Movimentos Sociais

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Cornelius Castoriádis lança uma questão política em debate: em que ponto está a crise do modo de vida capitalista para as pessoas? Qual poderia ser uma atividade política (composta de ações coletivas) lúcida que acelerasse a tomada de consciência do absurdo do sistema e ajudasse as pessoas a tornar manifestas as críticas ao sistema que, certamente, já se formam à direita ou à esquerda?

Os movimentos sociais levam ao pensar, querer e agir. A evolução do movimento ecológico – sobre o qual recaíram as tradições de contestações, revoltas e revoluções, colocando-as em cheque – pode ser esclarecida se referir-se às duas dimensões da instituição da sociedade capitalista contemporânea:

  1. a instilação nos indivíduos de um esquema de autoridade;
  2. a instilação nos indivíduos de um esquema de necessidades.

O movimento classista operário sempre pôs em cheque o conjunto da organização da sociedade, mas de uma maneira que, retrospectivamente, não pode deixar de aparecer um pouco parcial, pois atacava, principalmente, a dimensão da autoridade, isto é, a dominação, que é sua vertente objetiva. Mesmo assim deixava de lado aspectos totalmente decisivos do problema da autoridade e da dominação, consequentemente, também dos problemas políticos da reconstrução de uma sociedade autônoma.

Algumas dessas carências da luta social foram postos em questão, posterior e recentemente, pelo movimento social das mulheres e pelo movimento estudantil dos jovens. Eles atacaram os esquemas, as figuras e as relações de autoridade tais como existem em outras esferas da vida social. Atacaram a contradição entre se apresentar como um “operário revolucionário”, na luta sindicalista, mas como um homem machista e autoritário na vida familiar.

O que o movimento ecológico pôs em questão, de seu lado, foi a outra dimensão: o esquema e a estrutura de necessidades, enfim, o modo de vida. Isto constitui uma superação capital daquilo que pode ser visto como o caráter unilateral dos movimentos sociais anteriores. O que está em jogo no movimento ecológico é toda a concepção, toda a posição das relações entre a humanidade e o mundo e, finalmente, a questão central e eterna: o que é a vida humana? Vivemos para fazer o quê? Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

A esta questão existe, hoje, a resposta capitalista. O grande filósofo racionalista antecipou o enunciado programático: “atingir o saber e a verdade para nos tornarmos senhores e possuidores da natureza”.

Para Castoriádis, “sobre esta ideia privada de sentido [tornarmos senhores e possuidores da natureza] se fundam o capitalismo quanto a obra de Marx e o marxismo”. No entanto, eu (FNC) acredito que a condição humana é fundada pela negação da herança natural e a civilização se desenvolve opondo-se às forças cegas da natureza.

O que aparece através do movimento ecológico é que, certamente, “nós não queremos ser senhores e possuidores da natureza”.

  1. Porque compreendemos que isto não tem sentido – a não ser o de submeter a sociedade a um projeto absurdo e às estruturas de dominação que o encarnam.
  2. Porque queremos uma outra relação com a natureza e com o mundo; e isto quer dizer também um outro modo de vida e outras necessidades.

Então, a questão-chave é: qual modo de vida e quais necessidades? E quem, como, a partir de que, pode responder a estas questões? É necessário responder a isto não com o saber absoluto, mas com conhecimento de causa e lucidez do saber relativo à época vivida.

Na visão de Castoriádis, “o movimento ecológico apareceu como um dos movimentos que tendem para a autonomia da sociedade. (…) No movimento ecológico, trata-se, em primeiro lugar, da autonomia em relação a um sistema técnico-produtivo, pretensamente inevitável ou pretensamente ótimo: o sistema técnico-produtivo que está aí na sociedade atual. Mas é absolutamente certo que o movimento ecológico, pelas questões que levanta, ultrapassa de longe esta questão do sistema técnico-produtivo, e compromete potencialmente todo o problema político e todo o problema social”.

Castoriádis provoca a reflexão: a luta antinuclear quer dizer, ao mesmo tempo, luta antieletricidade?! A única coisa lógica seria propor outras fontes de energia, de maneira que somente entre em jogo energias renováveis que consigam dar conta de todas as necessidades. Isto implica a totalidade da produção e da organização social.

No entanto, aquilo que no plano técnico e econômico é uma solução se não simples, mas pelo menos factível, levanta problemas políticos e sociais imensos: a definição dos objetivos finais da produção e até mesmo a aceitação pela comunidade de um estado estacionário. Este é o ponto de conflito entre:

  • o ambientalismo defensor do “crescimento zero” e
  • o social-desenvolvimentismo defensor do crescimento econômico com inclusão social.

Castoriádis, antes, possuía a ideia de unidades sociais autogovernadas e vivendo em boa parte com base em recursos locais renováveis. Evidentemente, era um recurso cognitivo comum, mas regressivo, pois propunha a ideia de regressão à vida comunitária quase-rural, porém havia a necessidade de pensar em soluções macrossociais em escala metropolitana e/ou nacional. Se quisermos tocar no problema  da energia, por exemplo, precisamos tocar em tudo, ou seja, pensar no todo, querer coletivamente a mudança e agir conjuntamente.

Será que um “reformismo” antinuclear, energético, ecológico tem um sentido e pode ser, lucidamente, apoiado? Castoriádis entende por “reformismoo apoio concedido a medidas parciais consideradas válidas e com sentido, isto é, não serem anuladas pelo fato de se inserirem em um sistema que, nele mesmo, não é modificado.

A esquerda, tradicionalmente, dizia: combatemos pela Revolução e um dos subprodutos desta Revolução será a não poluição, a emancipação das mulheres, a reforma da educação, etc. Castoriádis afirmou: “sabemos que esta resposta é absurda e mistificadora, e, felizmente, as mulheres e os estudantes deixaram de esperar A Revolução para exigir e obter mudanças efetivas na sua condição”.

Ele pensava que a mesmo coisa vale para a luta ecológica: “a luta contra este estado de coisas tem plenamente um sentido com a condição de que saibamos o que fazemos, que sejamos lúcidos. Isto quer dizer que sabemos que atualmente lutamos por tal objetivo parcial, porque tem um certo valor, assim como sabemos também que aquilo cuja introdução ou aplicação reivindicamos, enquanto existir o sistema atual, terá necessariamente uma significação ambígua e até mesmo poderá ser desviado de sua finalidade inicial”.

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