Cisternas de cimento ou cisternas de plástico?

Cisterna de cimentoCISTERNAS PLASTICAS

Já contei aqui, neste modesto blog, meu envolvimento com a  FEBRABAN e o Projeto Cisternas (ler também Projeto Cisternas nas Favelas), no início do Governo Lula, em 2003. Fiquei satisfeito em saber como os resultados sociais apareceram tanto que o debate a respeito do enfrentamento da seca no Nordeste evoluiu nos últimos dez anos. Daniela Chiaretti (Valor, 30/07/13) atualiza as informações a respeito do Projeto Cisternas da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

Cisternas de cimento ou cisternas de plástico? Esse é um debate que ganha calor no quente Semiárido nordestino e foi disparado em Brasília. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) apoia os reservatórios de água construídos a partir de placas de cimento, tecnologia que tem intimidade com a região. O Ministério da Integração Nacional (MI), que chegou mais tarde no esforço de universalizar o acesso à água de qualidade para os moradores das zonas rurais, distribui cisternas de polietileno. Batizadas de “cisternas de plástico”, a opção da Integração Nacional tem que vencer as críticas das entidades sociais que atuam no Semiárido, a desconfiança da população e o calor nordestino.

Os dois tipos de reservatórios captam água da chuva e têm capacidade para estocar até 16 mil litros, o suficiente para atender às necessidades de uma família de cinco pessoas durante seis meses de estiagem. Essa água é usada para beber água, escovar os dentes e cozinhar – o que na região se chama de “primeira água“.

A cisterna de placas custa R$ 2.400 e é construída com mão de obra local. A cisterna de plástico custa R$ 5.000, computando-se instalação. As duas opções, ao lado de outros tipos de tecnologias para reservar água para a produção e animais, fazem parte, desde 2011, do programa Água para Todos, coordenado pelo Ministério da Integração Nacional. A meta é beneficiar 750 mil famílias até 2014.

“Esse é um debate muito apaixonado”, reconhece Arnoldo de Campos, secretário de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS. “Entendemos que há várias formas de fazer este trabalho, que não existe caminho único.” O MDS trilha há vários anos o caminho desenhado pelas entidades sociais, de construir cisternas de placas de cimento, capacitando agricultores familiares no processo e movimentando a economia local ao comprar materiais na região.

“O MDS têm uma relação com as entidades sociais desde o nascimento. Essa solução estava desenvolvida e resolvemos adotá-la”, explica. Ele refuta a ideia de que as cisternas de polietileno são alternativa ruim e deformam com o calor. “Existem em todos os condomínios de luxo do país”, diz.

A opção pela cisterna de polietileno foi para agilizar o processo“, afirma Walber Santana Santos, diretor de gestão de programas de desenvolvimento regional do MI. “É usada em países com Semiárido mais agressivo do que o nosso.” O ministério já tem as 300 mil cisternas de polietileno contratadas e até agora, diz Santos, apenas 160 apresentaram defeitos. “O polietileno é resistente e a cisterna é feita para esse clima. Não derrete, não contamina a água e pode durar 30 anos”, diz. “Não é uma tecnologia que veio competir com a outra, são complementares.”

Essa não é a visão de Naidison Baptista, coordenador-executivo da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo Estado da Bahia, para quem a concentração de terra no Semiárido está intimamente ligada à concentração de água. A ASA é uma rede formada por 3.000 organizações da sociedade civil que atuam na região e foi o pivô da sugestão do programa de construção de um milhão de cisternas.

Baptista não gosta da expressão “combate à seca“, lembra que se trata de fenômeno natural e que é mais adequado pensar em “conviver com o Semiárido“. Não é semântica. “Políticas de combate à seca geram dependência. Na ASA buscamos outra lógica.” Para ele, a diferença entre cisterna de placa e de plástico vai além do material – as primeiras são um processo; as de polietileno, uma doação, diz. “Políticas assistencialistas, em vez de libertar, acorrentam a população.” Acredita que é preciso desenvolver “a política do estoque” para água, mantimentos, sementes. “Quem guarda usa no momento de mais necessidade.”

