Debate Acadêmico sobre a Crise de 2008

Avaliação CAPES de Cursos de Economia

Vanessa Jurgenfeld (Valor-Eu&Fim-de-Semana, 06/09/13) comenta que ficou famoso o questionamento da rainha Elizabeth II, que, em visita à London School of Economics, em novembro de 2008, perguntou aos economistas “por que ninguém havia notado que a crise estava a ponto de se manifestar”. Oito meses depois, em carta-resposta à rainha, os professores Tim Besley (London School of Economics) e Peter Hennessy (University of London) alegaram que não foi possível identificar que riscos individuais, embora corretamente entendidos como pequenos, estavam criando na verdade um risco enorme para o sistema. “Isso, combinado com a psicologia da negação e o mantra dos gurus de política econômica, levou a uma receita perigosa.”

Passados cinco anos, alguns mea-culpa explicitados e vencidos os momentos mais críticos do tsunami financeiro, a academia brasileira ainda tenta entender a crise e seus reflexos no país. A produção de pesquisadores de pós-graduação em economia de algumas das principais faculdades mostra que a crise foi um tema recorrente. As 30 pesquisas compiladas pelo Valor, desenvolvidas em dez cursos de economia de São Paulo e do Rio, entre 2008 e junho de 2013, tiveram como áreas a regulação do sistema financeiro e inovações financeiras, mercado imobiliário americano e estudos dedicados a compreender o comportamento dos investidores de bolsa de valores na crise. Mas houve, sobretudo, uma espécie de retorno à macroeconomia, com trabalhos debatendo teoria econômica e outros focados em esclarecer empiricamente as diferenças entre políticas monetárias e fiscais de países.

Ainda que haja certo consenso sobre as causas da crise – a contração de crédito por causa do estouro da bolha imobiliária americana -, os trabalhos revelam a queda de braço existente no entendimento da economia. Na visão dos economistas mais heterodoxos, o episódio de setembro de 2008 teria colocado na berlinda algumas teorias defendidas pela ortodoxia. Não só criticam o engessamento dos regimes de metas de inflação como corolário da política macroeconômica de um país, e defendem um papel mais ativo para a política fiscal, como ressaltam o fato de que a crise teria mostrado que mercados sem regulação nem sempre são eficientes ou conseguem regular-se por conta própria.

Apesar das críticas, vários ortodoxos, porém, continuam a defender políticas macroeconômicas voltadas primordialmente para a estabilidade de preços a partir da administração da taxa de juros, mesmo após 2008. Nem todos concordam com falhas ou frustrações daquilo que era aplicado como política macroeconômica pré-crise. E chegam a afirmar que a crise teria colocado “menos ideias em xeque do que alguns gostariam de acreditar”, como faz João Moreira Salles. Ele defendeu a tese de doutorado “Essays in Development Macroeconomics”, na Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA-USP), com orientação de Carlos Eduardo Soares Gonçalves, em 2011.

“Parece-me um erro dizer que a teoria é falha só porque foi mal aplicada por reguladores e legisladores em certos países”, afirma Moreira Salles, filho de Pedro Moreira Salles, acionista do Itaú Unibanco. Em sua opinião, a crise seria um momento de exceção, que justificaria o uso de políticas excepcionais. No entanto, para um país como o Brasil, “as lições permaneceriam as mesmas”, como abertura comercial, controle inflacionário, um Estado eficiente, que tributa menos e gasta melhor em projetos de infraestrutura e serviços fundamentais, como educação, saúde e segurança. “Nada disso mudou com a crise, apesar de alguns economistas mais oportunistas terem usado esse pano de fundo para justificar medidas alternativas que em nada contribuem para o desenvolvimento de longo prazo do país.”

