Hannah Arendt

Hannah Arendt (1906-1975) escreveu “Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal” (1963), descrevendo o julgamento deste criminoso de guerra. Ela critica a propaganda sionista que tentou, pela promotoria, converter um alto legal em espetáculo midiático – oportunismo que vem de longe e apareceu também no “julgamento do mensalão” pelo STF brasileiro.

Ao descrever o genocídio dos judeus pelos alemães, durante a II Guerra Mundial, Arendt critica a cooperação dos líderes das colônias judaicas na Europa com os nazistas, cedendo com passividade a tudo que desejavam e facilitando o trabalho dos carrascos. Classifica isto “para os judeus, o capítulo mais sombrio desta história”, frase que lhe valeria os mais pesados ataques de intelectuais judeus e de organizações sionistas, em polêmica que até hoje não cessou.

Cinquenta anos atrás, o livro “Eichmann em Jerusalém “, da professora de filosofia vendeu mais de 100 mil exemplares e transformou o modo como as pessoas enxergam o Holocausto.

Há dez anos, a diretora Margarethe von Trotta (Anos de Chumbo, 1981, e Rosa Luxemburg, 1985) passou a pensar “como poderia fazer um filme sobre uma filósofa, uma pessoa que fica sentada, pensando?” De maneira profunda, ela conseguiu fazer um filme extraordinário sobre o pensamento da filósofa!

Em vez de cobrir toda a vida de Arendt, decidiu concentrar-se no caso Eichmann. Revelou sua coerência e consistência filosófica com esse estudo de caso. “Para um cineasta, é melhor ter um confronto, não apenas abstração”, disse Von Trotta.

Em maio de 1960, Adolf Eichmann – um dos últimos líderes nazistas do alto escalão ainda vivo, que tinha fugido para a Argentina após a guerra – foi sequestrado por agentes do Mossad, levado de avião a Jerusalém e julgado por crimes contra a humanidade. Professora na Universidade New School, em Nova York, a refugiada judia alemã e autora de um livro famoso, “Origens do Totalitarismo”, Hannah Arendt cobriu o julgamento para a revista “New Yorker”, sendo seu livro publicado como artigo em cinco partes.

Ela apresentou dois argumentos que provocaram a reação totalitária da colônia judia norte-americana e do próprio Estado de Israel.

O primeiro foi que Eichmann não teria sido o organizador responsável pelos campos de extermínio, mas sim um burocrata que cumpria ordens passivamente, não “a personificação do mal”, mas sim despersonalizado, inspirando o subtítulo “a banalidade do mal”.

O segundo foi que os chamados “conselhos judaicos” na Alemanha e Polônia foram cúmplices no assassinato em massa. Eles ajudaram os nazistas a arrebanhar as vítimas, confiscar bens e os enviar para os campos onde morreriam.

Eichmann, o grande exterminador dos judeus, não era alguém especial, como o descreviam os ativistas judeus, mas alguém terrível e horrivelmente normal. Era um típico burocrata que se limitara a cumprir ordens, com zelo, sem capacidade de separar o bem do mal, de pensar por conta própria, ou de ter alguma contrição.

Esta perspectiva valer-lhe-ia a crítica virulenta das organizações judaicas que a considerariam falsa e abjurariam a insinuação da cumplicidade dos próprios judeus na prática dos crimes de extermínio. Arendt apontara, apenas, para a complexidade da natureza humana, para a “Banalidade do Mal” que surge quando se compadece com o sofrimento, a tortura e a própria prática do mal. Daí conclui que é fundamental manter uma permanente auto vigilância para garantir a defesa e preservação da liberdade.

Arendt foi repudiada pela maioria dos judeus. Mas os ataques contra ela comprovaram sua hipótese! Caso ela repudiasse suas ideias seria tolerante com o totalitarismo!

Margarethe von Trotta disse: “se existe uma mensagem neste filme, é que você deve pensar por si mesmo, não seguir uma ideologia ou moda. Hannah chamava a isso ‘pensar sem corrimões’.”

