Mr. Bond: PIMCO X FED

Bill-Gross-Pimco

O dirigente da Pimco, Bill Gross, conhecido como Mr. Bond — sim, trocadilho em inglês com referência ao James Bond contra Goldfinger —, é talvez o maior especulador mundial no mercado de títulos de dívida pública. Originariamente, ele era um jogador (vencedor) de apostas especulativas nas mesas de jogo de Las Vegas. Foi um passo só trocar de cassinos…

Carrick Mollenkamp e Cezary Podkul (Reuters apud Valor, 30/09/13) noticiam que, ao longo do segundo semestre de 2011, os mercados financeiros discutiam se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) embarcaria em uma terceira rodada de compras maciças de bônus, medida que ficou conhecida como “afrouxamento quantitativo” (QE, na sigla em inglês), para amparar uma economia anêmica. A Pacific Investment Management Co. (a Pimco) preferiu não esperar.

A gigantesca administradora de fundos, liderada pelo cofundador Bill Gross, começou a comprar dezenas de bilhões de dólares em títulos lastreados em hipotecas (MBS) garantidos pelas agências Fannie Mae e Freddie Mac, apoiadas pelo governo federal americano. Somente no terceiro trimestre de 2011, o principal fundo da Pimco, o Total Return Fund, o maior fundo mútuo do mundo, dobrou suas posições nesses títulos para US$ 80 bilhões, segundo levantamento da Reuters.

Enquanto a Pimco acumulava posições, o Fed, em uma iniciativa inesperada e bem antes de qualquer decisão sobre o afrouxamento quantitativo, disse que iria começar a comprar mais do mesmo tipo de dívida. O banco central americano iria comprar até US$ 30 bilhões de títulos MBS por mês, reinvestindo rendimentos obtidos com aquisições anteriores. Os preços subiram.

Finalmente, em setembro de 2012, o Fed anunciou uma terceira rodada de estímulo monetário, apelidada de “QE3“. Para continuar dando suporte ao mercado imobiliário residencial americano, ele iria comprar ainda mais títulos MBS. O Total Return Fund da Pimco obteve bilhões de dólares em ganhos a mais.

A aposta vencedora da Pimco transcorreu da seguinte maneira:

1) Em dezembro de 2008, o Fed contratou a Pimco, juntamente com três outras grandes instituições de Wall Street, para implementar compras enormes de MBS para manter baixas as taxas de juros e estimular a economia dos EUA;

2) Nos anos seguintes, a Pimco investiu pesada e repetidamente nesses mesmos títulos – bem mais que outros grandes investidores, mesmo considerando seu tamanho;

3) As apostas feitas pela Pimco em títulos hipotecários em 2009 e 2012 – quando o Fed estava comprando pesadamente – proporcionaram à firma e aos investidores do Total Return Fund um ganho de US$ 10 bilhões, excluindo-se os fluxos totais de aplicações líquidas, segundo estimativas da Reuters.

Não há evidências de ilegalidade ou impropriedade nas decisões da Pimco. Esta, por sua vez, diz que manteve seus funcionários que estavam ajudando o Fed a uma certa distância daqueles que estavam investindo para seus fundos, e que sua aposta na compra de bônus foi concebida antes do início do programa do Fed. O BC diz que implementou e impôs controles rígidos sobre os negócios feitos pelas firmas. Mas a capacidade da Pimco de melhorar seus retornos seguindo o Fed ilustra como a política de dinheiro fácil do banco central americano produziu vencedores descomunais. Sendo um deles, a Pimco se beneficiou demais das mesmas políticas do Fed que ela ajudou a implementar.

Gross e outros executivos da Pimco creditam seu sucesso à transparência do Fed ao anunciar suas intenções e à sua própria experiência de comprar ativos quando eles estão baratos e em analisar a economia em seu conjunto. “Antecipe e então compre o que eles compram, só que antes“, disse Gross, em janeiro de 2009, em sua prestação de contas mensal a clientes.

As análises feitas pela Reuters das posições trimestrais do Pimco Total Return Fund e das ações do Fed sugerem que a experiência da Pimco foi turbinada por outros fatores:

  1. seu tamanho,
  2. a escolha pelo Fed de um programa de intervenção feito sob medida para ser explorado pela Pimco, e
  3. uma relação próxima com o Fed.

A Pimco contratou o ex-presidente do Fed Alan Greenspan como consultor em 2007. O braço direito de Gross, Mohamed El-Erian, participa de um comitê consultivo da agência mais importante do banco central americano, o Fed de Nova York. O consultor de estratégia global da Pimco, o economista Richard Clarida, conhece o presidente do Fed, Ben Bernanke, há três décadas e, segundo consta, foi cogitado para um assento no conselho diretivo do Fed em 2011. [Conflito de interesses?! Informações privilegiadas?! O que é isso, povo incrédulo? 🙂 ]

A Pimco foi uma das quatro firmas que o banco central contratou para ajudá-lo a comprar títulos MBS em 2009, na primeira fase do afrouxamento quantitativo, chamada “QE1“. Basicamente, essas firmas colaboraram com o Fed na elaboração da cartilha do programa. O objetivo era estimular os empréstimos e os gastos, reduzindo as taxas de juros por meio de compras maciças de bônus, inundando o mercado de dinheiro.