Utilizando-se de um referencial teórico marxista, a análise de Alex Wilhans Palludeto é oposta à visão de Moreira Salles. Com orientação de Nelson Prado, ele comparou a crise de 2008 a duas outras: a de 1873 e a Grande Depressão dos anos 1930. Em crítica aos ortodoxos, exemplificou em sua dissertação de mestrado (“Crise e Capitalismo Contemporâneo: Uma Revisão das Interpretações Marxistas da Grande Recessão -2007/2009”), defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), justamente a perplexidade dos economistas ortodoxos diante da crise. Relembrou, por exemplo, Robert Solow, conhecido pelo modelo de crescimento econômico com seu nome, que chegou a dizer: “Aqui estamos, ainda próximos do vale de uma profunda e prolongada recessão, com o futuro imediato incerto, desesperadamente com falta de empregos, e a abordagem macroeconômica que domina o pensamento sério, certamente em nossas universidades de elite e em muitos bancos centrais e outros círculos políticos influentes, parece não ter absolutamente nada a dizer sobre o problema.”

A declaração de Solow foi emblemática, por se tratar de uma das figuras mais influentes do “mainstream” no pós-guerra, acredita Palludeto. Mas Solow não foi o único a perceber certa inadequação das teorias econômicas dominantes para a compreensão da crise. A própria forma com que a rainha expôs sua estranheza em face da incapacidade preditiva dos economistas reflete a limitação em que o problema é posto, afirma Palludeto. Para ele, a previsão é uma competência que estaria além das faculdades dos economistas, e qualquer economista que conheça minimamente a história do sistema capitalista deveria admitir isso. “Se a previsão em si já é um propósito descabido, ainda pior será se a teoria econômica concebe um mundo no qual a crise não tem espaço”, afirma, em crítica aos ortodoxos.

O professor Pedro Valls, da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo (FGV-SP), tem outro ponto de vista. Entende que os ortodoxos consideram, sim, as crises. “Sou econometrista, um empírico, que tem preocupação de entender o que aconteceu. A evidência serve para mostrar que em certos momentos existem quebras estruturais que talvez não possam ser explicadas nem com uma teoria nem com outra, mas existe a quebra e a gente vai tentar explicá-la com uma nova teoria, quem sabe aliando elementos de uma com outra, e verificando se essa combinação traz algum ganho no entendimento.”

É possível observar o dissenso sobre a interpretação da crise a partir das escolas de origem dos pesquisadores. Naquelas de linha heterodoxa, como Unicamp e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os pesquisadores tomaram como base uma perspectiva histórica e crítica aos métodos usados hoje para política econômica. Em escolas mais vinculadas a interpretações ortodoxas, foi maior o número de análises ancoradas na aplicação de modelos matemáticos para constatar evidências e reflexos da crise em algumas variáveis, o que ocorreu entre estudantes do Insper, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), FGV-Rio e São Paulo e em parte das análises dos estudantes da FEA-USP.

As discussões sobre macroeconomia inevitavelmente aproximaram parte dos pesquisadores de autores clássicos, como John Maynard Keynes (1883-1946), Karl Marx (1818-1883), Michael Kalecki (1899-1970) e Hyman Minsky (1919-1996). “Os economistas do ‘mainstream’, à exceção de uns poucos velhos keynesianos, dificilmente leem Keynes, ao mesmo tempo que ignoram a existência de Kalecki e Minsky. Alguns, porém, é verdade, vieram a ‘descobrir’ – e não ‘revisitar’ – Minsky no bojo dessa crise. E, até surpreendentemente, não só o descobriram como o citaram”, destacou Antonio Carlos Macedo, professor do Instituto de Economica da Unicamp.

Em “A Nova Síntese Neoclássica Frente à Crise Econômica Mundial: A Volta da Política Fiscal?”, dissertação de mestrado orientada por Macedo, apresentada em 2011, Flavio Arantes dos Santos analisa justamente como a crise teria representado uma mudança no pensamento do chamado novo consenso macroeconômico, uma corrente da ortodoxia. A crise teria mostrado os problemas dessa teoria, que desconsidera a importância da política fiscal. Para Santos, esta não só teria voltado a ter um papel relevante no “ajuste macroeconômico”, como também se fez influente no debate.

