Revisão da Geração 68

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Em seu debate com Cornelius Castoriádis, realizado no dia 27/02/80, na Bélgica, Daniel Cohn-Bendit afirmou que “vivemos em uma época em que mais ou menos só os renegados têm direito à palavra”. Bastava ter sido um perfeito stalinista europeu (ou, no Brasil, ser um dissidente do petismo) para ter acesso à mídia, fazer denúncias – infundadas ou não – ao público.

Ele dizia estar profundamente tocado por parte de sua geração, a famosa “geração sessenta e oito”, ter virado a casaca, isto é, se contrabandeou para o neoliberalismo. Tratava-se então de  compreender esta questão fundamental: “se nós sentimos como um desejo e como uma necessidade essa mudança revolucionária, por que tantas pessoas não o sentem mais como um desejo e como uma necessidade?”

Cohn-Bendit acreditava também que, em 1980, quando pensava-se um projeto revolucionário, era mais difícil do que há 10 ou 15 anos antes. “Partíamos alegremente em conquista do mundo repetindo uma frase: ‘do passado, façamos tábula rasa’! (…) dizíamos: ‘a vida é muito complicada, mas há momentos históricos em que se produz uma ruptura, em que os seres humanos descobrem sua capacidade de gerir sua própria vida…’”. Ele reviu e reconheceu: sempre houve na história exemplos de ruptura. Como neste Sessenta e Oito, quando, efetivamente, toda a sociedade se colocou questões fundamentais.

Acontece que percebeu, ao mesmo tempo, a história avançando, mas nenhuma sociedade, nenhum movimento social estivera, afinal de contas, à altura dos desejos e das necessidades dos rebeldes da época. Então, de duas, uma:

  1. ou os desejos e as necessidades eram falsos,
  2. ou havia um problema de fato.

Este problema era a constatação de que havia não somente descontinuidade, mas ritmos totalmente diferentes em uma mesma sociedade.

O problema-chave era o do modo de vida. Era preciso coloca-lo politicamente. Isto significa que não se tratava de dizer como os hippies: “Eu quero apenas viver minha vida em algum lugar na minha comunidade alternativa”. Cohn-Bendit reconhece que “não se pode lutar indefinidamente sem querer, em algum momento, realizar sua própria experiência à parte, para respirar um pouco ou porque não se pode fazer de outra maneira. Mas não é possível acreditar que isso pode mudar alguma coisa. O sistema capitalista pode integrar tudo”.

O problema político é o seguinte:

  1. como fazer de nossa concepção, caso tenhamos uma, de modo de vida alternativo, um debate que se coloque no terreno público?
  2. Como confrontar, em situação de ruptura, as pessoas com um outro modo de vida?

No marxismo-leninismo, dizia-se: “as pessoas não têm consciência do caminho que é preciso tomar; nós [vanguarda leninista] que temos essa consciência devemos organizar-nos para fazer propaganda, blá-blá-blá…” Havia um problema ideológico nesta concepção vanguardista que levou a que todos os movimentos sociais ou culturais, como o movimento feminista, o movimento homossexual, o movimento antirracista, o movimento estudantil, o movimento ecológico, etc., a partir de um certo momento, “quebrassem a cara”, isto é, que deixassem de ter uma perspectiva de transformação da sociedade.

Isto porque o capitalismo sempre mostrou que tem uma coisa que, em qualquer caso, ele sabe defender, que é sua própria subsistência. Se ele perceber que está em um caminho errado, tecnologicamente, transformar-se-á.

A velha vanguarda imaginava que bastaria dar a esperança de superar as desigualdades sociais que chegaria ao poder e, uma vez no poder, colocaria o problema da sociedade. “A velha história: tomaremos o poder e, em seguida, diremos às pessoas o que é preciso fazer”.

