaçado… cada invenção nova, denunciada… mas os homens de visão de futuro seguiram em frente. Lutaram, sofreram e pagaram, mas venceram.

Nenhum criador foi impulsionado pelo desejo de satisfazer seus irmãos. Seus irmãos odiaram o presente que ele oferecia.

Sua verdade era seu único motivo. Seu trabalho era seu único objetivo. Seu trabalho, não aqueles que o usaram. Sua criação, não os benefícios que outros derivaram dela. A criação que dava forma à sua verdade.

Ele sustentava a verdade sobre todas as coisas e contra todos os homens. Ele foi em frente, mesmo que outros não estiveram de acordo com ele… com sua integridade como sua única bandeira. Não serviu a nada e a ninguém.

Viveu para ele mesmo… e somente vivendo para si mesmo foi capaz de conseguir as coisas que são a glória da humanidade. Essa é a natureza da realização.

O homem não pode sobreviver, exceto através de sua mente. Ele vem à Terra desarmado. Seu cérebro é sua única arma, mas a mente é um atributo do indivíduo.

Não existe cérebro coletivo. O homem que pensa, deve pensar e agir por si mesmo.

A mente racional não pode trabalhar sob nenhuma forma de coação. Não pode ser subordinada às necessidades, opiniões, ou desejos de outros. Não é um objeto de sacrifício.

O criador se mantém firme em seu próprio julgamento. O parasita segue as opiniões dos outros.

O criador pensa. O parasita copia.

O criador produz, o parasita saqueia.

O interesse do criador é a conquista da natureza. O interesse do parasita é a conquista dos outros homens.

O criador requer a independência. Ele não serve, nem governa. Ele trata com homens pela troca livre e pela escolha voluntária. O parasita procura o poder. O parasita quer prender todos os homens juntos, numa ação comum… e numa escravidão comum.

Ele clama que o homem é somente uma ferramenta para o uso de outros… que deve pensar como eles pensam, e agir como eles agem… vivendo na abnegação, na triste servidão a qualquer um, exceto a si mesmo.

Olhem a História.

Tudo o que temos, cada grande realização… veio do trabalho independente de alguma mente independente.

Cada horror e destruição… veio de tentativas de converter homens em rebanhos sem cérebros, robôs sem almas. Sem direitos pessoais, sem ambição pessoal, sem vontade, esperança ou dignidade.

É um conflito antigo. Tem um outro nome. O indivídual contra o coletivo.

Nosso país, o país mais nobre na história dos homens… foi baseado no princípio do individualismo.

O princípio dos direitos alienáveis do homem.

Um país onde um homem era livre para buscar sua própria felicidade. Para ganhar e produzir, não render-se e não renunciar. Para prosperar, para não morrer de fome. Para conseguir, para não perecer.

Para ter como sua maior possessão, o sentido de valor pessoal… e como sua maior virtude, o seu auto-respeito.

Olhem os resultados. Isto que os coletivistas estão agora pedindo que vocês destruam… tanto quanto da Terra foi destruído.

Eu sou um arquiteto. Eu sei que se constroi a partir das bases.

Estamos nos aproximando de um mundo no qual eu não posso me permitir viver.

Minhas idéias são minha propriedade. Foram retiradas de mim pela força, pela ruptura de contrato. Nenhum recurso me foi deixado.

Acreditaram que meu trabalho pertencia a outros, para fazer o que quiserem, que tinham direito sobre mim, sem o meu consentimento… que era meu dever servir-lhes, sem alternativa ou recompensa.

Agora vocês sabem porque eu dinamitei Cortlandt. Eu projetei Cortlandt… eu o fiz possível… eu o destrui.

Eu concordei projetá-lo, com a finalidade de vê-lo construído como eu desejei. Esse foi o preço que eu coloquei em meu trabalho. Eu não fui pago.

Meu edifício foi desfigurado pelos que se beneficiaram com o meu trabalho e não me deram nada em troca.

Eu vim aqui dizer que eu não reconheço… o direito de ninguém a um minuto de minha vida. Nem a qualquer parte de minha energia, nem a alguma de minhas realizações. Não importa quem faça a reivindicação.

Tem que ser dito. O mundo está perecendo em uma orgia de auto-sacrifício.

Eu vim aqui para ser ouvido… em nome de cada homem independente que há ainda no mundo.

Eu quis estabelecer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver como alguns outros.

Meus termos são o direito do homem de existir por suas próprias razões.”

4 thoughts on “Sobre o Objetivismo

  1. “Percebe-se que esse Objetivismo advoga um Estado mínimo, de acordo com o credo herdado dos colonos norte-americanos do século XVIII, quando tudo que eles queriam era liberdade para conquistar “terras devolutas”, isto é, dos nativos, apropriando-as.”

    A guerra da independência americana, com posterior constituição dos EUA, aconteceu porque tudo o que os colonos queriam era se apropriar de terras dos nativos? (pausa) (suspiro) Não vai dizer que queriam comer criancinhas também? Porque perder a chance de um ad hominem (ou neste caso ad populus)?

    • Prezado Ricardo Castro,
      geralmente, tenho enviado comentários agressivos, que atacam pessoalmente, seja com palavras de baixo calão, seja com ironias, para o lixo. Percebi que essa ferramenta é imprescindível na web, pois sob anonimato ou relacionamento pessoal muitos se dão o direito de mostrar seu pior lado: a violenta intolerância com quem discorda. Acho que se relaciona com um instinto de competição descontrolado ou até mesmo com um complexo de inferioridade invertido: a necessidade de se afirmar em cima do que considera a ignorância alheia. Em geral, o ser humano se considera acima dos outros.

      Você poderia ter me chamado a atenção, gentilmente, para o reducionismo que eu cometi por força da retórica. Muitas vezes, escrevendo posts, apressadamente, deixamos passar leviandades ou mesmo incorreções. Peço desculpa. Vou me corrigir, simplesmente, apenas trocando o “tudo” por “mais”…

      Assim, você poderá refletir se a predação da principal riqueza de uma sociedade rural – a propriedade da terra – não foi, de fato, um motivo-chave para o colono ser respeitado como cidadão, inclusive com o direito de votar e ser votado.

      att.

      • Prezado Fernando,

        Sinto se você se sentiu pessoalmente atacado. O ponto foi sobre um trecho do texto e ao argumento nele utilizado. Terei mais cuidado em próximas contribuições. Fique a vontade para apagar meus comentários. Bandeira branca.

        De qualquer forma, a afirmação sobre os colonos norte-americanos, além de reducionista, é pouco relevante no contexto. Afinal, o fator “predação” é comum a toda a história americana do período, de Tierra Del Fuego a Quebec, do Peru a Massachussets — portanto em si pouco apropriada para explicar uma ideologia particular norte-americana.

        Coloco a sugestão de um livro, interessante na grande tese e no desmonte de visões simplistas sobre a história de nosso continente, embora curto e imperfeito:
        http://www.amazon.com/The-Americas-Hemispheric-History-Chronicles/dp/0812975545

        Att

      • Prezado Ricardo,
        ocorreu-me que a predação do Império Inca pelos espanhois foi distinta da colonização norte-americana pelos britânicos. No Peru, já existia riqueza líquida sob forma metálica.
        O emigrantes britânicos foram para a América do Norte carregando as bandeiras-de-luta da Guerra Civil inglesa contra a Monarquia absolutista e a concentração fundiária, não?
        Mas sou um leigo no assunto, apenas um leitor interessado em diminuir minha ignorância.
        att.

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