No governo federal existem R$ 4,5 bilhões para a execução do programa. Desse total, R$ 2,6 bilhões correspondem à Integração e R$ 1,9 bilhão ao Desenvolvimento Social. Está em curso nova geração de tecnologias de “convivência com o Semiárido”, com foco na produção e nos animais. Nessa nova fase há forte apoio da Petrobras, que está investindo R$ 200 milhões em tecnologias de armazenagem de água para produção de alimentos e para os animais.

A segunda geração de tecnologias de cisternas chega para quem já tem a da água de beber. Uma delas é a cisterna-calçadão. Constrói-se um calçadão de cimento de 200 m2 em área de declive. Assim, 300 mm de chuva enchem o reservatório de 52 mil litros.

“Eu me criei aqui. Era uma casa de barro”, conta Maria Nogueira, 80 anos. “Meu pai fez a casa em 1947. Água era só no açude. Buscava numa latinha, na cabeça. Hoje temos água encanada em casa.” Maria é moradora de Caiana, comunidade de 80 famílias, zona rural de Campo Grande. O município fica a 130 quilômetros de Mossoró, cidade do Rio Grande do Norte que ganhou fama como o lugar que mais produz petróleo em terra no país. Mas em Campo Grande a história é outra. É entrar na zona rural e ver casas de taipa, o barro armado na madeira.

Maria tem uma cisterna-calçadão no terreno onde vive com o filho Antonio. Plantam feijão, milho e sorgo. “Vou fazer mais plantio”, promete. Também têm algumas cabeças de gado e ovelhas. “Se não tivesse as cisternas, não sobrevivia“, diz Antonio.

Na casa do agricultor José Maria da Costa, 55 anos, além da cisterna de placa há a barraginha. É uma pequena barragem, com água suficiente para aguentar 4 meses de seca e dar de beber aos animais e regar a plantação de milho, feijão e melancia. Ali ele vive com a mulher Expedita e cinco filhos. “A gente tinha que buscar água de jumento, era difícil”, lembra Expedita, que deixou o jumento “pro meio do mundo”. Ela agora tem água e tempo. Começou a fazer doces de goiaba. Faz 40 quilos por mês e ganha R$ 1 mil. “Comecei este ano”, diz. Com o dinheiro, comprou a mesa e as cadeiras da cozinha.

Na zona rural de Campo Grande não há quem não fale da chuva de 19 de abril de 2013. Naquela sexta-feira à noite, durante 13 horas, choveu 150 mm. Foi uma das dez maiores precipitações em 110 anos. “Em uma noite encheu a cisterna“, lembra a agricultora Damiana Fernandes da Silva. “E tem gente que perdeu, que não botou a calha.” Cisterna e calha são palavras vitais para quem vive por ali.

Caiena é área humilde, mas as coisas estão mudando por lá e essas espécies de mini-espaçonaves caiadas de branco ao lado de cada casa têm sua parcela de responsabilidade. Todas as famílias da comunidade rural têm sua cisterna de placa. O funcionamento é simples. A primeira chuva que vem depois da estiagem lava as telhas. Os agricultores recolocam as calhas e os canos de PVC, retirados durante os meses de seca para que não estraguem. Começam a estocar água depois da segunda chuva. Retiram a água através de uma pequena bomba manual. Cursos de gestão ensinam os agricultores a cuidar da água, fazer reparos e construir cisternas.

Na pior seca dos últimos 50 anos, não houve êxodo rural, saques ou corre-corre de carro-pipa. “É política social na veia”, diz a economista Tania Bacelar de Araújo, que cita a aposentadoria garantida pela Constituição Federal e o Bolsa Família. “Veio a seca, mas não tem mais fome aguda. Ninguém precisou sair da região ou saquear o supermercado. Agora podem comprar“, diz a professora do programa de pós-graduação em geografia da Universidade Federal de Pernambuco. “O problema agora foi que faltou água para produzir e para os animais.”

