Perdas de Bancos, Fundos de Pensão e Investidores com Títulos Prefixados

Rentabilidade dos Fundos de Pensão FechadosRendimentos Comparados de Investimentos

Eu não disse aos meus colegas e aos seguidores deste modesto blog que a troca de LFT pós-fixadas por LTN e NTN-B prefixadas imporiam uma perda às carteiras próprias dos bancos e aos investidores de fundos, no caso de reversão da queda da taxa de juros básica, inclusive de Fundos de Pensão? Era difícil prever que a taxa de inflação se elevaria?! Dito e feito…

Alguns “anti-usura”, que possuem preconceito a respeito de bancos, pensam “ah, eu quero mais é que os banqueiros sifu…Não, não, não… Bancos administram recursos de terceiros, logo, quanto mais sólidos estiverem – sem basear seus lucros em spread não competitivo -, sob melhor salvaguarda estará o nosso pobre dinheirinho. Todos os depositantes fazem parte do sistema bancário – e muitos trabalhadores são rentistas do regime de capitalização por contribuição definida dos Fundos de Pensão!

Se o ano continuar como está, 2013 será o pior para os fundos de pensão desde 2008. O desempenho ruim tanto das aplicações em renda variável quanto da renda fixa, na primeira metade do ano, fez com que a maior parte das fundações do país fechasse o período com rentabilidade real negativa, atingindo até 2%. Tem, porém, possibilidade de recuperação, pois, diferentemente dos fundos de investimentos, que têm que vender ativos para honrar saques em tempos de turbulência, as fundações têm passivos de longo prazo que podem garantir uma recuperação à frente.

Angela Bittencourt (Valor, 01/08/13) informa que a intensa volatilidade dos ativos financeiros e a mudança brusca das taxas de retorno dos títulos do Tesouro Nacional, de maio para junho de 2013, tiveram impacto contábil conjunto de R$ 11,7 bilhões no patrimônio dos três maiores bancos privados brasileiros, no segundo trimestre. Esse impacto em posições de tesouraria de Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, confirmado pelos balanços trimestrais das instituições, supera em 67% o lucro conjunto de R$ 7 bilhões alcançado pelo trio.

O impacto no patrimônio é decorrente da marcação a mercado especialmente dos títulos públicos de renda fixa em tesouraria. Esses papéis – independentemente de características e prazos – sofreram desvalorização substancial em maio e junho. A marcação a mercado dos preços dos ativos equivale à atualização do valor diário de cada ativo ou título. Isso não quer dizer que os bancos tiveram “perdas” somadas de quase R$ 12 bilhões. A perda é realizada apenas quando os bancos se desfazem dos papéis. Se esses papéis permanecerem em carteira, no vencimento eles vão render as taxas garantidas pelo emissor/vendedor, o Tesouro Nacional.

Dos três grandes bancos, o Bradesco sofreu o maior impacto, de R$ 8,3 bilhões, com a marcação a mercado especialmente dos títulos de renda fixa em tesouraria ao longo do segundo trimestre. O banco informou que “tal variação decorreu, principalmente, pela marcação a mercado dos títulos e valores mobiliários de renda fixa, basicamente, relacionados ao Grupo Segurador” e classificados como “disponível para venda“, que em março tinham custo de R$ 114 bilhões e valor de mercado de R$ 119,7 bilhões. No fim de junho, a carteira total nessa mesma categoria somava R$ 133,2 bilhões pelo custo atualizado, mas valia R$ 130 bilhões a preço de mercado, com uma diferença negativa de R$ 3,22 bilhões. No Itaú Unibanco, o impacto foi no valor de R$ 2,2 bilhões. E, no Santander Brasil, de R$ 1,2 bilhão.

O gatilho para a desvalorização dos títulos do Tesouro Nacional foi a brusca mudança de patamar das taxas de juros que subiram no mundo inteiro a partir de meados de maio, quando o Federal Reserve, o BC americano, indicou sua intenção de reduzir ou interromper os estímulos monetários à economia americana. Em junho, após a reunião do “Copom do Fed”, o presidente Ben Bernanke retomou o assunto e os mercados foram submetidos a uma redefinição de preços de ativos. Mas não foi só isso. Por aqui, o clima pesou com as manifestações populares que conquistaram as ruas das principais cidades brasileiras e provocaram forte deterioração na imagem da presidente Dilma Rousseff. E em meio a uma importante desvalorização do real frente ao dólar.

Bom exemplo da aceleração das taxas é o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em 2017. No início de maio, essa posição era cotada a 8,73%. No fim de maio, a 9,75%. E, no fim de junho, a 11,02% ao ano. Em julho, as taxas se acomodaram e até recuaram, mas não muito. Ontem, com o “Copom do Fed” reunindo-se mais uma vez – ainda sem formalizar uma mudança no ciclo monetário que terá menos liquidez – o dólar saltou frente ao real e os juros seguiram a tendência. No fechamento, as cotações haviam neutralizado esse efeito.

