Ideia de Autonomia

castoriadisCornelius Castoriádis afirma que “a única política revolucionária digna desse nome, uma práxis de liberdade e pela liberdade, que adota como objeto a organização e a orientação da sociedade tendo em vista a autonomia de todos e reconhece que esta pressupõe uma transformação radical da sociedade que não será, por sua vez, possível senão pelo desdobramento da atividade autônoma dos homens”. Isto nos convida a precisar e a aprofundar, brevemente, a significação concreta dessa perspectiva de autonomia.

Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas as próprias decisões, com base na razão. Este indivíduo não é condicionado a “agir” de acordo com o padrão hegemônico, mas sim é impulsionado por uma auto exigência.

A ideia de autonomia, para Castoriádis,  não é simples, pois ela não surge senão na relação dialética como o imaginário criador captado na sua radicalidade, tanto psicossomática, quanto sócio-histórica. Longe de toda transparência mítica, ela deve ser compreendida como uma conquista difícil e jamais acabada.

O psiquismo apoia-se em um conjunto de condições biológicas, mas lhes é radicalmente irredutível. Esse fluxo indissoluvelmente representativo-afetivo e intencional é a capacidade de fazer surgir e ser um mundo imaginário a partir de nada além de si mesmo. Como tal, ele excede todas as determinações e categorizações lógicas que se referem a ele sem poder jamais exprimi-lo inteiramente. Ficar imediatamente junto a si mesmo, tal é o princípio de seu funcionamento primeiro.

Este mundo da “psique”, inicialmente privado, deverá se converter em “mundo de todos e de ninguém”, mundo comum de sujeitos que se reconhecem como tomados juntos dentro de uma rede de significações da qual “ninguém é fonte e senhor absoluto”. Esta criação de indivíduos sociais é a obra da sociedade que leva o sujeito a renunciar a sua onipotência fantasmática e a reconhecer o espaço dos outros sujeitos. A abertura à alteridade sócio-histórica permitirá a seiva psíquica frutificar em sublimação criadora.

Portanto, a autonomia pessoal não pode ser desejada senão nas suas dimensões social-históricas e, logo, finalmente, para todos. O que humaniza e socializa o indivíduo é sua pertinência ao mundo social específico que não é nem coisa, nem sujeito, nem ideia, mas modo e tipo de coexistência. Remetendo ao mesmo tempo a condições naturais e históricas dadas, este mundo está ligado a um “magma de significações imaginárias” que lhes dá sua coesão própria e permite aos indivíduos se orientarem e se moverem nele.

Para Castoriádis, o que institui a sociedade e o que move a história é essa faculdade original de postular ou de colocar para si sob o modo da representação uma coisa ou uma relação que não são. Na raiz da coexistência social e da sucessão histórica a fazer este ser criador que permite “a emergência de figuras outras”, em alteração constante, sem remeter a nenhum princípio, modelo ou referente previamente dado, ideal ou possível. O sócio-histórico é esta temporalidade, a cada vez específica, que faz ser cada sociedade e que a faz ser.

A perspectiva revolucionária da autonomia não tende em nada a eliminar a finitude ou o trágico da existência, mas apenas tudo que tenta congelar do exterior o movimento criador. “Não se trata de se suprimir da história e da condição humana todos os conflitos e toda a infelicidade, mas sim essas formas precisas de sujeição do homem pelo homem, ou por suas próprias criações, que se chamam a exploração, a hierarquia, ou o absurdo do trabalho, a inércia e a opacidade das instituições”.

A alteridade entre indivíduos e instituições (ou entre sujeito e estruturas) é tão constitutiva que é vão sonhar com instituições abolidas ou perfeitas. Em contrapartida, o que é possível é a perspectiva de uma sociedade tornada capaz de uma retomada perpétua de suas instituições. Logo, a sociedade autônoma aceita instituir-se e a questionar-se, indefinidamente, igualmente distanciada da dissolução anarquista e do imobilismo conservador.

O que deve ser procurado é um estado no qual a questão da validade da lei se manterá permanentemente aberta. Não será um estado em que cada um possa fazer qualquer coisa, mas que a coletividade possa sempre transformar suas regras, sabendo que elas não procedem da razão da história, mas apenas dela mesmo.

5 thoughts on “Ideia de Autonomia

    • Prezado Oswaldo,
      gosto dessas ideias de Castoriadis: “Uma outra sociedade, uma sociedade autônoma, não implica somente a autogestão, o autogoverno, a auto-instituição. Ela implica uma outra cultura. Implica um outro modo de vida, outras orientações para a vida humana. (…) A sociedade autônoma aceita instituir-se e a questionar-se, indefinidamente, igualmente distanciada da dissolução anarquista e do imobilismo conservador.”
      Enfim, significa “tomar as rédeas da história”, deixar de ser guiada pela classe dominante, adotar a Democracia como guia.
      att.

  1. Prezado Fernando,
    essa linha de pensamento é bem vinda no sentido de que coloca em evidência a autonomia e a alteridade de cada cidadão. O que precisa chegar a todos é precisamente a informação como fruto de uma boa educação, que dará ainda mais autonomia, criando oportunidade e aproveitando o que cada um tem de melhor. Abs.

    • Prezado Reinaldo,
      é isto aí! O conceito de autonomia se origina na filosofia de Kant, referindo-se à liberdade individual, e foi resgatado por Castoriadis, referindo-se à sociedade autogerida ou “autoinstituída” como ele diz. Nessa concepção, supera, incorporando-a, a noção de livre-iniciativa, tão cara aos liberais norte-americanos. Mas avança pela esquerda ao relacionar sociedade autônoma com autogestão coletiva.
      abs

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