O totalitarismo despersonaliza as pessoas – ou “desinvidualiza os indivíduos”, retirando-lhes a individualidade particular –  ao impor à força um pensamento único dominante de corações e mentes. Análogo ao que o nazismo fez sob o ponto de vista mental – não de suas ações criminosas que são inegáveis (e em nenhum momento Arendt descriminaliza/perdoa Eichmann) –, o patrulhamento ideológico dos intelectuais judeus queria lhe impor: pensar de acordo com os interesses do Estado israelita “por amor ao povo judeu”.

Em passagem coerente, Arendt retruca: “eu não amo um povo; eu amo certas pessoas por suas virtudes”. (É o mesmo posicionamento da filósofa do Objetivismo, Ayn Rand, na época.) Acrescenta: “sendo ela judia, se declarasse amor incondicional pelos judeus, seu pensamento seria suspeito, não isento”.

Hannah_Arendt1Arendt casou duas vezes, a última com o ex-radical alemão Heinrich Blucher, uma relação, como o filme mostra, muito satisfatória para ambos. Foi discípula e amante de Martin Heidegger, por quem tinha verdadeira admiração.

Em bela sequência cinematográfica, aparece Arendt relembrando sua busca de entendimento da atitude de seu mentor intelectual de cooperação com o regime nazista. Heidegger inscreveu-se no partido Nazi em 1o. de Maio de 1933, ano da chegada ao poder de Adolf Hitler, tendo posteriormente sido nomeado reitor da Universidade de Freiburg. Porém, pouco depois, em 1935, se demitiu do cargo de reitor, sendo pressionado por outros professores da Universidade, que tentavam boicotar o Partido Nazista para o qual Heidegger emprestou sua credibilidade.

Arendt regressaria depois à Alemanha e manteria contato com o seu antigo mentor Heidegger, que se encontrava afastado do ensino, depois da libertação da Alemanha, dadas as suas simpatias nazistas. Envolver-se-ia, pessoalmente, na reabilitação do filósofo alemão, o que lhe valeria novas críticas das associações judaicas americanas. Do relacionamento secreto entre ambos ao longo de décadas, inclusive no exílio nos Estados Unidos,  seria publicado um livro, “Lettres et autres documents (1925-1975): Hannah Arendt e Martin Heidegger”, com edição alemã e tradução francesa da responsabilidade das Editions Gallimard.

O ponto de partida do pensamento de Heidegger, principal representante alemão da Filosofia Existencial, é o problema do sentido do ser. Heidegger aborda a questão tomando como exemplo o ser humano, que se caracteriza precisamente por se interrogar a esse respeito. O homem está especialmente mediado por seu passado: o ser do homem é um “ser que caminha para a morte” e sua relação com o mundo concretiza-se a partir dos conceitos de preocupação, angústia, conhecimento e complexo de culpa. O homem deve tentar fugir de sua condição cotidiana para atingir seu verdadeiro “eu”.

No seu primeiro livro, “As origens do totalitarismo” (1951), Arendt assemelha o nazismo e o stalinismo, como sendo ambos ideologias totalitárias, oferecendo uma explicação compreensiva da sociedade, mas também da vida individual sob o totalitarismo. Ela mostra como a via totalitária depende da banalização do mal, da manipulação das massas, do acriticismo face à mensagem do poder. Hitler e Stalin seriam “duas faces da mesma moeda”, tendo alcançado o poder por terem explorado a solidão organizada das massas.

Fontes: este não é um post acadêmico, mas apenas de compartilhamento de conhecimento obtido em rede social, especialmente no Wikipedia e fontes jornalistícas. Como há “academicistas” que prezam demasiadamente seu carrerismo, baseado em demonstração de falsa erudição através da profusão de citações (e não de criações), alerto que post de blog busca justamente fugir dessa chatice dos textos acadêmicos. Estes se tornaram ilegíveis — e seus autores não se enxergam!

Aviso aos academicistas: não sou filósofo e não estou aqui defendendo uma tese acadêmica! Não estou obtendo “pontinhos Qualis”! Vão procurar sua turma!