O contrato de DI de 2017 chegou a ser negociado a 10,92% ao ano e, no fechamento da sessão regular, trocava de dono a 10,78% ao ano. Mas a sustentação dos Treasuries de 10 anos, títulos dos EUA que são referência para os mercados, continua convidando países a elevarem suas taxas de juros. E bola pra frente, porque as expectativas com o início da retirada dos estímulos monetários pelo Fed ficaram para a reunião do seu “Copom”, em setembro.

Fernando Torres e Carolina Mandl (Valor, 23/07/13) informam que, em meio a um período de forte ajuste para cima nos juros dos títulos públicos, as operações de tesouraria trouxeram impactos negativos para o Bradesco tanto em termos de patrimônio quanto de resultado ao longo do segundo trimestre deste ano. Números divulgados ontem mostram que o “estoque” de lucros não realizados do Bradesco caiu R$ 8,3 bilhões, saindo de R$ 20,3 bilhões no fim de março para R$ 12 bilhões.

O impacto líquido negativo dessa variação no patrimônio líquido do banco foi de R$ 5,3 bilhões. Segundo o Bradesco, “tal variação decorreu, principalmente, pela marcação a mercado dos títulos e valores mobiliários de renda fixa“.

De acordo com Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, a perda registrada na carteira não é fruto de especulação. “A retenção dessa carteira no médio, longo prazo não traz nenhum impacto econômico”, disse ele.

Os juros dos títulos públicos brasileiros tiveram forte alta a partir de junho diante de expectativa de aperto da política monetária americana. O movimento deixou uma perda contábil de mais de R$ 100 bilhões no mercado e o Bradesco é o primeiro banco a reportar o efeito em seu resultado.

Se um investidor qualquer tem títulos prefixados (LTNs) ou atrelados à inflação (NTN-Bs) e a curva de juros sobe, há uma perda a ser registrada, porque os papéis perdem valor. Mas a regra contábil permite que, em determinadas situações, o resultado, positivo ou negativo, não transite pela conta de lucros e perdas, sendo registrado direto no patrimônio líquido.

Por isso o banco ainda teve um lucro líquido de R$ 2,95 bilhões no segundo trimestre, com expansão de 4,1% em relação a igual período de 2012. Mas, por conta dos ajustes no patrimônio líquido, o índice de Basileia do Bradesco caiu de 15,6% em março para 15,4% em junho, o que se traduz em espaço menor no balanço para emprestar. [Viu?! Entendem agora, meus caros colegas?]

O impacto da alta dos juros no patrimônio do banco é visto na carteira de títulos classificada como “disponível para venda”, uma das três possíveis pela regulamentação. As outras duas são “negociação” (variações afetam o lucro do período) e “mantido até o vencimento” (não marcada a mercado).

Em março de 2013, a carteira disponível para venda do Bradesco tinha custo de R$ 114 bilhões e valor de mercado de R$ 119,7 bilhões, com um ganho não realizado no resultado de R$ 5,7 bilhões. No fim de junho de 2013, essa mesma categoria, que cresceu, somava R$ 133,2 bilhões pelo custo, mas valia R$ 130 bilhões a mercado, com uma diferença negativa de R$ 3,2 bilhões. O banco ainda tem um estoque de R$ 12 bilhões de ganhos não realizados ligados a outros investimentos, como suas fatias acionárias em Cielo, Odontoprev e Fleury.

Na carteira de papéis mantida para negociação, que teve impacto no lucro do período, o resultado também não foi bom. De abril a junho, o Bradesco teve apenas R$ 18 milhões de resultado na tesouraria, sustentados pela venda de R$ 148 milhões de ações da BM&FBovespa. Pelos cálculos do Deutsche Bank, nos últimos cinco trimestres, a tesouraria tinha registrado ganho médio de R$ 394 milhões por trimestre. Passada a turbulência, o Bradesco prevê que o resultado trimestral na área fique entre R$ 200 milhões a R$ 400 milhões.

Analistas esperam que os demais bancos também sofram com o impacto da curva de juros, mas menos que o Bradesco, que tem a maior seguradora do mercado, com uma bilionária carteira de títulos de dívida.

2 thoughts on “Perdas de Bancos, Fundos de Pensão e Investidores com Títulos Prefixados

  1. Eu queria saber como andam as coisas nos fundos de pensão.
    Porque, me corrija se estiver errado, os bancos compraram mais títulos pré porque o governo disponibilizou mais esses títulos. Mas a troca dos pós pelos pré se deu apenas com os fundos de pensão. Correto?
    Se for assim, o prejuízo dos fundos será bem maior que o dos bancos.

    1. Prezado Rodrigo,
      a troca dos pré pelos pós foi voluntária quando predominava a tendência de queda da taxa de juros básica. A STN aproveitou essa circunstância para oferecer mais LTN e NTN-B como parte de uma política de prefixação da dívida pública, que é interessante para o Tesouro Nacional (embora desinteressante para o investidor), pois evita a contaminação de todo o estoque da dívida com eventual reversão da tendência de queda da taxa de juros. A oferta de títulos se molda ao perfil da demanda.
      Quanto aos Fundos de Pensão patrocinados por empresas estatais, eu não sei se houve imposição de troca de LFT por LTN/NTN tal como foi o caso do FGTS.
      att.

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