Cohn-Bendit acreditava que  todas as organizações políticas tinham este sonho. Elas sabiam muito bem que o capitalismo fez a conquista das cabeças das pessoas e que nenhuma estratégia até aquele momento de enfrentamento chegou a refazer esta conquista, a retomar, a liberar as cabeças. Então, tentava-se fazer a conquista da instituição que dominava estas cabeças para, utilizando a mesma estrutura, continuar essa dominação com outras ideias, supostamente, melhores ou “revolucionárias”.

Há, efetivamente, momentos históricos em que a revolução é possível, porque aqueles que estão no poder e o próprio sistema social são incapazes por razões históricas de responder às necessidades das pessoas – necessidades que não são somente necessidades materiais, mas que estão cravadas na cultura e na vida cotidiana das pessoas.

O desafio dos revolucionários é estar confrontado com uma sociedade auto satisfeitae não autogerida – que se aparece como um muro contra o qual vão “quebrar a cara por ondas históricas sucessivas sem ser capazes de tirar daí as lições”. Como serem capazes de fazer política, isto é, organizar-se, tentar refletir, tentar desestabilizar o sistema social, criando uma brecha? Como formular um projeto revolucionário, ou seja, um projeto político de ações coletivas que no começo minoritário, mas a partir do qual se possa a qualquer momento explicitar o que fariam se fossem majoritários?

Se as pessoas aceitavam o sistema social tal como era, em 1980, Cohn-Bendit acreditava que era sobretudo porque lhes aparecia como sendo, dentre todos os sistemas que se lhe propunham, em nível mundial, talvez o mais livre. A existência de um regime totalitário como alternativa – o socialismo realmente existente – era uma das razões mais fortes pelo qual não queriam trocar seu modo de vida.

Deveríamos ser capazes de colocar nossas necessidades e suas próprias contradições, que são também nossas necessidades. É isso que Cohn-Bendit chamava um movimento democrático: um movimento social capaz de mostrar que suas críticas da sociedade e as necessidades que valoriza não querem dizer que não compreenda contradições, por exemplo, entre comunidades e famílias, e a existência de outras necessidades pessoais, pois cada pessoa só tem uma vida…

É difícil organizar sua vida de outra maneira quando não há, efetivamente, movimento social propondo uma vida alternativa. Não há, no entanto, movimento que permita às incertezas dos indivíduos se resolverem. Em uma situação de ruptura social, como ocorreu em Maio de 1968, apercebemo-nos de repente de que essas incertezas efetivamente existem.

Todo movimento político aceita como ponto de partida a diferença, mas para depois suplantá-la – é o que se costuma chamar, politicamente, de “dialética”. Cohn-Bendit pensava que “devemos deixar existir estas diferenças antes de suplantá-las, dar-lhes a possibilidade de se exprimir para que uma subjetividade política possa ser encontrada”.

O movimento ecológico deve tentar conquistar todos os terrenos que o coloquem em posição de debate em todos os níveis contra aqueles que, no momento, dominam o debate. Toda política que não tenta, Cohn-Bendit não diria “conquistar as cabeças”, mas pelo menos “sensibilizar as cabeças”, caminha para o fracasso.

Se falamos tanto em autonomia e em criatividade, devemos demonstrar em nossas estratégias, de uma maneira exemplar, nossa capacidade, no movimento social, de criar indivíduos autônomos. É necessário não somente nos distinguirmos, mas mostrar que somos realmente diferentes e que nesta diferença conseguimos fazer política. Aí, então, poderemos pôr efetivamente em questão o sistema social que pretende defender a liberdade individual.

A gente sempre disse: “Essas aí não passam de liberdades formais e nos queremos liberdades reais”. Mas é outra coisa que se trata de dizer: “Vocês são capazes de incentivar o desenvolvimento das forças produtivas, mas não são capazes de incentivar o desenvolvimento dos indivíduos, de lhes permitir florescer suas autonomias. É quanto a isso que colocamos vocês em causa”.