Duas das outras três instituições que ajudaram o Fed – Goldman Sachs Group e BlackRock – também obtiveram grandes retornos sobre fundos de bônus durante o programa. No entanto, elas não apostaram em MBS com o mesmo ímpeto da Pimco.

Em postagem que fez no site da Pimco em 2009, Gross disse que o objetivo da instituição era “dar as mãos com o governo”. Em uma entrevista à Reuters em janeiro daquele ano, ele disse: “É uma boa estratégia antecipar o que o Fed vai fazer, e quando ele fizer, cooperar com ele… Portanto, é isso que estamos fazendo“.

“A Pimco conhecia a política que o Fed estava perseguindo e pode prontamente estocar esses tipos de títulos”, diz Anthony Sander, professor da finanças imobiliárias da George Mason University.

“Baseado no que nos foi mostrado, o Fed de Nova York não tem motivos para acreditar que a Pimco se comportou de maneira inadequada enquanto gestora de investimentos“, disse um porta-voz do Fed de Nova York.

Um porta-voz da Pimco disse que seu “desempenho de investimentos é resultado das análises que a firma faz de um grande volume de informações disponíveis ao público, assim como de suas avaliações de títulos. Foram estes fatores, e nenhum outro, que contribuíram para os retornos ajustados ao risco proporcionados aos clientes da firma… em relação aos títulos das agências atrelados a hipotecas [MBS]”.

De fato, entre junho de 2011 e junho de 2012, a Pimco mais uma vez exibiu uma confiança incomum em suas apostas nos títulos MBS. Entre os 20 maiores fundos ativos de bônus de médio prazo, os três que mais lucraram com suas aplicações nesse tipo de ativo durante esse período eram administrados pela Pimco, como mostra levantamento da Morningstar.

A festa continuou depois que Bernanke finalmente anunciou o “QE3” em setembro do ano passado. No fim do ano, o Total Return Fund apresentava valorização da 10,36%, superando o índice referencial do Barclays em seis pontos percentuais.

A Pimco está tendo problemas este ano porque dessa vez não conseguiu prever corretamente o comportamento do mercado de bônus, que registrou uma grande onda de vendas em maio e junho. “Venda gera mais venda, mesmo nos Treasuries”, escreveu Gross em uma de suas postagens recentes.

Em 22 de maio e novamente em 19 de junho, Bernanke sinalizou que o banco central poderia reduzir o QE3, levando a grandes oscilações nos valores dos Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA), com os investidores tentando vender antes do Fed. Os rendimentos dos Treasuries de dez anos, que atingiram 1,61% em 1º de maio, dispararam para 2,52% no fim de junho. Os investidores sacaram US$ 9,6 bilhões do Total Return Fund em junho, um recorde mensal, segundo a Morningstar. O fundo acumula perda de cerca de 2% no ano, segundo o site da Pimco.

Mesmo assim, a Pimco garantiu grande parte dos ganhos que teve com os títulos MBS, vendendo posições acumuladas para “dealers” de Wall Street, que então venderam para o Fed. “Você nunca quebra realizando lucros”, disse Gross. “Vendemos… dezenas de bilhões de hipotecas de agências para o Fed, que é basicamente o que pretendíamos fazer.”

PS: na minha modesta posição de VP de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa, quebramos todos os recordes de lucros gerados até então (2003) na Tesouraria, adotando uma estratégia similar, porém em outro lugar, tempo e escala: atuávamos no mercado secundário com o mesmo comportamento do Banco Central, no caso, do Brasil. Apostamos no novo governo trabalhista! Os investidores privados nacionais e estrangeiros acreditaram que era “o Serra ou o Caos“… Engendraram, então, uma fuga de capitais do mercado de títulos da dívida pública brasileira, que pagava a maior taxa de juros real do mundo — a nominal chegou a 26,5% aa em fevereiro e permaneceu assim em todo o primeiro semestre de 2003.

O que fazíamos? Foi o que me indagou, depois, o então Secretário do Tesouro Nacional e presidente do CA da Caixa, Joaquim Levy. Respondi-lhe: — O mesmo que o BCB! Enxugamos o excesso de liquidez de O Mercado para comprar LFTs, alugando dinheiro farto e barato em operações compromissadas com os bancos em fuga, para aumentar a escala de nossa carteira de títulos e aproveitar-nos daquela taxa de juros formidável!

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