Ideia de Ordem Espontânea

Fable of the Bees

A ideia de “ordem espontânea” foi proposta em 1714 pelo escritor holandês Bernard de Mandeville em seu poema A Fábula das Abelhas – Vícios Privados e Benefícios Públicos. Contava a história de uma colmeia que prosperava mesmo com os “vícios” ou comportamentos egoístas das abelhas. Quando estas ser tornaram virtuosas, não agindo mais em interesse próprio, mas pelo bem comum a todas, a colmeia desandou!

Adam Smith (1723-1790) inspirou-se para imaginar como as ações de indivíduos livres resultavam em um mercado ordenado e estável, em que se pudesse produzir, comprar e vender o que se quisesse, sem maiores desperdícios e carências. No ano da Declaração da Independência dos Estados Unidos (1776), ele publicou A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas.

Era contexto ideal para apresentar a ideia-chave do individualismo libertário: o homem com sua liberdade, rivalidade e desejo de maximizar seus ganhos seria “guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção”. O homem libertado da servidão agiria, mesmo que fosse de modo involuntário, em nome do interesse maior da sociedade. A ideia de condução divina dos homens se mantém, embora O Mercado como Deus tenha tomado o posto de autorregulação

O povo poderia usufruir da nova liberdade de escolha entre vender sua força de trabalho – ou morrer de fome… Era escolha melhor trocar para si do que apenas para o outro: o senhor de seu feudo. Face a essa alternativa, acabaria trocando a Feira de Aldeia Medieval por O Senhor Mercado!

Smith achava os mercados cruciais para uma sociedade justa. Com a liberdade de compra e venda, usufruía-se de liberdade natural. Seus conceitos de barganha e interesse próprio levavam à dedução de diferentes tipos de acordos para o interesse comum.

Ele admitia que os motivos dos seres humanos eram em parte benevolentes ou altruístas, mas a parte movida por interesse próprio seria predominante. A abordagem social é empírica ou sensorial: em geral, cada indivíduo se considera melhor do que os outros; portanto, cada qual se imagina dotado apenas de virtudes e tende a transferir todos os vícios, entre os quais o egoísmo, aos demais.

Na psicologia da barganha, um lado instiga o outro com argumento que atinge o amor-próprio: “a melhor maneira de conseguir o que você quer é me dar o que eu quero”.  Além do sistema emocional automático, afeta também o sistema reflexivo racional do outro: todos se beneficiam dos atos voluntários de intercâmbio econômico, caso contrário, não os executariam.

A troca de coisas úteis é uma característica da raça humana, pois os animais supostamente irracionais não a executam. Se o irracional deseja algo, ele parte para a conquista com base na força ou na sedução, solicitando os préstimos com base em adulação.

Avançando a civilidade na vida social, impõe-se a cooperação e a assistência entre um grande número de pessoas, cuja produção de bens e/ou prestação de serviços não podem depender apenas da boa vontade alheia tal como Blanche du Bois, personagem de Tennesse Willians, na peça de sua autoria, “Um bonde chamado desejo”. Na cena final, ela diz: “Eu sempre dependi da bondade alheia!” Somente os incapazes de trabalhar tem de depender da caridade.

Smith diria: “o Homem é um animal que realiza barganhas”. A barganha é realizada ao se propor um trato que atenda ao interesse próprio de ambas as partes. Essa capacidade de fazer barganhas colocou fim à exigência de autossuficiência, tornando possível a especialização individual em determinada produção de bens ou serviços.

A divisão de trabalho entre os especialistas permite o compartilhamento da linha de produção e o aumento da produtividade. Os trabalhadores não especializados não conseguem sobreviver em tal sistema. Essa divisão de trabalho leva à necessidade de escolha mercantil e institucional de o que é o dinheiro, para cumprir todas as funções monetárias de meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor, abolindo a necessidade de permuta direta ou escambo entre produtos.

A sequência lógica do argumento liberal seria: divisão de trabalho – aumento da produtividade – elevação da riqueza universal – sociedade bem ordenada. Esta seria uma sociedade não dividida pela competição, mas unida pela barganha baseada no mútuo interesse próprio. Em condições de perfeita liberdade, O Mercado pode levar ao estado de perfeita igualdade, em que todo o mundo é livre para buscar seus próprios interesses, desde que estejam de acordo com as leis da justiça: eis o credo liberal!

A “mão invisível” de O Mercado, submetido às leis de oferta e demanda, regularia a quantidade de bens e serviços disponíveis e os avaliaria de maneira muito mais eficiente do que qualquer “mão visível” de O Estado. Cabe, então, a este governo limitar-se a desempenhar apenas as funções essenciais de garantir a defesa e a segurança pública. Educação e saúde seriam bens públicos ou poderiam ser privatizadas?

Laissez faire, laissez aller, laissez passer”, que significa literalmente “deixai fazer, deixai ir, deixai passar”, é expressão usada em Economia em defesa do Estado mínimo. A visão de Smith era essencialmente otimista, considerando a Economia de Mercado Livre adequada para uma sociedade perfeitamente funcional.

No final do Século XVIII, em plena era das revoluções burguesas, era então revolucionário esse ideário que advogava a doutrina do comércio livre e desregulamentado. Atacava os exclusivismos e monopólios existentes, ao mesmo tempo que destacava a riqueza com fonte em trabalho e não em pilhagem e conquistas de terras e ouro.

A alegação mais visionária de Adam Smith é a de que O Mercado é mais do que um lugar. Dentro de uma reflexão caracteristicamente teológica e filosófica, O Mercado é um conceito abstrato e, como tal, pode ser aplicado em qualquer lugar, não apenas físico, mas também metafísico, transcendendo a natureza física das coisas. Mas é onisciente? E onipotente?!

Fonte de consulta: O Livro da Filosofia e O Livro da Economia. SP; Globo, 2013.

1 thought on “Ideia de Ordem Espontânea

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s