4 thoughts on “Revisão da Geração 68

  1. A geração de 68, desde 1868
    Prezados geonautas,
    Comentário ao artigo de Fernando Nogueira da Costa: Revisão da Geração 68

    Prezado Fernando,
    Houvi no início dos anos 80, de meu professor na aula de meio ambiente, a primeira definição da palavra engenharia (era os ingleses copiando os enciclopedistas franceses):
    “A engenharia é a arte de dirigir as grandes fontes de energia, para uso e conveniência do homem” (1˚ Enciclopédia Britânica, fim do séc. XVIII/ início séc. XIX).
    A frase ficou no orgulho da memória do jovem, mas o sentido mais amplo da definição, eu só fui entender depois de formado, pela história, pois não era uma frase de engenheiros, ou só de engenheiros, mas uma construção do pensamento iluminista, desde o Renascimento, ou como diz Oswald de Andrade, “a dívida -letra de cambio – foi inventado na Babilônia” (“A Crise da Filosofia Messiânica, 1950). Vídeo J. Miguel Wisnik: http://vimeo.com/54139929#
    Para discutir a geração de “68”, embora ainda não tenha visto nenhum comentário sobre o texto, creio também ser importante trazer a luz o ensaio de Bento Prato Junior, A EDUCAÇÃO DEPOIS DE 1968, OU CEM ANOS DE ILUSÃO – CADERNOS DE DEBATE 8, Editora Brasileirense (1980) , na qual ele faz a crítica na esquerda cartesiana (e medíocre) tupiniquim e procura situar a importância de setores ligado a igreja na luta contra a ditadura, como Dom Paulo Evaristo Arns. Ele volta na verdade em “maio” de 1868, com Renan, “Questões Contemporâneas”, e Nietzsche, “Schopenhauer Educador” (1871), e a crítica de Nietzsche as instituições escolares do século XIX na Alemanha.
    Ano passado, numa palestra na FEA-USP, 31-07-2012, com o engenheiro Daniel Shechtman, Nobel de Química de 2011, “Conferência: Desafios da Educação no século XXI”, que tem como projeto, diz ele,
    Daniel Shechtman: “Comecei um projeto em Haifa [Israel] para ensinar ciência a crianças com idade entre cinco e seis anos. Treinaremos professores para ensinar pensamento lógico e racional, métodos de quantificação, transformações da matéria e leis de Newton na prática. Os pais de cada criança também estarão participando do processo, recebendo dicas para abordar esses temas com seus filhos.”
    Perguntei-lhe:
    O pensador francês, Edgar Morin, diz, “a escola não produz apenas conhecimento e elucidação, mas produz também ignorância e cegueira” (Sete Saberes para Educação do Futuro, 2000). A Alemanha, terra de grandes figuras conhecidas mundialmente, como Kant, Goethe, Beethoven, Einstein, Wagner,…., no final do século XIX, era um país que praticamente não tinha mais analfabetos, e na década de 1920 era o país que mais lia livro no mundo, no entanto, produziu o nazismo e o holocausto, ou seja, o homem não é só ciência, mas principalmente cultura. O que você teria a dizer sobre o assunto?
    Ele, evidentemente, não gostou nada da pergunta, e claro, a maioria ficou constrangido com a pergunta, e sua resposta caminhou para a questão política dos estados totalitários, Hitler na Alemanha, Stalin na URSS e não debateu propriamente as questões entre ciência e humanidades, natureza e cultura.
    No livro “Admirável Mundo Novo” (1932), o escrito Aldous Huxley narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente, na qual uma das situações sugerida por ele, ensinar sexo para as crianças, o engenheiro Judeu deseja ensinar ciência par as crianças. A vida imita a arte.
    Criei uma proposta tão radical quanto à de Daniel Shechtman, mas em outra direção: ensinar antropologia para “os animais que logo somos”.
    Bento Prado Junior lembra-nos,
    “Antonio Candido resume o estrito caroço dessa plataforma político-pedagógica em três parágrafos cuja luminosidade exige uma citação integral”:
    “A partir do século 18 as ideologias do progresso forjaram a imagem de um homem perfectível ao infinito graças à faculdade redentora do saber. Era como se a mancha do pecado original pudesse ser lavada e o paraíso, em vez de ter existido no passado, passasse a ser uma certeza glorioso do futuro. O século 19 se embalou na ilusão de que quando a instrução fosse geral acabariam os “males da sociedade”, – como se ela pudesse substituir as reformas essenciais na estrutura econômica e social que, estas sim, são requisito para se tentar a melhoria da sociedade, e, portanto dos homens.
    Essa visão liberal (que se comunicou ao socialismo e ao anarquismo) permeava toda a educação e informava a idéia da escola. Há meio século, nós ainda decorávamos no curso primário um poema de Valentim Magalhães, onde um velho criminoso empedernido, olhando pelas grades de sua prisão, vê saírem as crianças alegres de uma escola em frente e murmura: ‘Eu nunca soube ler’. Chama-se ‘Os dois edifícios’ e exprimia de maneira exemplar a utopia educacional que vai da Revolução Francesa até a Primeira Guerra, e mesmo um pouco mais tarde.
    No Brasil, a idéia dominante dos liberais, entre as duas guerras, era que a instrução universal e obrigatória ampliaria ao máximo o corpo de votantes e que, uma vez instituído o voto secreto, ele estaria livre das manipulações oligárquicas e poderia, instruído e independente, levar o país a grandes destinos. Esta teoria generosa e ingênua pressupunha uma população homogênea redimida por aquelas panacéias (Professor, Escola e Associações Docentes, publicado em Almanaque, Cadernos de Literatura e Ensaio, n:11, Ed. Brasiliense).”
    Celso Furtado, “A responsabilidade dos cientistas” (Essencial Celso Furtado, p:489 – Discurso de Posse na ABL, 04 de julho de 2003), olhando no horizonte de duas a três décadas, já vislumbrava e alertava-nos. sobre o futuro, entre Ocidente e o Oriente:
    “O interesse crescente pelos trabalhos científicos e suas aplicações tecnológicas é traço marcante da civilização ocidental. As grandes civilizações orientais haviam amealhado uma massa enorme de conhecimentos, mas não chegaram a captar as complexas relações entre conhecimento ordenado (ciência), a riqueza ordenada (bens e serviços), e a faculdade normativa de exercer o poder. Hoje, esse quadro já não é mais o mesmo: as posições de vanguarda do Ocidente na ciência e em suas aplicações, que o singularizaram até o fins do século XIX, esvaneceram-se nos últimos decênios do século XX. Com efeito, as projeções mais recentes a respeito da distribuição espacial dos frutos do desenvolvimento, tanto econômico como científico, indicam que nos próximos dois a três decênios o mundo Oriental terá alcançado, ou mesmo superado, o Ocidente.”