A abordagem de Santos é distinta da feita por João Ricardo Costa Filho, que também se interessou por revisitar a macroeconomia. Defendida em 2011 na FGV-SP, sob o título “A Crise Financeira e a Política Econômica: Poderia Ter Sido Diferente?”, sua dissertação “é quase um keynesianismo ortodoxo”, como ele a define: considera a política monetária como “o principal instrumento de gestão de ciclos econômicos de curto prazo”, mas também “olha as possibilidades de estímulos keynesianos”.

Orientada por Márcio Holland, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, a pesquisa de Costa Filho concluiu que países que tinham maiores taxas de juros antes da crise (com espaço para reduzi-las e estimular a economia) e melhores resultados do governo central registraram uma crise menos severa. Esses países tiveram mais espaço para “estímulos keynesianos” e para que fizessem política monetária expansionista. No entanto, a pesquisa alerta para o fato de que há limitações a esses estímulos, por causa do nível de endividamento dos países.

As pesquisas também buscaram explicações em autores contemporâneos. Foi comum a referência a textos, por exemplo, de Ben Bernanke, presidente do banco central americano, a seu antecessor, Alan Greenspan, e a Alan Blinder, vice-chairman do Fed. Mas as apropriações feitas pelos pesquisadores foram distintas. Santos, da Unicamp, quis mostrar que houve mudanças de ideias na ortodoxia. Greenspan, por exemplo, chegou a reconhecer erros na política econômica americana. Moreira Salles, que se refere a Bernanke, não o fez para criticar. Pelo contrário: “O Bernanke acadêmico, chefe do departamento de economia de Princeton, foi um pesquisador prolífico, que se tornou uma referência incontornável para qualquer pessoa que queira estudar os aspectos financeiros de crises, tanto no período da Grande Depressão como hoje”.

Bruno Arruda, que defendeu seu mestrado pela FGV-SP no ano passado (“Análise da Estrutura de Dependência da Volatilidade Durante a Crise do Subprime”, dissertação orientada por Valls), diz que, “para você criticar, tem que ter algo melhor para oferecer. E eles [os heterodoxos] não têm. Pode ver o que está acontecendo com medidas heterodoxas que estão sendo aplicadas no Brasil; não estão gerando os resultados que deveriam gerar. O problema não foram os ortodoxos, mas o que foi usado na hora errada e de maneira errada: sem regulação, no extremo da ganância do mercado financeiro.”

O professor Carlos Viana de Carvalho, da PUC-Rio, parte de interpretação similar. Afirma que tem muito “papo de botequim” de que após a crise tudo tem que ser repensado e que “o que sabíamos não serviu pra nada”. Embora entenda que as políticas fiscais tenham sido essenciais para o mundo evitar o pior, “alguns países podem ter ficado viciados em política fiscal contracíclica”.

Os estudos sobre a crise reconhecidamente trouxeram a macroeconomia a um novo estágio de discussão. Antes da crise, esse tipo de estudo tinha se tornado muito rotineiro. Carvalho afirma que a macroeconomia era vista por muitas pessoas como uma área “morta”, pouco importante e desinteressante, e como algo já resolvido. O professor Antonio Licha, do Instituto de Economia da UFRJ, destaca que “a macroeconomia tinha se tornado o que Thomas Kuhn chamava de ciência normal”.

Apesar das discordâncias, o meio acadêmico em geral acredita que a crise de 2008 deve permanecer em voga nas pesquisas, no longo prazo, porque não é vista como um problema passageiro/conjuntural, tanto por representantes da ortodoxia quanto da heterodoxia. “O tema da crise é secular no capitalismo. Se você fizer uma revisão de teoria da crise, vai ter que ir ao século XIX. Desde que o capitalismo existe e enquanto existir vai ser preciso investigar, principalmente, como o sistema enfrenta a crise”, destaca Reinaldo Gonçalves, professor da UFRJ.

No entanto, em sua avaliação, as pesquisas no Brasil ainda não deram contribuições relevantes. “O valor agregado é zero. Diga-me um autor brasileiro que tenha dado uma contribuição original sobre a crise, aquele que o mundo lê e usa como referência.”

 

 

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