Se recomienda la limpieza a cada seis meses“, sugere, em espanhol, o aviso estampado na cisterna em frente à casa de Jéssica Barbosa da Silva, 21 anos, que vive com a família em Surubim, município de 60 mil habitantes do agreste pernambucano. Nos últimos dois meses, a cidade começou a receber 1.300 cisternas de polietileno, doadas pelo Ministério da Integração Nacional por intermédio do programa Água para Todos.

Diferentemente da maioria dos que têm cisterna, Jéssica não mora na zona rural. Seu bairro, o Gancho do Galo, é parcialmente atendido por água encanada, mas a moça não está entre os contemplados. Sem espaço nos fundos do imóvel, teve que instalar a cisterna em frente à janela da sala. Precisou quebrar a calçada para acomodar o trambolho cinza de 2,3 metros de altura por 3,2 metros de diâmetro e capacidade para 16 mil litros.

A obra começou há três semanas, mas ainda não terminou. Jéssica continua dependendo de baldes e vizinhos para beber água, cozinhar, tomar banho. Ainda assim, está satisfeita com a chegada da cisterna, cujo modelo é visto com desconfiança por entidades ligadas ao Semiárido e até por beneficiários. “É melhor do que nada. Pelo menos vai ter alguma água”, diz Jéssica.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Surubim, Ivete Ramos Pereira, disse ter sido procurada em março por gente do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), para ajudar no cadastramento de potenciais beneficiários. Conta que muitas famílias estavam desconfiadas das “cisternas de plástico”, por conta de boatos acerca da resistência ao calor nordestino. “Teve gente dizendo que não queria, mas com o tempo os ânimos se acalmaram”, diz. Em janeiro vieram à tona casos de cisternas de polietileno que se deformaram com o calor. Choveram críticas em relação ao custo, perto de R$ 5 mil, o dobro do preço da cisterna de alvenaria comum na região.

As primeiras cisternas plásticas foram adquiridas em 2011 pelo ministério, via Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco, em licitação que teve como única concorrente a mexicana Dalka – o que explica as instruções em espanhol no equipamento. A empresa montou quatro fábricas para produção das cisternas, a maior em Petrolina (PE), cidade do ministro da Integração, Fernando Bezerra.

Entre as vantagens do equipamento de polietileno estaria o menor tempo de instalação, estimado em dois dias. Mas não é o que se vê na prática. O agricultor José Cândido Barbosa, morador do Sítio Lério, área rural de Surubim, estava orgulhoso de sua cisterna nova, instalada há um mês, mas quando solicitado a tirar água, se recusou. “Não está funcionando. Tem água, mas não consigo tirar”, disse, desconfiado de algo na bomba.

A dona de casa Iolene Maria dos Santos, da comunidade Tabu, também aguarda visita de técnicos do Dnocs para reparos em um vazamento. Ela já tem água, que usa para beber e cozinhar.

Todos os beneficiários visitados pelo Valor ouviram más notícias acerca do equipamento plástico, mas ninguém manifestou descontentamento com a instalação. “Estamos felizes, já sofremos muito por causa de água, mas vamos ver como vai ser quando o calor vier forte”, disse o lavrador José Francisco da Silva. De acordo com ele, há casos entre as cisternas de alvenaria que, com o tempo, começaram a apresentar vazamentos. “Essa de alvenaria é como uma casa. Se não for bem feita, começa a desmoronar com o tempo”, diz. Pelo critério do Água para Todos, quem já tem cisterna de alvenaria, mesmo com defeito, não pode receber a de polietileno. “Minha vizinha teve que destruir a antiga pra ter direito a uma nova”, conta Silva.

De acordo com a presidente do sindicato rural, muitas famílias de Surubim preferem a cisterna plástica à água encanada. Isso porque a água que abastece as torneiras da região, vinda da Barragem do Jucazinho, é salobra e cheira mal, mas a Companhia Pernambucana de Saneamento garante que a água é própria para consumo. “Tenho certeza que prejudicará a saúde do povo no futuro”, alerta Ivete.

 

 

14 thoughts on “Cisternas de cimento ou cisternas de plástico?

