O Pensar, O Querer e O Julgar

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O pensar, o querer e o julgar são três atividades mentais básicas, cuja análise, segundo Hannah Arendt, permitiria a compreensão da existência racional. Segundo Celso Lafer, em “A Política e a Condição Humana”, Arendt, fiel às suas origens filosóficas, “tem a intenção de repropor, em termos contemporâneos, algo como as três críticas de Kant: a da razão pura, a da razão prática e a do juízo”. Em metodologia, designamos esses três níveis de abstração, respectivamente, de Ciência Pura, Ciência Aplicada e Decisões Práticas.

Immanuel Kant (1724-1804) foi um filósofo prussiano, geralmente lembrado por nunca ter saído da cidade Königsberg, levando uma vida só dedicada aos estudos filosóficos. Kant operou, na Epistemologia, uma síntese entre o racionalismo continental, onde imperava o raciocínio dedutivo, e a tradição empírica inglesa, que valorizava a indução. Mas ele é famoso sobretudo pela elaboração do denominado idealismo transcendental: todos nós trazemos formas e conceitos a priori (aquelas ideias introjetadas na nossa mente que não vêm da experiência) para a experiência concreta do mundo, os quais seriam de outra forma impossíveis de determinar.

Kant define a palavra esclarecimento como a saída do homem de sua menoridade, responsabilidade a ser assumida por ele próprio. Ele define essa menoridade como a incapacidade do homem de fazer uso do seu próprio entendimento.

A permanência do homem na menoridade se deve ao fato de ele não ousar pensar. A covardia ou a preguiça são duas causas que levam os homens a permanecerem na menoridade. Um outro motivo é o comodismo. É bastante cômodo permanecer na área de conforto. É cômodo que existam pessoas e objetos que pensem e façam tudo, tomando decisões em nosso lugar. É mais fácil “deixar que alguém o faça por mim”, do que fazer determinado esforço. Os homens quando permanecem na menoridade, são incapazes de tomar suas próprias decisões e fazer suas próprias escolhas.

Kant sintetiza seu otimismo iluminista em relação à possibilidade de o homem seguir por sua própria razão, sem deixar enganar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. Nele, descreve o processo de iluminismo como sendo “a saída do homem de sua menoridade”, ou seja, um momento em que o ser humano cresce e amadurece, tornando-se consciente da inteligência para fundamentar, sob o conhecimento à priori, a sua própria maneira de agir, sem a doutrina ou a tutela alheia.

Kant reconhece que é difícil para o homem, isoladamente, livrar-se dessa menoridade. Aquele que tentar sozinho terá inúmeros impedimentos, pois seus tutores sempre tentarão impedir que ele experimente tal liberdade. São poucos os que conseguem pelo exercício do próprio espírito libertar-se da menoridade.

Perigo de meditar - pensar e agirCornelius Castoriádis (1922-1997) foi um filósofo, economista e psicanalista francês, de origem grega. Em 1949, fundou, com Claude Lefort, o grupo Socialismo ou Barbárie, origem da revista homônima que circulou até 1967. Autor de inúmeras obras de filosofia política, Castoriadis é considerado, especialmente, elaborador do conceito de autonomia política.

Na filosofia desenvolvida por Kant, a autonomia é usada como base para determinar a responsabilidade moral da ação de alguém. Autônomo, etimologicamente, refere-se a “aquele que estabelece suas próprias leis”.

Para Castoriádis, “falar de uma sociedade autônoma ou da autonomia da sociedade, não somente em relação a tal camada dominante particular, mas em relação a sua própria instituição, necessidades, técnicas, etc., pressupõe ao mesmo tempo a capacidade e a vontade dos humanos de se autogovernar”.

Ele questionava a possibilidade de uma transformação radical, revolucionária, da sociedade: será que os humanos têm a capacidade e, principalmente, a vontade de se autogovernar? Será que querem, verdadeiramente, ser senhores de si mesmos?

Uma outra sociedade, uma sociedade autônoma, não implica somente a autogestão, o autogoverno, a auto-instituição. Ela implica uma outra cultura. Implica um outro modo de vida, outras orientações para a vida humana.

Castoriádis lançou essas questões em debate com Daniel Cohn-Bendit, realizado em 27/02/80 na Bélgica. “Será que desta criação cultural temos sinais precursores e prenunciadores? Será que as pessoas que rejeitam o modo de vida capitalista veem nascer um outro modo de vida que prenuncia, prefigura algo de novo, algo que daria um conteúdo substantivo à ideia de autogestão, de autogoverno, de autonomia, de auto-instituição? A ideia de autogoverno pode tomar sua plena força, atingir seu pleno apelo, se não for também levada por outros desejos, por outras ‘necessidades’ que não podem ser satisfeitas no sistema social contemporâneo?”

É verdadeira a pressuposição de que todos cidadãos são contra o modo de vida contemporâneo? Quando se questiona o modo de vida trata-se de superar não só o modo de produção, mas também uma cultura de viver. Castoriádis  indaga: “até onde pode ir o ‘direito’ (a possibilidade efetiva, legal e coletivamente assegurada) de cada indivíduo, de cada grupo, de cada comuna, de cada nação, de agir como bem entenda a partir do momento em que sabemos – nós o sabíamos desde sempre, mas a Ecologia nos relembra com força – que estamos embarcados na mesma canoa planetária e o que cada um faz pode repercutir sobre todos?”

A questão do autogoverno, da autonomia da sociedade é também a questão da autolimitação da sociedade. Esta autolimitação, para Castoriádis, tem duas vertentes:

  1. a limitação pela sociedade do que ela considera como os desejos, as tendências, os atos, etc., inaceitáveis por tal (e qual) parte de seus membros;
  2. a autolimitação da própria sociedade na regulamentação, na regulação, na legislação que exerce sobre seus membros.

Como se pode conceber (o Pensar) uma sociedade que está fundada sobre regras universais substantivas e ao mesmo tempo é compatível com a maior diversidade possível de criação cultural (o Querer) e também de modos de vida para atender suas necessidades (o Julgar)? Esta síntese ou conciliação não podemos tirar apenas da nossa cabeça e impô-la aos outros de maneira totalitária! Ou ela sai da sociedade democrática ou é melhor não sair.

Reconhecer este limite para o pensamento e para as ações políticas é proibir-se de repetir os filósofos políticos do passado que deduziam diretamente do Pensar a prática de Julgar, não respeitando o Querer da sociedade. Isso não implica a renúncia do nosso próprio pensamento (Pensar), o nosso ponto de vista (Querer), a nossa própria ação (Julgar), nem que aceitemos, cegamente, tudo o que a sociedade quer e a história produza.

Castoriádis conclui. “É, afinal, um ponto de vista abstrato de filósofo que  leva Marx a decidir (pois é Ele que o decide) que o que a sociedade decidirá – ou já decidiu – é bom. (A história quase sempre decidiu pelo Gulag [totalitarismo].) Mantemos nossa responsabilidade, nosso julgamento, nosso pensamento e nossa ação, mas reconhecemos também o limite. E reconhecer este limite é dar seu pleno conteúdo a (…) uma política revolucionária hoje é, em primeiro lugar e antes de tudo, o reconhecimento da autonomia das pessoas, isto é, o reconhecimento da própria sociedade como fonte última de criação institucional”.

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