Pensamento Platônico

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Platão (427 a.C.-347 a.C.) sugeriu que, antes de nos referirmos a qualquer conceito moral, em nosso pensamento ou raciocínio, devemos primeiro explorar o que queremos dizer com esse conceito e o que o torna precisamente o tipo coisa que é.

Como reconheceríamos a forma correta ou perfeita de qualquer coisa, isto é, uma forma que fosse verdadeira para todas as sociedades e épocas? Platão sugere que deve existir alguma espécie de forma ideal das coisas no mundo em que vivemos, sejam essas coisas conceitos morais, sejam objetos físicos, da qual estamos cientes de alguma forma.

Quando vemos objetos no mundo ao nosso redor, sabemos o que é. Em suas várias espécies, ainda que sejam ainda mais variados, compartilham certa característica, que é algo que nos permite reconhecer e que nos permite dizer que sabemos o que é. Além do fato de existir uma característica compartilhada, todos nos temos em nossas mentes uma ideia de um objeto físico ou de um conceito moral que seria o ideal, que usamos para reconhecer qualquer exemplar específico.

Platão, na área de Epistemologia, isto é, da reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo, formulou uma Teoria do Conhecimento com base na abordagem do racionalismo. Segundo  ele, “o verdadeiro conhecimento é alcançado pela razão em vez dos sentidos”.

Sabemos da veracidade de afirmações matemáticas, ainda que não exista visível em nenhum lugar no mundo natural. Apesar disso, conseguimos apreender os conceitos em nossas mentes, usando a razão.

Platão especulou, então, se tais formas perfeitas poderiam existir em algum lugar. O raciocínio levou-o a uma única conclusão: deve haver um mundo de ideias, ou formas, totalmente separado do mundo material. Lá, a ideia de formas ideais ou perfeitas existiria. Os sentidos humanos não conseguem perceber tal lugar; ele só nos é perceptível pela razão.

Platão foi mais além ao afirmar que o reino de ideias é, de fato, “a realidade”, e o mundo que nos cerda é moldado por essa outra realidade. Deu origem ao idealismo na Filosofia Ocidental. Em sua “Teoria da Caverna”, na qual somos prisioneiros, não temos noção alguma sobre os objetos reais. Depois de uma vida de confinamento, sempre nos voltaremos de novo para a única realidade que conhecemos.

Tudo que nossos sentidos apreendem no mundo material não passa de simples sombras da realidade. Essa crença platônica é base de sua Teoria das Formas: para cada coisa na terra que temos o poder de apreender com nossos sentidos há uma correspondente “forma” ou “ideia”, isto é, uma eterna e perfeita realidade daquela coisa no mundo das ideias.

Como o que apreendemos pelos sentidos é baseado em uma experiência de “sombras” imperfeitas ou incompletas da realidade, não podemos ter um conhecimento real das coisas. No máximo, podemos ter opiniões, mas conhecimento genuíno só pode vir do estudo das ideias, e isso só pode ser alcançado pela razão.

Essa separação em dois mundos distintos – um, da aparência, e o outro, realidade de fato – solucionou o problema da busca de constantes em um mundo aparentemente em transformação. O mundo material pode estar sujeito a mudança, mas o mundo das ideias é eterno e imutável.

Platão aplica sua teoria não apenas às coisas concretas, mas também a conceitos abstratos. No mundo das ideias de Platão, há uma ideia de Justiça, que é a verdadeira, enquanto todos os exemplos de Justiça do mundo material ao nosso redor são apenas variantes menores.

Persiste o problema de como podemos nos familiarizar com essas ideias, para que tenhamos a capacidade de reconhecer os exemplos imperfeitos no mundo que vivemos. Platão argumentou que nossa concepção das formas ideais deve ser inata, ainda que não estejamos conscientes disso.

Os seres humanos são divididos em duas partes: corpo e mente. Nossos corpos possuem sentidos, por meio dos quais somos capazes de apreender o mundo material, enquanto a mente possui a razão, com a qual podemos apreender o reino das ideias.

Platão concluiu que “a alma” (ou “a mente”), imortal e eterna, habitou o mundo das ideias antes de nosso nascimento e ainda se mantém naquele reino após nossa morte. Por isso, as variantes das ideias que o mundo dos sentidos apresenta nos soam como uma reminiscência. Rememorar as lembranças inatas dessas ideias exige razão, um atributo da mente.

Para Platão, a tarefa do filósofo é usar a razão para descobrir as formas ideais ou ideias. Aqueles que são fieis à vocação da Filosofia deveriam ser a classe dominante, pois somente o verdadeiro filósofo poderia entender a natureza do mundo e a verdade dos valores morais.

As ideias de Platão chegaram até o islamismo medieval e os pensadores cristãos, que combinaram suas ideias com as da Igreja Católica. Ao propor que o uso da razão, em vez da observação, é o único caminho para adquirir conhecimento, Platão lançou os alicerces para o racionalismo do século XVII. Ele fundou em Atenas uma escola conhecida como Academia.

Fonte: Livro da Filosofia. São Paulo; Globo; 2011.

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