    • Prezado Nicola,
      pressuponho a “racionalidade dos agentes econômicos”… Aliás, no mundo real nunca vi…
      Então, parto da premissa que “nem louco rasga dinheiro”. Assim, devem ter pensado nisso e testado, não?
      abs

  1. A questão não é apenas garantir a água, mas o processo de convivência com o semiárido, o manejo da água, a formação de uma política de convivência com as famílias e, na maioria dos casos, a constituição de “Fundos Rotativos Solidários” (finanças de proximidade) tão decisivo às famílias da região. Portanto, uma pena que se introduza cisternas de plástico, mais caras e que inibem o crescimento dessas práticas. Por que não introduzir tecnologias participativas que acelerem o processo de produção e implantação das cisternas de cimento?
    Idalvo

      • Caro Fernando,não há formalmente incompatibilidade entre cisternas de plásticos e fundos rotativos. Contudo, a exeriência dos Fundos Rotativos pressupõe a organização dos participantes em pequenos grupos associativos e isto se dá exatamente nos cursos de formação de convivência com o semiárido e o manejo hidríco. Portanto, este é um processo acima de tudo educativo e organizativo. Assim, creio que o caminho ideal seria desenvolver-se tecnologias que solucionasse a necessária agilidade e não suprimisse o trabalho atualmente realizado.
        Idalvo

    • Certamente, vejo que incentivando a construção da cisterna em alvenaria, e pela própria comunidade participando do processo, agrega-se uma politica de sustentabilidade, que é na verdade o que interessa sociologicamente. Implantações de cisternas de “plástico” e ainda fornecidas de forma aleatória, como moeda de troca de futuros votos, é jogar com a desgraça alheia, não é justo para com povo que convive em meio a tanta dificuldade. Vejo como certo educar tal povo a conviver com a dificuldade que a geografia onde esta alocado lhe oferece, do que criar outras alternativas e conte-los ignorantes. O mais salvável é ensinar, e rápido, pois nossas vidas se findam, e o que se pode deixar de salutar nesta passagem?

      • Prezado Arnaldo,
        nem toda a análise necessita ser uma “denúncia contra o sistema”…
        Por não estar de acordo com a ideologia professada nem sempre significa que as ações sejam equivocadas, irracionais ou manipuladoras.
        Considere, p.ex., o custo/benefício das implantações de cisternas de plástico em grande escala. Poderá apressar o processo de livrar as pessoas mais cedo o tempo de “carregar lata d’água na cabeça” e elas terem esse tempo para estudar…
        att.

  2. Olá ! Gostaria de instalar uma cisterna em casa, no lugar de uma estrutura de piscina, como procedo ? Onde posso fazer um curso a respeito, pois gostaria de associar a água e energia. Onde obtenho este tipo de conhecimento ?

  3. O melhor sistema de armazenamento (PVC x Alvenaria) é aquele que coloca água para os sertanejo a tempo e a hora. Parafraseando o sociólogo Betinho ” A Sede não pode esperar”.

  4. Obrigada pela matéria e Parabéns. Você pode me explicar então qual a melhor opção( a de polietileno ou a de cimento), para uma residencia no estado de SP? Pensando em custo beneficio e manutenção?

  5. Obrigado pelo post, estou mesmo pesquisando como fazer uma cisterna e agora ficou mais claro o tipo ideal para minha necessidade. Encontrei alguns sites que vendem a cisterna pronta, mas ainda irei pensar melhor. Muito bom!

  6. Professor Fernando, bom dia! Excelente artigo, parabéns!

    Hoje em 2019, quase 6 anos após o artigo, poderia por gentileza comentar se as cisternas plásticas foram aceitas pela população, resistiram ao calor e puderam conviver com outros tipos de cisterna e de abordagem para o problema da seca, inclusive com fundos participativos?

    Em resumo, a instação de cisternas plásticas é efetivamente uma solução viável e complementar às cisternas de alvenaria, para facilitar a convivência com o semi árido, princpalmente pela rapidez de instalação?

    Obrigado e abs, Sandro Melo

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