Saliento isso porque um patrulhador academicista da rede social, denominado Arnaldo Antunes (provavelmente não é o famoso compositor/cantor), perdeu seu tempo em ler meus posts de divulgação de conhecimento para me cobrar as citações das fontes secundárias dos posts. Perdeu seu tempo me dizendo que este é “plágio” de:

http://educacao.uol.com.br/biografias/klick/0,5387,538-biografia-9,00.jhtm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Heidegger

http://pulaomuro.blogspot.com.br/2013/08/hannah-arendt-e-banalidade-do-mal.html

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1306265-filme-hannah-arendt-discute-a-banalidade-no-nazismo.shtml

Ele deveria ter lido: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2010/08/20/geekonomia-e-distribuicao-de-pensamento-viva-o-remix/

Não pretendo aqui nenhuma originalidade e/ou autoria minha, está entendido? Escrevo artigos originais quando os assino e publico em outros canais de comunicação, está certo? No meu currículo não está citado nenhum post, embora já tenha compartilhado até hoje 4.556 posts informativos neste modesto blog pessoal, viu Arnaldo Antunes?  Não se incomode com “o sucesso” do meu blog com quase 3.000.000 visualizações, desde 22/01/10. Faça o seu, e tente ser interessante ou atraente sendo academicista…

Leia mais:

O Pensar, O Querer e O Julgar

Mandela, Hannah Arendt e O Perdão (por Celso Lafer)

Hannah Arendt, Pensadora da Política e da Liberdade

4 thoughts on “Hannah Arendt

  1. Fernando, este é um tema que enseja em mim permanente indagação. Parto de uma delas, ouvida em minha juventude, na Universidade, e que consiste no seguinte: Que uma mulher se entregue ao 1º homem que apareça pode-se até entender, mas que toda uma nação civilizada entregue-se ao 1º aventureiro é inadmissível. Porque ocorreu?
    Tenho refletido sobre o assunto a partir de fatos assombrosos, frente aos quais a historiografia não se detém. Refiro me ao peso da indenização de guerra em 1919/20 ter atingido exclusivamente o povo alemão. Foi um encargo insuportável e já em 1924 veio a primeira renegociação, de muitas que se seguiram. Mercadorias exportadas pela Alemanha eram confiscadas sem qualquer aviso, chegando a Alemanha a conseguir ajuda à Russia Comunista para conseguir divisas, usando a via ferroviária. Eles foram reduzidos à miséria absoluta!
    Não se justifica, porém explica o porque da corrida ao ouro (moeda usada para liquidar a indenização de guerra): Judeus e Ciganos.
    Foi o século da Guerra, que ainda não acabou… Apenas foi paga a indenização da chamada 1ª Guerra. Nas comemorações dos 20 anos da derrubada do muro de Berlin o Ministro das Finanças da Alemanha entrega o cheque em pagamento da última parcela da indenização e em seguida renuncia.
    Um abraço.
    Nicola

    • Prezado Nicola,
      sem dúvida, acho que essa causa econômica é um dos fatores explicativas. Seu impacto na hiperinflação alemã de 1923 parece ser inegável. O “ovo da serpente” começou a ser chocado aí…
      A “personificação do mal” aplaca a consciência coletiva (inclusive mundial) em vez da “banalização do mal”, quando fenômeno social leva à “despersonificação das pessoas”. Deixam de pensar, querer e julgar por conta própria e passam a obedecer, cegamente, “ordens superiores”. Abrem mão de alcançar a “maioridade” na expressão kantiana.
      att.

  2. A explicação desses fatos necessita de uma abordagem sistêmica e de ferramentas de modelagem capazes de representar (i) cada sistema identificado na abordagem, assim como (ii) a interação entre esses sistemas. Toda tentativa de reduzir os fenomenos a visões maniqueístas está destinada a ser incorreta. As dificuldades para fazer esta abordagem são grandes por duas razões: (i) poucos são os que tem prerequisitos intelectuais para tanto; (ii) a coleta de informações para contruir os modelos envolvidos nesta abordagem é dificultada por gente que as deforma (as informações) quando não as falsifica.

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