    Caro Fernando, quando você diz,
    (…) “Se falamos tanto em autonomia e em criatividade, devemos demonstrar em nossas estratégias, de uma maneira exemplar, nossa capacidade, no movimento social, de criar indivíduos autônomos.”
    Eu, sinceramente, gostaria de acreditar nesse “criar indivíduos autônomos”, mas o iluminismo prometeu o mundo e o fundo e não entregou quase nada.
    Minha experiência nos últimos anos, levou-me por outros caminhos, e a crítica é dura, a universidade brasileira é uma ilha da fantasia, com algumas ilhas de excelência – falo das instituições e não de pessoas – por um lado não tem quase nada sobre a realidade do povo brasileiro, e por outro, a relação entre tese e patente no Brasil é 20 vezes menor que a relação entre tese e patente na Coreia do Sul, nem vamos citar países ocidentais, Japão e China. Paulo Francis tinha percepção da realidade, “a universidade no Brasil, pensa mal”:
    O ‘Brasil Nação’ hoje é a Alemanha de Friedrich List em 1841 (04-04-2013)
    E la nave va.
    Sds,
    http://www.advivo.com.br/blog/oswaldo-conti-bosso/a-geracao-de-68-desde-1868

  2. Prezado professor,

    seu blog é como um oásis em meio ao deserto midiático… obrigada por se dispor a dividir com gente como eu tudo o que você posta neste blog cidadão!!!

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